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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


27.09.22

Há um pedacinho de mar

Que a minha mãe pincelou no tecto da minha alcofa,

Depois, desenhou as estrelas tricolor,

E abraçado às estrelas, o infinito luar…

 

Há um mar de saudade

Que transporto nas mãos,

Há um mar de lágrimas

Que correm nas ruas desta cidade,

 

Há um mar de ninguém, um mar apátrida e sem coração

Que só existe no tecto da minha alcofa,

Um imenso mar onde habitam palavras…

Palavras e uma velha canção,

 

Um mar em chama ardente,

Um mar invisível…

Um mar que não vê,

Mas que tudo sente,

 

Há um pedacinho de mar,

O meu velho mar…

O mar da minha infância

Que estou sempre a recordar…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 27/09/2022


26.09.22

Deixou cair as asas sobre o mar e adormeceu; no dia seguinte deu-se conta que todas as fotografias que tinha escondido dentro da pequena caixa de sapatos número trinta, rés-do-chão esquerdo, tinham desaparecido como anteriormente já tinham desaparecido dois livros de poesia de AL Berto, um livro do Pacheco e um outro de Lobo Antunes.

Com os livros de poesia de AL Berto, muitos anos antes de perder as asas, teve uma enorme discussão, pois estes quase sempre não gostavam de ser manuseados, folheados, quanto ao livro do Pacheco, esse, estava sempre com dor de cabeça.

O dia erguia-se entre os seios dela, da rua, regressavam aos poucos as loucas buzinas dos transeuntes em delírio, como regressam ao final da tarde os estorninhos parecendo uma orquestra de zumbis, mas quanto aos dois livros de poesia de AL Berto, hoje, e enquanto os folheava e manuseava, não se queixaram de tal, até que o livro do Lobo Antunes me questionou a razão do par de asas estar sentado sobre eles, quando poderiam muito bem estar na minúscula sala de jantar; e porque não suporto birras nocturnas, puxei de um cigarro e fui ver o maldito mar daquela última noite.

O mar estava chocho, a maré tinha acabado de deixar o quarto e nele deixou impregnado o invisível perfume que apenas as marés usam, junto à janela havia uma secretária onde dormiam pedaços de papel escritos no século passado e que ele já nem se recordava; que conste que tratava-se apenas de algumas cartas que nunca foram enviadas, portanto sem remetente, e duas ou três receitas de culinária que nunca se atreveu a experimentar.

O mar estava enjoado. Nos lençóis, uma pequena mancha de esperma, desenhava a manhã que mais tarde acordaria e ninguém saberia se ia terminar. Numa das paredes, pequenas frestas olhavam-no, e começou a acreditar que estava a ser observado pelo defeituoso silêncio que muitas vezes se alicerçava sobre o peito e, quase sempre não entendia a razão.

Sabia que um dia seria apelidado de anjo azul, de azul tinha o pulso pincelado, mas de anjo, de anjo nada tinha, apenas as asas que deixara cair sobre o mar.

Sabíamos que a noite trazia sempre uma pequena malga de sopa, uma sandes de nada e dois ou três cigarros, depois, acreditando que sabia voar, colocou as asas e lançou-se da clarabóia…

Estatelou-se no pavimento como se fosse um pássaro que acabasse de sofrer um AVC, até que do mar, em passo apressado, vieram em seu auxílio as fotografias que tinham desaparecido da pequena caixa de sapatos; ouviam-se os lobos que aos poucos se despediam da maré, e esta, partiu.

Ele, depois de acordar, abraçou-se aos pequenos lençóis e ainda hoje inventa o sono antes de regressar a noite às suas mãos.

 

 

Alijó, 26/09/2022

Francisco Luís Fontinha


25.09.22

Sento-me nesta ausência percebendo que pertenço a esse mar imenso das paisagens do silêncio, oiço os teus gemidos de luz, percebo que sou apenas um pedacinho de nada em direcção ao abismo,

O frio e escuro silêncio da madrugada,

Oiço as fotografias enraivecidas que desde a noite passada resolveram, todas elas, invadirem os meus pensamentos, e percebo que cada personagem que habita nelas, são apenas sombras da minha infância,

Rasuro-me no espelho do quarto.

Ergo as mãos e sinto as amargas palavras escritas numa noite de neblina, onde barcos e putas deambulavam junto ao cais; parecia fácil, mas as tempestades voltaram do nada e amanhã…

Amanhã chove, amanhã chove…

Sento-me.

Invento o sono das persianas da janela e resolvo voar em direcção ao luar, como as abelhas em flor, como todos os pedacinhos de mel que sobejam no silenciado corpo nocturno do silêncio…

Inventam-se os gemidos da alvorada,

Amanhã?

