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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


04.11.23

Ao longe o som da lareira

Abraçada aos barcos da minha infância mimada

Flautas de néon melodiam o teu olhar

Ao longe o sorriso da ribeira

Que não se cansa da madrugada

E corre sempre para o mar

 

Ao longe o teu cabelo em silêncio vento

Insónia noite ao despertar

Como as flores da Primavera adormecida

Ao longe o faminto alimento

Que o homem procura num pincelado olhar

Ao longe a luz prometida

 

Aos barcos da minha infância mimada

Ao longe as cubatas envenenadas pelo capim

Que a tarde construía em volta do musseque zincado

Ao longe o teu peito em tardes animadas…

Trazendo os cheiros do jardim

Quando o vento é apenas um sonho sonhado

 

 

 

04/11/2023


30.10.23

Ofereço-te esta flor

Que aos poucos acorda neste poema

Ofereço-te esta flor

Sabendo que na planície acorda o cacimbo

E o cheiro do capim

Poisa na minha mão.

 

Brinco contigo

Pequenino charco de lama e saudade…

Que às vezes salta para cima do zincado telhado do musseque…

Aos poucos me afasto

Aos poucos escondo esta flor

Para te a oferecer,

Quando acordar a manhã,

E depois de um beijo no teu ombro,

Poiso-a docemente nos teus lábios.

 

Oferece-to esta flor

Logo que termine o poema

Como se os meus poemas tenham um fim,

Começo, e morte.

Como se os meus poemas

Fossem um pedacinho de terra fértil

Em pequenos sorrisos depois das chuvas.

Ofereço-te esta flor

Que aos poucos acorda neste poema

Ofereço-te esta flor

Sabendo que na planície acorda o cacimbo

E o cheiro do capim

Poisa na minha mão…

E ao longe, aceno ao Mussulo.

 

 

30/10/2023


06.02.22

Voávamos entre a sombra do desejo e o beijo adormecido. Tínhamos dentro do corpo o silêncio que a noite depositou junto à praia das areias brancas. Ouvíamos o uivo dos lobos que regressavam da montanha, olhavam-nos e sentavam-se junto a nós.

Pegava num pequeno livro de poesia e lia-lhes poemas dispersos, diga-se, apenas os lobos a percebiam. Puxava de um cigarro embrulhado em solidão e, permitindo aos olhos alguma lubrificação, pequenas lágrimas de incenso se despregavam do rosto e acabavam por morrer no pavimento íngreme da eira.

Estava sol. Dentro dela, sem o saber, crescia um pedacinho de ninguém, uma coisa de milímetros, como se fosse apenas mais um poema. Havia gaivotas à nossa volta, num dos retractos, aparecia uma nuvem de pura lã virgem, que em pequeníssimos círculos, se dirigia para o mar. Talvez depois de acordar, esse minúsculo ser fosse apenas um fio de nylon esquecido num qualquer sonho, de uma qualquer manhã, sem remetente.

Desciam os pássaros o musseque. Uma Bedford amarela, puxada por um pequeno cordel, inventava ruelas e caminhos térreos, logo que depois, aparecia o velho Alberto e, nunca dando o ar da sua graça, lamentava-se da poeira causada pela mesma. O sonho, condutor da dita Bedford amarela, nunca se cansava do árduo trabalho, e de vez em quando, num pequeno caderninho, apontava cada silêncio que lhe aparecesse pelo caminho.

Eram chuvas sem medida.

Chegava a casa e, sobre um pedaço de ferro e zinco, um menino esperava-o; e todos os dias, ao final do dia, o menino recebia o prometido beijo, diga-se que, nunca era igual; o de ontem não é igual ao de hoje e, o de hoje jamais será igual ao de amanhã. Há quem lhe chame de amor, mas o menino, chamava aos beijos de: pedacinhos de insónia, camuflada pelo perfume das acácias.

Pela manhã, erguiam-se todos os pássaros e acordavam todas as flores, dos pequenos charcos que restavam da tempestade anterior, poucos ou nenhuns já existiam; quase todos eles, mortos.

Voávamos entre a sombra do desejo e o beijo adormecido e, acreditávamos que o dia seguinte, aquele que ainda não existia, certamente ia ser melhor do dia que estava prestes a terminar. E assim, aprendi a enganar os dias, e ainda hoje o faço, até que um punhado de flores tombem sobre o meu corpo e, uma gaivota voe em direcção ao mar.

Eis o teu retracto.

Eis a tua morada.

Porque eram chuvas sem medida.

 

 

 

Alijó, 06/02/2022

Francisco Luís Fontinha


03.02.22

Uma sílaba de silêncio desce a calçada, do outro lado da rua, em frente ao mar, dorme a saudade abraçada aos peixes inventados por um miúdo, apenas retractei os descosidos calções, porque quanto à restante vestimenta, nada mais a acrescentar, talvez uns sapatos rotos ou uma camisa descolorida, que para quem como eu, não sabe as cores, é indiferente.

