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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


04.04.15

A barca desgraçada


Recusa-se a regressar


Inventa palavras


Desenha gemidos nas pedras


Vãs


E cansadas


A barca


Não


Sabe


O horário da morte


Finge dormir debaixo de uma lápide


De espuma


Canta a cidade


Os húmidos sorrisos da madrugada


A barca


Desgraçada


Recusa-se


Regressar


Aos teus braços


Ao teu corpo


Noite


Cama


A janela enclausurada nas tuas mãos


Mão


De veludo


As cabeças dos ventrículos de vidro


Nas fretas da insónia


Há sonhos


Há… há um esconderijo no teu peito


Os olhos te prendem


E não consegues liberta o sofrimento


Adeus


Ontem


A mão


De veludo


Recusa-se


A beijar-me


O vício curvilíneo dos telhados de zinco


As crianças lançando bolas de farrapos


Em chamas


Balas


A espingarda do silêncio


PUM…


Nas camufladas salas de jantar


O cadeirão sem pressa para descansar


Cerra os prateados ombros


Deita-se


Deita-se nas linhas transversais do infinito


Não


Espero


Nada


Teu


Olhos


Mãos


Mão


Não



Suicídio nas tuas coxas


A claridade dilui-se docemente na tua boca


Finas


Cores


Da tela em supérfluas marés de medo


O sono


E a alma de não ter alma


Desamadas


As flores do jardim do último beijo


A última carícia do teu perfume


As calças de ganga


Sentadas no cadeirão em fuga


E depois de terminarem os cigarros


Nada


Hoje


Finjo e fujo


Saltando o muro dos teus lábios…


E nos teus lábios


STOP


O vermelho semáforo envenenado na tua pele


Os pregos


Os sítios obscuros do teu corpo


Dançam e cantam


Hoje


Não


Mão


Mãos…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 4 de Abril de 2015


06.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


A insignificante maré de desejo que a palavra deixa sobre o corpo envelhecido da morte


a espuma translúcida do abismo camuflado nas noites em delírio


o cigarro mal apagado


caminhando ruas pouco iluminadas


cadentes


velhas...


calçadas permitindo o sexo sobre os fantasmas das cortinas de fogo que saltitam do circo em miniatura


a insignificante maré que eu sinto na minha algibeira


fundeada em Cais do Sodré...


sem eira nem beira...


a terra não prometida


o deserto que te absorve e alimenta


e come em pedaços de açúcar misturados com azedos olhares


as árvores que sombreiam as tuas mãos de pérola emagrecida...


tão triste


e... e tão querida.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 6 de Janeiro de 2014



23.10.13



foto de: A&M ART and Photos


 


tenho uma mão que não me pertence


da vida sobejam-me os sonhos que nunca me pertenceram


e no entanto acreditava na escuridão nocturna


vivo e vivia entre ruas e ruelas como esqueletos de ossos sacrificados ao jantar


vivia pensando que era uma gaivota


e que nos meus braças habitavam cegonhas e pernaltas


barcos e caravelas


portas e janelas


 


acreditava que estava só


e eu queria


e eu


… eu quero estar só


 


tenho uma mão que não me pertence


e acariciou o teu labirinto corpo de canela


acredita que vivia


não vivo


caminho somo sonâmbulo nos carris do medo


na paixão do segredo


acreditava e não o estou...


só abandonado triste desalmado e desamado


 


(acreditava que estava só


e eu queria


e eu


… eu quero estar só)


 


porque tenho uma mão de perfume que não me pertence


e que nunca me pertenceu


porque tenho um jardim com árvores e arbustos


bancos em madeiras e rapazes traquinas


saltitando


e nos anzóis que a tarde alicerça nas cancelas da maré


acreditava


e não estou só... porque tenho uma mão que não me pertence


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


quarta-feira, 23 de Outubro de 2013



28.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


não percebes que vivo enclausurado num caixote de vidro


que uso suspensórios


tenho falhas de memória


não percebes que eu vivo


prisioneiro de uma tempestade de areia


onde vivem nuvens com perfume de laranjeira...


que adormeço sonhando com rochas suspensas no tecto do sótão enraivecido


dos gritos vulcânicos da montanha da morte


 


não percebes que és uma mentira vestida de negro


passeando pela noite até encontrar o espelho da vaidade


sorrindo às vezes


chorando quando caiem os desenhos abstractos das paredes envergonhadas...


