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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


29.08.20

Quando era pequenino

Sonhava com o sorriso dos peixes.

Desenhava palavras de menino

Na mão tracejada pela escuridão dos pássaros,

E, um dia, das palavras de menino,

Ao amanhecer,

Vi os teus olhos semeados na areia;

Sabia que um dia, qualquer dia,

Sem perceber que tinha em mim, aos poucos, um jardim de papel,

Alicerçado à minha triste veia,

Acordaria o teu sorriso.

Demorou anos, eternidades,

Passei por tempestades,

Oceanos recheados de medo,

E, esse dia, um dia, talvez aquele dia…

Regressou à minha mão,

E, fiquei com os teus lábios de amêndoa.

Quando era pequenino

Sonhava com o sorriso dos peixes,

Alimentava-me de sombras,

Triciclos em madeira,

Menino traquina,

Trapezista em construção,

E, procurava, na sanzala da saudade,

Os olhos do teu coração;

Amanhã, depois de amanhã, o dia, a noite,

E todos os pássaros,

Dormirão na tua boca.

Poço infinito dos beijos prometidos,

Canções, palavras… sonhos perdidos,

Que só a manhã sabe construir.

Hoje, sou o dia,

Hoje, sou aquele menino,

Que na tua mão,

Escreve a palavra Amo-te;

Eis o sorriso dos peixes.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, 29/08/2020


03.02.20

O regresso nunca mais.


A terra húmida, depois das lágrimas da tarde,


Ficou lá, no outro destino do menino dos calções.


Todas as sombras, choram, ditam palavras aos esqueletos de silêncio,


Que as mãos, trémulas, seguram, enquanto cai a noite,


O corpo, levita, desassossega na madrugada,


Sente-se o vento, negro, prateado, nos lábios do Diabo,


O regresso…


Nunca, nunca mais,


Porque a solidão namora as flores em papel, do jardim imaginário.


E o menino, com o tempo, cresceu.


Um relógio de luz, quando acorda o menino,


Alicerça-se nos braços lânguidos que o espaço alimente,


Dos calções, nada, nem a cor se aproveita,


Talvez, as árvores, as árvores plantadas por ele,


Hoje, nada, como os calções,


Pedaços em madeira, trapos, lágrimas desajeitadas…


Tudo, tudo morre, naquela terra prometida.


O mar, enfurecido, sacia-se nas rochas metamórficas do cansaço,


Um barco, espera pelo menino dos calções,


Estaciona-se junto à cidade,


Homens, marinheiros, mulheres, sem fazerem nada,


Espera que regresse o menino,


De longe,


De nada,


Ninguém.


O regresso nunca mais,


A terra húmida, depois um finíssimo fio de nylon,


Procura na multidão da cidade, o menino prometido,


Da terra sonâmbula,


Que o viu perder-se,


No meio do capim.


Machimbombos tropeçam nas finas lâminas da saudade,


Porque apesar de tudo, sempre, o menino, viveu na saudade,


De regressar, um dia,


À sua cidade.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


03/02/2020


15.07.14

O cansaço adensa-se nos teus lábios,


murmúrios de odores invisíveis alicerçam-se aos teus pulsos,


pareces uma árvore em papel, uma flor indefinida, ainda por descobrir...


 


O cansaço dilata-te as pálpebras de xisto,


ouves a voz do livro poisado na mesa-de-cabeceira, e dormes, e dormes...


 


És prisioneira da manhã acabada de nascer,


embrulhas-te no lençol da preguiça, e estendes os braços até tocares o Sol,


uma fina película de insónia brinca nos teus seios de mar,


uma fragata pronta a disparar... não o consegue,


fica ofuscada pelo teu olhar, desassossegada, ela, suicida-se no rio da saudade,


amas e não amas,


finges partilhar os segredos da madrugada,


e o cansaço, desfigura-te o cabelo de pergaminho, e evapora-se nas frestas do beijo,


 


Cerras os lábios cometidos pelo cansaço,


sentas-te em frente à esplanada de areia branca, e ela, a barcaça, grita o teu nome,


regressam os homens dos canhões de pele embalsamada, és linda, és amada...


 


A maldita mordaça,


que te proíbe as palavras do amor,


 


O cansaço adensa-se...


a amizade cai sobre um telhado de vidro, fica sem vida,


fica... fica enraizada na escuridão de um bar,


o cansaço não espera, e o coração não resiste às sílabas que sobejaram da lareira da poesia,


há uma lágrima,


morta,


há a prisão disfarçada de jardim soberbo...


com flores alienadas que inventam amor onde apenas habita a amizade...


 


O livro,


o livro sem medo, levita nos teus sargaços de alecrim,


o livro das vozes, deixa de ser o livro das vozes...


e do livro, e do livro sem medo,


sai um menino a brincar com um triciclo,


colorido,


que... que faz o cansaço dilatar-te as pálpebras de xisto...


… e uma multidão de sombras, saídas do livro sem medo,


 


Desejam uma carícia tua... um gesto de giesta florida, desejam-te!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 15 de Julho de 2014

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