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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


25.04.22

As palavras que te escrevo,

Nas páginas da tua mão,

São rosas, são flores,

São grito de canção.

As palavras que te escrevo,

Nos lábios da madrugada,

São incenso,

São silêncios de nada.

As palavras que te escrevo,

Na alegre manhã de liberdade,

São alegria,

São voos de saudade.

As palavras que te escrevo,

Em ti, meu amor,

São a chuva miudinha,

São as lágrimas em flor.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 25/04/2022


16.02.22

Supérfluo amanhecer

Quando as palavras

Avançam contra o peito do homem,

Quando as flores se esquecem de envelhecer,

Quando o homem deixa de ser homem,

Quando uma criança faminta,

Se ergue entre as paredes da insónia.

 

Supérfluo amanhecer

Quando as palavras

Avançam contra o peito do homem,

O mar vacila na escuridão,

Quando o homem deixa de ser homem,

Quando as palavras em combustão,

São balas para a espingarda da saudade.

 

Supérfluo amanhecer

Quando as palavras

Avançam contra o peito do homem,

Quando o homem mata o homem, quando o homem é palavra envenenada

Nos poemas de morrer;

Supérfluo amanhecer

Quando o homem dá conta que a noite é uma enxada.

 

 

 

Alijó, 16/02/2022

Francisco Luís Fontinha


09.01.21

Quando as amarras se desprendem da paixão e, o rio galga os socalcos da insónia.

 

 

Eles tiram-nos a vontade de caminhar,

Mas nunca, nunca, nos tirarão a razão de pensar.

O amor,

A paixão entre dois corpos cerâmicos,

Quando dois lábios de seda, ao nascer do sol, se entrelaçam na maré e,

Um finíssimo fio de chuva,

Dorme, docemente, na cânfora manhã de ontem;

Sois vós, aqueles que me apedrejam e, depois, vêm lamber-me o cu.

Os livros, dormem,

Todas as estátuas, dormem… e,

Até as palavras, vejam lá, também elas, dormem.

O circo,

Os palhaços de farrapos que dormem na soleira das portas,

Também elas,

Todas,

Encerradas.

Querem que ele trabalhe, estude, seja educado, obedeça.

Mas, obedecer, nunca.

Como os pássaros,

Livres pensadores do destino,

Erva daninha dos caminhos de areia,

Que depois,

Dormem, como as palavras dele.

A paixão.

O orgasmo literário de um pobre blog,

Uma simples fotografia de um momento passado,

Cadernos mortos,

Corpos assados,

Na fogueira,

Da língua dos outros.

A boca, incha,

Morre de desgosto,

Sepultam-se os corpos cerâmicos, na fogueira do incenso,

Morde as palavras e,

Grita; foda-se.

Os sete cavalos de aço,

As sete pernas de gesso,

Os setenta corvos da madrugada,

Que o diabo deixou acordar;

Foda-se.

Amanhã estará neve na minha aldeia,

Um rio de sémen, em demanda, correrá para o abismo,

Nascerá mais tarde uma borboleta em papel,

Que o menino deixa adormecer na sua mão.

Hoje, sábado, tarde manhosa, triste,

Dançam as crianças à volta da fogueira,

Pequenos livros, grandes papeis,

Voam e, deixam em mim,

A cinza da tristeza.

Choram eles.

Gritam gemidos de ódio, elas.

Como sabem, o amor é uma pedra linda,

Que caminha junto ao rio;

Foda-se. A água salgada da língua amaldiçoada.

Corpo,

Carne,

Sangue,

Pedaços de pedra,

Amuletos de nada…

São estas as brincadeiras da sereia.

A mesma sereia, aquela que dorme como um porco,

Num qualquer comício de aldeia.

Foda-se, amanhã não.

Fecha.

Abre as pernas, filho,

Porque o Governo te vai foder.

E fode-nos, como fodem as pedras todas as cabeças e cabeçudos do circo e,

Fode-nos, como todos os pregos de aço que serpenteiam as manhãs de sábado.

Os secretos AMORES que habitam esta casa,

Fecha.

Abre.

Fode-o profundamente como que fode o próximo.

Come. Não come. Tem fome, ninguém quer saber.

O gajo é fodido.

Escreve nas paredes da insónia…

Estou farto desta merda.

Merda.

Foda-se.

Ponto final.

Paragrafo.

Amanhã, Domingo.

Hoje, um corpo suspenso na avenida.

O poema, morre.

Como morreram todas as palavras de há pouco;

A marmelada, fria,

Azeda ternura.

