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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


11.03.20

O tempo silencia os teus lábios de cereja adormecida,


Quando a nuvem da manhã,


Poisa docemente no teu sorriso;


Há palavras na tua boca,


Que absorvo com saudade,


E, nada me diz, que amanhã será uma manhã enfurecida pela tempestade.


Subo à sombra do teu olhar,


E, meu amor,


O cansaço da solidão deixou de acordar todas as manhãs.


Fumamos cigarros à janela,


Dentro de nós um volante de desejo,


Virado para a clarabóia entre muitas janelas,


Portas de entrada,


Escadas de acesso ao céu,


E, no entanto, o fumo alimenta-nos a saudade,


Porque lá longe,


Um barco de sofrimento, ruma em direcção ao mar.


É tarde,


A noite desce,


O holofote do silêncio, quase imparável, minúsculo, visto lá de cima,


Ruas, caminhos sem transeuntes, mendigos apressados,


Vagueando na memória.


STOP. O encarnado semáforo, cansado dos automóveis em fúria,


Correm apressadamente para Leste,


Nós, caminhamos para Oeste,


E, nunca percebemos as palavras que as gaivotas pronunciam,


Em voz baixa,


Com os filhos ao colo,


Sabes, meu amor?


Não.


Amanhã há palavras com mel para o almoço,


Dieta para o jantar,


E beijos ao pequeno-almoço;


Gostas?


Das nuvens da manhã?


Ou… dos pilares de areia que assombram a clarabóia?


Nunca percebi o silêncio quando passeia de mão dada com a ternura,


De uma tarde junto ao rio,


Ele, folheia um livro,


Ela, tira retractos aos pássaros,


E, porque te amo,


Também vagueio,


Junto ao rio,


Sem perceber o meu nome,


Que a noite me apelidou,


Depois do jantar,


Numa esplanada de gelo.


O ácido come-me, a mim, às palavras, como a Primavera,


Num pequeno quarto de hote,


Entre vidros,


Livros,


Palavras,


E, desenhos.


(aos depois)


Nada.


Brutal.


Os comprimidos ao pequeno-almoço.


Fim.


Amanhã, novo dia, nova morada, beijos,


Cansaços,


Abraços,


E, portas de entrada.


O amor é luz.


O amor são flores, árvores e, pássaros.


E pássaros disfarçados de beijos.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


11/03/2020


12.09.15

desenho_13_09_2015.jpg


(Francisco Luis Fontinha – Setembro/2015)


 


Há uma invisível incógnita


Na equação da paixão,


Um silenciado olhar enforcado na minha boca,


O luar saciando-se nos meus lábios…


E tu… e tu gritando como uma louca,


 


Dessa maldita equação


Sobejaram as lâmpadas ofuscadas pelo cansaço,


Um brilho de noite agachada na calçada,


O homem da bangala tropeçando no abismo


Que acorrenta a madrugada,


 


Há uma invisível incógnita


Na minha desalojada mão,


Os ossos apodrecidos,


Em pó…


Em busca dos poemas mendigos,


 


Os amigos,


Ausentes deste papel quadriculado em brasa,


Os cigarros “fodidos”…


No cinzeiro roubado na Feira da Ladra,


E uma vez mais… em busca dos poemas mendigos,


 


Rasgados ventres nas amoreiras em flor,


Sabotando o corpo nas cordas do sofrimento,


Há uma invisível incógnita na equação da paixão…


Morta,


Alicerçada no meu coração.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 11 de Setembro de 2015


04.01.15



(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


vivo neste esconderijo


um cubo de vidro


no... lixo


não


não quero que me toques


me olhes...


não...........................


não quero existir


voar


ler


não


vivo neste cubo de vidro


 


adoro este esconderijo recheado de palavras


e


e de mendigos


 


o relógio não anda


a janela não se abre


nem fala comigo


há numa das paredes deste cubo de vidro...


tristeza


e... e o frio


 


um velho amigo


que me acompanha desde a infância


um desenho garrido


um espelho


neste cubo de vidro


não vivo


que vivo


sem perceber que o meu corpo é um esconderijo


 


de vidro.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 4 de Janeiro de 2015



17.12.14



(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


O biombo da saudade


que morre no teu ventre


o pensamento em pequenos voos


lentamente em direcção ao mar


rumo à cidade


do adeus...


o meu corpo sobre os carris do cansaço


tenho medo


tenho pena...


que este pobre poema


não consiga acordar a madrugada


que vive acorrentada,


 


há nas pálpebras do teu sorriso


fios de luz em decomposição


canções melódicas ensanguentadas pelo silêncio da tua voz...


… amarga


complexa


nesta triste matriz composta


neste triste cubo de vidro


com braços de papel...


o biombo da saudade


que morre no teu ventre


inventa-se


a cada segundo que o tempo come,


 


a rua incendeia-se


e todos os mendigos... não mendigos


e toda a fome... não fome


apenas as palavras sobrevivem aos teus encantos


e lamentos...


apenas as sombras nocturnas do adeus


conseguem trepar o muro da agonia


e resta este pobre poema


que um dia...


que um dia ressuscitará


das cinzas


como cigarros sem alma.


