Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


06.02.22

Voávamos entre a sombra do desejo e o beijo adormecido. Tínhamos dentro do corpo o silêncio que a noite depositou junto à praia das areias brancas. Ouvíamos o uivo dos lobos que regressavam da montanha, olhavam-nos e sentavam-se junto a nós.

Pegava num pequeno livro de poesia e lia-lhes poemas dispersos, diga-se, apenas os lobos a percebiam. Puxava de um cigarro embrulhado em solidão e, permitindo aos olhos alguma lubrificação, pequenas lágrimas de incenso se despregavam do rosto e acabavam por morrer no pavimento íngreme da eira.

Estava sol. Dentro dela, sem o saber, crescia um pedacinho de ninguém, uma coisa de milímetros, como se fosse apenas mais um poema. Havia gaivotas à nossa volta, num dos retractos, aparecia uma nuvem de pura lã virgem, que em pequeníssimos círculos, se dirigia para o mar. Talvez depois de acordar, esse minúsculo ser fosse apenas um fio de nylon esquecido num qualquer sonho, de uma qualquer manhã, sem remetente.

Desciam os pássaros o musseque. Uma Bedford amarela, puxada por um pequeno cordel, inventava ruelas e caminhos térreos, logo que depois, aparecia o velho Alberto e, nunca dando o ar da sua graça, lamentava-se da poeira causada pela mesma. O sonho, condutor da dita Bedford amarela, nunca se cansava do árduo trabalho, e de vez em quando, num pequeno caderninho, apontava cada silêncio que lhe aparecesse pelo caminho.

Eram chuvas sem medida.

Chegava a casa e, sobre um pedaço de ferro e zinco, um menino esperava-o; e todos os dias, ao final do dia, o menino recebia o prometido beijo, diga-se que, nunca era igual; o de ontem não é igual ao de hoje e, o de hoje jamais será igual ao de amanhã. Há quem lhe chame de amor, mas o menino, chamava aos beijos de: pedacinhos de insónia, camuflada pelo perfume das acácias.

Pela manhã, erguiam-se todos os pássaros e acordavam todas as flores, dos pequenos charcos que restavam da tempestade anterior, poucos ou nenhuns já existiam; quase todos eles, mortos.

Voávamos entre a sombra do desejo e o beijo adormecido e, acreditávamos que o dia seguinte, aquele que ainda não existia, certamente ia ser melhor do dia que estava prestes a terminar. E assim, aprendi a enganar os dias, e ainda hoje o faço, até que um punhado de flores tombem sobre o meu corpo e, uma gaivota voe em direcção ao mar.

Eis o teu retracto.

Eis a tua morada.

Porque eram chuvas sem medida.

 

 

 

Alijó, 06/02/2022

Francisco Luís Fontinha


03.02.22

Uma sílaba de silêncio desce a calçada, do outro lado da rua, em frente ao mar, dorme a saudade abraçada aos peixes inventados por um miúdo, apenas retractei os descosidos calções, porque quanto à restante vestimenta, nada mais a acrescentar, talvez uns sapatos rotos ou uma camisa descolorida, que para quem como eu, não sabe as cores, é indiferente.

Quando eu tinha a idade deste miúdo, construí um pássaro em cartão prensado. Passei três dias e três noites debaixo de uma mangueira, árduo trabalho para uma criança da minha idade e, depois de pronto, libertei-o; ao contrário de Ícaro, a minha obra de arte nem sequer conseguiu atravessar o musseque, despenhando-se junto a um pequeno charco de saudade. Mais tarde, percebi que precisava de aulas de Física, Matemática e Aerodinâmica.

Hoje, passo os dias a desenhar pássaros num pequeno caderno adquirido em Paris, no Louvre. Os pássaros são poemas envenenados pela tempestade, são pequenos silêncios na madrugada, mesmo assim, sabendo que após os ter desenhado eles levantam-se e vão para muito longe, é um dos meus prazeres; dar vida a rabiscos.

Deitava-me sobre a terra húmida. Olhava as estrelas e não percebia que o Universo é infinito, ou talvez não o seja, ou talvez quase finito, mas sabia que os pássaros que hoje desenho e as estrelas que olhava em menino, dormiam juntos.

Da terra, aos poucos, começaram a emergir pequenas bolas de fogo. Os meus pássaros, os primeiros que desenhei, começaram a voar em direcção ao mar. Fui ao galinheiro e libertei todas as pombas e galinhas, acabando por salvá-los da fogueira enviada por Deus: os pássaros, esses, arderam um pouco mais tarde. Cinzas que ainda hoje brincam nas ruas de uma cidade morta, desejosa por que acorde a madrugada.

Um dia acordará a madrugada e os meus pássaros serão livres como as flores que a minha mãe tinha no jardim. Como todos nós, deveríamos ser livres.

Ao pássaro que acabei de desenhar, vou apelidá-lo de “menino dos calções”.

 

 

 

Alijó, 03/02/2022

Francisco Luís Fontinha


12.11.17

Acusais-me de tudo e de nada.


Acusais-me da chuva e do sol,


Das províncias desgovernadas,


Dos socalcos inanimados,


Tristes…


Cansados.


 


Acusais-me do cansaço,


De ser o menino dos papagaios


E das estrelas em sombreados tentáculos,


Acusais-me de o mar não regressar…


 


E de matar.


Acusais-me do eterno ventrículo agachado no musseque,


Das palmeiras envenenadas pelo silêncio,


Acusais-me das palavras gastas,


Tontas,


Nas paredes da solidão.


 


Acusais-me de tudo e de nada.


Acusais-me do medo,


Da morte em segredo,


Acusais-me do sofrimento


Nas montanhas solidificas dos livros


E dos momentos passados na escuridão de um velho bar.


 


Acusais-me da dor,


Das metástases ensanguentadas de um corpo em delírio…


Acusais-me de nada,


De tudo,


Até da triste madrugada…


Que a sombra alimenta.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 12 de Novembro de 2017


16.04.16

túbia dos lábios em cromados beijos


a fúria da tempestade alimentando o desejo


que se perde num olhar


não vejo o silêncio


não sinto o mar,


túbia do cansaço alicerçado à escuridão


um simples gesto


um simples poema


túbia do deserto quando a noite morta


invade a solidão dos musseques floridos


túbia da morte em circunferências loucas


finge-se a sorte


das planícies do medo


arrebata-se a sombra sobre os cadáveres do degredo


entre rochedos


e penedos


que apenas a ondulação da insónia sabe abraçar,


túbia meu do alimento proibido


que travestido de Inverno viaja de cidade em cidade


túbia sentido as pálpebras quebradas


do triste sino


das lamentáveis madrugadas.


 


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 16 de Abril de 2016


07.04.16

Na longitude do amor


Desenho a cabana do sofrimento


A saudade regressa do infinito ausente musseque


Procuro os pequenos charcos da infância na algibeira do tempo


Queria ser gente


Correr


Saltar


Brincar no teu olhar como brincavam as gaivotas sobre o meu cabelo


Habitar nas tuas mãos com que afagas o meu olhar


Sentar-me nos jardins inventados pela escuridão da paixão


A solidão vive


Absorve-me como absorve as tempestades


O silêncio do medo agarrado ao meu corpo sonolento


Os meus ossos ficam colados no espelho dos tristes dias ausentado


Como uma fotografia sem ninguém


Cubro-me pela madrugada em construção


Sonho


Vivo sonhando com papagaios em papel


Imagino-me no parapeito de uma janela gradeada pelas sombras do abismo


O amor morre


Morre como morrem os fantasmas do amanhecer antes de ir para a escola


Sou um marinheiro desempregado


Passo os dias junto ao mar na ânsia que alguém me venha procurar


E novamente saltito nos charcos dos musseques de zinco


O medo


O medo de não regressar nunca


Às palmeiras de cartão


 


 


Francisco Luís Fontinha


quinta-feira, 7 de Abril de 2016


25.03.16

a felugem do corpo


no alfabeto secreto da paixão


as múltiplas palavras ensanguentadas


no deserto coração


as madrugadas invisíveis


estas que o são


e não regressam à minha mão


nunca mais


a felugem do corpo


descendo as ruas íngremes da cidade


o feitio estranho da cegonha vaidade


quando a saudade


poisa no ombro do beijo


os lábios amargos do musseque no abismo desejo


sem destino


este menino


sem cartas de amor


este remetente ausentado


 


Francisco Luís Fontinha


sexta-feira, 25 de Março de 2016


14.11.15

este rio de sangue


em direcção ao musseque da esperança


o cacimbo envergonhado na solidão


o triste amanhecer esperando nas mãos da manhã


um novo dia a acordar


novas palavras prontas para a vida


um livro sobre a secretária no silêncio a arder


nos teus lábios


junto ao mar


um barco amarrado aos teus braços


neste rio de sangue…


… impossível de zarpar


Sonhar


E crescer


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


sábado, 14 de Novembro de 2015


01.11.15

A morte das palavras num qualquer musseque da insónia, as cinzas dos poemas disfarçadas de sanzala sem dono, destino ou incómodo de sobreviver à pobreza, o exilado texto além-fronteiras, os gritos, os gemidos da noite entre siderais e abstractos retractos e o espelho do quarto, depois vem o amor, depois vem a paixão, e nada mais do que isso


Ou morte, de ti, às primeiras horas da madrugada,


Odeio a noite, e nada mais do que isso nos nossos corpos, a distância das palavras, mortas, numa lápide de saudade e o eterno amor, depois, ele, partiu para as incandescentes ruelas do inferno, embrulhou-se nos lábios do sofrimento, tombou no pavimento


