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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


12.08.21

Sou um gajo de mau feitio, pensava eu enquanto me entretinha a olhar o espelho convexo da noite, olhava pela janela,

Em voz alta,

Ela parecia ter saído dos banhos nas Termas de S. Pedro do Sul,

Em criança,

O livro comprado no Café Tavares, em frente ao rio, lia o sorriso dos patos bravos acabado de acordar e, mal sabia o que era a paixão.

Duas coisas eu já sabia; ser filho único e com mau feitio,

A noite trazia-lhe as mentiras das montanhas adormecidas, sexo só à noite, junto aos pinheiros e, ela sempre que acordava,

Ele,

Não sabia nada à cerca do ciúme. Tinha fome. Alimentava-me de cigarros adormecidos, café envenenado por uma cidade esquecida na tempestade e, debruçava-me no parapeito da forca, estendia a cabeça, colocam-me a corda no pescoço e, voava até ao infinito.

Morreu de quê?

A saudade da mãe, os dias intermináveis junto a um rio ancorado na neblina, folheava todas as fotografias e, nada a dizer; amanhã ele estará melhor.

O avô questiona-o se já tinha terminado a tropa e, com sorrisos embrulhados em mentira

Já, avô, já estou em casa.

Não sabia o que era a geada, tinha medo da neve e, pensava que as primeiras botas calçadas pertenciam às forças especiais de qualquer ramo das forças armadas. Feridas. Dor. Das mãos regressavam as aldeias em frieiras,

Calça as luvas, Luisinho!

Podia ter nascido em Trás-os-Montes, mas não era a mesma coisa.

Olhei este vosso, meu, Rio Douro. Mais tarde mostravam-me os encantos do Tua e, nunca mais chorei por ela.

Uma cidade abandonada, musseques engasgados no capim envelhecido, ao longe, o velho Zacarias, fumava pedras da calçada,

Tão lindos os mabecos!

Numas longínquas férias da Páscoa apaixonei-me por uma trapezista de um circo sem nome, no seu enlace,

Caminhei até às proximidades do Ujo, perdi-me,

E, talvez hoje fosse Presidente do Conselho de Administração do Circo sem nome, além, as gaivotas dormem nos braços das mães que espreitam as mãos nocturnas da montanha, chovia derradeiramente e, não havia nada a fazer; pelos vidros invisíveis das janelas regressava até mim o silêncio travestido de frio, a porta de entrada sempre aberta, alguém tinha furtado a fechadura e, em dias de geada, ao descer as escadas embebidas no fino oiro geada, tombava e, rebolava até ao chafariz.

Na praça. Da praça.

Fotografaram-me junto à Gricha, sentei-me em cima do burro e, tombei.

Todas as manhãs navegava nas gavetas da paixão, escrevia palavras nas paredes do quarto, levei nos cornos da minha mãe e, pedia ajuda ao meu pai: estava salvo. Mais um livro que trazia na algibeira, quase sempre adquirido na papelaria Grifo. O hiper dos anos 40, 50…, sentado na parte mais estreita do meu corpo, sentia o baloiço dos meus ossos contra a manhã, dias seguidos enclausurado nas paredes amarelas da hepatite.

À noite, percebia que de trapezista eu nada percebia, chegar um dia a Presidente do Conselho de Administração, pior ainda.

Sou um poeta.

- Novamente atrasado, Sr. Fontinha

Sou um gajo de mau feitio, pensava eu enquanto me entretinha a olhar o espelho convexo da noite, olhava pela janela,

Em voz alta,

Ela parecia ter saído dos banhos nas Termas de S. Pedro do Sul,

Em criança,

Foi o trânsito, meu Capitão, as mulas estavam furiosas.

O avô Domingos espetava pregos nos machimbombos, nos bolsos guardava a fotografia das filhas, mulher e netos, sem que eu percebesse, que junto a eles e a elas, habitava um ascendente que tinha nascido em Lisboa e era cocheiro. O meu bisavô.

