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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


04.02.22

Dentro de ti, a silenciada espada do amanhecer, os solstícios do desejo, quando acorda o luar e, sem o perceberes, lança-te às estonteantes palavras que semeio na alvorada. Uma das portas de entrada, aquela em que é visível a madrugada, voa sobre o infinito céu um pedacinho de nada, do outro lado do quintal, nas traseiras junto ao muro, habita o poço desprovido de luz, apenas mais um buraco, como tantos outros; negro.

O poço negro acorda. Ergue-se e, depois da sua higiene diária, toma o pequeno-almoço nas sombras da tela pintada na noite anterior. Do pincelado negro, observa-se na tela um pedacinho de saudade, não muita, mas percebe-se que está lá; assim seja, como todos os poemas excluídos do grande livro, como todas as abelhas, extintas na neblina.

Dentro de ti, as paisagens imaginadas numa noite sem sono, dentro de ti, todas as alvoradas que estão para nascer, que vão nascer, como se fossem mais um filho, como se fossem mais uma desculpa para adormecer.

E, no silêncio desejo, acorda o abraço. O ingreme corpo, que te pertence, saltitando entre a pilha de livros, junto à janela, e a árvore feiticeira, aquela onde brincam, durante a noite, os teus gemidos.

Desce sobre nós o infinito e, de régua e esquadro, o homem de bata branca traça pequenos triângulos, rectângulos e círculos de luz.

Um dia, um dia percebi que tinha sobre mim um círculo com olhos verdes; porquê verdes? Porque sim, apenas.

Era um calmeirão de um círculo, trazia na algibeira uma pequena caixa de fósforos e um cinzeiro, depois, muito mais tarde, percebi que ele era eu; hoje.

Vivíamos junto ao aeroporto. Logo que abri os olhos, depois de estar em casa, habituei-me a olhar os pássaros que logo em seguida poisavam numa pista inventada pelo sono: porque choras!

Dentro de ti, as pequenas parcelas sombreadas de um velho espantalho, sentado no meio do trigo e, quando vinham os pássaros, estes mesmos homens de trapos, vacilavam; não percebiam se deveriam disparar a espingarda do sono, ou correr em direcção a eles. Quase sempre, ou sempre, desistiam de viver.

Como desistem os gemidos que habitam na árvore feiticeira.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 04/02/2022


17.01.15

Absorvo o tesão intelectual,


tenho nas palavras o orgasmo da insignificância,


os momentos perdidos nos teus braços...


não me esperes hoje, meu amor,


sinto a maré do teu sémen voando entre personagens invisíveis...


e equações matemáticas,


apaixonadas,


pois claro,


e ainda,


o prometido automóvel do sorteio da TV,


e no entanto, sofres,


com a minha ausência.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Sábado, 17 de Janeiro de 2015


01.01.15



(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


deixei de sentir a tua fotografia nos meus lábios


vi uma lágrima de vácuo galgando o teu rosto


em direcção ao mar


pertencíamos aos peixes sem asas


brincando sobre a árvore das palavras


havia uma tempestade de aço


sobre as tuas pálpebras amordaçadas


e não sabíamos que o amor era um fugitivo


um cadastrado destino


um homem suspenso na gravata dos cintilantes amanheceres


um cadastrado destino


acorrentado à tua fotografia


sem tu o saberes


perdemos os abraços


os beijos


e as caricias defeituosas da madrugada


perdemos o orgasmo literário de uma janela em Belém


sem tu o saberes


a noite construída de infinitos gemidos


e nem tempo tivemos para desamarrar o luar que nos cercava...


o fugitivo amor


um cadastrado destino


a noite construída de mimos


e armadilhas


e simples ruínas


como o vómito da cidade depois de acordar...


sem tu o saberes


o exilado casaco de couro balançando na ponte da angústia


o cheiro sulfuroso das avenidas em flor...


e da tua fotografia que vivia alicerçada aos meus lábios...


nada


desapareceu na neblina


talvez cansada


talvez... talvez


talvez ensanguentada nas mãos em ciúme.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2015



25.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


A colegial sem nome que esconde os lábios na madrugada


o livro da colegial dorme como uma criança cansada


o cansaço inventa sorrisos nas mãos do desejo


e este


às vezes como um poço sem fundo


também como a colegial


sem nome


voa sobre as praças com candeeiros de prata,


 


Os lábios foram-me oferecidos pela madrugada


e a noite constrói-se nas lágrimas da chuva


dos orgasmos fingidos


que a colegial também esconde


não na madrugada


não no corredor da morte...


mas... mas esconde-os na alma do Diabo


como pétalas de insecto mergulhadas nas manhãs de Inverno,


 


A colegial é transparente


é imóvel


saboreia-se nas candeias que o destino lhe roubou


ela desconhece que a lareira existe apenas para a aquecer


despe-se para o espelho...


a colegial sem nome diz que quando for grande quer ser uma fotografia a preto-e-branco


perplexa


descobre o veneno dos zincos telhados que acordam a criança cansada...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013


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