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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


04.07.22

Perdidas, cansadas de habitar a prateleira superior dos sonhos, as tulipas negras antes de adormecer, lêem um poema de AL Berto. Sob o sonâmbulo tecto da alvorada e, após o silenciar de todas as sílabas, começam a ouvir, aos poucos, os pedacinhos em desejo que a madrugada transporta até ao luar que acaba de se deitar na almofada do sono.

As tulipas, alicerçam-se ao fim-de-tarde que voa em direcção ao abismo, porque em cada mão, elas, aprisionam o feitiço de uma cidade em ruínas. Das janelas, ouvem-se as silenciadas vozes dos espantalhos em passos apressados que de pé-ante-pé voam pelos campos de milho nas paisagens de Carvalhais.

Sabíamos que podíamos confiar nos poemas de AL Berto, mas quanto a confiarmos nas tulipas negras, já não estávamos tão certos, pior ainda, estas são pequenos esqueletos em papel, com desejos, que amam, que beijam, que gemem quando a noite entra pela algibeira do púbis envenenado na inocente luz escolar.

Perdidas, cansadas de habitar a prateleira superior dos sonhos, ouviam-se-lhes os outros poemas que em finas lâminas de maré corriam em direcção ao mar, depois, um velho pedaço em madeira, sem perceber a razão, levantava os braços apontados para o céu, e

Que assim seja, meu amor; todos percebíamos porque dormiam as acácias dos teus lábios.

E numa conversa de desespero, sempre antes do almoço, a pequenina madrugada sabia que também ela acabaria por morrer contra os rochedos da dor, como morrem os pássaros antes de bater as dozes horas nocturnas na torre da igreja; Deus queira que sim,

porque se não o for, salvamos-mos com os outros poemas de AL Berto, que muitos anos antes, líamos na companhia de uma esplanada envenenada pela nortada das abelhas em delírio quando alguma das pétalas envergava um fato e gravata e sapatos bicudos e engraxados pelo velho Armando e que no Café da Paz adormecia sem perceber que o sono e que diziam que adivinhava as horas antes de olhar o relógio e que cada vez que dormia e como um zumbi desenhava gargalhadas nas paredes e,

regressava o Medo; finalmente AL Berto se levantava das nossas coxas de incenso que quando vomitava labaredas de sono, ele, ela, nós,

o velho engraxador,

voava como um cargueiro esquecido em alto mar.

Hoje, percebo que as tulipas negras escondiam dentro do peito uma finíssima folha em papel, que dos sapatos bicudos, hoje, são apenas um pedaço de sola à venda no OLX. Pudera, pois sabíamos que as lágrimas de crocodilo que saltitavam de cadeira em cadeira eram apenas pedacinhos de lenço que quando sabujava algum tempo, deixava algumas letras e outros tantos riscos, que hoje ninguém consegue decifrar; apenas o Medo.

A boca abria-se-lhe e, num ronco desproporcional, lançava-se à conquista de almas gémeas e rezas de açafrão. Também diziam que ele inventara o sono numa noite de neblina, que depois, nunca mais foi o mesmo após provar as ditas sílabas negras das tulipas em flor.

Cansado, vossemecê?

Pudera.

Os sapatos envelheceram. E todas as gargantas hoje são apenas espojas que dizem absorver os poemas de AL Berto.

Diga-se; que delícia.

Comíamos-mos como se comem as borboletas antes do nascer do sol, e no entanto, a gabardine de tom escurecido devido ao surro, poisa hoje sobre uma sepultura em mármore e recheada com flores de trevo.

Dizem que dá sorte…

E que sorte terá um tipo que morreu antes da puberdade desenhar-lhe nas costas rebaixadas pela enxada do sono, que depois de partir, esfumou-se numa bandeira apátrida, a infância adormecida.

