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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


31.10.23

Morres-me enquanto poisa o silêncio

Sobre a caruma do meu corpo

Também ele

Em morte insónia

Morres-me a cada minuto

A cada segundo

Milésimo… de segundo do segundo

Que me morres

Morres-me enquanto cada pigmento de cor

Cai sobre esta folha de papel

E pergunto-me o que me interessa esta a folha de papel

Com pigmentos de cor

Se tu me morres

Se tu me habitas

Também eu

Em morte silenciosa

Morres-me enquanto o Outono caminha em direcção ao Inverno

Que traz o frio

Que traz o Inferno

De que me morres

Antes de acordar o luar

Antes de adormecer a chuva

No teu olhar

De que me morres com falta de ar.


21.10.23

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São tristes,

Meu amor,

São tristes as manhãs de Outono,

São lindas,

Meu amor,

São tão lindas as manhãs de Outono,

 

Quando a montanha me acena

Quando da montanha recebo a madrugada

Na manhã que desdenha

Da manhã sem nada,

 

São tristes,

Meu amor,

São tão tristes as manhãs de Outono,

São tão lindas,

Meu amor,

São tão lindas as árvores no Outono,

 

Quando a montanha me abraça

Quando da montanha regressa o teu olhar

Na montanha que se esconde numa barcaça…

E parte para o mar,

 

São lindas, meu amor,

São lindas as manhãs de Outono,

E são tão tristes,

Meu amor,

São tão tristes são as manhãs de Outono.

 

 

21/10/2023


24.09.23

Pego no teu cabelo

Sonâmbulo acordar da manhã

Pego no teu cabelo e lanço-o ao vento

Como se fosse uma semente

Ou um pedaço do meu pensamento

 

Como se fosse um corpo que não sente

Indolor dentro deste pequeno cubo de silêncio

Pego no teu cabelo e lanço-o ao vento

Primeira lágrima da manhã

Que me mente

 

E me diz que não habita o sofrimento

Nos teus olhos de mar

Neste velho jardim com sabor a mágoa

Pego no teu cabelo

Pedaço de vinho

 

Neste cálice doirado

Pego no teu cabelo abençoado

Que voa sobre o luar

Sem perceber que na minha mão

Brinca o Outono

 

Pego no teu cabelo

Sonâmbulo acordar da manhã

Janela virada para o mar

Quando as algas são as Princesas da preia-mar

Que no teu cabelo eram crianças… crianças de brincar.

 

 

24/09/2023


22.09.23

O que posso eu oferecer-te no primeiro dia de Outono,

A não ser, um pedido,

Que te dispas, lentamente,

Devagarinho,

Que poises aqui uma pétala,

Ali, outra pétala,

Mais além…, uma outra pétala.

 

Que te dispas, como se despe o poema,

Ao cair da tarde,

Junto ao rio,

O que posso eu oferecer-te no primeiro dia de Outono,

A não ser, um pedido,

Que te dispas, suavemente,

E as restantes pétalas… lança-as ao vento,

E guarda apenas uma,

Para te recordares de mim.

 

 

22/09/2023


03.10.22

Poisam na tua voz

Os beijos das flores aprisionadas,

Sentam-se na tua voz

As tardes de mim, distantes e cansadas,

 

Deitadas

Nas andorinhas floridas.

Poisam na tua voz

As lágrimas perdidas…

 

Enquanto estas tristes palavras

Morrem junto ao mar;

Poisam na tua voz

Os barcos que não conseguem zarpar…

 

Porque se sentem sós,

Porque estão amargurados…

Poisam na tua voz

Os corpos amarrotados,

 

Invisíveis pelas manhãs de Outono.

Poisam na tua voz as pedras cinzentas

Que brincam no meu jardim,

E onde todas as noites te sentas…

 

E ficas longe de mim.

Poisam na tua voz todos os poemas em revolta,

Poisam as estrelas, poisa o luar…

E tudo aquilo que não volta.

 

 

 

Alijó, 03/10/2022

Francisco Luís Fontinha


04.10.20

Todos os rios são azuis, depois de acordarem.

Todas as flores são de papel, depois de dormirem,

Como eu, o poeta das palavras mortas,

O poeta das equações cansadas,

Que vivem neste jardim.

Perco-me nos teus olhos,

Menina canção da alvorada,

Espelho envelhecido que se passeia pela manhã,

Com sono,

Sem sono,

Aproximadamente, durante três segundos de vida.

Esqueço-me de ti, dentro deste caderno prateado,

Das palavras as grades desta prisão,

Coração esgotado,

Nas lágrimas ensonadas do Luar.

Menina da alvorada,

Cidade perdida na tua mão,

Canção aos molhos,

Pedra lápide nome meu,

Fotografia desnecessária,

Foguete, avião…

Nas cinzas do suicídio.

O medo.

Furacão invisível do teu olhar,

Boca enorme, olhos esbugalhados pelo incenso amor…

Depois da tarde,

Neste silêncio de medo.

Vem a triste solidão,

Traz as equações do sono,

Algoritmos embrulhado em jornais,

Onde notícias más,

Abraçam conservas ruins,

Tudo pára; STOP, meu amor.

A carta vaidade das palavras,

Os fósforos invisíveis da morte,

Na palma de uma rosa,

Sem nome,

Com nome;

Isto é uma tarde de Outono.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó-04/10/2020


10.10.17

O corpo pincelado de noite,


Quando da noite regressam as barcaças do Inferno,


Não trazem destino,


Como no Inverno,


O menino…


O menino recheado de luz e incenso verbo,


Lá fora chora uma flor,


Um pequeníssimo poema morre de dor…


E o menino em febre, cansado da flor,


Deita-se sobre o orvalho imaginado pelo seu progenitor,


Prometo conquistar todos os ossos do teu corpo,


Prometo desenhar no teu corpo a sombra da revolta,


E que nunca mais volta,


Às escadas do sofrimento.


Oiço o teu lamento,


Os teus gritos contra os cortinados da Primavera…


Oiço o Outono na tua mão tão bela,


Quando a barcaça,


Em passo acelerado,


Bate contra os rochedos da desgraça…


E o menino,


Coitadinho…


No chão sentado.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 10 de Outubro de 2017

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