Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


01.04.17

Os mares envergonhados da solidão


Que caminham durante a noite nos meus braços cansados,


Sinto no corpo as cancelas imaginárias da saudade


Como um sonâmbulo tresloucado,


Inferioridade minha das terras envenenadas


Da terra queimada,


Hoje, nada tenho para te oferecer,


Nem palavras,


Nem… nem amanhecer,


Os mares envergonhados…


Que as canibais laranjas deixam ficar nos teus lábios


E do sumo apedrejado pela loucura


Regressam as sonolências viagens sem destino…


Tenho no corpo o peso doirado da lua


Que alimentam as minhas mãos


Do silêncio vergado pelas pedras da paixão,


Não preciso da tua boca,


Dos teus beijos,


Das… das tuas palavras vãs…


Queria ter no peito o sol amargurado das ribeiras clandestinas


Que descem os socalcos do sono,


Envergar na lapela as sombras tumultuosas que poisam na minha janela,


Os pássaros destinos das árvores enganadas por mim,


Os papéis secretos do voo frenético e engasgado das gaivotas libertinas,


Às vezes tenho medo,


Às vezes pareço um menino aprisionado no cais da esperança,


Abraço-te imaginariamente como um louco veleiro encalhado na sombra inocente do esplendor amigo da rua sem nome…


Os vidros em cacos escorregam pelo meu corpo de pedra lascada


E suicido-me quando cai a noite em ti,


Meu amor, em ti…


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 1 de Abril de 2017


06.08.16

descem a ribeira


os olhos do teu prazer


trazem na mão a tristeza


e o mar a arder


sinto o palpitar do meu coração


numa simples gota de suor…


deitada nas sombras dos aciprestes


descem a ribeira


as montanhas desertas


cansadas de viver…


que este corpo desenhou


nas palavras de escrever


descem a ribeira


os trilhos pedestres


dos abutres desgovernados


tristes


apavorados…


pela solidão da tempestade.


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 6 de Agosto de 2016


23.09.15

desenho_22_09_2015.jpg


(Fontinha – Setembro/2015)


 


As ruas sempre desertas,


As palavras ensonadas,


Na minha mão entre pássaros e sombras cansadas,


O peso do meu esqueleto procurando imagens sem nome,


O livro sobre a secretária com fome…


Quase que me come,


E eu, e eu tenho de me esconder nos teus braços silenciosos,


Como faz o luar quando foge para a montanha da saudade,


Vivo nesta cidade


Confundida com as estrelas e os rochedos da insónia,


Desço as escadas do sonho


E percebo que as ruas são túneis assombrados sem clarabóias para o mar…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 23 de Setembro de 2015


15.07.15

Escorrem no teu rosto


Todas as sombras das montanhas inanimadas,


Pego-te docemente


Como se fosses uma criança em tardes de brincadeira,


O colorido papagaio em papel,


O avião em cartão…


Sem local onde poisar,


Um dia coloquei o meu cigarro à janela,


Ardia enquanto as nuvens do silêncio


Argamassavam-se no teu peito,


Fugi,


Cerrei os olhos,


 


Sentei-me


E esperei que regressassem as paixões de iões


Que só tu conheces,


E falas,


E conversas…


Como se eles fossem uma raiz envenenada


Pelos insectos da madrugada,


Sem vida,


Sem uma cidade para deixares o jardim da tua infância,


Um nome,


Morada…


Ou lápide com asas.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 15 de Julho de 2015


09.04.15

O texto reflectido no espelho da saudade


Subíamos ao cimo da montanha


Perdidos


Saltávamos as pedras e os vultos


Que alimentavam a montanha


A luz iluminava-nos


E ficávamos transparentes


Como a água


Que descia os socalcos do desejo


Tínhamos a noite


Habitada pelo medo


A separação ambígua do silêncio


As armas apontadas aos teus olhos


A caneta em fúria


Disparando palavras


Que só a tua pele conseguia absorver


Não havia entre nós


Muros


Sanzalas de areia


Mar


Caixotes em madeira


O barco


Deslizava nos teus seios de orquídea selvagem


Dormíamos nas campânulas da solidão


Dizíamos que um dia


Um electrão


Apareceria nas nossas mãos


Nem protão


Nem…


O barco


Ferrado no sono da madrugada


Acorrentado às trincheiras da paixão


Que pela manhã


Acordava


Acordavas


Eu acordava


Ele acordava


E não dávamos conta


Que o dia tinha terminado


A morte dos fantasmas


Na sala crucificada pela ausência


A minha


Tua


Os pesadelos viajavam de cidade em cidade


A bagagem secreta dos lábios de prata


Escondida numa ribeira abandonada


A carta


Não regressava


E havia no teu corpo sílabas de chocolate


Inventando homens e mulheres


Brincando no jardim junto ao rio


Nunca percebi o mecanismo dos relógios


E dos aceleradores de partículas


Nunca percebi que amar…


Não percebo


Não sei


O significado das palavras


E dos livros


Sobre a mesa-de-cabeceira


Em lágrimas de crocodilo…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 9 de Abril de 2015


20.03.15

Esta casa em alvorada sinfonia


o som das palavras contra os cubos de xisto


que habitam as montanhas da insónia


o sono


em suspenso


GREVE


hoje


em alvorada sinfonia


esta casa


velha


desabitada


triste e cansada...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 20 de Março de 2015


09.01.15



(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


tento mergulhar nos teus braços


como se eu fosse um deserto esquecido no mapa


como se eu fosse um cubo de areia


ou... ou uma rua sem nome


na cidade que incendeia


e come


as palavras da liberdade


as palavras da madrugada,


o fumo constrói nos meus lábios montanhas de neve


e fios de gelo


lâmpadas de silêncio


e medo...


e tento


tento mergulhar nos teus braços


como uma criança faminta


uma árvore encaixotada


que o Oceano transportou


e perdeu...


num qualquer porto


numa qualquer baía,


e eu


eu não sabia


que os teus braços são de porcelana


que o teu corpo são socalcos olhando o rio...


e poisa na minha cama


em cio.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira. 9 de Janeiro de 2015



06.12.14

Há feridas invisíveis no teu sorriso


que nem o espelho da saudade consegue desenhar,


pareces uma fotografia embalsamada,


sem alma...


esquecida num qualquer lugar,


há feridas invisíveis...


e crateras de espuma


que só as tuas pálpebras alicerçam às meticulosas palavras sem destino,


 


em ti o menino vestido de preia-mar


que corre e correr... e corre sem se cansar,


em ti e de ti...


as feridas entristecidas dos biombos nocturnos da vaidade,


 


esta cidade,


o teu corpo vagueando no sexo da paixão


como um cadáver enraivecido... fundeado no rio sombreado pelo incenso...


uma carta sem destino que te bate à porta,


um carro preguiçoso em tristes aventuras,


há feridas invisíveis no teu sorriso


que os cigarros da despedida alimentam,


mas... mas no teu olhar cessaram as lágrimas de chocolate,


 


em ti


e de ti...


 


a mentira do silêncio embrulhada na portaria


de pequeníssimos fios de luz,


o teu livro preferido que arde... enquanto se extingue o dia,


dentro dos teus seios,


 


em ti


e de ti...


 


o cansaço abstracto das montanhas de papel,


os rochedos envenenados pela noite dos marinheiros


e que tu não entendes os seus medos


e inquietações,


não me ouves... porque a minha voz pertence ao cacimbo


e do cacimbo emerge como uma lâmina de sangue,


em veias de nylon


ao deitar.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 6 de Dezembro de 2014


08.07.14

Esta tenaz vagarosa mergulhada nas minhas palavras,


da lareira do silêncio, oiço as moléculas transparentes do amor,


sufocam-me, alimentam-se do meu cansaço,


o cansaço de escrever,


o cansaço das palavras,


 


A lanterna do teu olhar, cega-me, transforma os meus olhos em pedaços de papel,


e nele... escrevo as palavras que ninguém... que ninguém lê...


 


Não sou capaz de desistir,


partir para outros Oceanos, mais calmos, tranquilos... como os teus braços,


há sempre um espelho que transporta o meu rosto para o futuro...


envelheço, e sento-me num abandonado banco de jardim com uma concertina na mão,


e dela sinto em mim as recordações das tempestades voluptuosas...


 


Não há um fim, apenas o passar de uma parede negra... para uma outra, a curta distância...


uma parede castanha, alvenaria com cicatrizes comestíveis,


flores,


tenho as flores que sobejaram do jardim ardido na lareira do silêncio...


e deixei de ter o pavimento térreo que me acompanhava nas horas indolores do meu pulso,


 


A lanterna do teu olhar, cega-me, transforma os meus olhos em pedaços de papel,


e nele... escrevo as palavras que ninguém... que ninguém lê...


 


E ninguém quer...


 


Esta tenaz vestida de forca,


embrulhada numa túnica branca,


há uma porta dos fundo que me serve de escapatória...


um ponto de fuga, um simples ponto triste, um ponto tridimensional esquecido na solidão,


e ninguém quer...


 


Que... que a clarabóia das lágrimas ressuscite da montanha!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 8 de Julho de 2014


02.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Fui ver o oceano mar


que o inverno coração tece nas montanhas da paixão


levitei sobre as rochas cansadas de uma madrugada doente


e demente flor em procissão no corpo teu das estrelas com sabor a chocolate


fui ver... e permaneci em tempos têmporas adormecidas dos cascos violentos...


tempestades e tormentos e nas mãos tuas as delinquentes barcaças dos tecidos velas,


 


Será do teu corpo que acorda a fome em palavras dispersas e vãs


que das teias de aranha silêncios meus porque tenho lábios de areia


e boca de caverna sem esconderijo ou amor ou amar dos versos embriagados


fui e desejo não regressar às antigas ruas dos candeeiros dispersos


como as minhas folhas transparentes de pergaminho voando sobre plátanos


e corpos nus brincando numa praia imaginária,


 


Há beijos vendidos por duas ou apenas três perversas rimas


beijos cansaços como velhos farrapos de barcos aços


guindastes e seios de xisto embalsamado que suspendem-se nos socalcos da loucura


grito e rio sorrisos que o Douro entranha


teu ventre uma penúria montanha


cabisbaixo o púbis fingindo ventos que me levam às cidades de granito...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub