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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


08.11.20

O fim de tarde, minha querida.

A cidade vomita palavras abstractas que só a tempestade sabe prenunciar.

As flores poisadas na tua lápide parecem lágrimas de pássaros esquecidos nas árvores de ontem,

Procuro por um corpo, nada encontro e, apenas uma esquina de luz, longe, bem longe, acorda das sombras onde te deitas.

Vai distante o teu olhar de bom dia pela manhã,

Erguem-se as abelhas da colmeia colorida pelo silêncio da despedida,

Um SIM, um NÃO, ou… um apenas talvez,

Se deita no teu peito.

Visito-te todos os dias,

Conversamos,

Falamos sobre poesia,

Pintura,

Falamos das tardes inquietas de Luanda… ao final do dia.

Nada me falta, minha querida.

Tenho tudo e, nada tenho.

Não me apetece abrir a ponta de entrada, para este cubículo desorganizado, entre livros e rochedos, mesmo assim, nunca consegui, depois de te despedires de mim, olhar o mar.

Abro a janela, o mar longínquo deseja-me como um louco e, ainda hoje, minha querida, tenho medo da (lhá).

Um pilar de areia cai sobre a calçada.

Lágrimas de papel vivem disfarçadas no teu rosto; hoje, não choras.

O sangue invisível que corria nas tuas veias, hoje, é apenas uma fina lagoa azul suspensa na tarde, nada mais, minha querida, nada mais…

Hoje és apenas uma equação de fé que deambula pela casa descalça;

O medo.

Amanhã, quem sabe, “O fim de tarde, minha querida”.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 08/11/2020


29.01.20

Todas as coisas, possíveis, impossíveis,


Acontecem quando nasce em mim a noite.


O corpo range de sono, perco-me nas palavras da saudade,


Quando regressa a madrugada,


E, todos os pássaros voam em direcção ao mar.


Um barco chilreia, voa sobre o jardim das cantarias,


Flores dispersas, como mendigos apressados,


Brincando na eira,


Olham o cereal,


Deitam-se no chão,


E, sonham com o luar.


Todas as coisas,


Infinitas, finitas, nas mãos de Deus.


Um esqueleto de silêncio vagueia nas pálpebras da insónia,


Morrem as pedras do meu pobre jardim,


Levantam-se as migalhas da fome,


Quando um carnívoro de sombra, às vezes cansado, levita na escuridão da solidão.


Tenho fome;


Tive pai, mãe, e, nada mais…


Agora, tenho a floresta,


Os papagaios em papel, de três cores,


E, num pequeno caderno quadriculado, invento o sonho,


Imaculado, distante, ausente,


Como todas as coisas,


Possíveis, impossíveis.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


29/01/2020

...


08.03.19

A frieza com que inventas os pássaros do meu jardim, contente por te ver e teres desenhado um sorriso na vidraça do fim de tarde,


Talvez, amanhã, depois de amanhã, eu regresse às tuas mãos de seda,


As árvores,


Porquê, Francisco?


As árvores recheadas de medo, como eu, que partas brevemente, talvez amanhã, eu regresse aos teus lábios de amêndoa doirada, mas hoje, minha filha, hoje, não.


Sabes?


Diz,


Quando nasci, num Domingo de Janeiro, congelaram-me o cérebro e ainda hoje está suspenso nos Céus de Luanda,


Geladinha…


Então rapaz, essa CuCa?


Vai já, patrão, vai já,


A frieza com que inventas palavras que eu escrevo na boca, os alicerces da solidão nas tuas coxas de veleiro em papel, os pincéis despedidos por mim, ontem, o mar estava revoltado, ontem, eu estava revoltado, mas hoje,


Então essa CuCa, rapaz?


Vai já, patrão, vai já…


E, esse fatídico Domingo de Janeiro morreu ao Pôr-do-Sol…


Porquê, Francisco?


As árvores recheadas de medo, como eu.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


08-03-2019


24.02.19

Lembro-me de ti.


Juntos ao rio das pedras cinzentas,


A aragem do teu cabelo saltitando entre as gaivotas,


Murmuravas as palavras do destino,


Sentada, junto a mim, uma rosa no peito adormecia,


E os teus olhos cor de amêndoa voavam na paisagem…


Lembro-me de ti.


Sentada.


Presos na minha mão todos os guindastes da insónia,


O medo,


No silêncio…


Sentada,


Junto a mim.


Lembro-me de ti,


E dos teus suspiros velejados pelos livros de poesia,


Unificados sejam todos os fins de tarde,


Quando pegava na tua mão e desenhava nela o sol da madrugada,


Junto ao mar,


A jangada,


O poema embriagado,


Só,


Junto a ti,


Sentada,


Junto ao rio…


Lembro-me de ti.


Todas as ervas daninhas embriagando os teus lábios de seda,


Desenhava o beijo no teu olhar, olhavas-me, criavas um sorriso na tarde, e descobríamos as tempestades da noite,


Tu, sentavas-te, no meu colo,


O medo,


O medo de amar-te sabendo que o amor é o mar enraivecido nos dias ímpares,


A jangada,


Junto a ti,


Sentada.


 


 


Francisco Luís Fontinha


24/02/2019

...


24.11.18

Podia desenhar-te o Céu.


A vida é um suspiro, a casa vazia, triste e a tremer de frio…, o cansaço do amanhecer perdeu-se no teu olhar, respiras, sofres por mim, e não o queres demonstrar.


Sabes, tenho medo dos pássaros, que deixem de voar, que fiquem estonteantes, como eu, ao ver-te aí deitada, tenho medo da madrugada, porque amanhã não sei se vou ler nos teus olhos a palavra amo-te…


E é tão triste, e é tão belo, todo este silêncio que nos abraça.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Novembro de 2018


07.04.18

Habitas no infinito predicado da solidão.


Oiço a voz das flores na tua mão,


O frenesim angustiado das palavras silenciadas,


Presas na carcere do silêncio,


Habitas no meu corpo,


Na minha morada,


Longínqua…


Perdida em ti.


O coração prateado,


Nas estradas inabitadas do medo,


O soldado,


Carregando a mochila da saudade,


Desce a Calçada,


Senta-se no rio…


Madrugada dentro,


O uísque fervilhando dentro de um copo de vidro,


A cabeça estonteante,


Nos livros acorrentados aos teus lábios,


A cidade morre,


As janelas imaginadas por mim parecem cobras embriagadas,


Soltas,


Tontas,


Como eu…


A cair,


Sobre mim,


O jardim esquecido no luar de hoje,


O meu corpo não se mexe,


Dorme,


Na encíclica manhã do deserto,


Ao final da tarde,


O cansaço das vidraças,


Quando me abraças…


E sou feliz em ti.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 7 de Abril de 2018


30.03.18

As sanzalas de vidro,


O silêncio suspenso nas sanzalas de vidro quando a manhã se suicida contra os rochedos do medo,


Os musseques que brotam sangue, os musseques que dormem na tua mão, meu amor,


São palavras escritas no vento,


Na despedida do sofrimento.


As maçãs da madrugada sobre as pálpebras do cansaço, digo-o enquanto habita no teu corpo uma serpente de aço,


As ratazanas que brincam com os meninos nas sanzalas de vidro,


O pequeno-almoço penhorado pelas Finanças, e lá fora a tua sombra encurralada nos livros,


Assim, como quem esquece a vida,


Ou se esquece da vida, como tu, meu amor, como tu…


Silabas tenho-as quantas quero, guardadas nos meus braços, no longínquo ângulo recto, o tecto da noite empobrecido, como eu, como tu.


As sanzalas de vidro, meu amor, os pequenos trapos das bonecas de areia que o mar alimenta, e há sempre um barco entre nós.


E há sempre um poema em nós, meu amor,


As pedras,


As pedras assassinas descendo a montanha,


O sigilo bancário nas barbas das Finanças, o horror, o terror, a torrente aventura de partir para o teu colo, meu amor, telegrama insignificante; STOP. MORREU. STOP.