(sou de ti) responsável pelo teu fingimento


como são os livros das tuas mãos


como são...


os roseirais da tia Guilhermina


 


marinheiros vagabundos dormindo sobre mesas embriagadas


e não percebes


não entendes


que há marés de madeira


e todas as semanas aparece um Pôr-do-Sol nos cortinados do medo


os roseirais da tia Guilhermina


morrem e querem de ti o esqueleto mentiroso


que as palavras dissipam na claridade dos pequenos teus olhos verdes


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 28 de Agosto de 2013



11.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


O corpo do texto, emagrece, reinventa-se e mergulha entre silêncios e cavernas como a solidão dos primeiros dias da ausência dos sons poéticos e melódicos, o corpo ausente de tamanho, do zero ao doze, finge-se de morto, termina a linha, muda-se para baixo, travessão, ponto final, parágrafo, ponto de interrogação?


Desisto, pergunto se vale a pena continuar, e oiço-o como um vibrador dentro do meu ouvido,


Não, não continues, desiste rapaz,


E desisto,


E pergunto-me como será o Inverno, lá, depois de partir,


É como cá, respondem-me, respondem-me, respondes-me


Não faz mal, não faz mal, tudo é maleável como a sombra dos pinheiros em Carvalhais, tu


Tudo mesmo, mãe?


Tudo filho, tudo, o teu corpo é maleável, os teus sentimentos


Como são eles, mãe?


São em tecido e bordados com rosas, umas bravias, outras...


Como são as outras, mãe?


Menos bravias, mais calmas, mais


Belas, mãe, mais belas?


Muito mais, meu filho, muito mais,


O corpo do texto, o papel fica composto, cada vez menos espaços vazios, cada vez mais sofrimentos devidos às letras distorcidas da velha máquina de escrever, o teclado engasga-se, o teclado


Como são as outras, mãe?


O teclado prisioneiro das tardes junto ao rio, o teclado encalhado nos rochedos das sanzalas invisíveis dos panos encarnados, tapavam cadáveres, tapavam fome, tapavam o sol e os sonhos dos meninos, eu sonhava, ela sonhava, nós sonhávamos...


Com rosas, mãe?


Sim filho, sim


O teclado acabado de ser detido, criminalmente... ser oposição, escrever nas paredes negras da noite, e separadamente, éramos espancados vos chicotes de corda, com a ponta em fino papel, era assim, é assim, sempre o foi, sempre assim será, tudo


E se o velho morrer, mãe?


O venho nunca morre, meu filho, nunca, como nunca morrem as rosas bravias, como nunca morrem as sanzalas e os musseques e os charcos depois da chuva, e o velho, mãe, e o velho


Eterno, eterno sentado a olhar o mar,


O texto multiplica-se na maré doentia de Domingo, dizem-me que fiquei absorvido pelas nuvens que sobrevoavam os telhados de vidro, e o texto agora com pequenas imagens, e o texto agora com letras, grandes e pequenas e nenhumas... e algumas, tristes, alegres, negras, azuis e cinzentas, multiplica-se e vomita canções de amor, música, palavras declamadas por gargantas envenenadas pelos peixes e pelas tuas algas, havia um rio que nos prendia à madrugada, havia três caixas de cartão todos os papeis que lá jazem, têm o teu nome, e ainda tu não tinhas nascido


Mãe, como é isso possível? Porquê, mãe?


Estás lá, abro-as, o teu nome escreve-se como teclados domesticados, a tua fotografia hoje pertence aos esqueletos de cartão, morreu disseram-me depois de te ausentares


Morreu de quê, mãe?


Saudade?


Porque se morre de saudade, mãe?


Porque um dia o mar virá buscar-te, um dia, um, filho meu...


E o texto? E o texto cresce como árvores na Primavera, e o texto reinventa-se..., e dorme, e dorme em ti, sobre ti, e dorme na tua mão


O velho, mãe?


O velho morrerá,


E a liberdade dos pássaros e dos corpos... serão comestíveis como os teus mamilos quando salteias os lençóis nocturnos dos pequenos parágrafos, dos pequenos pontos finais, outras


Nem pontos, nem vírgulas,


E enquanto o velho não morrer, não felicidade, não vida, não sonhos.


 


(não revisto – ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 11 de Agosto de 2013



13.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Não desistas cidade adormecida


em procurar o mar perdido


não não desistas dos rios submersos e das esplanadas inventadas


por mulheres embriagadas


homens cansados mergulhados em marés nocturnas de um quarto de pensão


não desistas dos sexos embainhados e prontos à janela


esquecendo que dos pobres candeeiros a petróleo sofrem as mãos do poeta


batendo teclas e acorrentado a um edifício em formato de cadeira de vime,


 


Não desistas beijos aos socalcos rio entranhado nos seios da montanha


ruas desertificadas desertas amontoadas como lixo sobre a areia molhada


não desistas de brincar


e de desenrolar os lençóis em linho pergaminho


mulher da vida invertida


como uma pequena equação sobre a pele polaroid dos teus círculos de prazer...


luzes de esferovite começam das lágrimas sobre a copa das árvores imaginárias


e dos barcos teus lábios eu sinto-te dentro de mim como um vulcão estonteante,


 


E nobre


perdidamente apaixonado pelas pedras veias dos xistos encarnados


ente os dias de solidão


e as nádegas húmidas dos torrões de açúcar sobre a mesa-de-cabeceira


farto-me da tua voz parecendo uma galinha implorando a chegada de um qualquer Sábado


de uma infinita semana


e nobre


teu meu corpo de serpente envenenada...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



27.04.13



foto: A&M ART and Photos


 


Haverá mares suficientes para eu me esconder, sendo eu, um barco sem motor, com uma velha vela, sempre, e sempre, à espera, à espera que acorde o vento, à espera que acorde o meu corpo de aço, me levante, abra a janela da maré, e oiça o teu coração,


e falta-me a coragem para dizer que te amo, alga silenciosa dos rios amordaçados,


Haverá assim ventos suficientes para te trazerem até mim? E se tu nunca apareceres, e se tu, não sei, se tu uma rocha que vive no fundo do mar, como saberás, eu não sei nadar, e se mergulhar, certamente, e pelas leis da física, jamais voltarei a olhar a luz nocturna das ruas de Lisboa, pensar que dos néons há galerias de arte que esperam visitantes, e há caves a transbordar de suor, e há sótãos a apodrecer, sobre a cidade, quando regressa o vento, quando tu desapareces para posteriormente, ao outro dia, ver-te sentada numa esplanada, como se não me conhecesses, como se nunca tivéssemos dormido juntos, inventando sonhos juntos, desenhando desenhos, não juntos, porque tu, apenas me olhavas embrulhados nos pincéis e nas tintas e nas telas e nas minhas loucuras, sempre eternas, sempre desérticas, como as Primaveras, como as dália e as margaridas, sobre a terra, à espera pelo regresso do vento, de vela pronta


zarpar,


Prometer, imaginar ser amado dentro de um cubo de vidro, apaixonado, eu, um barco sonolento, de aço, envergonhado, não adianta semear flores numa laje de cimento. não adianta escrever, ler, não adianta amar fingindo viver, não adianta caminhar,


não adianta fingir ser feliz quando somos a pessoa mais infeliz do universos, não adianta, não adianta mentir fingindo que estamos bem, quando todos os caminhos, todos os rios, e todas as luzes morreram numa noite de insónia,


Não adianta acreditar, sonhar, não adianta ter esperança...


Também tenho o direito de gritar e parar de fingir que está tudo bem,


“tão triste eu quando acorda a noite e cresce e cresce sobre as angustias do jardim um deus louco com uma perna de pau, tão triste eu quando as tuas mãos ausentes percorrem o meu corpo sitiado entre grades imaginárias de aço inoxidável e fios de seda e terminam viagem nas minhas mamas; primeiro regressa a noite,


depois ausentas-te juntamente com a noite e voas de árvore em árvore até mergulhares nos uivos dos meus olhos castanhos, depois, tão triste eu quando acorda a noite, depois a tempestade suspensa no corredor, passas apressadamente e não me olhas, depois, depois caiem todas as nuvens sobre este mísero divã e do relógio depois, depois as minhas mãos começam a envelhecer, a envelhecer depois o cortinado, a janela sem vidros, a envelhecer este quarto de pensão enfeitado de área de serviço, depois o relógio tomba silenciosamente no pavimento e morre o tempo,


tão triste eu. Acorda o chocolate na minha boca e imagino-te sentado no divã a fingires que do outro lado da rua vive um rio com barcos, que do outro lado da rua, tão triste eu, do outro lado da rua...


tão triste eu Meu Amor ausentada de ti.”


E conheci uma rosa que roubei do jardim numa noite de Agosto inventado num livro que poisava na mão de uma menina, os silêncios da noite ausentes de estrelas e alecrim, havia no ar o perfume do desejo, havia o perfume da noite submerso na paixão da literatura e da poesia, eu e a menina morremos, inventados no livro onde envelheceu a rosa e ainda hoje habita, tristemente só, tristemente inventada das palavras escritas apressadamente antes de acordar a noite,


não adianta acreditar, sonhar, não adianta ter esperança...


Não acredito em reencontros porque quando se perde alguma coisa é para sempre ou então, ou então essa coisa não foi perdida,


se eu escrever numa folha de papel e a amarrotar e a esconder dentro de uma gaveta, um dia, mais tarde poderei reencontrar esse manuscrito,


Mas se optar por a rasgar e destruir o reencontro será impossível,


“Poema em cio”


 


Desesperadamente


as minhas palavras


coladas no vidro da morte


em pedacinhos amargos


a boca do poema


em cio


mergulha ele dentro do silêncio


no desejo dos barcos entre as estrelas de papel


e a noite de fingir


assisto ao fim da noite


quando das vaginais madrugadas


ouvem-se os uivos das acácias em flor


 


desesperadamente


as minhas palavras


nos meus pequenos desejos de silêncio amargo


caminhar dentro do mar


antes de acordar o pôr-do-sol


 


dos vidros da morte


as minhas mãos em crustáceos de glicerina


os cogumelos da vaidade em sombras sibilas


e a laranja do amor


aos poemas loucos


as migalhas do aço inoxidável


nos olhos do deus do cio


desesperadamente


 


(Desesperadamente


as minhas palavras


coladas no vidro da morte)


 


e a morte vive no meu corpo


desde o dia que acordei poema em cio


e todas as janelas da poesia não tinham visibilidade para o mar


e todos os barcos


e todos os barcos ouviam-se dentro das estrelas de papel...





Percebes agora porque haverá sempre mares suficientes para eu me esconder, sendo eu, um barco sem motor, com uma velha vela, sempre, e sempre, à espera, à espera que acorde o vento, à espera que acorde o meu corpo de aço, me levante, abra a janela da maré, e oiça o teu coração... e depois


dir-te-ei que te amo loucamente, sem medo, sem medo de perder.


 


(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



24.12.12

Achas-te superior


indigente


com falta de amor


como muita gente,


 


achas-te superior


rainha das coisas boas


montanha de luz


achas-te uma flor


uma simples flor


com pernas de cansaço


e braços


aos abraços


oiço o balançar da porta de entrada


truz truz truz


ninguém será certamente para me dar nada


nem uma simples corda de aço,


 


um prato com sopa de legumes encarnados


vinho do porto velho como os pássaros com asas de mar


(achas-te superior


indigente


com falta de amor


como muita gente)


e às vezes


multiplicam-se as manhãs de inverno


cresce o inferno


maré de marinheiro


quando eu sentado no barbeiro


penso solitariamente nas nuvens de barbear,


 


sinto-te em espuma no meu rosto envelhecido


e das saudades


as pequenas saudades


correr amar correr livremente


e voar


e amar


voar até cair nos teus braços


abraços


uma corda de aço


do tão construído cansaço


a espuma de ti mergulhada no meu simples desenho da alvorada


e tão triste e tão só tudo aquilo que foi esquecido,


 


achas-te superior


indigente


com falta de amor


como muita gente,


 


mas continuarás a ser uma resma de palavras


sem nexo


moribundas quando a mergulhada canção de amor


não é uma flor


é uma canção


que sofre


que dói


e mói


as pedras finas da calçada dos amores proibidos


e dói


mói


a doçura tristeza do desejo.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


07.04.12

Este barco sem rumo


Nas águas cansadas onde dormem as rosas vermelhas


Este barco sem rumo de âncora aguçada


Entre as nuvens e a lua atormentada


O poeta faz um esboço na maré


Com o carvão inventado das lágrimas da noite


O poeta é um parvalhão


Dentro do barco sem rumo


À procura das sandálias da infância


Teso sempre teso como o fio-de-prumo


Que liga a janela da noite à janela do dia


E o corpo do poeta


Nada mais de que as palavras em revolta


Nada mais


Poeta parvalhão


Sempre teso


Sempre sem tostão


Poeta de merda.


01.04.12

O meu rosto impresso no espelho da alvorada, lá fora o rosnar dos carros embebidos no perfume da maré que me olham e querem levar-me para longe, abros as asas e em pequeníssimas bicadas no mar oiço dos teus olhos os fios de luz do desejo,


A gravidade puxa-me até ao centro da terra, e os teus lábios começam a desaparecer nas migalhas do pôr-do-sol, e a criança que há em ti atravessa o arame debaixo da tenda que encobre a vida, equilibras-te ao som de Wordsong (AL Berto) e todas os espetadores mergulham no teu corpo,


- Desejo-te quando acorda o dia


Abro as asas e sacudo a areia molhada que há em mim, olho-te em passinhos de algodão sobre o arame da manhã, o meu rosto impresso no espelho da alvorada, lá fora o rosnar dos carros embebidos no perfume da maré que me olham, e debaixo de ti lágrimas de suor voam em direção a deus,


- E quando termina o dia espero-te junto à janela onde entras todas as noites, e quando termina o dia desejo-te como desejo sair desta ilha naufragada, desejo-te como desejo voar até chegar ao sol, e sem nunca olhar para trás, e sem nunca olhar para trás abraçar-te no infinito,


Eis as palavras do meu corpo quando o sangue coagula nas frestas da infância, e barcos prisioneiros no rio procuram lagostins e pastéis de bacalhau, o sangue transforma-se em vodka e brota nas prateleiras da biblioteca, todos os livros embriagados, e oiço as vozes de cada poema, e oiço o abrir da janela e dizem-me


- Hoje ela não vem,


E dizem-me que os relógios dormem nos lençóis das tuas mãos como quando acordo e percebo que estou vivo e que tu


- Hoje Desejo-te quando acorda o dia,


E percebo que estou vivo e que tu caminhas sobre o arame debaixo da tenda que encobre a vida, línguas de fogo entre fatias de pão, e todo o mel derrete-se na tua boca, e todo o mel derrete-se no meu desejo,


E todo o mel


- Abraça-me Francisco,


E todo o mel nas portadas da manhã, entre fatias de pão e sumo de laranja…


 


(texto de ficção)

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