Os beijos.

A ferradura.

A mão de enxada na mão.

O polícia quase a vomitar parágrafos e travessões…

“Felizes os convidados para a ceia do Senhor…”

Que são poucos.

Bons companheiros de tribunal.

Levanta-se o réu: inocente, “senhou” Juiz.

Inocente.

Pernas, paus, picaretas, todos à molhada,

Parecendo brinquedos em plástico,

Que o tio “Celito” vende nas ruas de Lisboa…

O cu amarelejado de centeio,

A peida perfumada, quando se senta na esplanada, assume que é apenas um pouco de raiva, a que sente ao estar completo no signo mais estúpido do zodíaco.

Há fogo dentro dela.

Ardem palavras de amêndoa, cornos descascados e,

Putas, muitas, na feira da cidade.

Assim termina mais um confinamento:

Fodam-se.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó, 09/01/2021


30.03.18

As sanzalas de vidro,


O silêncio suspenso nas sanzalas de vidro quando a manhã se suicida contra os rochedos do medo,


Os musseques que brotam sangue, os musseques que dormem na tua mão, meu amor,


São palavras escritas no vento,


Na despedida do sofrimento.


As maçãs da madrugada sobre as pálpebras do cansaço, digo-o enquanto habita no teu corpo uma serpente de aço,


As ratazanas que brincam com os meninos nas sanzalas de vidro,


O pequeno-almoço penhorado pelas Finanças, e lá fora a tua sombra encurralada nos livros,


Assim, como quem esquece a vida,


Ou se esquece da vida, como tu, meu amor, como tu…


Silabas tenho-as quantas quero, guardadas nos meus braços, no longínquo ângulo recto, o tecto da noite empobrecido, como eu, como tu.


As sanzalas de vidro, meu amor, os pequenos trapos das bonecas de areia que o mar alimenta, e há sempre um barco entre nós.


E há sempre um poema em nós, meu amor,


As pedras,


As pedras assassinas descendo a montanha,


O sigilo bancário nas barbas das Finanças, o horror, o terror, a torrente aventura de partir para o teu colo, meu amor, telegrama insignificante; STOP. MORREU. STOP.


E que sim, que fugia das cavernas que habitavam as sanzalas de vidro,


A chuva que não cai, a chuva que cai, o trémulo beijo no leite da manhã,


A literatura, tua, na minha cama,


Adormecida, cansada,


E desperto ao som de um velho relógio com engrenagens MADE in CHINA…


STOP.


MORTE. STOP.


Nas sanzalas de vidro.


Há caracóis, cerveja choca, poesia embriagada…


Dia,


A noite,


Na despedida da MORTE. STOP.


Encerro a luz, ficam tristes as sanzalas de vidro,


E mesmo assim, desenho-as nos teus lábios.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 30 de Março de 2018


03.12.17

Tens nas veias a saliva do desejo,


O cansaço disperso, quando a alvorada se despede de ti,


Os Oceanos infinitos entre quatro paredes de vidro,


O sangue das palavras embriagadas pela insónia,


Depois acordam as estrelas,


É dia,


Encostas-te a mim, dormes, sonhas, escreves no meu olhar as palavras proibidas,


É dia,


Pegas na minha mão, levas-me para os jardins longínquos da memória,


Ouvíamos música, líamos os limos da madrugada, na serpente, a maçã envenenada,


E outras coisas mais…


Vivíamos sonhando com livros em xisto, descendo os socalcos da miséria,


O poço da aldeia, a água límpida da manhã,


Que absorve toda a porcaria das tuas veias,


Está frio, ranges os dentes e entrelaças as mãos,


Desprega-se do teu cabelo, finíssimos pingos de geada,


Até que seja noite na nossa cidade,


Recordas-me as árvores no Outono, aos poucos despidas, sombrias…


Porque a noite é vadia, porque a noite traz recordações de outros tempos,


Relógios ensanguentados de saliva, do desejo, que alimentam as tuas veias.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 3 de Dezembro de 2017


16.07.17

São as tuas palavras que me encantam,


São os teus livros que habitam em mim a razão de viver,


Caminhar junto ao rio…


Galgar os socalcos do querer…


São as tuas palavras que me encantam,


Durante a manhã,


À tarde…


De noite,


Palavras, tristes as tuas palavras…


Na planície do silêncio,


São as tuas palavras que me encantam,


E desalojam…


Deste cubículo de lata,


Onde durmo,


Vivo…


E morro.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 16 de Julho de 2017