Hoje, quase todos, pó.

Eu, transeunte modificado geneticamente, espero que acordem as ruas de Carvalhais.

Fui. Disse ele.

E, nunca mis regressou à cidade da saudade.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 12/08/2021


09.03.15

Sinto as tuas lágrimas no espelho da manhã


como campânulas de luz embriagadas pelo silêncio


roubaram-me a esplanada e as cadeiras onde me sentava


e...


percebia quando passavas apressadamente


que o dia não tinha acordado


pálpebras cerradas


corredores escuros onde te escondias


quando regressava a noite


e...


percebia...


as vozes da saudade dentro de um cubo de vidro


 


os vultos nocturnos embrulhados na morte


como flores em decomposição


perdem o perfume


e a pele começa a envelhecer


transformam-se em cinza


cigarros a arder


cigarros procurando avenidas de voo


enquanto o fumo se distrai a observar o rio


transatlânticos


marinheiros de homens


engatados pelas árvores de um qualquer jardim


de uma cidade em construção...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 9 de Março de 2015


03.12.14

Inventei-te numa noite de solidão,


escrevi o teu nome fictício numa muralha de xisto


que a tempestade tombou,


havia no teu olhar socalcos cansados


e vinhedos sombreados


de... paixão...


 


Havia na tua mão


uma carta por escrever,


e lá dentro...


um beijo,


um beijo desenhado no meu sorriso


com lágrimas de sofrer,


 


Inventei-te numa noite de solidão,


abri os cortinados e olhámos as estrelas de papel crepe...


havia luar nos teus cabelos


e neblina cinzenta nas tuas pálpebras de adormecidos rochedos,


e quando me abraçaste... a cidade morreu,


como morreram todas as cidades onde habitámos,


 


hoje, somos dois esqueletos vadios...


vagueando pela embriagada poesia de um louco,


dois pássaros sem árvores para poisar...


hoje, somos dois esqueletos vadios... sem Oceano para navegar,


e esperamos,


impacientemente que acorde a madrugada.


 


(e hoje... nada me apetece escrever...)


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2014


02.08.14

Olhaste os vinhedos da saudade,


percebeste que dentro deles, eu, eu deambulava como um sorriso de vento,


chamaste aos meus olhos, olhos de desgovernar,


e às minhas pálpebras, e às minhas pálpebras apelidaste-as de cansaços do mar,


não tinha mãos para te acariciar,


não tinha braços... não tinha braços para te abraçar...


nem cores para te pintar,


olhaste os vinhedos da saudade, e percebeste que eu era um rio sem nome,


 


Uma cidade sem coração,


uma tempestade,


 


Olhaste os vinhedos da saudade,


escreveste na ardósia da tarde os versos de amar,


percebeste que dentro deles, eu, eu habitava como uma flor carnívora,


que te absorvia entre os horários nocturnos do desejo,


sem lábios para te beijar...


uma cidade sem coração,


uma tempestade,


um homem vivendo no corrimão com vontade de caminhar...


 


Uma cidade sem coração,


uma tempestade,


olhaste os vinhedos da saudade,


e percebeste que o amor são socalcos olhando um rio,


o mesmo rio sem nome,


que um dia decidiste que eu seria até morrer...


um rio encurvado entre os seios das montanhas madrugadas,


um rio..., um rio apressado no corpo de uma enxada.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 2 de Agosto de 2014


26.05.14

acordar sobre o titânio amanhecer


pegar nas tuas mãos de andorinha selvagem


agarrar o mar


se possível


esconder o mar na tua algibeira de cartão


 


sentir os teus braços no rio que corre dentro de mim


acariciar todas as rosas das tuas pálpebras de marinheiro naufragado


descansar sobre o teu peito


beijar-te


simplesmente beijar-te... gaivota adormecer.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 26 de Maio de 2014


