Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


07.02.21

As horas de dormir, pareço que finjo, quando acordo embrulhado nas palavras do adeus, uma pequeníssima gota de silêncio absorve a madrugada, agarro-me ao teu corpo suspenso no cortinado da insónia e, há sempre uma criança que brinca na enxada da tarde.

Soltam-se as amarras de todos os barcos, acordam dos oceanos todas as tormentas e, sabe-se lá, quando vem a terra a solidão de um dia sem memória. Os homens sofrem, quando do granítico silêncio, as palavras do poema, inventam-se, redopiam nas redondezas da cidade, quando um grito silencioso cai sobre todos os jardins.

A fragância das flores adormecidas, as horas de dormir, pareço um fantasma dançando sob a tenda do circo imaginário, há palhaços de calcário, meninos de farrapos, junto ao mar, em cio, o corvo, as pirâmides embebidas em shots de nada e, no final da tarde, começa a descer a noite porta adentro.

Ponho à janela na esperança de olhar o sol, quando a noite está doente, cansada de brincar, quando depois de se evaporar a tarde, o teu corpo docemente se alicerça nas minhas mãos, as horas, os silêncios depois das horas e, dizes-me que a cada fim de tarde há uma janela que se encerra.

Tenho na minha mão o teu perfume, a cânfora manhã do sítio inanimado quando sei que lá fora um pingo de inveja sobeja das multidões em fúria. Discretamente, aos poucos, desenho-te na sombra dos livros ainda não escritos, gatafunhos acomodados às tristes margens deste rio sem nome, uma cabeça transparente, imunda, no nojento corpo das cidades da mendicidade e, imagino-me à procura de uma fina folha de papel onde escrever o meu testamento.

Tenho medo que amanhã não pertenças mais à cidade.

Que amanhã sejas apenas uma estátua de areia junto ao mar, trazes contigo as fotografias, as flores dos livros perdidos e, sabe-se lá porquê, as horas de dormir, são pedacinhos de silêncio nas tuas mãos.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó/07/02/2021


14.07.17

Todas as minhas palavras são lágrimas tuas,


Nuas cancelas sobrevoando o Oceano,


Os barcos cansados e a remo…


Prisioneiros no teu cabelo ao vento,


Sofro, sofro e alimento


Estes carris do pensamento,


Todas as minhas palavras são lágrimas tuas,


Duas pontes absorvendo o rio da dor,


Uma pequena flor,


Um grande amor…


 


Nas janelas doiradas do sofrimento.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 14 de Julho de 2017


12.04.16

Deixei de contemplar o teu perfume.


Ausento-me desta cidade de espingardas envenenadas


Que assombram o meu sorriso,


Procuro-te, procuro-te na ânsia de encontrar a tua sombra


Nos buracos da noite, procuro-te sem saber se existes nesta cidade de espingardas envenenadas, mesmo assim, eu não me canso de te procurar,


Desenho-te. Escrevo-te sabendo que não consegues ler as minhas palavras.


Amanhã acordarei na preguiça do amanhecer, novamente te vou procurar, aqui, ali, em qualquer lugar…


Não sei, não sei se existes,


Não sei se és real como as árvores no final do dia, encolhem os braços e dormem, dormem acreditando, também elas, que existes algures nesta cidade,


Mas não acredito na tua presença,


Imagino-te sentada num qualquer jardim esperando por mim, imagino-te sentada junto ao rio esperando por mim, mas enquanto vou ao rio e ao jardim, nada, nada da tua presença,


Desisto?


Desisto.


Sigo viagem, vou à procura do meu caderno preto, vou à procura da areia finíssima do Mussulo onde brincava com os outros meninos, também eles, esquecidos, sucata, velharias à porta de uma taberna,


Estou só, estou só enquanto escrevo, não sei se existes…, mas…, mas não quero a tua presença enquanto escrevo,


Lamento-me,


Lamento-me dos confins da lixeira dos sonhos, invento amores de papel com lábios de algodão, sinto-o, sinto-o


Sinto-o na minha mão como um fidalgo desempregado, triste e vaiado numa noite junto ao mar, amanhã, talvez,


Talvez existas nos meus aposentos de criança, amanhã, talvez existas nas pedras circulares dos Oceanos abandonados,


Desisto?


