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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

...


10.03.19

As volúpias palavras descendo a calçada, junto ao rio, o mendigo assassina o último cigarro do dia, senta-se junto às escadas do prédio esquelético e com fome, uma brisa sobe até ele, e a vida parece-lhe contente com o aproximar da madrugada,


Todas as pedras à sua volta, choram,


Adormecem as acácias.


Choram com lágrimas de papel amarrotado que o merceeiro deitou no lixo, cobre-se, inventa o calor com lâmpadas de néon…


E dorme.


O néon embriagado pelo silêncio, os dias parecem-lhe horas tardias, doentes, com a mentira debaixo da língua,


E dorme,


As palavras dilaceradas, os livros incendiados pelo teu perfume, e tens no olhar a solidão das flores envenenadas,


E dorme, e dorme, o coração abandonado, por ti, por eles, pela melancolia do dia, e vê em todas as rochas, mesmo as mais pequenas, o sorriso do lobo.


Não estará o mendigo, louco?


E o poeta?


E se a loucura for a sanidade melódicas das palavras ditas?!


Dorme.


O sorriso do lobo, a alegria do mendigo por conversar com o lobo, pois, só este, e mais ninguém, consegue conversar com o mendigo…


É Domingo, dizem eles. Não o sei…


Não o sei, como desenhador de palavras, e, poucas, apenas sei que amanhã nos teus lábios vão acordar as amendoeiras em flores, todas, lindas, belas, elas,


E dorme.


Cansado da viagem.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 10/03/2019


22.05.16

caem sobre ti as estrelas da manhã


o sonífero desejo dos meus braços


encalhado no teu olhar


como a pérola adormecida da paixão


rompendo a montanha do Adeus…


subindo lentamente as escadas do mar


até ao sótão do coração…


a esfinge aventura do terno menino


sobrevoando os cadeados de prata


que aprisionam os barcos de madeira


caem sobre ti as estrelas da manhã


nas sofridas avenidas do prazer


que as cidades imaginadas


comem ao pequeno-almoço


sem o saber…


o mendigo das vestes negras


tropeçando na tristeza


senta-se no almoço sem riqueza…


e reza…


e chora…


porque caem sobre ti as estrelas da manhã.


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 22 de Maio de 2016


29.08.14

Não sei amar,


oiço o ruído da saudade que se acorrenta às frestas da alma,


há uma janela com acesso ao deserto,


não dou importância às pessoas com sorriso de vidro,


ou... ou que habitam as florestas com asas de aço,


têm mãos de palha, há nos seus dedos forcas em espera...


não sei amar,


e oiço do cansaço adormecido o acordar da tempestade,


uma rua dentro da algibeira,


uma moeda que nem dá para almoçar...


quanto mais... jantar,


e o mendigo que me acena e convida para dançar,


 


O menino dança?


 


Vai-te “foder” mendigo que eu não sei dançar,


um cigarro suicida-se nos meus lábios,


e no meu peito deita-se um pedestal encarnado,


não sei amar,


não sei escrever,


não sei fazer anda...


o cigarro grita pelo mendigo,


o mendigo toca-me no braço,


o meu braço começa a flutuar sobre as sílabas embriagadas,


e um poema vaidoso senta-se junto ao rio...


dou-me conta que lá fora é noite,


e não quero sair do útero da noite...


 


O menino dança?


 


Vai-te “foder” mendigo que eu não sei amar...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 29 de Agosto de 2014


25.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


hoje és um mendigo igual a mim


uma pérfida folha de papel não correspondida


hoje és um cadáver envergonhado deitado na minha sombra


uma triste e cansada sombra debaixo dos lábios do púbis incenso


hoje és um sexo amargurado


triste como as sílabas empapadas dos livros de nada dizer


como as noites a arder


dentro de ti o comestível prazer


 


hoje finges que não te pertenço


que sou um muro em xisto


balançando sobre a encosta


atiro-me e encontro o rio


hoje és um mendigo igual a mim


fugindo da claridade


e dos beijos zangados em cinzentos fios de sémen...


e dizes-me que sou um palhaço


 


um voador corpo com asas em papel


hoje desperdicei os abraços sobre a lua em fúria


que deus deixou na mão da madrugada


hoje não sou nada


como ontem


como amanhã


hoje és...


apenas uma defeituosa maré de linho com coloridos olhos em verniz...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 25 de Agosto de 2013



10.07.11

Pilantra amarrotado nos caixotes de lixo


Que traz a sombra sobre os ombros enforcados


Nos dentes restos de bicho


Na boca pedacinhos de cigarros,


 


Otário desentendido com a manhã submersa


Um relógio de pulso avariado


Dois dedos de conversa


E está o homem engatado,


 


Deitado no chão da cozinha


Grita na madrugada


Ai Jesus Ai mãezinha


- E isto não é nada,


 


Diz-lhe o outro junto à lareira incendiada


- Que pensavas tu?