25.05.14

Dentro de ti, as palavras que oiço,


as frases incompreendidas depois de poisarem nas tuas ténues mãos de areia,


os sítios proibidos,


a montanha escondida nas tuas pálpebras,


dentro de ti, o silêncio,


a ansiedade de partires...


o rio que desce pelo teu corpo até se entranhar nos alicerces da cidade,


a mesma cidade que te absorveu numa noite de tempestade...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 25 de Maio de 2014


24.05.14

Sentia-me aconchegado nos teus braços,


regressava a noite ao teu olhar,


e percebia que no meu corpo habitavam beijos de insónia,


lençóis de porcelana entranhavam-se nas tuas pálpebras de luar,


sentia-me envergonhado,


triste...


sentia-me aconchegado,


como se tu fosses um cobertor recheado de poesia,


 


Um livro não lido,


uma folha esquecida sob a mesa-de-cabeceira,


uma ribeira,


 


Sentia-me aconchegado nos teus braços,


adormecia,


e... e sonhava,


ouvia,


ouvia os pássaros,


escrevia,


escrevia nas tuas coxas as palavras proibidas,


as palavras... sentidas,


 


Um livro não lido,


uma folha esquecida sob a mesa-de-cabeceira,


uma ribeira,


 


O mar,


o mar quando se escondia nos teus seios de Primavera,


acordava o marinheiro sem pátria,


havia uma bandeira,


uma... uma casa que voava,


sentia-me aconchegado... nos teus braços,


os alicerces de uma cidade inventada,


em papel, uma casa do tamanho dos teus lábios...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 24 de Maio de 2014


08.05.14

não sei se vais conseguir


não sei se as minhas palavras podem ser escritas nos teus olhos


não sei se as tuas mãos são uma tela


ou um muro envergonhado...


... não sei porque queres fazer-me acreditar que há madrugadas de estanho


não sei porque há cortinados nas tuas pálpebras


negros


tão negros como a própria noite


não sei se vais conseguir...


não sei se te levantarás do imaginário sofá de trapos


tão antigo como os livros que leio


tão estranho como as palavras... as minhas palavras escritas nos teus olhos.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 8 de Maio de 2014


03.05.14



foto de: A&M ART and Photos


 


embainhas-te no meu corpo como uma bala perdida


há na tua mão a espingarda do desejo


oiço entre as sombras e os sons metálicos


pigmentos do teu olhar envidraçado na cidade do feitiço


às tuas pálpebras de pergaminho


vêm a mim as insignificantes flores da paixão


das tuas palavras


as lágrimas da solidão


sem medo


rompem a montanha das árvores de papel


há luz na cabana


e uma cama que nos espera...


 


(estarás vivo, meu poema de ninguém!)


 


há dentro de ti uma janela


um telheiro com odores de Carvalhais


um velho espigueiro aproxima-se do teu coração


e entre as frestas das ripas em madeira cansada...


os teus beijos


como nuvens de espuma


saltando


e brincando na eira


cruzo os braços


e espero o regresso do paquete teu corpo


há âncoras de sémen nas palavras da madrugada


e uma flor deita-se nos teus seios de silêncio.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 3 de Maio de 2014



14.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


A mágica sílaba louca


da ardósia tua boca


desenhando


escrevendo


construindo palavras nas pálpebras do sono,


 


A mágica sílaba louca


correndo à fonte a água pouca


saltitando


sonhando


as madrugadas de veludo em seu tão distinto trono,


 


A mágica sílaba louca


como nunca ninguém a viu nas manhãs sem touca


humedecendo


comendo


os censurados cobertores do absorto mono...


 


A mágica sílaba louca


sabendo que terminaram todas as rimas do silêncio em poupa


a cabeça dançando


e os braços... e os braços abraçando


as insígnias maleitas do desejo nono.


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 14 de Janeiro de 2014


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