Quando eu tinha a idade deste miúdo, construí um pássaro em cartão prensado. Passei três dias e três noites debaixo de uma mangueira, árduo trabalho para uma criança da minha idade e, depois de pronto, libertei-o; ao contrário de Ícaro, a minha obra de arte nem sequer conseguiu atravessar o musseque, despenhando-se junto a um pequeno charco de saudade. Mais tarde, percebi que precisava de aulas de Física, Matemática e Aerodinâmica.

Hoje, passo os dias a desenhar pássaros num pequeno caderno adquirido em Paris, no Louvre. Os pássaros são poemas envenenados pela tempestade, são pequenos silêncios na madrugada, mesmo assim, sabendo que após os ter desenhado eles levantam-se e vão para muito longe, é um dos meus prazeres; dar vida a rabiscos.

Deitava-me sobre a terra húmida. Olhava as estrelas e não percebia que o Universo é infinito, ou talvez não o seja, ou talvez quase finito, mas sabia que os pássaros que hoje desenho e as estrelas que olhava em menino, dormiam juntos.

Da terra, aos poucos, começaram a emergir pequenas bolas de fogo. Os meus pássaros, os primeiros que desenhei, começaram a voar em direcção ao mar. Fui ao galinheiro e libertei todas as pombas e galinhas, acabando por salvá-los da fogueira enviada por Deus: os pássaros, esses, arderam um pouco mais tarde. Cinzas que ainda hoje brincam nas ruas de uma cidade morta, desejosa por que acorde a madrugada.

Um dia acordará a madrugada e os meus pássaros serão livres como as flores que a minha mãe tinha no jardim. Como todos nós, deveríamos ser livres.

Ao pássaro que acabei de desenhar, vou apelidá-lo de “menino dos calções”.

 

 

 

Alijó, 03/02/2022

Francisco Luís Fontinha


12.11.17

Acusais-me de tudo e de nada.


Acusais-me da chuva e do sol,


Das províncias desgovernadas,


Dos socalcos inanimados,


Tristes…


Cansados.


 


Acusais-me do cansaço,


De ser o menino dos papagaios


E das estrelas em sombreados tentáculos,


Acusais-me de o mar não regressar…


 


E de matar.


Acusais-me do eterno ventrículo agachado no musseque,


Das palmeiras envenenadas pelo silêncio,


Acusais-me das palavras gastas,


Tontas,


Nas paredes da solidão.


 


Acusais-me de tudo e de nada.


Acusais-me do medo,


Da morte em segredo,


Acusais-me do sofrimento


Nas montanhas solidificas dos livros


E dos momentos passados na escuridão de um velho bar.


 


Acusais-me da dor,


Das metástases ensanguentadas de um corpo em delírio…


Acusais-me de nada,


De tudo,


Até da triste madrugada…


Que a sombra alimenta.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 12 de Novembro de 2017


16.04.16

túbia dos lábios em cromados beijos


a fúria da tempestade alimentando o desejo


que se perde num olhar


não vejo o silêncio


não sinto o mar,


túbia do cansaço alicerçado à escuridão


um simples gesto


um simples poema


túbia do deserto quando a noite morta


invade a solidão dos musseques floridos


túbia da morte em circunferências loucas


finge-se a sorte


das planícies do medo


arrebata-se a sombra sobre os cadáveres do degredo


entre rochedos


e penedos


que apenas a ondulação da insónia sabe abraçar,


túbia meu do alimento proibido


que travestido de Inverno viaja de cidade em cidade


túbia sentido as pálpebras quebradas


do triste sino


das lamentáveis madrugadas.


 


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 16 de Abril de 2016


07.04.16

Na longitude do amor


Desenho a cabana do sofrimento


A saudade regressa do infinito ausente musseque


Procuro os pequenos charcos da infância na algibeira do tempo


Queria ser gente


Correr


Saltar


Brincar no teu olhar como brincavam as gaivotas sobre o meu cabelo


Habitar nas tuas mãos com que afagas o meu olhar


Sentar-me nos jardins inventados pela escuridão da paixão


A solidão vive


Absorve-me como absorve as tempestades


O silêncio do medo agarrado ao meu corpo sonolento


Os meus ossos ficam colados no espelho dos tristes dias ausentado


Como uma fotografia sem ninguém


Cubro-me pela madrugada em construção


Sonho


Vivo sonhando com papagaios em papel


Imagino-me no parapeito de uma janela gradeada pelas sombras do abismo


O amor morre


Morre como morrem os fantasmas do amanhecer antes de ir para a escola


Sou um marinheiro desempregado


Passo os dias junto ao mar na ânsia que alguém me venha procurar


E novamente saltito nos charcos dos musseques de zinco


O medo


O medo de não regressar nunca


Às palmeiras de cartão


 


 


Francisco Luís Fontinha


quinta-feira, 7 de Abril de 2016

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