 


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014



01.11.14

Tristes versos


estes


barcos esfarrapados que se afundam nos teus olhos


carcaças de ossos


gente aos molhos...


tristes versos dos mendigos sem solução


habitantes de uma cidade em alvoroço


dia sem almoço


carcaças


ventos e marés em confusão


estes


versos


sem nome


estes


estes barcos enferrujados lapidando calçadas e transversais loucas


mulheres cansadas


mulheres acariciando a madrugada


tristes


versos


os corpos em migalhas


em direcção ao rio da amargura


tristes


tristes tardes de literatura


que alimentam os mendigos sem solução


estes


versos


e ossos


este vazio dentro do meu peito incendiado


embriagados livros cambaleando na atmosfera


os círculos do coração... em espera


estes nomes


versos


e crianças...


procurando as árvores da infância


tanto medo... meu Deus...


medo da esperança.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 1 de Novembro de 2014


10.08.14

Esta cidade de mendigos,


sem porto para aportar,


estes esqueletos vivos...


sem corpo para transportar,


esta nudez das árvores silenciosas,


que brincam na areia límpida dos cigarros de arder,


esta lua, este luar... esperando o amanhecer,


esta cidade de mendigos,


estes rochedos que servem de abrigos...


sem porto para aportar,


esta noite ventosa,


fria..., amarga... sem lábios para beijar,


 


Esta cidade moribunda,


quando o poeta espera o regresso do amor,


estas correntes de luz sem sabor...


que me aprisionam ao teu olhar,


este cansaço, estas montanhas de abraçar...


que se escondem nos teus seios de triste madrugada,


esta cidade,


esta cidade amaldiçoada...


vestida de rosa sem odor,


triste, febril... esta cidade imunda,


onde passeiam os peixes, e as algas... e os corações sem cor,


esta cidade, esta cidade que vive nas lâminas da saudade.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 10 de Agosto de 2014


26.07.13



desenho de: Francisco Luís Fontinha


 


Desenhaste-me nas esfinges manhãs de Inverno


procuraste uma tela vazia


construíste-me em mendigo acrílico com coloridos ombros de porcelana


pintados à mão,


 


(Fui o que nunca quis ser


sou tudo aquilo que tu nunca quiseste que eu fosse...)


 


Desenhaste-me em murais que ultrapassavam os edifícios em ruína na cidade das gaivotas


sentei-me em ruas onde tudo se vendia


o corpo flores drogas álcool e amores


livros e papel de embrulho


desenhos e merdas sem sentido


porcarias vãs


vadias entre as pernas alicerçadas aos tambores de choque


envaidecias-te


eras nobre como um donzela puta de adorno...


e os jardins cansavam-se de ti como velhos sorrisos


sonâmbulos das ínfimas janelas


e entrava-nos na sala de jantar o enfeitiçado mar...


 


Um cheiro horrendo


barcos vomitando saliva esbranquiçada


lágrimas


e muitas estrelas


todas elas


embriagadas,


 


Desenhaste-me como se eu fosse um boneco de palha


um cabrão mal vestido


de fato


gravata


e sapato bicudo afiado reluzente como um espelho da feira popular...


chorudas mulheres de açúcar


dormindo em roulotes como gazelas em sexos murchos que os finos pinheiros de Carvalhais...


lançam


deixam ficar sobre a tua pele...


todas as palavras de adeus...


Adeus


Até nunca mais me desenhares nos murais das montanhas de aço,


 


Desenhaste-me nas esfinges manhãs de Inverno


procuraste uma tela vazia


construíste-me em mendigo acrílico com coloridos ombros de porcelana


pintados à mão,


 


(Fui o que nunca quis ser


sou tudo aquilo que tu nunca quiseste que eu fosse...)


 


Desenhares-me invisível


sem saberes quem sou


como penso


vivo


se tenho sonhos


consegues perceber os meus lamentos?


 


Fui tanta porcaria...


cavaleiro


donzela


prostituto


pintor


escritor


abelha tonta tonta como ela... ela tão bela...


e tudo porque me desenhaste nos murais das montanhas de aço,


 


E poeta não o sou


talvez o seja quando se apercebe em mim um silêncio de loucura


devaneio


os peneirentos pássaros que as arcadas do desassossego escondem


constroem e inventam insónias em papel como pobres flores de arremesso...


 


Desenhares-me em toda a porcaria livre


nas calçadas


nas ruas e ruelas


cansadas...


desenhas-me como se eu fosse um esqueleto de amêndoa


suspenso nas três horas da madrugada...


nas calçadas


ruas


e ruelas


sou


nunca o fui


desejo-o como se ele fosse um abutre de asas cinzentas,


 


Sou


fui nunca


poeta pintor escritor porque nunca deixei de o ser...


malabarista de primeira classe... diplomado.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



25.07.13



desenho de: Francisco Luís Fontinha


 


Dirigi, atravessei fronteiras antes inultrapassáveis, subi muros, desci avenidas, ergui-me, caí, voltei a erguer-me e novamente caí, escrevia, riscava, rasgava... fazia arder a manhã misturada em pedaços de cacimbo e tecidos vagabundos, fui uma ilha, fui uma rocha, fui um longo cubo com lábios triangulares, fui seno, fui cosseno, vivi em união de facto com a tangente, fui amante, de noite, as clandestinas visitas à cotangente..., e do círculo trigonométrico..., nada restou, depois, da tempestade, nuvens, chuva entrando em nós, de ti, uma pedra mármore com a tua fotografia, diz lá


O quê?


