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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


17.02.17

Triste a vida de marinheiro,


Prisioneiro


Neste porto sem nome,


 


Estes socalcos me enganam


E abraçam o rio da saudade,


Estes socalcos lapidados na sombra da noite


Quando regressa a verdade,


E tenho no corpo o medo da revolta,


E tenho nas mãos o silêncio que não volta,


Estes socalcos da triste vida de marinheiro,


Prisioneiro


Neste porto sem nome…


E distante da madrugada,


 


Nem idade,


Nem dinheiro,


 


Triste,


Triste a vida de marinheiro


Assombrado pelo amanhecer do desejo


Que se perde num beijo…


 


Nem cidade,


Nem dinheiro,


 


E no tempo se esquece o coração de prata


Das marés loiras que o mar desajeita


E rejeita


Contra a corrente,


 


Triste a vida de marinheiro…


Triste,


Triste na cidade ausente.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


17/02/17


07.03.15

P1010003.JPG


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


habito dentro deste livro inacabado


existo porque gritam as palavras


e os sonhos amargurados


não tenho tempo para olhar o mar


nem percebo o cheiro deste rio envenenado pelo silêncio


um cigarro


mal-educado


apagado


sessenta anos encurralado nestes socalcos sem nome


habito


dentro


do livro inacabado...


 


os tristes sorrisos das lanternas da solidão


vendo-me


vende-se


tudo


nada


coisas estranhas


esta calçada


viva


vivo


apagado


não tenho


o tempo


 


nem a vida


de marinheiro


sou um barco enferrujado


sou o aço triturado pelas mãos de um sábado...


apenas


outras coisas


como as simples janelas de uma prisão


prisão


a prisão


do meu falar...


habito


habitar no teu peito de livro encalhado.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 7 de Março de 2015


 


 


 


26.12.14

Adoro esta vida de marinheiro,


sem porto para aportar...


nem coração para ancorar,


adoro esta noite,


apenas esta,


porque a solidão se entranha em mim como um vicio...


ou uma jangada de saudade,


adoro esta vida de marinheiro,


sem pouso,


sem... sem Oceanos para sonhar,


sem as amarras das palavras,


sem as ruas da cidade,


adoro esta vida de marinheiro,


sem glória,


sem vaidade para oferecer,


adoro


esta


vida


… de marinheiro...


com medo de sofrer,


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2014


25.11.14

Marinheiro


cansado das palavras sem título


que se acomoda com as tempestades


marinheiro... invisível


come saudades


e... e alguns versos


não dorme


não consegue sonhar


e não acredita no futuro...


marinheiro infernal


que veste um esqueleto de algas


e cobre o cabelo com o jornal


marinheiro ensanguentado


que finge olhar as estrelas


e o luar


marinheiro


cansado das palavras...


dos barcos de papel


e dos Oceanos de prata


marinheiro embalsamado que se esconde na praia


imagina corpos enlatados


e pássaros em silêncio...


ouve os sons melódicos da noite


como se a noite fosse música


ou... ou um poema em ascensão


ou... ou um poema com odor a morte


marinheiro


marinheiro das palavras


marinheiro sem sorte


e ele não sabe que junto ao Tejo


habitam as lágrimas do espelho da solidão...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 25 de Novembro de 2014


14.09.14

Quem és tu marinheiro


que habitas o meu corpo salgado...


que me aprisionas aos rochedos do medo


e te escondes nos esconderijos do silêncio


invento nomes


quando ela passa por mim



como o luar agachado na madrugada


de mão dada


com uma loira menina


como os muros de xisto


de socalco em socalco


oiço a enxada do cansaço lapidar os corações de pedra


e tu


marinheiro


dentro de mim como uma jangada


quem és tu marinheiro


que apodreces os meus ossos de cristal


e ela


tão bela


sem nome


sem... sem pedestal


caminha


palminha


os montes de papel com odor a amanhecer


sentada numa esplanada de brincar


oiço-as


as enxadas amaldiçoadas


no altar do Oceano


mulher que me acorrentas às palavras


e sofro


e sinto no meu olhar o teu nome que não o sei


quem


quem és tu marinheiro


que habitas o meu corpo salgado


meu amor


vou apelidar-te de Caravela


sem vela


sem rumo


correndo o meu corpo salgado


e tu


marinheiro


serás eternamente o meu comandante


que a solidão guiará até ao cais da ansiedade...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 14 de Setembro de 2014


23.08.14

Procurava nas penteadas espigas de milho,


o sabor amargo de amar,


deitava-me sobre o chão frio do granito ensanguentado da eira,


pincelava o luar de madrugada,


e procurava...


adormecia sem o perceber,


porquê?


e se era aquele o momento de o fazer!


o sino ouvia-se ao longe,


o horário deixou de fazer sentido,


tal como o calendário,


procurava... e nunca as encontrava...


 


As chaves do espigueiro telintavam numa algibeira furada,


que servia de esconderijo a um corpo emagrecido,


cansado,


e ferido...


