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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


16.02.20

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Negrito, negrito,


Grito,


Gato,


To,


Miau.


Negrito,


Passeia-se pelo destino,


Desenha no pavimento,


Um grito,


Ou silêncio de menino.


Negrito, negrito,


Quando o cansaço acorda,


Corda,


No pescoço do periquito.


Negrito, negrito,


Assobio,


Matinal alvoroço,


Em fastio,


O tio,


Demãos no bolso.


Negrito,


Negrito, pois então,


Calma, calma companheiro,


Que ele, o gatito,


Não é difícil de passar a mão.


Ai, negrito,


Então, pois, é negrito…


Finge-se de morto,


Morto morrido,


Gato, gato vadio,


Vadio de ter sentido,


No pulso,


Nas mãos,


A espingarda da loucura,


Dura, negrito, dura,


Sem perceber que há um grito,


Uma palavra na ternura.


Negrito, negrito,


Negrito,


Guito,


Guito.


Negrito.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


16/02/2020


03.01.15



(Desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


Oiço Oumara Moctar Bambino,


o sémen invisível do sono alicerça-se aos lençóis de porcelana,


habito um terceiro andar reumático,


romântico,


loucamente apaixonado,


brinco com os círculos do desejo,


tenho um sonho,


acordo e sinto-me um palhaço de vidro,


sem beijos,


sem... sem abrigo


Oiço Oumara Moctar Bambino,


e uma jangada de insónia poisa no meu ventre...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 3 de Janeiro de 2015



12.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Entre nua e as Quatro Estações de Vivaldi
O corpo balança no Dó Ré Mi
Algo de estranho de passa no Fá
Desisto quanto oiço o Sol
E ela nua
À espera do Lá…
Abre-se a janela em Si
E o corpo
Balança o corpo como um piano suspenso no tecto da alvorada
Desce sobre ela o amanhecer
Nua
Nua sem o saber…

Não percebo nada de música
Melodias
Poesia ou
Ficção vagabunda…
Mas tu nua
Não
Não enquanto brotam os sons de Vivaldi
Na tua mão
Dos teus seios
Toda nua
Tu
Uma pauta com sabor a limão.



(não revisto)
@Francisco Luís Fontinha – Alijó



07.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Sinto-me verdadeiramente encaixotado nos aranha-céus que o teu querido pai me prometeu, entre um deles e um qualquer livro, escolho um qualquer livro, e entre um qualquer livro e um copo de vodka, escolho obviamente...


Um qualquer vodka, porque dispenso o livro, porque dispenso um qualquer poema, porque dispenso o copo, sinto-o e sinto-me encaixotado nas tuas mãos vendadas pelo sono, cerras os olhos dos ténues pulsos de areia, pertences aos corpos clandestino como os pequenos grãos e as distintas óbvias gotículas do suor tua pela, cerras os olhos que jazem nos teus pulsos, suicidadas-te como uma menina mimada, singela, como uma flor vagabunda num qualquer palco, onde se ouve, uma qualquer banda, o piano melódico, e da voz poética, ela, ele, transformam


“Demito-o obviamente”,


E demiti-me,


Deixei se ser o amantes nocturno das noites de Verão, deixei de ser o clandestino mendigo passeando-se pela Avenida ribeiro das Naus, enquanto escrevo, oiço a melódica voz de “Joana Gomes” e dos “Fingertips”, e obviamente


Recordo, as saudades, de Carvalhais, e de S. Pedro do Sul, e dizem-me que o rio ainda corre como corria, e dizem-me que a eira ainda é a eira de ontem, pouca coisa mudo, apenas que o avô Domingo deixou de passear-se de bengala e dorme debaixo da lápide granítica onde alguém escreveu


“Eterna saudade”,


E demiti-me,


Hoje, hoje não amante, hoje, hoje não escravo do amor “Slave to love”, STOP, e na primeira rotunda a segunda saída, a respectiva plana de sinalização


