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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


06.12.22

Sejamos francos

Quase tudo morre

 

Morrem as árvores e os pássaros

E os filhos dos pássaros

E os filhos das árvores

Morrem os barcos

Os filhos dos barcos

E os passageiros dos barcos

Morrem as estrelas

E um dia morrerá a Terra e a Lua

Morre a noite

Quando acorda o dia

E morre o dia

Quando acorda a noite

 

Morrem os rios

E as montanhas

Morrem os corpos

E há corpos vivos que estão mortos

 

Um dia morrerá o sol

 

E se a lua morrer

Não terás luar

 

E se o sol morrer

Não terás o pôr-do-sol

 

E o que te importa olhar o mar

Se não há o pôr-do-sol?

 

Morrem as casas

As ruas e as cidades

Morrem os mendigos e a pobreza

Quando morrem os pobres

 

Morreu o portão de entrada

Do quintal de Luanda

Quando me sentava à espera do avô Domingos

Depois de uma longa tarde a passear os machimbombos com um cordel

Pelas ruas de Luanda

Morreram as mangueiras do quintal

Morreram as mangas

Morreu o avô Domingos

E os machimbombos do avô Domingos

Morreram os calções e as sandálias

E o triciclo

Morreu o chapelhudo

Depois

Morreram os papagaios em papel

E a construtora dos papagaios em papel

 

Morreu a escola junto ao jardim

(assassinada)

Morreu o antigo campo de futebol

E que hoje é o mercado

Morreu o velho Maximiniano

Que com um carro de mão

Transportava as bancas em madeira para aluguer nos dias de feira

 

Morreu o Dispensário

A menina Maria e a Tuberculose

(felizmente que a tuberculose morreu)

Morreram quase todos os gajos

Que fumavam charros nas escadas do Dispensário

 

Antes do avô Domingos

Morreu o avô Francisco

Depois a avó Valentina

A avó Silvina

O tio Augusto

Primos

Tios

Primos e tios e tias e primas

Morreram

 

Morreu o café Luso e a cozinha do café Luso

E os charros que se fumavam na cozinha do café Luso

E alguns dos gajos que formavam charros na cozinha do café Luso

Morreu o primeiro Oásis e hoje vendem lá comida de plástico

 

Morreu a peixaria que habitava entre o Oásis e a Ribadouro

 

Morreu o café da Paz

E as janelas do café da Paz

 

Morreram os amigos

Os que fumavam

Os que bebiam

Os que fumavam e bebiam

Os que nem fumavam nem bebiam

 

Um dia

Começou a morrer o cabelo do meu pai

Depois e aos poucos

Toda a parte direita da cara e o couro cabeludo

Morriam

Caíam camo caem as folhas no Outono

Por fim

Morreu o meu pai

 

Ao outro dia

Começou a morrer o cabelo da minha mãe

(dona Arminda, quantos cigarros fuma por dia? – nenhum, Doutora Luísa, nunca fumei!)

- O seu filho tem de deixar de fumar

Não deixei

E também a minha mãe

Morreu

 

Morreu o barco que me trouxe de Luanda

Morreu a carruagem da CP que me trouxe de Lisboa para o Porto

E do Porto para o Pinhão

Morreu o carro que me trouxe do Pinhão para Alijó

E o motorista do carro que me trouxe do Pinhão para Alijó

 

Morre o silêncio

O beijo

Morrem os lábios onde brincam os beijos

Morrem os olhos que nos iluminam

E a luz que ofusca os olhos

Morre a manhã

E o desejo da manhã

E a manhã em desejo

Morre o abraço

O uísque

E o bagaço

Morre a paixão

Morre o amor

O marido perde a companheira

A companheira perde o amante

O filho perde o pai

O pai perde o filho

Tudo perde

Tudo morre

 

Morre a lareira quando deixa de ter lenha

E morre a lenha

Quando a lareira acorda de mau humor

 

- E a saudade, meu filho?

O que tem a saudade, mãe?

A saudade morre, mãe?

- A saudade, meu querido, a saudade nunca morre

 

- E os poemas, meu filho?

O que têm os poemas, pai?

Os poemas morrem?

- Os poemas, meu querido, os poemas nunca morrem

 

Morreu o banco de jardim

Que estava estacionado em frente aos Correios

À noite

Sentava-se lá uma linda mulher

De livro na mão

Livro que eu já tinha lido

E quando percebi

Já tinha a minha mão no livro dela

E ela tinha a mão na minha mão

Falávamos de literatura, poesia, arte e música

Até que de madrugada

A mãe dela

Também já morta como o banco de jardim

Vinha-a buscar

E eu furioso

Pronto a assassinar o resto da noite

Para que brevemente fosse dia

Durante a tarde

Escrevíamos em conjunto poesia

Morreu o banco de jardim

Morreu a mãe da linda mulher

A linda mulher não sei se morreu

Mas o livro ainda deve andar por qualquer uma das prateleiras da minha estante

 

Sejamos francos

Quase tudo morre.