Provavelmente, nenhuma. E obviamente, demito-o, como se demitem os anjos antes do toque do clarim que se fazia ouvir numa Belém recheada de magalas em delírio por um estacionamento numa qualquer esplanada junto ao rio; estacionávamos as botas pesadas que transportávamos como se fossem ferraduras invisíveis…

E voávamos até ao pôr-do-sol.

 

 

 

Alijó, 04/07/2022

Francisco Luís Fontinha


29.12.12

Bates-me à porta, pedes-me silêncio, agachas-te nas sombrias minhas mãos com sabor a tristeza, fazemos um refresco de solidão, abrimos um livro, pode ser aquele, sabes?


O Medo


Exactamente esse, O Medo de “AL Berto”, e sentimos o tempo escoar-se, e sentimos o mar a entrar pela janela, sentamos-nos, um sobre o outro, ouvimos as melancólicas palavras que o rádio a pilhas em pequenos vómitos, lança contra o gesso doente e sujo, de que são constituídas as paredes da nossa casa, um jazigo com duas assoalhadas, perdido no murmúrio cemitério da saudade, sentamos-nos


O Medo,


Bates-me à porta, pedes-me silêncio em troca de abraços, pedes-me beijos por palavras sem destino, palavras cansadas, múmias embalsamadas, pedes-me silêncio, O Medo, perdido, achado, Sabes?


Exactamente esse, esse malandro apaixonado, esse malfadado sorriso que deixaste sobre a mesa, quando partiste, exactamente esse, bates-me à porta, desassossegas-me nas sombrias minhas mãos com sabor a tristeza, sinto-te e sentamos-nos, sentas-te em mim, e


Eu abro os olhos parecendo um barco às curvas em despedidas paixões, precisas dos meus braços, não os tenho, perdão, levou-os o vento quando subtraído às páginas loucas de “O Medo”, tu, eu, nós


Com Medo...


Que o medo, sinto-o, amarfanho-o, e embalsamadas todas as gaivotas que os teus lábios mar deixam adormecer, nos lençóis imaginas o pôr-do-sol, nos lençóis


O Medo, cinzento, feliz, contente, tantas e tantas e tantas palavras indesejadas, tantas, tantas e tantas e tantas palavras amadas, odiadas, palavras


Com Medo


O menino,


Bates-me à porta, pedes-me silêncio, agachas-te nas sombrias minhas mãos com sabor a tristeza, fazemos um refresco de solidão, abrimos um livro, pode ser aquele, sabes? A janela sobre o Tejo, barcos envenenados pela paixão dos peixes, em círculos, todos, os livros, os meus


Medos,


Os meus olhos sabendo eu que sou cego, os meus livros sabendo eu que não tenho, e nunca tive, e não quero ter


Livros?


Paixões como têm os barcos, aqueles que vejo quando abro a janela


Perdão,


Quando abro o livro e folheio-o e os barcos envenenados pela paixão dos peixes, em círculos, todos, os livros, os meus, os teus, olhos de açúcar sobre a copa das árvores castanhas que um louco escultor distribuiu pelas ladeiras inclinadas da cidade dos anjos, e lembras-me as cidades em combustão na lareira que o amor invisível acendeu nas varandas encastradas que o Tejo come, e a noite


Perdão


E a noite consome, ressaca, dói, murcham as palavras do doente e sujo, de que são constituídas as paredes da nossa casa, um jazigo com duas assoalhadas, perdido no murmúrio cemitério da saudade, sentamos-nos, e comemos-nos


Roças o cobertor imaginário no teu corpo de plasticina, deitas-te sobre a tela branca, completamente nua, completamente branca, e comemos-nos, e dançamos abraçados a tubos de acrílico, e dançamos abraçados aos pincéis de fina estampa encaracolada os musgos embrionários dos teus seios, mamas de orvalho que a noite tanto adora, dançamos-nos, e


