Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


04.10.20

Todos os rios são azuis, depois de acordarem.

Todas as flores são de papel, depois de dormirem,

Como eu, o poeta das palavras mortas,

O poeta das equações cansadas,

Que vivem neste jardim.

Perco-me nos teus olhos,

Menina canção da alvorada,

Espelho envelhecido que se passeia pela manhã,

Com sono,

Sem sono,

Aproximadamente, durante três segundos de vida.

Esqueço-me de ti, dentro deste caderno prateado,

Das palavras as grades desta prisão,

Coração esgotado,

Nas lágrimas ensonadas do Luar.

Menina da alvorada,

Cidade perdida na tua mão,

Canção aos molhos,

Pedra lápide nome meu,

Fotografia desnecessária,

Foguete, avião…

Nas cinzas do suicídio.

O medo.

Furacão invisível do teu olhar,

Boca enorme, olhos esbugalhados pelo incenso amor…

Depois da tarde,

Neste silêncio de medo.

Vem a triste solidão,

Traz as equações do sono,

Algoritmos embrulhado em jornais,

Onde notícias más,

Abraçam conservas ruins,

Tudo pára; STOP, meu amor.

A carta vaidade das palavras,

Os fósforos invisíveis da morte,

Na palma de uma rosa,

Sem nome,

Com nome;

Isto é uma tarde de Outono.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó-04/10/2020


10.10.17

O corpo pincelado de noite,


Quando da noite regressam as barcaças do Inferno,


Não trazem destino,


Como no Inverno,


O menino…


O menino recheado de luz e incenso verbo,


Lá fora chora uma flor,


Um pequeníssimo poema morre de dor…


E o menino em febre, cansado da flor,


Deita-se sobre o orvalho imaginado pelo seu progenitor,


Prometo conquistar todos os ossos do teu corpo,


Prometo desenhar no teu corpo a sombra da revolta,


E que nunca mais volta,


Às escadas do sofrimento.


Oiço o teu lamento,


Os teus gritos contra os cortinados da Primavera…


Oiço o Outono na tua mão tão bela,


Quando a barcaça,


Em passo acelerado,


Bate contra os rochedos da desgraça…


E o menino,


Coitadinho…


No chão sentado.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 10 de Outubro de 2017


24.09.17

Os pássaros, mãe…


Poisados no teu frágil cabelo, vomitando vozes nas tuas mãos enquanto lá fora o Outono se veraneia junto aos Plátanos da saudade,


Os sons melódicos dos teus ossos quando a madrugada não acorda, por preguiça, por nada… ou por tudo,


O sono, o sono que te alimenta e te transforma em esqueleto desempregado, lutando contra a dor, e o sofrimento…


Os pássaros, mãe…


Junto ao rio esperando a tua sombra, e os teus beijos,


Os pássaros desesperados, os pássaros envenenados de químicos complexos alvorando as tuas veias… e nada nem ninguém a brincar na eira,


Os pássaros, mãe…


Descendo os socalcos, dando curvas infinitas num cadeirão estático, morto, uniformemente acelerado, o seno, o co-seno alicerçado aos teus pulsos de verniz… como as serpentes do anoitecer,


Como eu odeio os teus pássaros, mãe…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Setembro de 2017


04.11.14

Este machimbombo rabugento subindo a calçada,


cá dentro, algumas insignificantes malas sem destino,


uma guitarra,


e um chapéu de palha...


partilhamos os abraços nos cadeirões ensonados,


algures... ouvem-se os pergaminhos nomes das cidades perdidas,


faltam-me os cigarros e os livros que deixei no apeadeiro da solidão,


um lenço de papel chega-me para escrever qualquer coisa parva,


como todas as coisas parvas que faço...


evito abrir os olhos porque do outro lado da rua, uma roda dentada,


sobrevoa as árvores cansadas do Outono,


e este machimbombo que não anda...