Que comias a sopa descansada


E não te ia ao cu?


23.05.11

Chove torrencialmente e na rua as pedras transpiram pelas frestas da calçada, um roedor espreita-me de relance à entrada da sarjeta e tira-me as medidas, 1,75 m e 72 kg, estás tão magro Francisco, eu magro, não, sempre fui assim, e sempre fui assim, o roedor fixou-se em mim, não me admira, às vezes pergunto-me se eu terei mel porque as abelhas sempre à minha volta, e eu não flor, eu não mel, eu uma árvore onde poisam pássaros e cagam nos meus braços, sempre fui assim, os pássaros sempre adoraram cagar sobre as folhas que cobrem o meu tronco, já fizeste alguma coisa hoje, não nada, isto tá fodido é a crise, eu bem estendo as mãos mas as mãos sempre vazias, qualquer coisinha para comer, vai trabalhar pá, amigo ao menos um cigarrinho, vai-te foder, e eu vou à procura do abrigo das platibandas, e enquanto vou eu fornicado, perco os clientes que correm apressadamente e fogem dos pingos que a tarde constrói nos ponteiros do relógio, isto tá mesmo fodido hoje só cinco euros, e não dá para nada…


 


Chove, chove e eu não me dou conta, eu tão magro que os pingos atravessam o meu corpo como se eu fosse um passe-vite enferrujado e pendurado nas paredes da cozinha comidas pelo tempo, a cozinha vazia, não cozinha, a cozinha à minha espera, e eu entro em casa e vou directo ao quarto, deito-me sobre a cama, o meu corpo parece um objecto que acaba de sair da água, o meu corpo suspenso nos olhos do roedor, estás tão magro Francisco, eu magro, não, sempre fui assim, e sempre fui assim, e nas pedras da rua vejo o silêncio do meu corpo e a ausência das minhas mãos, hoje tá fodido, é a crise, só ainda fiz cinco euros, e eu nem isso amigo, hoje nem isso…hoje os pingos que a tarde constrói nos ponteiros do relógio.


 


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


23 de Maio de 2011


Alijó


24.04.11

Quem ajuda


Este pobre e velho cansado


Que aos poucos se afunda no oceano


De mãos atadas ao peito


 


De calhau prisioneiro aos pés


Até à mais profunda escuridão


Quem ajuda


Este pobre e velho cansado


 


Quem?


Quem ajuda


Este vagabundo do infinito…


Quem lhe dá a mão


 


Quem ajuda


Este pobre e velho cansado


 


Quem o salva da escuridão?


 


 


FLRF


24 de Abril de 2011


29.03.11

Decididamente ninguém, ninguém gosta de mim. Decididamente nada, nada gosta de mim.


Detesto a chuva, e a chuva não de mim, e a chuva entra-me pela porta dentro sem a ter convidado, gosto do sol, e o sol não de mim, esconde-se por entre as nuvem e não aparece, gosto dos pássaros e os pássaros não de mim, cagam-me na cabeça e eu com a mão a cheirar a merda, gosto muito do meu cão e o meu cão não de mim, e quando pode ferra-me os poucos dentes que tem nos meus tornozelos, e depois, de barriga para o ar, eu sendo um parvalhão, ainda lhe vou coçar a barriguinha, não digo que gosto de dinheiro, e o dinheiro não de mim, e há muito que não o sinto na algibeira…


Decididamente ninguém, ninguém gosta de mim. Decididamente nada, nada gosta de mim, e brevemente andarei livremente pelas ruas de Lisboa, cabelo comprido, barba grande, rosto de fome, e de papelão na mão à procura do melhor sítio para dormir; e estes sim, estes gostam de mim (as ruas, o papelão e o sítio onde dormir).


Decididamente sinto-me só.


 


 


 


FLRF


29 de Março de 2011 Alijó


Alijó

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