Comemos-nos,


Sem percebermos que lá fora, chove, sem percebermos que lá fora, Raios


O Medo,


Que lá fora, oiço os teus gélidos gemidos,


Comemos-nos,


No medo, que eu, que tu, que nós


Sentamos-nos e comemos-nos na Paz de Cristo, quando abro o livro e folheio-o e os barcos envenenados pela paixão dos peixes, em círculos, todos, os livros, os meus, os teus, olhos de açúcar sobre a copa das árvores castanhas que um louco escultor distribuiu pelas loucas cidades de amar,


E o medo,


Que eu, com mãos e braços e boca e


Quando abro o livro e folheio-o e os barcos envenenados pela paixão dos peixes, em círculos, todos, os livros, os meus, os teus, olhos de açúcar sobre a copa das árvores castanhas que um louco escultor distribuiu pelas


Abelhas ínfimas manhãs, que nós


O Medo,


Que lá fora, oiço os teus gélidos gemidos,


Comemos-nos,


No medo, que eu, que tu, que nós


Sejamos apenas um sonho, ou pior do que isso, que nós


Sejamos apenas um espelho perdido na paixão, roças o cobertor imaginário no teu corpo de plasticina, deitas-te sobre a tela branca, completamente nua, completamente branca, e comemos-nos, e dançamos abraçados a tubos de acrílico, e dançamos abraçados aos pincéis de fina estampa encaracolada os musgos embrionários dos teus seios, mamas de orvalho que a noite tanto adora, dançamos-nos, e


Comemos-nos.





(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Alijó


27.04.12

De quem são os silêncios que habitam na minha cabeça, de quem são as árvores que fazem sombra no jardim invisível da tarde, e de quem são os barcos que adormecem no oceano testicular do desejo,


- não chove e lá fora um fio de medo atravessa as mãos silenciosas da noite, o medo, que o dia se transforme infinitamente grande, infinitamente azul, infinitamente ausente, dentro de mim


“o medo morreu em 1974” Alguém suspende numa janela um pedaço de cartão, o medo de ser feliz, o medo de amar livremente as flores, as árvores e as gaivotas,


- dentro de mim ausente a sinfonia do cansaço, sento-me sobre as acácias em flor, e oiço uma voz “ainda ele brincava no oceano testicular e já eu estava preso”, e tantas coisas que brincavam nos oceanos testiculares da insónia e hoje, e hoje o medo atravessa as mãos silenciosas da noite, antes do limite indefinido da memória, antes do circo ter aportado no cais da aldeia e uma trapezista zarolha de mini-saia e avental vermelho a impingir amêndoas e beijos cor de laranja, Não percebo digo-lhe eu, O que é que não percebe pergunta-me ela, não percebo nada de amêndoas e de beijos cor de laranja, Experimente diz-me ela, Não quero experimentar digo-lhe eu,


e eu confesso que tinha medo, tinha medo de entrar na escola e saber que dentro da gaveta da secretária carunchosa adormecia a menina dos três olhinhos, “E foda-se que doía como o caraças e a mão ficava dormente o resto da tarde”, e os meus pais tinham medo e pediam a deus que eu parasse de crescer e ficasse eternamente com oito anos, Maldita Guerra Ouvia-lhes às vezes na solidão da noite,


- e felizmente que eu não parei de crescer e felizmente que a Maldita Guerra terminou, e felizmente que eu deixei de ter medo, e felizmente que o medo morreu em 1974, e felizmente que a sinfonia do cansaço hoje não veio ter comigo, e felizmente


Maldita guerra e enquanto eu me sentava no portão da entrada a contar os carros em direcção ao Grafanil, homens morriam, jovens, muito jovens, morriam, enlouqueciam, e felizmente,


“o medo morreu em 1974”,


- e felizmente que eu cresci e não fui para a guerra, e felizmente que os silêncios que habitam na minha cabeça não têm dono, são da terra de ninguém, e felizmente que a minha terra ficou livre, e felizmente que o mar é de todos e a poesia é de todos, e a terra é de quem a trabalha e o fruto é de quem o colhe, Assim ficou escrito na cartolina sobre a horta embriagada do meu vizinho,


o medo morreu, o medo...


no oceano testicular da insónia.

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