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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


03.12.22

Não tenhas medo

Que o sol poise na tua mão

E que a lua te roube o sono,

 

Não tenhas medo da paixão

Nem deste poema monótono

Quando de manhã cedo,

 

Um pequeno pássaro aprende a voar.

 

Não tenhas medo

Das cascatas em revolta

Dos rios que correm para o mar,

Não tenhas medo

Das flores à tua volta

Com medo de amar.

 

Não tenhas medo

Dos barcos em papel

Docemente apaixonados,

Não tenhas medo

Dos favos de mel

E dos corpos desejados.

 

Não

Não tenhas medo,

 

Medo de ter medo.

 

 

 

 

 

Alijó, 03/12/2022

Francisco Luís Fontinha


14.10.22

O que faço junto a este rio

Enquanto o meu corpo desfalece,

E ao longe, a ponte

Corre para o mar,

O que faço junto a este rio,

 

Frio e cansado,

Abraçado ao medo,

Distante do luar.

E será este rio

A minha sepultura?

 

Ou será este rio

O leito da minha solidão,

Das noites acordado,

Nas noites inventando

Este rio cansado,

 

Porque neste rio

Enforcado,

Habitam as minhas tristes palavras,

As palavras que semeio nas estrelas em papel…

Ai as palavras semeadas!

 

O que faço junto a este rio

Enquanto a minha sombra vagueia sobre um mar de lápides,

Enquanto um cardume de insónia

Desce a montanha da tristeza…

E este rio me foge na madrugada.

 

 

Alijó, 14/10/2022

Francisco Luís Fontinha


24.09.22

Cerro os olhos,

Percebo que transporto na mão

As lágrimas da alvorada,

Lamento informar vossa excelência,

Mas esta madrugada é de graça,

 

Puxo de um velho cigarro,

Não me lembro de nada,

Lamento,

Parece que acordaram agora as acácias,

E do outro lado da rua,

 

Nem um pequeno sorriso…

Lamento informar vossa excelência,

Mas o rio deixou de correr para o mar,

À janela, a menina das serpentes,

Chora,

 

Acreditava nos sonhos,

E dou-me conta que os sonhos são cadáveres de sono

Descendo a Calçada da Ajuda,

E se ajuda ou não ajuda,

Ela, dorme sobre a erva laminada da manhã,

 

Cerro os olhos,

Percebo que transporto na mão

As lágrimas da alvorada,

E de um pequeno sorriso…

Observo-o… lamento informar vossa excelência.

 

 

Alijó, 24/09/2022

Francisco Luís Fontinha


08.11.20

O fim de tarde, minha querida.

A cidade vomita palavras abstractas que só a tempestade sabe prenunciar.

As flores poisadas na tua lápide parecem lágrimas de pássaros esquecidos nas árvores de ontem,

Procuro por um corpo, nada encontro e, apenas uma esquina de luz, longe, bem longe, acorda das sombras onde te deitas.

Vai distante o teu olhar de bom dia pela manhã,

Erguem-se as abelhas da colmeia colorida pelo silêncio da despedida,

Um SIM, um NÃO, ou… um apenas talvez,

Se deita no teu peito.

Visito-te todos os dias,

Conversamos,

Falamos sobre poesia,

Pintura,

Falamos das tardes inquietas de Luanda… ao final do dia.

Nada me falta, minha querida.

Tenho tudo e, nada tenho.

Não me apetece abrir a ponta de entrada, para este cubículo desorganizado, entre livros e rochedos, mesmo assim, nunca consegui, depois de te despedires de mim, olhar o mar.

Abro a janela, o mar longínquo deseja-me como um louco e, ainda hoje, minha querida, tenho medo da (lhá).

Um pilar de areia cai sobre a calçada.

Lágrimas de papel vivem disfarçadas no teu rosto; hoje, não choras.

O sangue invisível que corria nas tuas veias, hoje, é apenas uma fina lagoa azul suspensa na tarde, nada mais, minha querida, nada mais…

Hoje és apenas uma equação de fé que deambula pela casa descalça;

O medo.

Amanhã, quem sabe, “O fim de tarde, minha querida”.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 08/11/2020


29.01.20

Todas as coisas, possíveis, impossíveis,


Acontecem quando nasce em mim a noite.


O corpo range de sono, perco-me nas palavras da saudade,


Quando regressa a madrugada,


E, todos os pássaros voam em direcção ao mar.


Um barco chilreia, voa sobre o jardim das cantarias,


Flores dispersas, como mendigos apressados,


Brincando na eira,


Olham o cereal,


Deitam-se no chão,


E, sonham com o luar.


Todas as coisas,


Infinitas, finitas, nas mãos de Deus.


Um esqueleto de silêncio vagueia nas pálpebras da insónia,


Morrem as pedras do meu pobre jardim,


Levantam-se as migalhas da fome,


Quando um carnívoro de sombra, às vezes cansado, levita na escuridão da solidão.


Tenho fome;


Tive pai, mãe, e, nada mais…


Agora, tenho a floresta,


Os papagaios em papel, de três cores,


E, num pequeno caderno quadriculado, invento o sonho,


Imaculado, distante, ausente,


Como todas as coisas,


Possíveis, impossíveis.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


29/01/2020

...


08.03.19

A frieza com que inventas os pássaros do meu jardim, contente por te ver e teres desenhado um sorriso na vidraça do fim de tarde,


Talvez, amanhã, depois de amanhã, eu regresse às tuas mãos de seda,


As árvores,


Porquê, Francisco?


As árvores recheadas de medo, como eu, que partas brevemente, talvez amanhã, eu regresse aos teus lábios de amêndoa doirada, mas hoje, minha filha, hoje, não.