Eterna saudade de nós..., de mim, em ti, dirigi, suicidei-me, atravessei antes inultrapassáveis ruas, hoje, escuras, ardósias como ninguém percebeu, que um dia qualquer, um dia, ao lado do café, um miúdo, miúdo com sandálias de couro, percebeu, percebi, que a morte entrava-nos, e levava-te como levou todas as árvores que dormiam sobre as nossas sombras, dilatavam-se as tuas pálpebras, dirigi, adormeci, acordei num jardim recheado de zínias, fui feliz, infeliz, fui feliz, fui agreste, montanha, passeio pedestre, fui


O quê?


Ratazanas


Dirigi, vivi sobrevoando canteiros e riachos, sobrevivi aos beijos assassinos dos guindastes de chumbo, naveguei, cruzei oceanos como se eu fosse uma leve e tranquila folha de alumínio com uma bolha castanha, andava, ia a cima, descia, vinha a baixo, sentava-me, despedia-me, levantava-me, erguia-me... e caía,


As ratazanas amigas, amigos, protestantes e mendigos, vivi, fui vivendo, dirigi e atravessei o teu corpo transparente embrulhado em jornais envelhecidos, tinhas rugas, usavas sapatos cambados, e fui aprendendo a ultrapassar, dirigi, fui roupeiro, cobertor, homem espantalho, fui há muito tempo


Palhaço,


O quê? O que têm as ratazanas?


Palhaços, cabelos de fino arame, fui trapezista, vendi pipocas, corri avenidas em tristes engates, fui ratazana, fui praia, areia, ou barco, fui aço, fui âncora, palhaço, circo, pedestal, dirigi, cansei-me de olhar o rio, cansei-me de colocar a minha pobre mão na salgada água, lembras-me o mar, o ébano eu?


O quê?


Tínhamos zínias, cheirava em nosso redor a Primavera embriagada, desconfiávamos que o amor tinha algures um ninho num dos ramos da árvore de papel do nosso quintal onde brincávamos em meninos, não dávamos importância alguma aos pêssegos, às laranjas, às roulotes com lentes de contacto, um parvalhão de fita métrica na mão assaltava transeunte, chovia, não sabíamos, eu desconfiava dos vidros das janelas da casa das ratazanas,


Eu? Não sabia...


Desconfiava apenas,


Ratazanas, zínias enraivecidas com dentes de marfim afiados, metadona desconfiada, sem dono e abandonada, tudo se vende, tudo se compra, o zinco em chapas, os telhados em vidro, as barracas


Quais barracas?


As casas, húmidas, vivendo-se dias desenhados sobre a areia molhada, vinha o vento... e nada, tudo desaparecia, tudo se deitava, dormia, dormiam as zínias, as ratazanas, a mulheres-a-dias e as concubinas..., o quê? Eu? Não o sei... como o poderia saber,


Que horas são, hoje, mulher do mar, de mar, ao mar,


Desculpa?


Que horas são, mulher-a-dias, veleiro carrancudo, com velas de assobio, o circo, as tuas mãos desprezíveis, íngremes como as calçadas nocturnas das cidades escuras, desculpa...


Feldspato?


Não o sei, pergunta ao gerente da barraca, talvez ele saiba...


Gosto, não gosto... pelas dúvidas... deixo-te um like sobre as sobrancelhas, e


Dirigi e caí,


Me levantei, voltei a cair, e caí, me ergui, e me pendurei no teu pescoço de galinha envenenada, serpente, crocodilo, em madeira, em bom estado, vende-se dentadura postiça, primeira mão, em prestações, trinta e seis suaves, como lírios, como zínias, cachorros e cadelas e trapezistas e palhaços e trompetes de aço, me levantei, eu, e para quê?


Me sentei em ti, dormi, envelheci, e quando acordei, tu, vestida de mar..., me seduzi, me engatei nos laços transversais dos parafusos encalhados, fui, vou-me a ela, fui rua, donzela, fui... e nua, nua a tua doce madrugada.


Dirigi. Menti. Atravessei fronteiras antes inultrapassáveis, subi muros, desci avenidas, ergui-me, caí, voltei a erguer-me e novamente caí, escrevia, riscava, rasgava... tudo, tudo para nada.


(texto, ficção, vida, desenho, arte, zínias, jardins, amor, Primavera, tudo, e nada, pouca coisa, desenvergonhada, ela, paixão de areia, homens de vidro, cabelos frios e secos, mendigos).


 


(não revisto – quase ficção)


@Francisco Luís Fontinha


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