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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


01.12.18

A navalha suspensa no pescoço da saudade, o terrível ausentado sentado na cadeira do barbeiro, o silêncio da espuma de barbear esvoaçando pelos jardins do sofrimento, adoro o Outono, diz ele reflectindo os lábios em suspiros no espelho,


- É o penúltimo andar do edifício do amor,


O ouro liquefeito escorrendo-lhe entre os dedos queimados pelo cigarro, não dorme, e, em lágrimas, recorda a solidão das tardes perdidas, lá fora está frio, o sussurro da alma descendo a montanha, velozmente, sente, na garganta,


- Ai Sr. José, cuidado com a navalha,


O Sr. José, diplomado desde 1835 em navalhas,


- Sabe, tenho fome, sede, saudade das sombras e dos pinheiros mansos, e, mesmo assim, deixei de escrever,


Navalhas duplas, triplas, circulares, quadrangulares e outras,


- Já faço isto à muito tempo, Sr. Francisco…


A noite é fria, a casa está escura, e, quando abro os olhos vejo as pirâmides do Egipto flutuando no tecto da sala, corro, desço as escadas até ao rés-do-chão, e, nada, absolutamente nada,


- É o que faz ser poeta, Sr. Francisco,


Os poemas matam-me, sofro, e, choro, escrevo cartas que nunca envio, tristezas e desabafos alucinados pelo luar,


- Vamos cortar o cabelo?


Pelo luar, o eterno abraço, o beijo enfeitiçado, como as velhas folhas de papel amarrotado onde escrevia, respondo-lhe que não, cabelo não,


- O Sr. É que sabe,


Abro a janela, um lenço de suicídio desce à velocidade de nove virgula oito segundo quadrados, aterra no pavimento, e, nada, deixou de respira, está moribundo, e tem na mão o esqueleto da insónia,


- Está novo, Sr. Francisco,


E depois da insónia regressam as lágrimas, e depois das lágrimas regressam as madrugadas sem ninguém…


- Tenha uma feliz noite, Sr. Francisco,


Dou um aperto de mão ao Sr. José pelo poema que me desenhou no rosto, e, vou jantar…


 


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 1 de Dezembro de 2018


24.03.18

Esta melancolia, aprisionada na tua mão, meu amor,


Esta triste despedida,


Na calçada sofrida,


Quando o beijo esvoaça na fogueira prometida.


O sangue frio do massacre, lá longe, na sanzala, os perdidos cabelos de Primavera,


Quando a fala,


Quando o silêncio do teu sorriso,


Perde o juízo,


Sonâmbulo das cavernas, no limiar da pobreza,


A bela,


A bala na cabeça de um canhão,


E tu, meu amor,


E tu meu amor procurando a sombra do coração,


Desisto.


Insisto,


Desisto da tua fotografia esbranquiçada,


Na sala malvada,


Insisto no pôr-do-sol ao final da tarde,


Saio de casa,


Procuro-te no arrozal,


E finjo ser um poeta, e finjo ser a fogueira que arde…


Sobre ti, meu amor, sobre ti.


O miúdo com a fralda de fora,


Da praia regressa o secreto amor,


Aqui mora,


Habita a mais bela flor,


Que o meu quintal acolhe,


A sede,


O molhe,


As rochas envenenadas pela madrugada,


Sofre, descansa, abraço-te minha amada,


Que toda a vida teve.


Eu vi, quando acordei,


A esplanada do amanhecer,


Sabes, meu amor,


Chorei,


Cansei da vida sem prazer,


Respirar,


E morrer.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Março de 2018


28.04.16

O vento que passa


E leva com ele a madrugada


O peso das árvores sobre o sorriso da solidão


Um livro assa


Na fogueira do teu coração


Quando a manhã acorda cansada,


 


O vento que passa


E traz a mim a insónia dos corredores


Preciso de espaço para saborear o beijo


E libertar-me da maça


Que lapida os meus ossos como flores


E me leva o desejo,


 


O vento que passa


E transforma a liberdade em melancolia


O sorriso da fera acorrentada


E se enlaça


No acordar do dia


Como uma montanha apressada…


 


Francisco Luís Fontinha


quinta-feira, 28 de Abril de 2016


19.03.16

São tristes os dias sem ti


Que a noite alimenta


Sem saber que a solidão existe


E mente como mentem todos os relógios…


Que o meu pulso abraçou,


São tristes as madrugadas


Sem os teus gemidos


E sofrimento,


São tristes os dias sem ti


Que a noite lamenta


E descobre em cada sombra


O abraço passageiro da melancolia…


São tristes


Os dias…


Sem ti


Enquanto dormem as tuas mãos no meu rosto…


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 19 de Março de 2016


06.05.15

Terá Deus incumbido à palavra


Para me atormentar


A qualquer hora


Do dia


Da noite


Na esperança…


 


Saberá Deus o significado


Da derrota


E da tristeza?