Sabes?


Diz,


Quando nasci, num Domingo de Janeiro, congelaram-me o cérebro e ainda hoje está suspenso nos Céus de Luanda,


Geladinha…


Então rapaz, essa CuCa?


Vai já, patrão, vai já,


A frieza com que inventas palavras que eu escrevo na boca, os alicerces da solidão nas tuas coxas de veleiro em papel, os pincéis despedidos por mim, ontem, o mar estava revoltado, ontem, eu estava revoltado, mas hoje,


Então essa CuCa, rapaz?


Vai já, patrão, vai já…


E, esse fatídico Domingo de Janeiro morreu ao Pôr-do-Sol…


Porquê, Francisco?


As árvores recheadas de medo, como eu.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


08-03-2019


24.02.19

Lembro-me de ti.


Juntos ao rio das pedras cinzentas,


A aragem do teu cabelo saltitando entre as gaivotas,


Murmuravas as palavras do destino,


Sentada, junto a mim, uma rosa no peito adormecia,


E os teus olhos cor de amêndoa voavam na paisagem…


Lembro-me de ti.


Sentada.


Presos na minha mão todos os guindastes da insónia,


O medo,


No silêncio…


Sentada,


Junto a mim.


Lembro-me de ti,


E dos teus suspiros velejados pelos livros de poesia,


Unificados sejam todos os fins de tarde,


Quando pegava na tua mão e desenhava nela o sol da madrugada,


Junto ao mar,


A jangada,


O poema embriagado,


Só,


Junto a ti,


Sentada,


Junto ao rio…


Lembro-me de ti.


Todas as ervas daninhas embriagando os teus lábios de seda,


Desenhava o beijo no teu olhar, olhavas-me, criavas um sorriso na tarde, e descobríamos as tempestades da noite,


Tu, sentavas-te, no meu colo,


O medo,


O medo de amar-te sabendo que o amor é o mar enraivecido nos dias ímpares,


A jangada,


Junto a ti,


Sentada.


 


 


Francisco Luís Fontinha


24/02/2019

...


24.11.18

Podia desenhar-te o Céu.


A vida é um suspiro, a casa vazia, triste e a tremer de frio…, o cansaço do amanhecer perdeu-se no teu olhar, respiras, sofres por mim, e não o queres demonstrar.


Sabes, tenho medo dos pássaros, que deixem de voar, que fiquem estonteantes, como eu, ao ver-te aí deitada, tenho medo da madrugada, porque amanhã não sei se vou ler nos teus olhos a palavra amo-te…


E é tão triste, e é tão belo, todo este silêncio que nos abraça.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Novembro de 2018


07.04.18

Habitas no infinito predicado da solidão.


Oiço a voz das flores na tua mão,


O frenesim angustiado das palavras silenciadas,


Presas na carcere do silêncio,


Habitas no meu corpo,


Na minha morada,


Longínqua…


Perdida em ti.


O coração prateado,


Nas estradas inabitadas do medo,


O soldado,


Carregando a mochila da saudade,


Desce a Calçada,


Senta-se no rio…


Madrugada dentro,


O uísque fervilhando dentro de um copo de vidro,


A cabeça estonteante,


Nos livros acorrentados aos teus lábios,


A cidade morre,


As janelas imaginadas por mim parecem cobras embriagadas,


Soltas,


Tontas,


Como eu…


A cair,


Sobre mim,


O jardim esquecido no luar de hoje,


O meu corpo não se mexe,


Dorme,


Na encíclica manhã do deserto,


Ao final da tarde,


O cansaço das vidraças,


Quando me abraças…


E sou feliz em ti.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 7 de Abril de 2018


30.03.18

As sanzalas de vidro,


O silêncio suspenso nas sanzalas de vidro quando a manhã se suicida contra os rochedos do medo,


Os musseques que brotam sangue, os musseques que dormem na tua mão, meu amor,


São palavras escritas no vento,


Na despedida do sofrimento.


As maçãs da madrugada sobre as pálpebras do cansaço, digo-o enquanto habita no teu corpo uma serpente de aço,


As ratazanas que brincam com os meninos nas sanzalas de vidro,


O pequeno-almoço penhorado pelas Finanças, e lá fora a tua sombra encurralada nos livros,


Assim, como quem esquece a vida,


Ou se esquece da vida, como tu, meu amor, como tu…


Silabas tenho-as quantas quero, guardadas nos meus braços, no longínquo ângulo recto, o tecto da noite empobrecido, como eu, como tu.


As sanzalas de vidro, meu amor, os pequenos trapos das bonecas de areia que o mar alimenta, e há sempre um barco entre nós.


E há sempre um poema em nós, meu amor,


As pedras,


As pedras assassinas descendo a montanha,


O sigilo bancário nas barbas das Finanças, o horror, o terror, a torrente aventura de partir para o teu colo, meu amor, telegrama insignificante; STOP. MORREU. STOP.


E que sim, que fugia das cavernas que habitavam as sanzalas de vidro,


A chuva que não cai, a chuva que cai, o trémulo beijo no leite da manhã,


A literatura, tua, na minha cama,


Adormecida, cansada,


E desperto ao som de um velho relógio com engrenagens MADE in CHINA…


STOP.


MORTE. STOP.


Nas sanzalas de vidro.


Há caracóis, cerveja choca, poesia embriagada…


Dia,


A noite,


Na despedida da MORTE. STOP.


Encerro a luz, ficam tristes as sanzalas de vidro,


E mesmo assim, desenho-as nos teus lábios.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 30 de Março de 2018

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