“Precisa-de amor”,


Penso, devo estar perto, ao que tudo indica... uns míseros oito quilómetros, estrada sinuosa, encurvada, subo a serra como um caracol mal disposto, paro, peço um café mal tirado, por dificilmente encontrarei um bom café, e fico especado a ouvir a voz melódica do piano, debaixo da mesa, uma criança traiçoeiramente apanha um chupa-chupa, lembro-me de quando ainda era eu, muito antes de me demitir, lembro-me do Baleizão, lembro-me dos palhaços e dos malabaristas, lembro da tenda do circo dançar sobre a minha cabeça de menino


Mimada, tu


Eu, eu mimado, filho único, tinha um cavalo em madeira, saltava o portão de entrada e entrava cidade adentro, a cada machimbombo que encontrava gritava


Avô Domingos?


Nada


Avô Domingos?


Nada, nada de nada


Outra vez... Avô Domingos?


E encontrava-o numa transversal em Luanda com um cordel na mão a puxar um machimbombo com olhos azuis e missangas no pulso esquerdo, no direito


Machimbombo? Outra vez... Avô Domingos?


Penso, devo estar perto, ao que tudo indica... uns míseros oito quilómetros, estrada sinuosa, encurvada, subo a serra como um caracol mal disposto, paro, peço um café mal tirado, por dificilmente encontrarei um bom café, e fico especado a ouvir a voz melódica do piano, debaixo da mesa, uma criança traiçoeiramente


Triste,


Penso, devo estar perto, ao que tudo indica... uns míseros oito quilómetros, estrada sinuosa, encurvada, subo a serra como um caracol mal disposto, paro, peço um café mal tirado, por dificilmente encontrarei um bom café, e fico especado a ouvir a voz melódica do piano, debaixo da mesa, uma criança traiçoeiramente


Infeliz,


Penso, devo estar perto, ao que tudo indica... uns míseros oito quilómetros, estrada sinuosa, encurvada, subo a serra como um caracol mal disposto, paro, peço um café mal tirado, por dificilmente encontrarei um bom café, e fico especado a ouvir a voz melódica do piano, debaixo da mesa, uma criança traiçoeiramente


Cansada de ti,


E obviamente... demito-me.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



02.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Embalavas o teu alegre piano como se ele fosse o teu próprio filho, abraçavas-lo e embrulhava-lo com os braços pendentes de caules verdejantes como as lâmpadas que a noite inventa nos teus olhos, ouvíamos-te longamente sentada num pequeno banco alegremente feliz, sentavas-te nele, rodavas o tronco e a cabeça, esticavas os longos dedos de porcelana... e saíam das tuas mãos os mais lindos melódicos sons,


Chamo-te A Pianista, sem o saber, sem sequer perceber se realmente sabes tocar piano, se realmente... algum dia tocaste com os teus dedos em algum, se realmente algum dia acariciaste algum, e sabes? Não o sei, talvez nunca tenhas tocado piano, talvez nunca tenhas adormecido ou acariciado algum piano, mas eu, eu imagino-te sentada num banco simples, feliz, voando dentro da sala de estar,


Ela vagueando como corpo sobre as teclas húmidas do piano em voz poética quando das manhãs ouvíamos-te saltitar entre os ramos cerâmicos dos teus abraços cúbicos nas equações complexas dos sons invisíveis do corpo teu piano..., havíamos inventado as janelas com vista para o mar, embalavas o teu alegre piano como se ele fosse o teu próprio filho, feliz, descendente do Sol, filho da nuvem cinzenta e da gotícula número mil quinhentos e vinte e três, gostava de ti, nua, sobre o teclado em tons de negro, descia sobre ti a tempestade, o ciúme, descia sobre ti o medo, e tu, rosa bravia, caminhas desordenadamente junto ao desejo, olhavas-nos, e sabíamos que nos teus olhos