Amanhã vou. Amanhã sonho. Amanhã eu faço…

E amanhã morre o derradeiro sarcófago das Primaveras em florida paisagem, porque nela habitam os pássaros dos pequenos milagres, porque o sono transporta o desejo e pelas primeiras imagens observadas, nada a declarar; culpado.

Levanta-se o reu. Levantei-me.

Idade? Desde ontem, ao final da tarde, fugiram todas as minhas palavras,

Cansado?

Pior; morto.

Em frente.

Amanhã eu faço…

E o amanhã não existe, e amanhã pertencerá às primeiras imagens da saudade, porque amanhã…

Amanhã eu faço.

Tudo eu tudo eu tudo eu…

Morreu.

Cansou-se das cavernas e foi viver para junto do mar da saudade, onde em pequenino brincava com uma mão de veludo e havia sempre um olhar protector a observá-lo, hoje

Amanhã eu faço.

E quando me pergunto o que faz um pedacinho de mel poisado num dos meus poemas…

Ele, ela, responde-me

Nada.

Peso.

Silêncio.

E mesmo assim continuam a morrer as abelhas das tristes Primaveras, como morreram as minhas três primeiras tristes palavras,

Junto ao mar.

Nasceram as acácias, nasceram as primeiras lágrimas, nasceram as sombras e das sombras nasceram a lua e o sol; mesmo assim, ele, ela, continuam a vaguear sobre aquele rio onde mergulhavam as sílabas da insónia.

Amanhã.

E hoje?

Amanhã todos os pedacinhos de mel serão crucifixos suspensos nas fendas do triste gesso que circundam o sótão do medo.

Medo. Medo. Medo.

Porque morrem as acácias, mãe?

Porque se apaixonam pelo triste silêncio, porque descem sobre a cidade as lágrimas dos grandes rochedos e o mar é apenas uma imagem…

Percebes agora porque morrem as acácias?

Não mãe…

E mesmo assim continuam a morrer as abelhas das tristes Primaveras, como morreram as minhas três primeiras tristes palavras,

Junto ao mar.

E junto ao mar ficarei à espera.

 

 

 

 

Alijó, 25/09/2022

Francisco Luís Fontinha

(ficção)


24.09.22

Vive-se,

Enquanto este pequeno instante voa sobre o mar,

Enquanto esta velha flor

Brinca nos jardins da solidão,

 

E no meu peito

Oiço os longínquos apitos dos petroleiros em sofrimento,

Vive-se,

Enquanto se respiram as palavras que a madrugada vomita

 

Contra o silêncio dos pássaros,

Vive-se acreditando no Outono,

Nas fotografias suspensas sobre a mesa-de-cabeceira,

Vive-se,

 

Como pedras alicerçadas às marés do inferno,

Enquanto um banco de jardim, dorme,

Sonha com as amendoeiras em flor…

Também ele vivendo

 

No sonho da serpente,

Vive-se neste labirinto de mágoas

Transversais ao desejo,

Depois…

 

Acordam em mim,

Pela manhã….

As canções em revolta,

E um grito se dissipa no luar.

 

 

Alijó, 24/09/2022

Francisco Luís Fontinha


06.09.22

Percebo que nas cores dos meus desenhos

Habitam os teus lábios madrugar,

Que em cada palavra que escrevo

Há um barco sem marinheiro,

Há um marujo sem destino,

 

Percebo que neste mar

Onde habito,

Suicidam-se algas

E erguem-se as sonâmbulas sombras da insónia…

Percebo que nas cores dos meus desenhos

 

Escondem-se as paisagens da minha infância,

Com gaivotas, com papagaios em papel…

Percebo que estes desenhos

São as cores da morte,

São esqueletos em movimento,

 

São a manhã em despedida.

Percebo que estas cores

Transportam a montanha aprisionada

Na mão de uma criança,

Percebo que nos teus lábios madrugar

 

Há desenhos sem nome,

Há rios que não correm para o mar,

Percebo que nas cores dos meus desenhos

Há um Deus cruel,

Um Deus…

 

 

 

Alijó, 06/09/2022

Francisco Luís Fontinha


31.08.22

Nos lábios de uma abelha

Poisa um pedacinho de mel,

Tão fresca como a manhã,

Tão feiticeira

 

Como a água da ribeira.

Nos lábios de uma abelha

Brinca uma mão desejada,

Que de socalco em socalco,

 

De enxada em enxada,

Voa em direcção à madrugada.

Nos lábios de uma abelha

Dança um olhar encantado,

 

Tão só…

E tão desejado.