01.07.17

Sentas-te no meu colo como dois pilares de areia envenenados pelo silêncio,


 


Oiço a tua respiração romper a manhã,


Ainda o sol não acordou,


Pego na tua mão,


Desfeita de aventuras,


E ternuras,


Que o tempo levou…


 


E perdeu no chão,


A chave do teu coração,


 


Sentas-te na minha sombra, menina do teu olhar,


 


Desfeito em lágrimas o amanhecer ausente,


Duas portas sem saída,


Nesta cidade perdida…


Perdida que não sente,


 


Porque te sentas,


Em mim,


 


Todos os dias loucos sem madrugada,


 


Oiço a tua voz pergaminho,


Perdida na brancura da razão,


Estou só, e sou um ninho…


Um ninho na solidão,


 


Sentas-te em mim,


 


Um homem construído de mar.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 1 de Julho de 2017


22.05.16

caem sobre ti as estrelas da manhã


o sonífero desejo dos meus braços


encalhado no teu olhar


como a pérola adormecida da paixão


rompendo a montanha do Adeus…


subindo lentamente as escadas do mar


até ao sótão do coração…


a esfinge aventura do terno menino


sobrevoando os cadeados de prata


que aprisionam os barcos de madeira


caem sobre ti as estrelas da manhã


nas sofridas avenidas do prazer


que as cidades imaginadas


comem ao pequeno-almoço


sem o saber…


o mendigo das vestes negras


tropeçando na tristeza


senta-se no almoço sem riqueza…


e reza…


e chora…


porque caem sobre ti as estrelas da manhã.


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 22 de Maio de 2016


23.04.16

Os poemas perdidos, a noite incendeia a solidão do corpo enquanto lá fora o silêncio da morte acorda os pedestres rochedos da insónia.


Desço às profundezas do rio, toco na sua boca como se alguém me empurrasse para a escuridão, feliz aquele que vive só, sem ninguém,


Os poemas perdidos que invadem a tarde junto ao mar, lá longe, os sifilíticos segredos da esperança, perdidos, as palavras, os sons e a melódica tempestade dos guizos,


Perdidos.


Os poemas na minha mão caminhando sobre as areias finas do desejo,


Invento crianças que brincam nos quintais de espuma,


Marés de incenso sobre a secretária desarrumada,


Milímetros quadrados de nada, de ninguém, que só os muros da geada conseguem atravessar, tenho pena do coração da Primavera; triste.


Como eu,


Triste


Nos poemas perdidos,


Amanhã renascerá uma estrela no meu peito e o meu corpo transformar-se-á em lâminas de prazer, amanhã terei os poemas perdidos fora do livro, esqueléticos casebres das montanhas de neblina, rios que invadem a cidade e trazem a morte, dos poemas, e dos livros com poemas,


Triste,


Os poemas perdidos quando incendeiam os dedos amachucados pelos cigarros em despedida,


As fotografias dentro de uma caixa de cartão à espera de serem resgatadas pelas palavras dos poemas perdidos, sem ninguém, procuro nela o meu rosto de infância, imagino-me a olhar os barcos entre apitos e partidas, e o medo absorve-me…


Deixo de ver a cidade, dou-me conta em pleno Oceano, sinto o cheiro das gaivotas percorrendo os trilhos do sono, e dos poemas perdidos…


O sangue que corre nas minhas veias, os dias iguais às noites, as noites iguais às sílabas de luar quando olho pelo camarote um finíssimo fio de nylon que me acompanha até ao meu regresso,


Despeço-me dos poemas perdidos,


Despeço-me da aldeia onde nasci e abraço uma Lisboa camuflada pelas âncoras do Tejo, os caixotes em madeira presos aos meus pés, sem nada, apenas tarecos, apenas pequeníssimas coisas sem nexo,


Os poemas perdidos,


Despeço-me,


Deles, delas…


 


Sem perceber que os poemas perdidos nunca existiram em mim.


 


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 23 de Abril de 2016


08.02.16

Não sabia que da textura da noite se fabricavam beijos,


Não sabia que há no luar uma habitação condigna,


Com muitas janelas


E junto ao mar…


Onde nascem estrelas


Donzelas


E desenhos de desenhar,


Não sabia que tinhas no olhar


Uma cidade em lágrimas


Embrulhada na penumbra,


Tanta coisa que eu não sabia…


Que às vezes,


Sentia


Tremia


Gemia…


Até que acordasse a manhã na tua mão!


 


Francisco Luís Fontinha


segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2016

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