 


A maldita noite


Que cresce nos subúrbios do silêncio


E se alimenta de uma cidade em ruínas


O livro não escrito


Na prateleira do sofrimento


E sem beleza


Sem… sem desenhos do cansaço


Estampados no rosto


Em pergaminhos beijos


E da tristeza


Da derrota


Quando vem a tempestade,


 


E o mar se deita


Na melódica cidade


Sem o saber


Troca abraços


Por sombras


E sombras


Por uma viagem


Anónima,


 


Sem


Regresso


Nunca


Porque nunca habitará um corpo no meu corpo sem corpo.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 6 de Maio de 2015


20.12.14



(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


O peso do sono quando a noite se suicida no olhar das palavras,


a metáfora inventada


que as imagens alicerçam à construção da fantasia,


regressar... nunca,


o peso do sono suspenso nos oiros plátanos da ínfima melancolia,


o sono morre como morrem as ervas daninhas das minhas veias,


em silêncio,


o peso do sono voando sobre as esplanadas de vidro,


o cansaço das fotografias entre quatro paredes de xisto,


cintilam as calamidades do infinito orgasmo de papel...


e ninguém percebe que na tua mão...


que na tua mão habitam os finíssimos cabelos do poema,


o corpo vacila no pêndulo da saudade como um círculo de luz,


esquecido nas masmorras da infância,


o peso do sono mensurável nas avenidas acabadas de projectar,


sem automóveis para conversar,


pessoas,


sombras...


casas em sonolência despedida,


eu,


transeunte iluminado pelos vapores de iodo,


mergulhado em vulcões de alegria


e... e alguns pedaços de fogo,


e o peso do sono em constante tortura... quando me visto de noite inseminada.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 20 de Dezembro de 2014



01.04.14

Percebo a insónia tua quando abres a janela do desejo, e voas, e evaporas-te como uma gaivota clandestina, sem nome, apenas... só,


percebo nos teus olhos a tristeza das tuas lágrimas, livres como a Primavera, e voas, e só...


sinto em ti o cansaço do corpo que espera o clarear da madrugada,


oiço a tua voz de cristal... e sei, e sei que habitas na minha mão,


escrevo no teu rosto as palavras não escritas, as palavras invisíveis... e só, só...


percebo que na tua voz existe melancolia, amargura, livros, livros em pedaços de lume,


percebo que há pétalas coloridas, e que há outras tão negras, negras... tão negras como a noite,


tão negras como os teus cabelos em silêncio... e só, e só, que tudo percebo.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 1 de Abril de 2014


12.02.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Parecemos esplanadas de vento correndo nos algerozes das montanhas abandonadas,


penso se não existirá dentro de nós a melancolia dos barcos apodrecidos, como ossos molhados, como corpos cansados, como eu, e como tu, dois ventres desventrados, amorfos, humildes como sanzalas de granito, vadios...


parecemos dois loucos escondidos na sombra da madrugada ainda não nascida,


perdidos nas palavras ainda por escrever...


olhamos as estrelas que deixaram de brilhar,


comemos o pão como quem come a sombra de uma árvore...


indolor, infestados de giz depois do recreio escolar,


tu, e eu, debaixo de um busto sem nome,


 


Correndo, brincando... enganando a fome...


correndo, correndo calçada abaixo, até que acordava o dia, até que da tua bocas eu sentia a tristeza dos perdidos calendários de Fevereiro,


o medo,


o medo das clandestinas vozes da escuridão,


e no entanto,


sem o sabermos,


inventávamos estórias de adormecer,


sem o sabermos... estávamos mortos numa janela de esqueletos.


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 12 de Fevereiro de 2014



26.05.13



foto: A&M ART and Photos


 


Estás tão triste querida melancolia tarde de Domingo


o vento levanta-se dos teus anseios cabelos


como o mar se acorrenta nos teus abraços


dos belos castanhos beijos


e os medos vaiados pelos poemas teus olhos


que alimentam a tua boca em desejo,


 


Tão tristes as paredes ruínas que encobrem as tuas melodiosas canções de amar


sabendo tu que o amor é um Sábado disperso e cansado


comendo amêndoas recheadas com chocolate e pequenos versos


e grandes nadas


tão triste querida palavra que não sou capaz de pronunciar...


porque hoje é Domingo,


 


Porque hoje é melancolia adormecida


luz em pequenas lâminas de silêncio


sobejantes janelas sem os cortinados do dia...


uma ardósia encolhe-se-te no centro dos teus seios


e todas as palavras de amor


choram como crianças arrependidas...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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