 

 

 

 

 

 

 

Alijó, 06/12/2022

Francisco Luís Fontinha


20.11.22

Pegavas na minha mão, com o olhar, desenhávamos pequenos círculos de sono no quintal, à nossa volta, não, ainda não tínhamos inventado a paixão, apenas um qualquer retracto que ainda hoje anda lá por casa, e para te identificar, necessito de viajar até ao mais profundo silêncio marinho, e aí sim, andas por aqui com o mesmo vestido branco, com um pequeno laço na parte traseira e calças as mesmas sandálias; e cinquenta anos depois, ainda guardo as nuvens soltas ao vento que o teu cabelo descrevia sobre mim.

Brincávamos como se não houve mais amanhã, como se o tempo tivesse parado debaixo das mangueiras, e hoje, as mangueiras já não são mangueiras, e tu, tu já não és tu, e eu, e eu já sou eu,

Dormíamos a sesta,

Ouvíamos os sons melódicos de um pequeno rádio a pilhas, e depois lançávamos sobre as sombras dos coqueiros as cordas invisíveis que nos prendiam à terra de onde brotamos e hoje, eu e tu, desconhecemos porque partimos; e ouvia-te silenciar no escuro da tarde – um dia casamos.

Brincávamos enquanto a noite se entranhava na primeira sanzala das tristes madrugadas, e hoje dou-me conta que o velho que transportava o tempo, e diga-se que por tempo entenda-se por dias, horas, segundos, minutos, um dia, outro dia, amanhã, ontem, Sábado, Domingo, e o velho Domingos, numa tarde de insónia, tropeçou junto ao Mussulo e a caixa do tempo caiu sobre a areia e o tempo num pequeno sorriso de vaidade, morreu. Hoje, a noite é o dia, o dia é a noite, a tarde passou para a manhã e esta para a tarde, e quanto a um dia

Um dia casamos,

Perdeu-se enquanto uma gaivota faminta poisou sobre o loiro cabelo de nuvem adormecida que debaixo das mangueiras brincava às mães e aos pais, e sabíamos que brevemente um barco no levaria até às trevas das flores de papel.

Pegavas na minha mão, com o olhar, desenhávamos pequenos círculos de sono no quintal, à nossa volta, e anos mais tarde, sentado junto ao Tejo, enquanto conversava com um velho cigarro em desejo, contava os barcos que entravam e saiam; num deles um miúdo acenava-me, e hoje sei que o velho que fumava cigarros junto ao Tejo e me acenava, era eu.

Um dia serás mãe, avó, a celulite entrará em ti, e dos fios com que eu puxava o mar e que tu sabias tão bem arrumar no bolsinho do bibe, poisam hoje sobre o meu peito. E despedimo-nos numa tarde junto ao mar,

E procuro-te neste velho retracto, e percebo que o avô Domingos mesmo depois de morrer ainda se faz passear pelas ruas de Luanda, puxando o velho machimbombo e às costas transporta a caixa do tempo. Hoje, não tenho tempo para recordar a tua mão que poisavas nos meus olhos e fazias-me acreditar que os papagaios em papel, um dia, um dia voavam…

Sempre um dia. Sempre um dia.

O meu pai, não muitas vezes, levava-nos a ver o poço da morte, diga-se que nunca tive nem tenho paciência para qualquer tipo de desportos, mas fascinavam-me os círculos de luz que que um rapazote em cima de uma motorizada deixava ficar na minha boca; e ela timidamente dizia-me que um dia…

Um dia, virá a morte, um dia, virão as roupas e os caixotes em madeira que deixamos ficar junto ao mar, e um dia, não sei qual, um dia voarei nos teus olhos, que dormem neste velho retracto e que já não recordo o teu nome.

Hoje, mais de cinquenta anos, sentado numa cadeira de vime e de cigarro ao canto dos lábios, conto os velhos cacilheiros que levam amontoados de corpos para a margem Sul; perdi-me numa noite de neblina.

Deixei de contar os barcos.

Deixaste de pegar na minha mão.

E o capim revoltado sorria-nos em silenciados sorrisos que hoje apenas existem neste retracto, e não percebendo porque a noite é sempre triste, procuro a tua mão enquanto à tua volta, bonecos, carrinhos, brincam de mãos entrelaçadas até que a tarde se extinga junto ao mar.

 

 

 

 

 

Alijó, 20/11/2022

Francisco Luís Fontinha


02.10.22

Pego neste cigarro que brevemente se vai extinguir nas minhas mãos;

Como tudo o que me pertence, deixa de me pertencer…

E extingue-se nas minhas mãos.

As palavras morrem.

As imagens que habitam em mim,

Morrem ou ficam amuadas como uma criança mimada,

Se toco numa árvore, morre.

Se toco em alguém… fica doente e morre,

E até estes livros que me pertencem…

Todos eles, mortos.

Morreram as imagens da minha infância,

Morreram as fotografias da minha infância…

Morreram as minhas flores,

E todos os meus brinquedos…

E até o meu grande amigo “chapelhudo” morreu

Numa tarde qualquer, em Luanda.

Morreram todos os barcos da minha infância,

Morreram as gaivotas da minha infância…

… e pego neste cigarro que brevemente se vai extinguir nas minhas mãos,

Sabendo que também ele será a morte.

Morreu o avô Domingos.

Morreu o meu pai.

Morreu a minha mãe.

E até a merda dos machimbombos morreram…

E hoje não passam de sucata.

Como eu.

Sucata amarrotada sentado num jardim invisível.

 

 

 

Alijó, 2/10/2022

Francisco Luís Fontinha


09.05.15

Fiquei sem palavras


Entre três paredes de nada


Esqueci como se vive


Porque perdi-me na estrada


E o sol


Deixou de brilhar na minha aldeia


Tenho saudades


Pai


Dos Musseques


E das gaivotas


Do Mussulo


E dos machimbombos


Em rodopio silêncio


Percorrendo ruas de uma cidade inventada


E a carta


Nunca regressou


Nem vai regressar


Às tuas mãos


O barco que nos trouxe


Levar-te-á


Até ao infinito Oceano do Adeus


Como uma rocha de sílabas envenenadas


Descendo lentamente o papel húmido da madrugada


Tenho medo


Pai


Dos cinco pilares de areia


Que desenhavas na minha mão


Ao pôr-do-sol


Os barcos


E os marinheiros quando brincavam no teu olhar


Nocturno


Viajante


Dos destinos indesejáveis


O ferro em brasa no teu sofrimento


Tenho medo


Pai


(Pai


Dos Musseques


E das gaivotas


Do Mussulo


E dos machimbombos


Em rodopio silêncio)


Como só a morte o sabe fazer…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 9 de Maio de 2015


13.01.15




(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


A cidade camuflada pela espingarda das palavras,


o homem vestido de madrugada


esconde-se entre os candeeiros sem nome,


no cais,


encontra a solidão


e alguns cigarros de triste olhar,


há sobre ele o cheiro da saudade


e dos machimbombos puxados pelo cordel invisível do capim,


ouvem-se canções no musseque,


e dançam


e dançam


e dançam...


dançam em redor dos mabecos em fúria,


dançam imaginando pequenos charcos de água


como se o dia não tivesse acordado,


a cidade,


acorrentada,


o homem,


sufocado,


ele,


ela...


e não há poesia nos triciclos de madeira apodrecida, e não há poesia nos papagaios de papel,


esta cidade está infestada de sombras


e de lágrimas cor-de-rosa...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 13 de Janeiro de 2015




01.08.14

Tenho no meu peito um fóssil,


uma lâmina de aço laminado,


tenho no meu peito uma cidade, uma mulher que habita nessa cidade, uma lâmina...


que me estrangula, que me absorve,


e engole,


nas noites de Sexta-feira...


 


Há um triste olhar que me acompanha desde as ruas de Luanda,


olhava as sanzalas, inventava grãos de areia no Mussulo,


desenhava peixes nos machimbombos com coração de granito,


ouvia, às vezes, um grito...


e engole,


nas noites de Sexta-feira,


 


Há um apito quando oiço a voz do silêncio,


uma criança com mãos de sisal,


deitada na eira de Carvalhais,


tenho no meu peito um fóssil,


um lâmina de aço laminado,


uma luz esculpida na calçada do abismo...


havia entre nós um muro amarelo,


havia ao longe um rio embriagado,


eu, eu sorria,


eu, eu descia... até que os tentáculos do desejo me levavam,


e quando regressava,


o apito... apitava...


 


O vício vomitava sílabas com sabor a alumínio,


e eu, eu dançava sobre uma nuvem de nada,


que me estrangulava, que me absorvia,


e engolia,


nas noites de Sexta-feira...


… e percebia o significado de liberdade.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 1 de Agosto de 2014


25.03.14

Aqui vou procurando as sílabas perdidas em ti,


aqui abraço o cansaço dos teus lábios,


aqui adormeço, aqui... aqui habito como um sonâmbulo embriagado,


uns dias olho o luar, outros... outros apetece-me chorar,


aqui não há mar,


gaivotas,


cacilheiros travestidos de neblina,


aqui, eu, percorro as cinzas do teu olhar,


e sonho, e penso, e quero partir como partem as andorinhas depois do término da Primavera,


aqui me esqueço, aqui...


aqui fundeio o meu cadáver de pano,


e grito, Aqui... Aqui a vida é um engano,


 


Aqui me amanho como um rebanho de desejo,


escondo-me na montanha do adeus, e nada, e nada,


aqui tenho livros que não quero ler,


odeio as palavras, odeio o querer...


querer que não tendo vou ter,


o quê?


 


Que aqui vou procurando as sílabas perdidas em ti,


os jardins sem flores,


as nuvens tão negras, tão negras... que é sempre noite,


sempre... sempre noite,


aqui não há Cais do Sodré,


machimbombos, mangueiras... papagaios em papel colorido,


aqui me enforco, aqui habito imaginando que tenho ossos, que tenho vida...


tecto com estrelas em chita, aqui... aqui nada me excita,


nem as palavras, nem as imagens das fotografias assassinadas,


aqui não há madrugada,


amanhecer,


aqui, aqui apenas existe dor, aqui, aqui apenas existe... engano.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 25 de Março de 2014

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