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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


10.12.14

Sou um estranho teclado


dentro do teu peito,


sou a manhã na boca da insónia...


e perco-me nas tuas mãos


como um pássaro em sofrimento,


surpreendo-me com o teu olhar entranhado na escuridão,


pareces um cortinado invisível,


uma espingarda de papel...


 


sou um estranho teclado


dentro do teu peito,


sou os rochedos incinerados


que escondem as tuas palavras,


e nunca tenho tempo para abrir a janela


do teu coração,


sou um emaranhado de estrelas


sem passado nem canseiras,


 


Sou um estranho...


… no teu peito,


visto-em de negro


e confundem-me com a noite,


sou o silêncio dos teus cabelos


e a cartilha dos teus medos...


sou a clarabóia do teu sorriso


quando lá fora...


 


gritam o meu nome em vão,


e eu, e eu nunca tive um nome,


uma pátria,


uma bandeira,


 


nem... nem paixão...


 


gritam o meu nome em vão,


e o teclado estranho


que habita no teu peito...


chora... chora como a bala de um canhão.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2014


08.12.14

Não sabia que o teu nome


era apenas um nome


uma solitária palavra


sem alma


sem coração


sem... sem barcos ao anoitecer,


 


não sabia que o teu nome


era apenas um nome


sem corpo


sem sombra...


 


não sabia que o teu nome


era apenas um silêncio


sem imagens


sons


ou... ou fotografias


em constante mutação,


 


não sabia


não sabia que o teu nome


era apenas uma assombração


uma cidade esquelética voando no pôr-do-sol,


 


(Não sabia que o teu nome


era apenas um nome


uma solitária palavra)


 


como as pálpebras do poema antes de ser o poema,


 


não sabia que o teu nome


era apenas um nome


um soluço mastigado nas sílabas do Diabo...


não sabia


que... que o teu nome


é como a areia húmida


e o mar apaga todos os seus desenhos


como a morte... apaga todos os seus corpos...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2014


11.09.14

Não digas o meu nome,


nunca...


rasga-o e lança-o ao vento,


não digas o meu nome na vã esperança,


porque o cansaço alimenta...


e a noite come os êmbolos do meu silêncio,


sou uma máquina em aço laminado,


o meu esqueleto é composto por rodas dentadas,


roldanas...


e milímetros de fio desengonçado,


não,


não digas o meu nome,


amanhã acordarei?


sem nome,


idade,


altura...


amanhã nunca,


o meu nome lapidado...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 11 de Setembro de 2014


06.08.14

Nunca vi o teu nome escrito na fogueira da tarde,


imaginava-te uma serpente de luar enrolada no pescoço da noite,


tinha medo de ouvir a tua voz, tinha medo... da minha própria voz,


sabia que havia um espelho onde habitavas, um espelho mágico onde aparecias depois de cessarem todas as luzes em mim,


sentava-me sobre a ponte metálica da sonolência, inventava silêncios para não ouvir os teus gemidos,


desenhava-os como se eles fossem o acordar da manhã no pulso de um mendigo de aço,


e acreditava nas palavras não ditas, aquelas que tu escondias junto ao teu peito de anémona-do-mar,


sem vontade de amar,


sem vontade de viver...


nunca vi o teu nome nas ardósias madrugadas de suor,


quando uma cama recheada de sombras cobria a tua pele...


uma janela que se suicidava, e tombava no pavimento térreo da saudade,


 


Uma criança que chorava, e tu, e tu pensavas que eram os mabecos enfurecidos pelo cacimbo,


e afinal, e afinal eram apenas as mãos do desejo a penetrarem em ti,


desgovernada mulher dos sete lençóis de prata...


 


Tínhamos uma palhota com pernas de solidão,


e nunca vi o teu nome... escrito... na fogueira da tarde,


hoje, hoje sei que a tua voz é de cristal, e com a tempestade... quebrar,


grãos de amêndoa voando na algibeira do Tejo,


os cacilheiros em apitos joalheiros, e cansados de tantas viagens sem regresso...


um dia dia vou regressar?


Nunca soube a resposta aos apelos do Oceano,


num recreio de escola, uma criança vestia-se de estátua, no seu pedestal apenas uma flor amarela, e não palavras, e não... e não sorrisos,


e... e não sonhos,


nunca via o teu nome,


em mim...


como as escoras da insónia nas frestas do gesso envelhecido.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 6 de Agosto de 2014


06.07.14

Perdi o teu nome numa noite de geometria,


reinventei palavras para te desenhar na tela do silêncio,


escrevi no teu corpo quando a solidão zarpava janela adentro,


eu, eu sentava-me no cadeirão cinzento... e procurava-te nos livros que lia,


o teu nome..., o teu nome não aparecia,


e eu, eu mentia,


dizia que te chamavas de “amor”...


e...


 


e... e nunca conheci mulher alguma com esse nome,


e nunca conheci flor alguma que tivesse nas pétalas a cor do teu olhar,


abria a janela,


e gritava...


“amor”... “amor”...


e...


e... e ninguém se apelidava assim,


gritava, gritava... até que o luar me trouxe a insónia,


 


Cerrava a janela,


sentava-me no cadeirão cinzento,


abria um livro,


fechava-o... e o teu nome continuava desconhecido,


amargo,


tão amargo que dos meus lábios brotavam pedacinhos de cinza,


algumas pérolas de papel... e um ínfimo desejo despertava...


… e tu entravas, e tu entravas e eu não me recordava do teu nome...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 6 de Julho de 2014

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