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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


20.06.20

Não tenho pressa de caminhar.

Não tenho na mão a pedra filosofal.

Não. Não percebo este rio a chorar.

Quando o cansaço laminado da manhã, sofre, vomita as palavras de Inverno.

Não tenho nos livros as tuas mãos quando o amanhecer acorda,

Não sei quantas pedras, hoje, tenho para atirar à tua sombra.

Não tenho a madrugada para chorar.

Não tenho as lágrimas para desenhar,

No chão abandonado pelo silêncio.

Não tenho a noite para dormir.

Não tenho o dia para sorrir.

Não. Não sei se hoje é dia para correr,

Chorar,

Ou morrer.

Não tenho as letras do teu sorriso,

Quando o sol ilumina os candeeiros do sofrimento.

Não tenho as imagens do mar,

Salvado pelo amanhecer.

Não tenho as sandálias dos pequenos alicerces da cidade dos Deuses.

Não. Não tenho pressa de caminhar.

Não me digam que hoje posso subir à montanha da despedida.

Não o vou fazer.

Porque hoje,

Hoje não tenho tempo para morrer.

Hoje não é o tempo da partida.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

20/06/2020


26.01.20

As árvores deste jardim cansado,


Onde adormece o silêncio das palavras assassinadas por mim,


Há um luar desiludido,


Que grita às planícies do alecrim,


O poema desejado,


Entre versos e ossos embalsamados,


Vem a esta casa, o miúdo perdido,


Das montanhas húmidas,


A voz que alicerça a fome,


A rua que limita o olhar,


Sem nome,


Sem mar,


As árvores distintas dos pássaros, o medo de dormir,


Numa cama de pétalas encarnadas,


Nas veias, o orgasmo do cobalto,


A madeira envernizada,


Porque as lágrimas,


No rosto se perdem,


E fogem para o triste adormecer,


O vulcão quase a vomitar palavras de nada,


Sempre em alerta, sempre abandonada,


A casa,


O ódio madrugada da vida,


Entre correr,


Entre morrer,


Simples, assim,


Simples, simples, nada esquecer.


O mendigo que corre na calçada,


Desejado por uns, amaldiçoado pela namorada,


Escreve-me,


Oiço-o,


Na alvorada.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


26/01/2020


18.03.19

Entre as mulheres, o crucifixo da paixão,


As sílabas na rebelde tarde poeirenta,


Esperando o regresso do rio Doirado.


As palavras milagrosas, nas mãos do peregrino,


As lágrimas, tenebrosas,


No rosto do pobre menino…


Escrevo-te esta canção,


No papel pardo, que alimenta,


E respira,


O meu corpo cansado.


E, o vento me atira,


Todas as pedras da montanha,


Ninguém me apanha na escuridão…


Sofro, a morte aparece suspensa nas paredes da aldeia,


Tenho uma ideia,


Um dia, um dia deitar-me no chão,


E sonhar-te enquanto caminhas em direcção ao mar.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 18/03/2019


26.05.18

A colmeia de ossos perdida na montanha,


As flores florescentes que iluminam a noite,


E escrevem no meu corpo o poema,


Palavras,


Malditas palavras na boca do inferno,


A ribeira, simples lareira junto ao mar,


Descem as caravelas,


Sobem os braços dos náufragos,


Marinheiros dos esqueletos putrificados,


As candeias nocturnas do Adeus,


O amor,


Amo-te?


Nunca o saberei,


O que é o amor?


Uma vaca que voa…


Ao cair a noite!


O papel amarrotado do teu olhar,


Quando as estrelas se suicidam nos teus lábios,


Nunca amarei uma pedra…


Quando ela me abraça,


Beija…


Nas sombras dos holofotes de néon,


O dia límpido,


A neblina dos teus seios iluminados na floresta,


Ouves-me?


Amas-me?


Como uma pedra,


Descalça,


Sem palavras,


Ao final da tarde.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 26 de Maio de 2018


17.03.18

Este Sábado bafiento,


Perdido no ciúme da madrugada, presente no ausente,


Como uma ponte em cimento,


Latente,


O cheiro do teu cabelo numa esplanada de Verão,


O cigarro aceso, que tão mal faz ao coração,


Dizem eles, os médicos,


Mas eu não acredito,


Sendo iletrado,


Sou também um homem apaixonado,


Terno, lento,


Lanço este grito,


Quando o rio adormece na tua mão,


Tão lindas, as flores, meu amor,


Quando o poeta escreve a canção,


O dia, término cansaço da rua deserta,


Porta encerrada, porta aberta,


O carteiro traz-me a carta, a tua carta lacrada,


No marfim encarcerada,


Os beijos, as lanternas dos beijos emancipados,


Quando os corpos lançados,


Ao mar,


Um sopro de vento entra pela janela,


Encerrada,


Aberta,


Sem ninguém, ausente serpente do amar…


Tão bela,


E de lábios a palpitar,


Oiço o mar no teu corpo de limão,


Esqueleto camuflado pelas lâmpadas do anoitecer,


Sem querer,


Vou ao teu encontro, abraço-te e recordo a montanha,


Uma criança em fuga,


Que ninguém a apanha,


É isto o meu viver?


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 17 de Março de 2018


06.10.17

O vento emagrece os ossos pincelados na Ressonância Magnética, a chuva miudinha alicerça-se-lhe no cabelo prateado do Outono, aos poucos caem as folhas no pavimento térreo das lágrimas invisíveis, aconchega-se contra o espelho suspenso há anos no quarto, e vê a fotografia de um condenado à morte, sofre, chora… e brinca com as pétalas das drageias que lhe envenenam o corpo, os ossos partem-se como veleiros à deriva no Oceano sem nome, sempre só, ele deita-se na cama desengomada e dorme ao sabor da tempestade encarnada, vomita as palavras nocturnas que lhe correm nas veias, e para assassinar o tempo vai até à casa de banho fumar um cigarro,
Escreve “merda” na vida, desenha sombras nas sombras da vida, e tenho medo da partida, o só, o desajeitado das palavras encostado a uma esplanada esperando o engate do final da tarde, lamenta-se,
Lamento-me, não sei o que fazer enquanto os ossos de ontem enfraquecem os ossos de hoje, respira fugazmente, pega nas lâminas da manhã e esconde-se no rio…, lamento-me nos dias em que sou possuído pelo medo, lamento-me quando abro um livro e ela,
Hoje não consigo respirar, as palavras voam como voa o meu cabelo quando os pássaros mergulham na minha mão e adormecem, não consigo, queria dormir, quero dormir, quero brincar no quintal e fazer-te um papagaio em papel, daqueles que eu te fazia,
Lembras-te?
Ficavam sempre pendurados nas mangueiras, entre o Sol e a alegria da juventude, e o vento?
O vento emagrece os ossos pincelados na Ressonância Magnética, e os teus braços abraçam-me na solidão vagabunda do planalto, olho a montanha, olho-me no teu espelho,
E tão velha…, e tão sonâmbula das noites sem dormir.



Francisco Luís Fontinha
06/10/2017


19.06.17

Por uma vida melhor,


Partir sem nada dizer,


Caminhar sobre a sombra do teu corpo,


Quando o mar se suicida contra os rochedos da inocência,


 


Por uma vida melhor,


Sentar-me junto ao rio,


Percorrer as ruas desertas de um livro…


De um livro acabado de morrer,


 


Por uma vida melhor!


 


Deixar-me desfalecer nas avenidas transparentes do infinito.


 


Por uma vida melhor…


 


Deixar de respirar,


Fugir para a montanha…


Ser pássaro sepultado na planície…


Por uma vida melhor,


 


Adormecer no teu colo.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 19 de Junho de 2017


10.02.17

Não sou daqui
Venho de longe
E não consigo partir,
Não sou daqui
E sou de todos os sítios possíveis e imaginários
Pelo homem
Que abruptamente trabalha a terra
E não consegue fugir,
O amor
Também não é daqui,
Vem de longe
Vem de longe a sorrir…
Vem de longe para morrer,
Aqui,
Nas minhas mãos…
Não,
Não sou daqui,
Sou a montanha vestida de negro
Que alimenta o fogo
E o desemprego,
Não,
Não sou daqui,
Venho de longe,
Venho de longe e não consigo partir…
Não,
Não sou daqui.


Francisco Luís Fontinha


10/02/17


21.04.16

A voz silenciosa da montanha


Montanha envergonhada


No luar.


A voz alicerçada dos mártires que o vento leva


Leva o assobio melódico da Primavera apaixonada


Nos rochedos de chorar.


Cansada.


A voz esconde-se na planície do amanhecer


Amanhecer largando a esperança


Na cidade embriagada.


A voz do meu corpo camuflado pelas roseiras


Roseiras de rosas amarelas à nascença


A voz… a voz triste da alvorada.


Cansada.


A voz silenciosa da montanha


Montanha meu leito


Que regressa à noite a chorar.


A voz maltratada pela floração do meu jardim


Jardim onde habito sem jeito


E espero pelo mar.


Cansada.


 


Francisco Luís Fontinha


quinta-feira, 21 de Abril de 2016


06.04.16

sinto o peso da lua


sobre os ossos em papel


que habitam o meu corpo


escondo nas mãos o luar nocturno da solidão


dos tristes pássaros do meu jardim


escrevo-lhes e converso com eles


a minha presença incomoda-os


e pareço uma imagem aprisionada num hipercubo de sombras


sonhos


rios infindáveis


palavras esquecidas no vento


correndo nas minhas veias de vidro martelado


o opaco desejo nas madrugadas embriagadas pelas andorinhas


o silêncio abraçado a uma árvore


sinto o peso da lua


sobre os ossos em papel


que habitam o meu corpo


aos poucos vejo o teu olhar sentado sobre o meu peito doente


como se existissem roldanas de cartão


na pele que me alimenta


sou um aldeão sem aldeia


mas das montanhas


regressam os homens do coração granítico


que trazem a noite


e me roubam as palavras


depois a tua boca entrelaçava-se na minha


um fino sorriso de nylon brincava na janela virada para o mar


os barcos encalhados nas tuas coxas


em pequenos apitos sonâmbulos


uma casa em chamas


dois corpos em chamas dentro da casa em chamas


o farol lá longe


guiando-nos até ao infinito


a morte


a paixão laminada pelos orifícios do deserto


sinto-me um prisioneiro esquecido num qualquer porto de mar


cordas


correntes de luz dificultando-me a mobilidade das palavras


os livros também em chamas


na casa em chamas


com dois corpos em chamas


o inferno inventando o suor do teu corpo


as asas que te levam para o Céu


também elas em chamas


a fogueira dos nossos cadáveres sobrevoando o horizonte


descemos a calçada


sentamo-nos junto ao rio


dois condenados ao amor impossível


às cartas nunca escritas


o amanhecer quase a chegar


nos teus lábios as pedras preciosas da saudade


há tanto tempo com esta enxada rosada na mão calejada pelas pálpebras do incenso


há tanto tempo


aqui


sem ninguém


 


 


Francisco Luís Fontinha


quarta-feira, 6 de Abril de 2016

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