Nos lábios de uma abelha

Poisa um pedacinho de mel…

 

Tão só, tão só…

No sorriso do luar.

Nos lábios de uma abelha…

Um pedacinho de mel com olhos de mar.

 

 

Alijó, 31/08/2022

Francisco Luís Fontinha


28.08.22

Quando o corpo incendeia

As tristes marés da madrugada,

E sobre a ponte invisível do luar,

À meia-noite, uma flor de espuma,

Dorme na mão que semeia

O beijo de mar;

E peço à Virgem bruma

Que desenhe na alvorada,

 

Esta pequena canção de saudade.

Quando o corpo se enfeita de amanhecer

Nas sonâmbulas estrelas que habitam na cidade,

E o corpo é desejado,

E por vaidade,

O poeta enforcado,

Sem o saber,

Dorme junto ao mar…

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 28/08/2022


25.08.22

Sinto-o…

Este mar da infância

Que nos separa em desejo,

Este mar poema,

Neste mar teu beijo,

Sinto-o…

Este mar desenhado

Entre os nossos corpos de amanhecer,

Entre os nossos lábios de alvorada,

Sinto-o…

Este mar de escrever

Ao teu corpo abraçado;

Sinto-o…

Este mar sem pátria,

Quando nos teus olhos

De amêndoa encantada…

Vê este mar da infância.

Sinto-o…

Quando o teu corpo semeado pelo vento

O meu mar… te deseja.

 

 

Francisco Luís Fontinha

25/08/2022


23.08.22

 

Vivíamos dentro de uma pequena caixa de sapatos, tamanho trinta e dois. Quando descíamos a rua, do lado direito, junto à farmácia, ouvíamos as gaivotas que tínhamos trazido de Luanda e quando acordava o sol, às vezes sim, outras, nem por isso, eu inventando noites de luar que partilhava com os velhos triciclos com assento em madeira e que devido à idade, todos os parafusos e porcas rangiam como rangiam os duzentos e seis ossos do meu avô Domingos; antes de o barco zarpar, percebia que a minha mão minúscula era suficiente preguiçosa para desenhar nuvens de despedida nos céus de uma cidade a desaparecer no horizonte, como desapareceram todos os papagaios em papel da minha infância.

O dinheiro era minguo e apenas dava para beijos, carinho e fatias de felicidade, que ainda hoje, passados mais de cinquenta anos, recordo como saudade.

Nunca gostei da escola. Enquanto a professora ensinava as diversas matérias e de casa, todos nós, eu e os meus colegas, levávamos os ensinamentos de respeitar os professores, funcionários e nunca esquecer, os mais velhos; hoje, parece que esses ensinamentos deixaram de existir e os putos, por tudo e por nada, fazem birras imbecis fruto da educação que têm em casa… e uma palmada no rabo nunca fez mal a ninguém.

Quando acordávamos, em pleno Inverno, os cortinados eram substituídos por finos fios de geada, pois as janelas, por cansaço ou outra qualquer razão, eram desprovidas de vidros, que na altura já era um grande avanço tecnológico, já tínhamos ar condicionado natural.

O avô Domingos passeava o machimbombo pelas ruas de Luanda, e quando regressava ao final da tarde, eu esperava-o sentado em cima do portão, porque sabia que receberia abraços e beijos; e trazia-me sempre um pedacinho de mar invisível na algibeira.

Aos Domingos, aproveitava-me da paciência do meu pai e íamos até ao porto de mar olhar os barcos; a minha paixão de criança. Olhar os barcos e inventar círculos de luz sobre o azul-mar que ainda hoje guardo no peito.

E assim fui crescendo, dentro de uma pequena caixa de sapatos número trinta e dois e nunca esquecendo o silêncio do Mussulo.

 

 

Francisco Luís Fontinha

23/08/2022


19.08.22

Eram sete lanças de espuma

Sobre o peito amordaçado,

Eram sete madrugadas

De bruma

Na paixão amanhecer,

Eram sete canções e coisa nenhuma,

Enquanto o mar queria adormecer

Sobre o teu corpo deitado.

 

Eram sete enxadas

Rodopiando os socalcos adormecidos,

Eram sete sois e sete rios…

E sete tardes sem dormir,

Eram sete madrugadas,

Em sete dias da semana,

Eram sete lanças de espuma

Sobre a doce tua cama,

 

Eram sete lanças de espuma

Sobre o peito amordaçado,

Eram sete poemas em saudade,

Da saudade do pobre coitado,

Eram sete Invernos à lareira

Do corpo esquartejado,

Eram sete lanças de espuma…

Neste corpo maltratado.

 

 

 

Alijó, 19/08/2022

Francisco Luís Fontinha

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