Chamava-te A Pianista, sem o saber, sem sequer perceber se realmente sabes tocar piano, se realmente..., os teus olhos, vagabundos, escrevias nas pálpebras as notas musicais, deixavas adormecer nas tuas mãos os tão desejados silêncios dos beijos ainda não acordados, dormias, nua, eu, eu fumava desalmadamente cigarros que me cerravam os meus olhos, deixava-te de ver, apenas um sombreado ténue realçada o teu corpo deambulando entre o travesseiro e a cabeceira da cama, os teus cabelos soltos pelo imenso areal, a areia branca, silenciosa, e quando acordavas


Olá sisudo,


E quando acordavas, se ele fosse o teu próprio filho, feliz, descendente do Sol, filho da nuvem cinzenta e da gotícula número mil quinhentos e vinte e três, gostava de ti, nua, sobre o teclado em tons de negro, descia sobre ti a tempestade, o ciúme, descia sobre ti o medo, e tu, rosa bravia, caminhas desordenadamente junto ao desejo, tu vestida de desejo, e sentia-te nas minhas mãos antes de entrarmos mar adentro, o teu silencioso piano, o teu invisível teclado ténue...


Olá sisudo


Ténue como os teus dedos, ténue como os teus soltos cabelos escrevendo poemas sobre as rochas desassossegadas das palavras abelha que voavam debaixo dos velhos plátanos, deitada, tu, tu não propriamente, deitado o teu corpo, eu, eu fumava desalmadamente para não te ver, porque quando te via, eu, eu desejava-te loucamente como versos brincando numa calçada de Lisboa, ouvia, ouvíamos-te os sussurros sonhos,


Sisudo,


E a noite entrava nos teus mamilos cor de chocolate, uma borboleta poisava como se de uma folha de papel se tratasse, e sabíamos que não era uma folha de papel qualquer, e sabíamos que a noite não era uma noite qualquer, e sabíamos que o teu piano dançava no corredor entre o teu quarto e a casa de banho, e a borboleta que não era borboleta, mas apenas a imagem reflectida num espelho de uma folha de papel, a mesma


Sisudo,


A mesma folha de papel onde escondias as notas musicais, a mesma onde escondias o meus lábios e me proibias de te beijar, e era nessa mesma folha de papel onde guardavas as minhas mãos, para que eu, para que eu não te acariciasse o teu copo sonolento com sabor a melódicos sons e a poéticos suspiros, e os teus lábios acabavam, já de madrugada, por morderem-me o meu pescoço e o meu peito,


Sisudo eu, sisudo eu,


E fumava desalmadamente para não te morder os lábios e os teus seios poisados sobre o teclado sombreado de um piano, de um piano, que nunca ninguém viu, que ninguém sabe a idade, nome, ou a localidade onde habita, mas sinto-o, mas sinto-te na minha cama debaixo dos meus lençóis...


 


(não revisto – Ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó



28.07.13



foto de: A&M ART and Photos


 


... e ardes como pedaços de papel sobrevoando a poeira madrugada dos livros envenenados...


o putrefacto poema vagueia como infinitos gemidos suspensos na árvore do desejo


dormem como cadeiras vazias as lâmpadas húmidas do corpo teu mergulhado em sons melódicos


ardes como os beijos


que nascem nos lábios do amanhecer,


 


Amor mergulhado em silêncio poeira que a insónia deixa nas flores com esqueleto de pedra...


uma mão traiçoeira sobe cuidadosamente os degraus da manhã de porcelana


… e ardes


como invisíveis sílabas na lareira da fome


ou de uma janela o cansaço viver como cordas de nylon em pingos de sémen,


 


Oiço-te na sonolenta despedida do calendário de parede


e ardes...


como pequenas palavras em suor teus seios de ébano


percebo o teu olhar entre as cinzas da lareira nocturna...


nas flores com esqueleto de pedra encarnada,


 


… e ardes


dos livros envenenados...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


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