 


E este relógio que não pára...


sufocam-me as tuas palavras de viajante que sobejaram de uma carta não lida,


nunca leio as cartas que me escrevem...


também... deixei de escrever cartas,


porque são apenas pedaços de papel,


com... com falsas sílabas,


e prometidas aventuras,


amo apaixonadamente a noite,


a noite travestida de cinzento alento...


amo as pedras acabadas de tomar banho,


quando em finais de tarde...


acorda o moliceiro... e o meu corpo se transforma em machimbombo rabugento.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 4 de Novembro de 2014


16.03.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Dizias-me que eras o vento das canções de Outono,


e eu, eu acreditei, escrevi palavras para essa canção...


desenhei beijos para os teus lábios,


dizias-me que te chamavas “menina do mar” de do mar... não eras nada,


nem onda, nem pôr-do-sol... nem jangada,


um dia fizeste-me acreditar que eras livro de poesia,


eu tentei, tentei ler, folhear... e não eras nada,


apenas uma esbranquiçada página com um palavra... “saudade”,


dizias-me que tinhas na mão a caneta das minhas palavras,


eu, eu sentia-a no meu rosto, como o vento das canções de Outono,


e eu, eu acreditei na tua pele com flores de papel,


e tudo o que me disseste... hoje, hoje escrevo-o na rocha embalsamada na montanha do “adeus”.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 16 de Março de 2014



29.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


deixarei de pertencer aos teus olhos


e vagamente... deixarei nas tuas nuvens de algodão o cigarro fantasma


deixarei de adormecer nos teus cabelos como o fazia antes das madrugadas serpenteadas


nas oito esquinas do medo


ouvirei perfeitamente as tuas mágoas...


terei o leve cuidado de acariciar os teus lábios


e


deixarei de voar nas tuas lágrimas de maré embriagada


e vagamente transformar-me-ei na cinza do teu imaginário cinzeiro


haverá uma janela engomada


com cortinados de fumo


e haverá... uma língua endiabrada pernoitando no meu angustiado peito


 


servirei de teu mordomo devidamente fardado


andarei pelos corredores da tua imaginação levitando sem tocar nos objectos de adorno


sentirás dentro de ti o meu vagabundo corpo


e nada conseguirás fazer para cessarem os teus sinceros gemidos


baterá o vento levemente nas ardósias dos tentáculos pinheiros de Carvalhais


ouviremos o sino engasgado nas sílabas das searas de milho


deitar-te-ás dentro do espigueiro...


e o teu ventre correrá em círculos na eira granítica do desassossego


amar-te-ei?


mesmo sabendo tu que sou um espantalho de aldeia


onde poisam os pássaros


e cagam os pássaros... sobre mim


 


sobre nós


deixarei os livros cansados das minhas mãos


dos meus olhos


às palavras... às palavras vou derramar-lhes o fogo do silêncio


embrulhado em pergaminhos sonos


e verei transversalmente o meu esqueleto no patamar da morte


ouvirei os teus casmurros beijos


como sentirei em mim os teus deleitados dedos


sujos


imundos...


transbordando sémen como caravelas esquecidas no Oceano dos vidros solitários...


e acabarei por pertencer aos ramos caducos do Outono


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013



10.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


senti-te despregada dos sonhos em castelos de veludo


desci as escadas da solidão à tua procura


mergulhei no incenso magusto das castanhas embebidas em pétalas de amor


dormi na rua por tua causa


subi às árvores para buscar-te as asas que te prometi


e por lá fiquei


senti


e sem ti


senti-te mais tarde dentro de mim como se sente o rio quando corre nas nossas veias de onomatopeias desgovernadas


tristes


e simples espada nas cantigas das janelas em ruelas empobrecidas


senti-te despregada dos sonhos em cubos de areia vestidos com bonecos em palha seca


sabia-te perdidamente nas cidades em volta dos relvados nocturnos dos néons castrados como abelhas fundeadas no cais das aranhas e noites em dormitórios de marés rochosas ou das malignas coberturas de zinco nas cabeças sem coloridas manhãs de Outono


amar-te-ei depois dos terramotos de cetim em cobertores de chita?


