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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


14.08.21

Uma abelha de luz poisa no teu olhar. Haverá sempre noite; mesmo que a lua se suicide no teu olhar, haverá sempre luar na tua vida,

O cansaço,

Nos dias que se perdem, nas horas em que nasce e, morre uma estrela, mesmo assim, haverá sempre Primavera na esplanada da saudade.

O esqueleto rangia como os gonzos do silêncio e, nunca percebeu que lá fora, junto ao rio, um fio de nylon tentava regressar à velha fotografia; tinha na mão a imagem de Cristo crucificado.

Em cio, avança o exército de gaivotas em direcção ao mar; os barcos da minha infância são hoje objectos raros, distantes de uma cidade envergonhada pelo passado.

Pedacinhos de linha, anzóis despedidos pelo velho pescador e, junto ao cais

Uma criança inventa electrões, protões e a tomografia por emissão de positrões e, eu desconhecia que o PET lhe vasculhava tudo até aos ossos; amores e paixões, flores e jardins, sumo de laranja e bacalhau com natas. No final

A sentença. CONDENADO.

Ela

CONDENADA.

Hoje, há quem me diga que são muito felizes, os dois e, vão amar-se eternamente.

O dia e anoite,

A lua e o luar,

Ambos, ambas, condenados

Condenadas pela insónia de DEUS.

Hoje são pequenos grãos de areia na mão da tempestade. Vivem num cubo de vidro, alimentam-se de pequenos nadas e, lêem as escrituras divinas. Nada a fazer, digo eu

Tudo a fazer, dizia ela

CONDENADA pelo oxigénio abstracto da manhã.

 

 

Alijó, 14/08/2021

Francisco Luís Fontinha


25.11.15

O perplexo sentido da fuga


Do corpo em translação


O abraço submerso


Nas marés de ninguém


Acordar


Acender o último cigarro da vida…


Escrever o poema nas tuas pálpebras incendiadas pelo desejo


Que só a minha mão o sabe fazer


Ler-te o último parágrafo do meu livro


Oferecer-te um beijo


E partir sem regresso


Ao teu olhar


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


quarta-feira, 25 de Novembro de 2015


29.11.13



foto de: A&M ART and Photos


 


deixarei de pertencer aos teus olhos


e vagamente... deixarei nas tuas nuvens de algodão o cigarro fantasma


deixarei de adormecer nos teus cabelos como o fazia antes das madrugadas serpenteadas


nas oito esquinas do medo


ouvirei perfeitamente as tuas mágoas...


terei o leve cuidado de acariciar os teus lábios


e


deixarei de voar nas tuas lágrimas de maré embriagada


e vagamente transformar-me-ei na cinza do teu imaginário cinzeiro


haverá uma janela engomada


com cortinados de fumo


e haverá... uma língua endiabrada pernoitando no meu angustiado peito


 


servirei de teu mordomo devidamente fardado


andarei pelos corredores da tua imaginação levitando sem tocar nos objectos de adorno


sentirás dentro de ti o meu vagabundo corpo


e nada conseguirás fazer para cessarem os teus sinceros gemidos


baterá o vento levemente nas ardósias dos tentáculos pinheiros de Carvalhais


ouviremos o sino engasgado nas sílabas das searas de milho


deitar-te-ás dentro do espigueiro...


e o teu ventre correrá em círculos na eira granítica do desassossego


amar-te-ei?


mesmo sabendo tu que sou um espantalho de aldeia


onde poisam os pássaros


e cagam os pássaros... sobre mim


 


sobre nós


deixarei os livros cansados das minhas mãos


dos meus olhos


às palavras... às palavras vou derramar-lhes o fogo do silêncio


embrulhado em pergaminhos sonos


e verei transversalmente o meu esqueleto no patamar da morte


ouvirei os teus casmurros beijos


como sentirei em mim os teus deleitados dedos


sujos


imundos...


transbordando sémen como caravelas esquecidas no Oceano dos vidros solitários...


e acabarei por pertencer aos ramos caducos do Outono


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013



03.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Os desencontros dos navegantes sorrisos


da sua boca o desassossego em preguiça


os meus teus lábios voando sobre as calçadas do silêncio


entre medos


degredos


teus luxos segredos


quando um cortinado se esbanja à janela da solidão


e a tempestade avança contra nós e nos tomba no chão,


 


Os espelhos dos teus seios como coloridas manhãs de Primavera


havíamos plantado árvores de brincar


tínhamos bancos de sentar


como inventada madeira


saltitando nervos dos horóscopos aquários


eu vagabundo


eu imundo... sorrindo cansaços marasmáticos em saliva amanhecer


e oiço a tua sóbria voz no meu peito de xisto,


 


Tinhas na boca a minha boca em papel cremado


sentia a tua língua em poesia escrevendo versos no meu pescoço...


pegava-te na mão dilacerada e esperava pelas tuas doçuras coxas


inventávamos areia sobre os lençóis de linho


e desciam as estrelas sobre os nossos corpos em delírio


coisas em coisas como tinta numa tela encarcerada dentro da prisão dos húmidos desejos


e havíamos esgotado todos os livros e marés de ninguém


e tínhamos um cubículo de fome só nosso... como flores esquecidas na jarra sobre a mesa-de-cabeceira....


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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