Desisto.


Esqueço-me de ti,


Recordo a liberdade de viver sobre este cansaço de aço,


Recordo a ardósia onde escrevia poemas só para ti, mas tu, tu não existes,


Pareces a morte,


O silêncio disfarçado de morte,


E depois


E depois deixei de contemplar o teu perfume.


 


 


Francisco Luís Fontinha


terça-feira, 12 de Abril de 2016


22.06.15

A paixão do homem


No homem camuflado,


Salto os muros da infância,


Perco-me nas arcadas dos alicerces cinzentos,


Sei que hoje o meu destino,


É saltar,


Voar sobre os fios de seda dos teus lábios,


Tenho beijos na palma da mão,


Sou um clandestino silêncio à procura do amanhecer,


Palpita no meu peito


O cansaço dos sonhos adormecidos num qualquer Oceano,


Aqui,


Não sou ninguém,


Pareço as ruínas de um edifício de ossos,


O pó poisa nos meus ombros em cartolina solitária,


Como um lápis de carvão,


Deitado na eira…


Os dedos enterrados no chocolate teu corpo,


Os comboios imaginários entranhados nas tuas coxas de marfim,


A paixão do homem…


No homem…


O camuflado cinzeiro das noites sem dormir,


No homem,


O homem,


Sempre na esperança de partir…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 22 de Junho de 2015


26.12.14

Adoro esta vida de marinheiro,


sem porto para aportar...


nem coração para ancorar,


adoro esta noite,


apenas esta,


porque a solidão se entranha em mim como um vicio...


ou uma jangada de saudade,


adoro esta vida de marinheiro,


sem pouso,


sem... sem Oceanos para sonhar,


sem as amarras das palavras,


sem as ruas da cidade,


adoro esta vida de marinheiro,


sem glória,


sem vaidade para oferecer,


adoro


esta


vida


… de marinheiro...


com medo de sofrer,


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2014


25.12.14

Havia um emaranhado de fios eléctricos dentro da sala de jantar, todos eles eram providos de rosto, voz... e esqueleto, sentia a cada desperdício de cerveja o regresso do Oceano meu coração, ouvíamos alguns sons melódicos que o Rui tinha adquirido em cinco suaves prestações, e a Madalena saciava-se com um livro de poemas,


Amo-te sem saber porquê...


Os poemas dançavam no ventre de Madalena, sentia cada palavra como se de um desejo se tratasse, ou de um orgasmo em despedida,


Amanhã vou caminhar depois do jantar, olhar as estrelas amantes da trigonometria, desenhar círculos de papel nas clarabóias da inocência..., e olhar-te, e olhar-te como se existisses, como se fosses um texto de ficção dentro da fogueira,


A lareira sonolenta abraçava-se aos teus seios,


Amo-te sem saber porquê...


E eu sabia que nos teus seios apenas habitavam as minhas mãos de porcelana,


A morte em pequenos assobios,


As horas em agonia num relógio de parede,


E eu sabia que nos teus seios...


Texto de ficção?


Em quadriculas, os números agoniados e agachados junto ao capim do quintal, nunca tinha olhado o Sol depois das cinco da tarde,


E eu sabia que nos teus seios...


Texto de ficção?


E mesmo assim, deitado debaixo das mangueiras... imaginava petroleiros a entrarem dentro de mim,


tive medo, senti o primeiro beijo, a primeira carícia, o primeiro e derradeiro contacto, os lábios deixaram-se apelidar de Amor,


Amas-me?


O amor, os poemas dançavam no ventre de Madalena, sentia cada palavra como se de um desejo se tratasse, um orgasmo em despedida, os gemidos dos poemas inseminados nas páginas abandonadas de uma velha folha de papel, a caneta de tinta permanente... pesadíssima, as correntes do teu olhar acorrentavam-me, deixei de sentir os braços, as pernas, o... o amor,


Amas-me?


Deixaram-se apelidar de Amor,


Havia um emaranhado de fios eléctricos dentro da sala de jantar, os fusíveis dos meus sentimentos... ardiam, e percebi que nunca mais conseguiria perceber o Amor,


Amas-me?


E eu sabia que nos teus seios...


Texto de ficção?


Não revisto, não lido, não...


Não percebo as palavras que escrevi na tua pele de marginal semeada de palmeiras, barcos encalhados e... e gaivotas.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2014


28.11.14

Os teus olhos pincelados de verniz


camuflados no sombreado silêncio de uma ardósia


a tarde sem destino


e o menino...


embrulhado nas palavras adormecidas pelo giz


que só o luar consegue apagar


e destruir


o barco vai partir


sem conhecer a direcção...


ou... ou o cais para ancorar


e há uma corda suspensa nos lábios da solidão


que transcende o homem que deseja mergulhar no Oceano,


o desengano


do desassossego vestido de beijo enfeitiçado


a menina dança?


os teus olhos que só os pássaros percebem


o teu corpo de esferovite à deriva na planície das lágrimas incendiadas pelo areal...


um grito de revolta


alicerçado ao magnetismo esconderijo das geadas envenenadas


a embriaguez estonteante das madrugadas


quando o relógio de pulso se suicida num abraço de cartão canelado


e o homem responsável pelos teus olhos pincelados de verniz...


… morre lentamente na fogueira da paixão


como a perdiz


nas garras do amanhecer


e nesta vida de viver...


os teus olhos são cerejas de sofrer.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014


06.11.14

Sombreados lábios


no pincelado amanhecer


tristes searas de incenso


sem vontade de crescer


imenso Oceano mergulhado na minha mão


concubina solidão vagueando na ruela sem saída


é esta a minha vida?


duzentos e seis ossos sem comida,


oiço os teus seios na escuridão do meu silêncio


brinco sob as mangueiras de um País distante


cheiro o orgasmo do poema vencido


é esta a minha vida?


um emaranhado farrapo esquecido na espingarda do soldado...


um... um cigarro apagado...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 6 de Novembro de 2014


02.11.14

Os corpos incandescentes vivem na caverna espelhada


o amor cessa


porque um olhar se acorrenta às arcadas nocturnas da insónia


os corpos transparentes voam


e não regressam mais...


 


O difícil é partir


sem regressar


esconder-se nos claustros invisíveis do amanhecer


deixar sobre a mesa-de-cabeceira um simples bilhete...


parto e nunca mais regressarei,


 


Regressar porquê?


se ninguém notará a minha ausência...!


o amor cessa


e das palavras regressarão os abismos de um Oceano habitado por cadáveres


e em cada cadáver uma flor na lapela...


 


Os corpos...


fogem das ruas inanimadas com odor a Primavera


o amor cessa


como cessaram todas as andorinhas


e todas as gaivotas que conheci...


 


A caverna espelhada transpira solidão e embriaguez alicerçada aos barcos de papel


o menino de calções desenha nas sombras do entardecer


corações e triângulos que um adulto qualquer vai fotografar


e mais tarde...


queimar na fogueira do desejo.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 2 de Novembro de 2014


13.10.14

Porque dormem no meu olhar


os traços coloridos de silêncio?


 


Porque existe um veleiro desgovernado


no Oceano meu sofrimento,


se o vento,


se o vento deixou de correr junto às palmeiras...


 


Porque vagueiam na minha mão


as palavras nocturnas da dor,


quando o livro poisado na minha mesa-de-cabeceira...


ardeu,


morreu,


e hoje é apenas cinza como os traços coloridos de silêncio...


 


Porque dormem no meu olhar


os traços coloridos de silêncio?


 


Se nas tuas pálpebras crescem andorinhas sem asas!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub