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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


24.12.21

Sentia-me zonzo com os cheiros

Que brotavam de suas mãos

No Natal.

Hoje, procuro esses cheiros, em vão,

E apenas as fotografias,

Transformam os cheiros em lágrimas.

Lágrimas recheadas pela saudade,

Como sonhos, rabanadas e bolo-rei,

Hoje, o silêncio poisa sobre a mesa,

A mesa é outra, mas faltam algumas fotografias,

Hoje, são poeira,

Canção caminhando no Universo,

Paralelo, cubo, triângulo,

Hoje, acorda a ira,

Como se fosse uma nuvem em papel,

Voando em direcção ao mar.

Nasci pertinho do mar,

Junto à solidão dos macacos,

Havia gladíolos envenenados,

Havia bananeiras em cio,

Como as gaivotas passeando-se sobre a baía.

Sentia-me zonzo com os cheiros

Que brotavam de suas mãos

No Natal,

Tínhamos dentro de nós

O pesadelo de um futuro amaldiçoado,

Não distante,

Mas sempre ausente.

Hoje, olho todas estas fotografias,

São apenas imagens, lugares, pó…

Apenas pó…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24/12/2021


27.12.15

E o Natal!


Sabíamos que amanhã não haveria saudade, sabíamos que amanhã não gaivotas poisadas no Tejo, estou muito doente


E o Natal?


Tenho a “Tara mais pesada que o Peso Bruto”, isso é grave, Doutor? Que sim, que nunca mais vou ver o Rio nem as montanhas nem as prendas, nem…


O Natal?


Quero lá saber dele, nunca goitei dele, prendas, e que se “fodam” as prendas, e todos os dias vinte e cinco de cada mês… estou muito doente, tenho a “Tara mais pesada que o Peso Bruto”, gravíssimo meu Caro, gravíssimo meu Caro, pronto, estou “fodido” a caminho dos cinquenta tudo aparece, é o Natal, é a Tara, é a porra da idade, e nem o Caracol me consegue valer, sobe, sobe… e puf… parede abaixo, capotou mesmo em cima da mulher que sabia falar Russo, tristeza, a Tara… e eu só queria ter uma cabana no cimo do monte, uma mulher que falasse Russo e uma montanha embalsamada no meu corpo, a aventura, o silêncio na procura do abismo, o Natal, prendas, e que se “fodam” as prendas, prendas…


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


domingo, 27 de Dezembro de 2015


16.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Fingíamos o sossego quando dentro de nós habitavam tempestades


fugíamos para o cume da montanha mais próxima


abríamos uma das quatro janelas da ginga


fundeávamos junto ao corpo emagrecido que a madrugada acabava de expelir


fingíamos


e fugíamos


e uma chaminé alicerçava o vento à copa das árvores


os pássaros pareciam agulhas enfeitando panos de renda


e os poucos galhos dos desenhos queimados...


apenas sobejaram os lenços de papel


lágrimas


e nada mais para recordar...


 


A saudade morria...


e aos poucos erguia-se o desejo cansado


virgem...


atraiçoado


 


Fugíamos das cavernas com carris de prata


abríamos o livro dos sonhos na página duzentos e sessenta e três...


a ginga vomitava soníferos gonzos com alegres pregos de aço


a árvore de Natal tinha desmaiado...


tonturas


talvez devido ao excesso de luz


ou... com medo das sombras que todos nós sabíamos existirem no nosso corredor sem portas


ouvíamos vozes que provavelmente tinham a sua origem no presépio da loja Chinesa...


e confesso que não percebi patavina do que elas diziam...


apenas percebi que a vaca sofria de cólicas renais


e


nada mais.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2013



08.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


O menino de sorriso amarelo não acredita no Natal, alimenta-se de pigmentados corações de açúcar, dança descalço sobre as pedras quadriculadas do caderno de Matemática, inventa equações que para não esquecer o significado de cada uma, escreve-as na adensada areia branca da praia das gaivotas cinzentas, o menino não acredita que existem barcos com asas, o menino não acredita que existem pássaros com âncoras de verniz e paisagens prateadas nas janelas do olhar, o menino


Sou seu?


Ela dizia-me que quando eu fosse grande


Aparecerá na tua sombra um poema chamado saudade,


Cresci, fiz-me de homem


Fizeram-no homem com braços, com pernas, com... cabeça e olhos, tudo, tudo em granito, puro, do Transmontano, mas nunca contou que


Aparecerá na tua sombra um poema chamado saudade,


Sou seu?


O menino de sorriso amarelo não acredita no Natal, o menino de sorriso amarelo não gosta do Natal, das coisas supérfluas e inanimadas como as árvores rendadas do pijama dela,


Ela dizia-me que quando eu fosse grande um poema chamado saudade aparecia na minha sombreada constipação nocturna das flores ainda não oferecidas


Posso oferecer-lhe flores, menina?


O parvalhão do moço, dizem que sou eu, inventava palavras e escrevia-as sobre a pele incandescente da areia branca das praias do Mussulo, o menino de sorriso amarelo queixava-se que a travessia transatlântica era uma maneira fácil e cómoda de se esconder dos embondeiros com lábios de suor encarnado, havíamos de descobrir o amor e a paixão, o silêncio quando a noite rompes os cortinados vazios dos púbis em fúria, havia sempre um clitóris agoniado, sem sentido, às vezes


Envergonhado,


Outras


Outras..., não, não gosto do Natal, e o poeta é lindo enquanto escreve, e o homem de pedra é homem enquanto a pedra não se desfaz, esmigalha-se... e o pó entranha-se nos móveis do quarto com varanda para o Tejo,


Os apitos chegavam-nos de Cais do Sodré, elas vestidas de meninas gritavam...


Olá meninos, vamos a uma voltinha?


Inseríamos a moeda na ranhura... e voávamos sobre as oliveiras invisíveis que me acompanhavam desde o Douro ainda não Património da Humanidade, mas um Douro carrancudo, encurvado... como cobras de cabeça em prata que pernoitavam no vão de escada do sótão dos esquimós de aço, que inventávamos nos iglus que o prazer carnal transmitia aos alicerces de leite-creme depois das aventuradas passagens pelo carrossel do sexo vampiro, o sangue aparecia nos tornozelos da ardósia tarde, os cobertores


A menina dança?


Nem dançava nem tão pouco consentia que lhe apalpassem as mamas, como as plantas do canteiro da dona Augusta, acariciávamos-lhes as doces pétalas de chocolate, e depois


Envergonhado,


Aparecerá na tua sombra um poema chamado saudade,


Sou seu? eu... o poema chamado saudade...


Subíamos, descíamos, rodávamos em sentido contrário aos ponteiros do relógio do tio Serafim, e vinha-me à memória o círculo trigonométrico do tesão quando o cosseno de trinta e cinco graus adormece sobre as âncoras de verniz e paisagens prateadas nas janelas do olhar, choravam elas, tremiam, e


Não deixavam que lhe apalpássemos as mamas porque diziam


São estrelas com sabor a tristeza,


As flores, o carrossel e o vão de escada,


Cais do Sodré em sólidos apitos, e eu


O menino de sorriso amarelo não acreditava no Natal,


Depois


Acordei, fizeram-me de homem


E tal como o menino


Não


Acredito


Que existem pássaros com âncoras de verniz e paisagens prateadas nas janelas do olhar, o menino


Sou seu?


É ela, quando acendo a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira e vejo lá poisado um par de óculos, um livro do Agualusa e o “Quinto Livro de Crónicas” de A. Lobo Antunes, e oiço-o em teias de aranha caminhando no corredor do


Carrossel


Inseríamos a moeda na ranhura...


E no corredor do sótão um jacaré de palha seca brincava com o menino que


Não


Acredito


Que existem pássaros com âncoras de verniz e paisagens prateadas nas janelas do olhar, o menino


Sou seu?


Um carrossel pintado de fresco,


Cuidado


“Pintado de Fresco”


O Natal... e as meninas não gostam que eu lhes ofereça flores...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 8 de Dezembro de 2013



22.12.12

Sou filha do vento e nasci num final de tarde, tenho cabelo loiro como o oiro, tenho asas como as gaivotas, em revolta, tenho olhos verdes com luzinhas encarnadas, como as madrugadas, depois de uma longínqua caminha na praia dos sonhos, sou filha


 


da vida quando construída, destruíste-me os ossos e fizeste deles sumo de laranja com rissóis de camarão, a tarde estava límpida, linda, brilhante, ausente a tua melancolia paixão pelos livros, da vida, e eu


 


sou uma filha da puta, destruíste-me cansada manhã, à luta, à carga que os costados ainda aguentam, sou burra, de velas arregaçadas até aos ombros, levanta-se o mastro luzidio da paixão, e ela


 


a caravela mais linda do oceano,


 


entre curvas e sombras,


 


e ela às marradas contra a porta de entrada, cinco da manhã, porta encerrada, fui despedida, lia-se na tabuleta míope


 


por razões de segurança é proibido sonhar,


 


filhos da puta, pensava eu, miúda da vida quando construída, destruíste-me os ossos e fizeste deles, e fizeste de mim


 


uma mula sem asas,


 


e fizeste de mim


 


uma caravela sem velas,


 


e fizeste de mim


 


uma puta sem pernas, sem nome, sem jazigo, caixão, cave, ou noite embrião, uma puta solteira, filha do vento, e nasci, e nasci num final de tarde, junto ao Tejo, numa esplanada com cadeiras, uma esplanada com mesas, plastificadas


 


os ossos, as pernas, as asas, as casas, eu


 


uma puta sem alicerces, segurança social, uma


 


casa sem janelas, um rio sem barcos, ponte, um jardim nu, moribundo, húmido entre as sílabas assassinas da primeira comunhão, que raiva, ódio, não gostava de gravatas, sapatos pontiagudos, e asas, e fatos de pano barato,


 


o cigano


 


estás bonito miúdo,


 


e ela,


 


sou filha da chuva, sou filha do vento,desculpem-me, ajudem-me, lancem todas as cordas para o mar, e numa fúria de raiva


 


salvem-me esta puta filha do vento,


 


uma caravela sem vela, uma puta sem pernas, sem braços, sem cabeça, uma árvore miúda, à lareira, feliz natal ouve ela


 


salvem-me,


 


porquê,


 


o cigano,


 


que giro, está lindooo,


 


e eu era lindo quando vestido de pedaços de xisto com laminados de madeira, o serrote em cuecas fugindo corredor fora, o barco enfeitiçado mergulhava nos olhos verdes da puta encarnada manhã de sábado, saí de casa, travesti-me de homem livre, como o vento, pai da puta, que no final de tarde, ouvia os roncos magistrais das bocas ocas e loucas que


 


o cigano,


 


que a maré provoca nos corpos quentes,


 


caliente meu corpo de cetim doirado,


 


o cigano,


 


lindooo,


 


eu sei, eu sei quando me olhava ao espelho,


 


as vaidades, as paredes guiadas pelas raízes dos finais de Outono, ouviam-se as transpirações das desejosas camas de vinte e cinco euros, à janela, há janela, uma fotografia com um miúdo nos braços do cigano


 


lindooo,


 


e eu respondia-lhe que os sapatos pontiagudos me magoavam, e ele


 


quando começares a voares passa-te, e deixam de doer,


 


lindooo,


 


que a maré provoca nos corpos quentes,


 


caliente meu corpo de cetim doirado,


 


o cigano,


 


lindooo,


 


e gemias, e atravessavas as paredes de porão em porão, descias as escadas até ao ínfimo milímetro de poço, e dizias-me


 


sou filha do vento e nasci num final de tarde, tenho cabelo loiro como o oiro, tenho asas como as gaivotas, em revolta, tenho olhos verdes com luzinhas encarnadas, como as madrugadas, depois de uma longínqua caminha na praia dos sonhos, sou filha


 


uma puta sem alicerces, segurança social, uma


 


casa sem janelas,


 


sou filha do vento, sou filha da chuva, sem braços, sem pernas, sem asas, sou


 


lindooo,


 


e nunca mais vi o cigano de camisola azul.


 


(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


21.12.12

Obviamente não foi embora, e três dias depois, quase noite, encerrou-se dentro de uma caixa de vidro, puxou o cortinado, acendeu o cigarro, e sem hesitar, entre coices e telas em acrílico que tinha acabado de destruir e deitado fora, finou-se, morreu, e só teve tempo de cruzar os braços em abraços, e


 


sem hesitar,


 


desapareceu entre as sombras abstractas que a morte inventa no tecto das casas com sótão, escadas em madeira, e janelas sobre as outras casas, também elas, em madeira, e luzes fanadas a outras casas, a água desviada silenciosamente da casa do vizinho, e com duas galinhas, e com alguns coelhos, e poucos


 


sem hesitar,


 


galos de crista encarnada, os cornos do peru, as hastes mestras das cabras, as ovelhas em gemidos, e logo temos queijo fresco e legumes, e sandálias de couro com calções de chita, e sem hesitar


 


obviamente não foi embora, eu


 


sem hesitar,


 


desapareci entre as sombras abstractas que a morte inventa, e poucos


 


porcos de crista encarnada, galos com cornos e perus com asas de papel e hélices em fibra de vidro, e poucos


 


sem hesitar,


 


eu


 


sem hesitar,


 


desapareci entre as sombras abstractas que a morte inventa, e poucos ou nenhuns pássaros sobre o meu cadáver acetinado, as unhas de gel que a menina do rés-do-chão desenhou nas minhas mãos por vinte aéreos, poucos


 


eu


 


sem hesitar,


 


queria ser como tu, terça-feira disseste-me que não, e agora dizes-me que sim, que há pássaros no quintal à minha espera, e que depois de se extinguirem todas as lâmpadas das mesas de vodka, tu puxas de um cigarro, acendes o cortinado, e em coices desapareces nas telas em acrílico que brincavam na torre de controle do aeroporto da Chã, a pista longínqua, o último grito da aviação comercial, o pássaro Galileu em poucas palavras faz-se à pista, e há pista senhores excelentíssimos passageiros, há pista, os carrinhos de choque


 


eu


 


sem hesitar,


 


aos saltos e pulos e voos pegajosos e nojentos para não acordar a vizinhança pela manhã quando era domingo, e tu, hoje, terça-feira disseste-me que não, e agora vejo-te aos círculos na cama com lençóis de mar, há pista, poisas os pezinhos sobre a almofada, abres em noite de estrelas as asas dos desejos nocturnos, rolas silenciosamente pela pista, há pista, há pista senhores excelentíssimos senhores, à pista encostas as mamas e adquires estabilidade, da torre dizem-te


 


sem hesitar menina, vento a dez nós, sem hesitar, endireitar o nariz e os lábios, e não esqueça o púbis cansado e aerodinâmico das canções de Natal,


 


vens bem, pensava eu, enquanto te observava a percorrer a cama pela manhã, vens bem, e aterravas nos meus frágeis braços de alumínio,


 


obrigado senhores excelentíssimos passageiros,


 


aos seus destinos,


 


sem hesitar,


 


caminhava pelas ruas, puxava do cortinado e acendia o cigarro, sentava-me sobre os fardos de palha que todas as manhãs acordavam à porta do tio Joaquim, há porta, janelas, há janelas nesta casa travestida de sótão?


 


eu


 


sem hesitar,


 


mentia-te, e dizia-te que a pocilga onde vivíamos era um sótão com escadas de madeira, e janelas sobre as outras casas, também elas, em madeira, e luzes fanadas a outras casas, a água desviada silenciosamente da casa do vizinho, e com duas galinhas, e com alguns coelhos, e poucos


 


sem hesitar,


 


porcos de crista encarnada, galos com cornos e perus com asas de papel e hélices em fibra de vidro, e poucos,


 


que tu acreditavas.


 


(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Alijó


20.12.12

Não sabia que te incomodavam as teias de aranha que embrulham alguns dos livros que sepultei na cave, velhos, fora de tempo, moribundos como as pessoas da minha idade, não sabia, desculpa, que te incomodavam


 


dias depois de mim, descias as escadas e sentavas-te sobre as páginas cansadas e poeirentas da velhíssima encadernação, algumas palavras tuas, dias depois, te incomodavam os inchaços invisíveis que das tuas torrentes mãos alicerçavam as ruas circunflexas que a cidade engole, um copo de cerveja, vodka, qualquer coisa por favor senão morro, morro, como eles, e enterram-me na cave, como eles,


 


te incomodavam as minhas frágeis carícias, te incomodavam as aventuras do poderosíssimo Pai Natal, de chaminé em chaminé, e finta algumas das clarabóias para não incomodar


 


que te incomodavam,


 


os amantes sobre os lençóis encarnados do Natal, que eu, que tu


 


detesto,


 


que eu


 


detesto,


 


desculpa, não sabia, que te incomodavam as minhas mãos de sabão, desculpa, não sabia, que te incomodavam as minhas orelhas pontiagudas como aqueles sapatos de joguei janela fora, também eles, pontiagudos, e tu


 


não me ouves, e sentavas-te sobre a velhíssima encadernação de couro, velhíssima como os meus cabelos, cinco por cento são meus, e noventa e cinco por cento


 


detesto,


 


que eu,


 


detesto,


 


noventa e cinco por cento do fisco, dos credores, e da puta que os pariu, a elas e a eles


 


as baratas e as teias de aranha, não te importavas, não querias saber, e agora, agora


 


feliz Natal,


 


(o caralho)


 


detesto,


 


que eu


 


detesto,


 


e pergunto-me, e pergunto-te, tu deitavas-te em mim e enrolavas-te nos meus braços


 


que eu


 


e os restantes trezentos e sessenta e cinco dias?


 


detesto,


 


nos meus braços, não te importavas, não sabias que os sonhos são simples sombras de rochedo que o mar vomita nas noites de insónia, não dormimos, não comemos, apenas jazemos na cave, embrulhados em teias de aranha, sentavas-te sobre mim


 


feliz Natal,


 


que eu


 


detesto,


 


que tu


 


detesto,


 


dias depois de mim, descias as escadas, pegavas numa lanterna, enrolavas-te em mim e silenciosamente folheavas as minhas finíssimas páginas de puro aço, frio, distante, a cave onde eu


 


detesto,


 


adormecia com os teus beijos.


 


(texto de ficção não revisto)


 


@Francisco Luís Fontinha


Alijó


28.11.11

Lamento desiludir os meus amigos


(se tenho amigos)


Mas detesto o natal


Odeio luzinhas suspensas em pinheiros


E não quero presentes


Nem ver o meu focinho


Pendurado numa árvore virtual…


 


E por favor


Não me enviem mensagens


A desejarem-me um bom ano


Quando tenho a certeza


Absoluta


Que vai ser outro ano de merda


 


Lamento desiludir os meus amigos


(se tenho amigos)


Mas detesto o natal


E não gosto dos três Efes…


Fado


Fátima


E Futebol


 


E neste natal


Esqueçam por alguns dias


Que eu existo


Lamento desiludir os meus amigos


(se tenho amigos)


Mas detesto o natal


E odeio luzinhas suspensas em pinheiros…


06.11.11

Estou só


Dizia-me ele


Estou só no centro da esfera


Onde habito preso a um dicionário


Estou só e só vou atravessar estas paredes de luz


 


Estou só


Dizia-me ele


Estou só e começo a ficar deprimido


Com a publicidade ao natal


Nunca gostei do natal


Nunca


 


Pessoas que passam por mim 364 dias


E escondem o rosto em direção ao pavimento da noite


Estou só


Dizia-me ele


E um dia por ano


Com voz de parvalhões – Feliz Natal Francisco –


 


E passam por mim 364 dias por ano


E nada


Tratam-me como se eu fosse lixo


Restos de comida deixados ao abandono no contentor da vida


- Feliz Natal e Bom Ano Francisco –


Não quero saber do natal


 


Estou só


Dizia-me ele


E o correio eletrónico com as mensagens aparvalhadas


Bolinhas saltitantes


E Renas com azia


Olho para aquela merda… e lembro-me das noites no TEXAS em Cais de Sodré


 


Putas dançantes


E luzes suspensas no céu da noite


E pergunto-me


É isto o Natal?


Restos de comida deixados ao abandono no contentor da vida


- Feliz Natal e Bom Ano Francisco –


 


E só


Ouvia-lhe durante a noite


Estou só


Dizia-me ele


Estou só e só vou atravessar estas paredes de luz

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