 


Havia lágrimas nos olhos das frestas do espigueiro,


a madeira envelhecida... rangia... parecia um homem desiludido com a vida,


acordavam-me para o jantar,


e fazia de conta que não ouvia...


nem sentia...


o vento soprar,


e eu procurava... e ele em pequenos círculos... me abraçava,


acreditava que das pálpebras dos pinheiros fugiam as estrelas em papel,


acreditava que à resina regressavam as plumas fluorescentes das meninas de cartão...


e nunca vi o mar acorrentado ao granito ensanguentado da eira,


nem os barcos, nem os marinheiros com odor a sexo,


e no entanto... havia uma mulata que dançava na eira só para mim,


 


O zinco da sanzala gritava,


e um menino em calções chorava grãos de pólen,


não havia abelhas para me consolarem...


nem... nem mangueiras sombreadas nas mãos dos mabecos enfurecidos com o meu sorriso,


 


Bufunfa...


o kimbundu poético da paixão dos pássaros,


o voo silencioso dos dentes de marfim sobre a mesa da sala de jantar,


uma ténue luz que iluminava o capim que jazia nas bermas da estrada,


caminhava, caminhava... e não tocava no granito ensanguentado da eira,


brincava com os papagaios de papel inventados nos seios de um coqueiro,


cintilavam em mim as gazelas, os elefantes... e ao meu lados os entristecidos marinheiros...


e procurava...


adormecia sem o perceber,


porquê?


e se era aquele o momento de o fazer!


Levantar-me do chão frio do granito ensanguentado da eira.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 23 de Agosto de 2014


13.07.14

Horrível,


este poema sem marinheiro,


feliz deste barco embrulhado no vento,


desgovernado,


só...


só... e em sofrimento,


faltam-lhe as palavras,


faltam-lhe... faltam-lhe os encantos dos murmúrios de Inverno,


este poema... filho do Inferno,


que arde na lareira do desejo,


horrível...


este poema com o nome de beijo!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 13 de Julho de 2014


29.06.14

A tua voz me entristece,


quando sei que deixou de existir em mim o verbo amar,


a minha cidade, lá longe, tão longe... que nunca a conseguirei alcançar,


dormir nela,


acordar cedo, e abrir a janela,


a janela que tenho no meu peito,


há gaivotas, e há um corpo que envelhece,


a tua voz... a tua voz me enlouquece,


e no entanto, sou obrigado a viver acorrentado a este silêncio sem nome,


a esta vergonha de perder sem ser encontrado,


... não sendo habitado,


nesta sanzala de papel...


 


Este esqueleto de gesso que carrego e me deito,


sem perceber que há lábios de mel, que há lábios de desejo..., lábios consumidos pela fogueira de beijar,


esta voz me entristece,


como a água do rio que se evapora,


e levita,


e procuro-te, e procuro-te...


e me dizem... aqui ninguém mora,


aqui... aqui ninguém... chora,


 


Aqui é proibida a escrita,


 


Os tentáculos do amor,


os seios de uma flor antes de acordar,


as cordas de nylon que ancoram a tua dor...


ao cais de embarcar,


 


A tua voz me entristece,


o teu corpo vacila na tempestade de sonhar,


o calendário não cessa de correr...


e come-te em pedacinhos,


a tua voz enfraquece,


e transforma-se em versos desesperados,


versos odiados,


versos de escrever...


a tua voz me entristece,


antes de alguém desenhar no tecto das tuas pálpebras a madrugada,


ainda não zarparam os barcos da minha infância,


ainda... ainda não encontrado o verbo “AMAR”...


 


A tua voz não pode gritar!


 


A tua voz é um feitiço,


uma nuvem vagueando sobre o Tejo,


a tua voz é um marinheiro mórbido, um marinheiro embriagado na esplanada do beijo...


há cadeiras apaixonadas, há sorrisos travestidos de amanhecer,


a tua voz não pode cessar, a tua voz... não pode morrer,


a tua voz... não é o meu verbo “AMAR”...


que... que deixou de ser,


que... que deixou de sofrer...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 29 de Junho de 2014


27.06.14

Hoje,


sou um marinheiro sem embarcação,


um pedaço de madeira sem mar,


hoje, hoje... nada para escrever,


faltam-me as palavras,


faltam-me... os teus silêncios sem madrugadas,


hoje,


sou um marinheiro sem embarcação,


um rio sem encontrar as tuas lágrimas,


hoje, nada... nada para escrever,


porque hoje,


hoje sou um ínfimo cadáver nas páginas de um livro...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 27 de Junho de 2014


26.05.14

acordar sobre o titânio amanhecer


pegar nas tuas mãos de andorinha selvagem


agarrar o mar


se possível


esconder o mar na tua algibeira de cartão


 


sentir os teus braços no rio que corre dentro de mim


acariciar todas as rosas das tuas pálpebras de marinheiro naufragado


descansar sobre o teu peito


beijar-te


simplesmente beijar-te... gaivota adormecer.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 26 de Maio de 2014

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