e por lá fiquei


senti


e sem ti


imaginava-te louca com brincos de centeio dos campos de Carvalhais


imaginava-te nua dentro do espigueiro junto à eira


e sentia-te entre as frestas do dia em delírios poemas como gotículas de suor que o teu corpo derramava sobre a minha sombra


e por lá fiquei


senti


e sem ti


às caravanas esplanadas do rio embrulhado em pontes de concreto armado


vagueavas-me na ponta dos dedos como objectos minúsculos do edifício da rua dos apaixonados mosquitos de arame


sentia-te fervilhar no meu sangue


sentia-te a desfrutares as palavras dos meus suspiros quando acordava o pôr-do-sol...


e um barco se sémen poisava sobre as tuas coxas envergonhadas


absorvendo o prazer da tarde como uma equação diferencial esquecida dentro do caderno quadriculado


e por lá fiquei


sem saber que tu eras como as espigas de milho


sem saber que tu sonhavas com clarabóias de insónia depois dos terramotos de cetim em cobertores de chita


amar-te-ei?


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 10 de Novembro de 2013



30.10.13



foto de: A&M ART and Photos


 


não precisaria da noite para reescrever-te e reinventar-te das neblinas marés do inferno


não precisaria de ver-te


acariciar-te


tocar-te como o faço sempre que te observo nas sombras dos cansados telhados de suor


não precisaria


mas também não fazia sentido sentir-te


sentindo-me agachado junto aos rochedos da miséria


indefinidamente



sem pontuação


nem um simples ponto final... e despedir-me


de ti


 


(sem precisar


não precisaria de despedir-me das pegadas em flor


ou


dos candeeiros verdes das janelas em plátanos solitários)


 


não precisaria de imaginar-me nas ravinas doentes das montanhas com reumatismo


obesas caminhando abraçadas aos três carris que o Inverno tece nas mãos da geada


não precisaria


e preciso


olhar-te


imaginar-te deitada no meu desajeitado colo


porque os meus joelhos parecem dobradiças enferrujadas


barcos encalhados nos finíssimos bancos de jardim


à madeira empobrecida


no caruncho bicho das palavras derretidas nos talheres do açúcar em pedra...


o mar alimenta-me a saudade


de precisar quando eu não precisaria... dos teus beijos amanhecer


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


quarta-feira, 30 de Outubro de 2013



29.10.13



foto de: A&M ART and Photos


 


movediças areias tuas manhãs cansadas em mim


orvalhos siderais colados na língua do Outono


migalhas dele nas mãos do inferno


o invisível mergulhado das travessias inconstantes das flores empastelares


pareço um viúvo de fotografia ao peito


com suspensórios de tristeza acorrentados à solidão das noites indolores


movediças areias


as tuas coxas


as tuas ideias


os teus pérfidos seios de porcelana no clandestino horário que vive nos meus pulsos de aço


procuras abraços


e eu... ofereço-te palavras sem nexo


desejos vãos


carícias por correspondência a cobrar no destinatário


pareço um viúvo embebido nos arbustos da partida


cândidos odores que provocas nas praças diurnas da cidade dos beijos


transeunte esqueleto sem vida


na minha vida


os lábios dilacerados em pedaços de papel de embrulho


movediças areias


as tuas lágrimas lunares em madrugadas de cio


e lambedoras orgias estrelares


sobre a ponte fina e escura


do cemitério da poesia


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 29 de Outubro de 2013



21.09.13



foto de: A&M ART and Photos


 


penso em ti enquanto habitas o meu esponjoso peito


com crateras de vidro


penso em ti quando se abre em mim uma qualquer janela


que o meu pobre corpo alimenta


possui


habitas em mim sonho encaracolado nos castanhos cabelos do amanhecer...


 


apaixonado cansaço do silêncio mendigo às ruas plastificadas como capas de livros envelhecidos


perdidos entre palavras e ventos agrestes


velas


e veleiros...


penso em ti... peito


mergulhado no Oceano mar em tristes marés nocturnas


 


penso em ti enquanto bebo o meu esponjoso peito onde habitas clandestinamente...


vestes-te de sofrimento e disfarças-te de fotografia


imagem pobre e apodrecida


das tempestades aos beijos em chuva de Outono


caiem as folhas dos teus lábios


e alicerçam-se no meu peito esponjoso... e lá deitas a cabeça da solidão


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 21 de Setembro de 2013


Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub