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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


15.07.23

20230715_211107.jpg

Não sei o nome deste Oceano,

Frio,

Escuro,

Onde me escondo,

Não sei o nome deste Oceano

Onde se escondem todas as minhas fotografias,

Mortos,

Quase mortos, outros,

Todos.

 

Não sei o nome deste Oceano,

Onde todas as noites vêm a mim…

Todas as palavras,

Todos os nomes,

Os vivos,

Os mortos,

Cemitério de poemas…

Deste Oceano,

Inventado,

Em delírio.

 

Não sei o nome deste Oceano,

Das madrugadas sem luar,

De luares sem nuvens,

De nuvens sem poesia,

E pergunto-me,

Como poderá a noite viver sem poesia…

Neste Oceano de luz,

De rochedos travestidos de noite,

Quando a noite te pertence,

Também tu, adormecida,

Morta.

 

Dentro deste Oceano.

Não sei o meu nome,

Não sei o nome deste Oceano…

De petroleiros em sono,

Quando um pedaço de insónia

Entra pela janela,

Ao cair da noite,

Nas tuas mãos

Este Oceano de enganos,

De outros tantos pedaços de luz,

Quando o meu nome

É pincelado nos teus lábios.

 

Não sei o nome deste Oceano,

De ruas sem janela,

De janelas sem os doces cortinados do desejo,

Escondes-te dentro deles,

Sacias a tua sede com o silêncio do meu olhar,

Neste Oceano onde te escondes,

Neste Oceano de montanhas e planícies em fuga…

 

Não sei o nome deste Oceano,

Onde brinco com os meus traços envergonhados,

Quase a desfalecerem de sono,

E, no entanto,

Dentro deste Oceano,

Há uma vírgula que me aprisiona…

Aos versos deste Oceano.

 

 

 

15/07/2023


14.06.23

20230614_220915.jpg

Há um gemido-uivo

Em cada olhar do teu cabelo

Em cada silêncio dos teus lábios.

Há um gemido-uivo

Que pertence à noite

Que é construído em aço laminado

E no peito

No peito brincam os meninos da sua infância…

 

Há um gemido-uivo

Triste

E coitado

Um gemido-uivo em cada parêntesis da tua mão

Depois da tempestade zarpar.

 

Há um gemido-uivo

Em uivos-gemidos de medo

Quando o tédio desce à cidade…

E a cidade

Entre outros gemidos de medo…

Come o gemido-uivo

Que existe em cada olhar do teu cabelo.

 

Há um gemido-uivo

No Oceano do teu sorriso

Um gemido sem Pátria

Que fez o serviço militar em algures por aí…

E crucificaram-no num belo dia de silêncio

Junto ao peito da saudade.

 

Há um gemido-uivo

Um pequenino gemido-uivo

Com medo

Com fome

Que grita

Que chora

Que não come…

Um gemido-uivo do além-mar

Deste mar que não morre.

 

 

 

Francisco

14/06/2023


07.02.21

As horas de dormir, pareço que finjo, quando acordo embrulhado nas palavras do adeus, uma pequeníssima gota de silêncio absorve a madrugada, agarro-me ao teu corpo suspenso no cortinado da insónia e, há sempre uma criança que brinca na enxada da tarde.

Soltam-se as amarras de todos os barcos, acordam dos oceanos todas as tormentas e, sabe-se lá, quando vem a terra a solidão de um dia sem memória. Os homens sofrem, quando do granítico silêncio, as palavras do poema, inventam-se, redopiam nas redondezas da cidade, quando um grito silencioso cai sobre todos os jardins.

A fragância das flores adormecidas, as horas de dormir, pareço um fantasma dançando sob a tenda do circo imaginário, há palhaços de calcário, meninos de farrapos, junto ao mar, em cio, o corvo, as pirâmides embebidas em shots de nada e, no final da tarde, começa a descer a noite porta adentro.

Ponho à janela na esperança de olhar o sol, quando a noite está doente, cansada de brincar, quando depois de se evaporar a tarde, o teu corpo docemente se alicerça nas minhas mãos, as horas, os silêncios depois das horas e, dizes-me que a cada fim de tarde há uma janela que se encerra.

Tenho na minha mão o teu perfume, a cânfora manhã do sítio inanimado quando sei que lá fora um pingo de inveja sobeja das multidões em fúria. Discretamente, aos poucos, desenho-te na sombra dos livros ainda não escritos, gatafunhos acomodados às tristes margens deste rio sem nome, uma cabeça transparente, imunda, no nojento corpo das cidades da mendicidade e, imagino-me à procura de uma fina folha de papel onde escrever o meu testamento.

Tenho medo que amanhã não pertenças mais à cidade.

Que amanhã sejas apenas uma estátua de areia junto ao mar, trazes contigo as fotografias, as flores dos livros perdidos e, sabe-se lá porquê, as horas de dormir, são pedacinhos de silêncio nas tuas mãos.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó/07/02/2021


14.07.17

Todas as minhas palavras são lágrimas tuas,


Nuas cancelas sobrevoando o Oceano,


Os barcos cansados e a remo…


Prisioneiros no teu cabelo ao vento,


Sofro, sofro e alimento


Estes carris do pensamento,


Todas as minhas palavras são lágrimas tuas,


Duas pontes absorvendo o rio da dor,


Uma pequena flor,


Um grande amor…


 


Nas janelas doiradas do sofrimento.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 14 de Julho de 2017


12.04.16

Deixei de contemplar o teu perfume.


Ausento-me desta cidade de espingardas envenenadas


Que assombram o meu sorriso,


Procuro-te, procuro-te na ânsia de encontrar a tua sombra


Nos buracos da noite, procuro-te sem saber se existes nesta cidade de espingardas envenenadas, mesmo assim, eu não me canso de te procurar,


Desenho-te. Escrevo-te sabendo que não consegues ler as minhas palavras.


Amanhã acordarei na preguiça do amanhecer, novamente te vou procurar, aqui, ali, em qualquer lugar…


Não sei, não sei se existes,


Não sei se és real como as árvores no final do dia, encolhem os braços e dormem, dormem acreditando, também elas, que existes algures nesta cidade,


Mas não acredito na tua presença,


Imagino-te sentada num qualquer jardim esperando por mim, imagino-te sentada junto ao rio esperando por mim, mas enquanto vou ao rio e ao jardim, nada, nada da tua presença,


Desisto?


Desisto.


Sigo viagem, vou à procura do meu caderno preto, vou à procura da areia finíssima do Mussulo onde brincava com os outros meninos, também eles, esquecidos, sucata, velharias à porta de uma taberna,


Estou só, estou só enquanto escrevo, não sei se existes…, mas…, mas não quero a tua presença enquanto escrevo,


Lamento-me,


Lamento-me dos confins da lixeira dos sonhos, invento amores de papel com lábios de algodão, sinto-o, sinto-o


Sinto-o na minha mão como um fidalgo desempregado, triste e vaiado numa noite junto ao mar, amanhã, talvez,


Talvez existas nos meus aposentos de criança, amanhã, talvez existas nas pedras circulares dos Oceanos abandonados,


Desisto?


Desisto.


Esqueço-me de ti,


Recordo a liberdade de viver sobre este cansaço de aço,


Recordo a ardósia onde escrevia poemas só para ti, mas tu, tu não existes,


Pareces a morte,


O silêncio disfarçado de morte,


E depois


E depois deixei de contemplar o teu perfume.


 


 


Francisco Luís Fontinha


terça-feira, 12 de Abril de 2016

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