E que sim, que fugia das cavernas que habitavam as sanzalas de vidro,


A chuva que não cai, a chuva que cai, o trémulo beijo no leite da manhã,


A literatura, tua, na minha cama,


Adormecida, cansada,


E desperto ao som de um velho relógio com engrenagens MADE in CHINA…


STOP.


MORTE. STOP.


Nas sanzalas de vidro.


Há caracóis, cerveja choca, poesia embriagada…


Dia,


A noite,


Na despedida da MORTE. STOP.


Encerro a luz, ficam tristes as sanzalas de vidro,


E mesmo assim, desenho-as nos teus lábios.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 30 de Março de 2018


19.11.17

A noite começa a perder-se nas tuas mãos, entre montanhas sinto os teus lábios emagrecidos pela solidão, adormecidos, tristes… perdidos, abençoadas estrelas que me iluminam sem qualquer tipo de perdão, uma carta não escrita, algumas palavras semeadas no teu olhar, quando lá longe, oiço o assassino do mar, mãos ensanguentadas, lágrimas disparadas pela espingarda do sono,


Um canhão evapora-se debaixo do luar, escrevo-te para me sentir feliz, invento-te para me sentir livre, rebelde e desemparado nas ruelas nocturnas do cansaço, oiço-os


Vomitam insónias, dormem no desassossego dos pássaros envenenados pelos teus lábios, os livros sofrem, os livros morrem ao nascer do Sol, e tenho no corpo um solstício amedrontado, oiço-os


Marcham Calçada abaixo, rumam aos bares não iluminados, estátuas de sombra sentadas numa esplanada, debaixo, em cima, e, no entanto, sou um soldado desgraçado, moribundo, procurando barcos nas tuas pálpebras…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 19 de Novembro de 2017


30.09.17

O invisível sono nas pálpebras tua dor, os beijos inventados pelos teus lábios nas gélidas noites de Inverno, o latido de um cão, solitário, na rua das traseiras, os teus lençóis suspensos na madrugada, enquanto nas minhas mãos crescem pedacinhos de esperança, serei capaz de cuidar de ti?


A serpente da dor…


As lágrimas envenenadas do teu sangue, as límpidas madrugadas sem destino camuflada pelo sofrimento, os ossos rangem, o cabelo voa em direcção ao mar, e longos silêncios de pequenos muros de xisto nos separam, o dia, a longínqua noite, a claridade das sombras dispersas no teu corpo,


Serei capaz? As nuvens desencontradas nas frestas do cansaço, as pequeninas sílabas de dor comestíveis nas nocturnas avenidas do sonho, e o maldito sono embriagado saltitando de casa em casa, e tu, e tu aconchegada ao meu ombro, sempre sonâmbula, e embrulhada num cobertor de medo…


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 30 de Setembro de 2017


10.09.16

Tenho medo dos teus olhos


Quando a noite inventa tempestades nos teus lábios,


Tenho medo do silêncio,


Medo do luar…


Tenho medo de amar…


Quando próximo do teu rio


Um tubarão espera por ti,


Tenho medo das tuas mãos


Quando os socalcos sobem à aldeia


E o teu corpo se transforma em perfume…


Tenho medo do teu cabelo


Entrelaçado no xisto da manhã


E um fino fio de oiro…


Vive na tua boca,


O beijo acorda do sonâmbulo relógio de prata,


Temos um horário moribundo,


Caquéctico


E sujo…


No pulso da solidão,


Tenho medo da cidade


Que habita nos teus seios


E expulsa todos os corações apaixonados…


Tenho medo dos bichos de papel


Que invadem os teus braços


E lançam sobre o oceano o medo…


O medo de ter medo


Dos teus olhos


Das tuas lágrimas,


Tenho medo da tua sombra


Incandescente


E triste


Nos jardins imaginários…


Tenho medo dos teus olhos


Que me alimentam a insónia…


Tenho medo dos amigos


Que inventam amigos e de amigos nada têm…


Tenho medo das pedras


Dos triciclos em pedra


E das madrugadas sem dormir…


Tenho medo da partida…


E de não regressar mais a mim


O medo dos teus olhos.


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 10 de Setembro de 2016

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