O espelho, cansado desta imagem prateada,


Tombou no pavimento como se fosse uma abelha a ancorar à colmeia do sexo, o orgasmo poético, a ejaculação da prosa em pequeníssimas lâminas de esperma, e eu… sofrendo com a tua ausência programada, hoje, acordei acreditando que estavas vivo, entre mim e em mim, olhei-te, perguntei por ti


E o espelho fantasiado de vergonha, a alvorada não nasce, o dia promete ser uma abstracta palavra, mota,


Perguntei por ti, ouvia-te longinquamente sobre as árvores do nosso jardim, e os pássaros poisados na nossa sanzala, o álbum de fotografias dos teus ossos, e percebi que brincavas entre mabecos e gaivotas embalsamadas pela tristeza,


Palavra, morta, ninguém à nossa porta,


Pela tristeza e pelo silêncio… marchar, marchar…


Fui, desisti…


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 1 de Novembro de 2015


20.10.15

O inferno estava próximo, do corredor entranhava-se no meu corpo o cheiro a enxofre e a gajas nuas,


Menos tabaco nesses cigarros…, gajas no inferno?


E canteiros recheados de malmequeres, crisântemos e orquídeas selvagens, imperfeito, o vidro estilhaçava-se, ficou sem cabeça, ficou sem coração, e ficou com o medo misturado nos óbitos grãos de areia, ainda hoje acredito que um objecto depois de crucificado… permaneça o mesmo objecto, mas com formas e cheiros e desenhos…


Menos tabaco, amigo, menos tabaco,


Diferentes, tornam-se ausentes, tornam-se miúdos brincando no musseque, os charcos, o capim descendo a rabina, o miúdo do bibe acreditava na liberdade, e é tão difícil ser-se livre nesse País, tão difícil meu pai, tu sabes


Menos tabaco, menos,


Tu sabes que vivi encerrado entre quatro paredes invisíveis, tu sabes que vivi entre três janelas sem vista para o mar, mas sentia-o no meu quarto,


Lembras-te, filho? Os Domingos junto ao Porto e os barcos pareciam cancelas suspensas na madrugada, lembras-te, filho? Os Coqueiros, as gaivotas comendo os Coqueiros, e tudo apenas imagens a preto e branco do meu imaginário, porque, meu filho


Sim, pai?


Lembras-te do Mussulo?


Sim, pai, sim… a areia recheada de lençóis brancos, a poeira do cansaço vomitando languidas lâminas de azoto, e depois, e depois regressava a noite, dormias, sonhavas, gritavas… e eu, eu sem dormir, comer,


Ao longe, meu amigo, ao longe o inferno, as gajas, as nuas gajas junto à porta do inferno,


Louco, menos tabaco nesses cigarros, menos,


Ao longe a agonia do fim de tarde agachado em cima de um telhado em zinco abraçado a um livro, não sabia ler ainda, mas lia-o, absorvia-o, como hoje o faço, e não sabia ler ainda,


E tu, pai, e tu emprestavas-me os teus livros, e eu, eu dilacerava-me com o cheiro do papel, com as letras, com as imagens, com as tuas palavras “estes livros não são para a tua idade” como se houvesse idade para se manusear e cheirar e “foder” um livro… vigava-me, riscava-os, tal como as paredes do corredor, riscos, riscos, um livro entre gemidos, um livro em pleno orgasmo… Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…


Desaparecem todas as palavras, o inferno estava próximo, do corredor entranhava-se no meu corpo o cheiro a enxofre e a gajas nuas, pensei (estou em cais do Sodré) não, não estava, nunca lá estive e nego-o, absolutamente,


Menos tabacos nesses cigarros, menos


Aproximava-me, lentamente a minha verticalidade diminuía, sentia-me um miúdo de bibe gritando, berrando, “fodendo” livros com uma caneta de tinta permanente, e nada, até hoje, nada, morreu ele, morri eu, morremos todos.


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 20 de Outubro de 2015


12.03.15

ausento-me deliberadamente das sombras envergonhadas


que habitam os socalcos da saudade


sou um ninho de cacos


e pequenas películas de silêncio


pela madrugada


oiço a tua voz aprisionada nas frestas deste cubículo


há entre nós um espelho cansado


e triste


ausento-me dos teus lábios


e perco-me nas palavras sem nome


como as ruas da tua cidade


ou da tua aldeia


 


o musseque


fervilha


transpira poesia


e o teu cabelo suspenso numa fotografia


tão distante


o mar


e as marés de sono


que me embrulhavam


hoje


não mar


não sono


nada


 


amar


amar


amar as flores e os desenhos embalsamados


correr montanha abaixo


deitar-me sobre ti


apenas


o peso das nuvens pinceladas de alfazema


a aceleração


acorrentada a uma equação


a física


a matemática


e... e amar


 


nada


os separa


os fios de sémen perdidos no cacimbo


o cachimbo em brasa


lúcido


de braços abertos


e abraça-me


e beija-me


como se beijam todos os livros


folheados


e no entanto


ausento-me deliberadamente das sombras envergonhadas...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 12 de Março de 2015

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub