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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


03.01.15



(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


estas mãos se cruzam no Oceano tua pele


mergulhando nas tuas pálpebras de madrugada


estas mãos te amam


e acariciam


nas tardes envenenadas pelo desejo


estas mãos de ninguém


com todos os cheiros da sanzala


estas mãos de ninguém


com todos os sons do amanhecer


que só o perfume de uma rosa consegue desenhar


e... e escrever


nas sombras do mar


estas mãos se cruzam no Oceano tua pele


que o barco do meu amor suavemente desliza...


como todas as palavras soltas


como todos os vinhedos suspensos no sorriso de uma enxada


estas mãos te amam


e acariciam


estas mãos de ninguém


que o tempo come


e despoja as suas cinzas no cemitério nocturno das gaivotas sem nome...


estas mãos


estas mãos se cruzam


quando todas as luzes se apagam e todos os corpos morrem...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 3 de Janeiro de 2015



09.06.14

As tuas mãos são pétalas de rosa,


não de uma rosa qualquer,


têm coração de prata,


sabem a palavras acabadas de escrever,


uma rosa, uma sombra, e pedaços de luar,


pétalas de silêncio mergulhadas nos meus lábios,


desejos de amar,


amar... as tuas mãos, as pétalas... sem esquecer o teu olhar,


 


As tuas mãos são frágeis,


como jarras de porcelana onde adormecem as rosas que têm pétalas com perfume de madrugada,


amo-as, amo-as sem o saber,


às tuas mãos, entrego o meu corpo cansado, o meu corpo de estanho...


o meu corpo envenenado pela solidão,


o meu corpo envenenado pelo teu sorriso de amanhecer,


 


(oiço-as no meu peito, os gritos teus, e os solstícios suicidados)


 


As tuas mãos... as tuas mãos me encantam,


são sons melódicos que se abraçam a nuvens poéticas,


frágeis,


macias,


tão finíssimas... Meu Deus, que tenho medo de lhes tocar!


que tenho medo que me toques, e se evaporem na neblina de Belém,


 


(oiço-as, oiço-as e tenho-lhes medo)


 


Podem quebrar,


podem morrer,


… podem se apaixonar,


 


As tuas mãos são pétalas de rosa,


são mimos,


são... são néons perpendiculares deambulando na cidade,


as tuas mãos, ai... ai as tuas mãos de felicidade,


quando imaginam círculos de areia em busca de uma gaivota revoltada,


elas te olham, e elas ficam encantadas...


com as tuas mãos, com as pétalas das tuas mãos,


rosas, rosas castigadas.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 9 de Junho de 2014


30.03.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Sacias-te na minha sede mergulhada em perfumados cachimbos de prata,


encontras em mim a doce corrente do aço clandestino da saudade,


sei que existo porque escrevo-te palavras, vãs palavras que o tempo come, e alimentam as tempestades da dor,


sacias-te em mim como se eu fosse um marinheiro escondido na escuridão da cidade,


procurando engate, procurando o prazer sem o prazer... no inanimado mundo da morte,


procurando mãos silenciosas para argamassarem o meu corpo aos cais do desgosto,


e sinto-me uma ténue folha de papel esquecida no teu ventre,


sacias-te nos meus olhos, e cerro-os para me ausentar de ti,


palavra, palavra do engano que sente o sofrimento,


e... dizes-me que todas elas são inconstantes equações trigonométricas,


cansadas,


tão cansadas como as tuas mãos poisadas no meu rosto de lata...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 30 de Março de 2014



27.02.14



Foto de: A&M ART and Photos


 


(aos meus pais que fazem hoje 49 anos de casados)


 


 


As tuas mãos gélidas nas minhas pálpebras de insónia,


oiço-te sorrir junto ao tanque da agonia,


ao longe os gemidos trémulos do sino da Igreja...


percebo que nos teus olhos habitam lágrimas de papel colorido,


e sobre os teus ombros,


o peso,


o peso imensurável das sombras do abismo,


o peso... o peso da saudade saboreando as nuvens de algodão da madrugada,


 


As tuas mãos são como pedaços de barro esquecido na parede da solidão,


há em ti cabelos perdidos e alguns silêncios intransponíveis, ocultos... mórbidos,


há dentro de ti o cansaço,


o triste cansaço da vida,


e das tuas mãos as doces carícias do amanhecer,


há uma janela com palavras de acordar...


e palavras de acordar nos cortinados que cobrem as tuas mãos gélidas,


as tuas mãos de mim, as tuas mãos de uma sanzala enrolada em capim...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014



04.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


“Estoy enamorado” e apelidam-de de pássaro das frias noites de agonia, sinto as ranhuras no gesso que a esperança corrompe as paredes da minha habitação, um fino e velho cubículo, um casebre com quatro janelas de pano, um esqueleto em porcelana com duzentos e seis ossos embainhados nas tormentas dos beijos desperdiçados,


Estoy enamorado,


“Estoy enamorado” sem perceber que a cidade dorme, respira e sonha..., deixei de sonhar quando dei conta das árvores com braços de cinzentos cigarros de enrolar, tive medo que depois de adormecer, nunca, nunca mais acordaria para olhar o mar, dormi, não sonhei... e quando me acordaram, anos depois, voltei a olhar


“Estoy enamorado” pelo mar,


E conheci uma abelha por quem “estoy enamorado”, literáriamente é uma besta, sempre aos gritos, acorda todos os fantasmas da cidade dos peixes, sinto dentro de mim os barcos da desgraça, sinto dentro de ti os edifícios com alicerces de prata e telhados em colmo, a floresta deambula nos teus cabelos, e tu, estúpida abelha, literáriamente pareces uma lareira sempre extinta, apenas daquelas que servem apenas de adorno, um cão saltita de sofá em sofá, e do resto do mobiliário... apenas a escrivaninha com quatro gavetas encerradas a fechaduras de marfim, um velho e rabugento cinzeiro e claro... a porcaria de sempre das mesmas fotografias de sempre, família, fantasmas que hoje apenas o são, habitam dentro do nosso pequeno espaço, não respiram, não saem de casa... mas... também não bebem, dançam umas com as outras, fumas haxixe por prazer e lêem revistas com fotografias de gajos nus, eles e a minha abelha parecem a tromba de um elefante depois da congestão com percebes e algumas quitetas, lembro-me das asas dela, e sinto nojo das palavras que me escrevia, dizendo que


“Estoy enamorada”,


As barbatanas sentiam o cheiro intenso do sossego das conchas vermelhas, a lua em guindastes de orgasmo levanta-se do divã, e


“Estoy enamorada” por ti, por eles, por todos os homens com vestidos de prata, os olhos pintados com rímel e nos lábios um colorido desejo sobressaltava... ouvíamos do outro lado da ranhura do gesso


“Estoy enamorado”,


“Sí mi querido”,


E as varandas balançavam e as escadas brilhavam e as ombreiras...


Se iluminavam,


E


“Estoy enamorado”,


“Sí mi querido”,


Amávamos-nos como bijutarias da “feira da ladra”, levava livros para vender e trazia panfleto de heroína para fumar,


“Si mi querido”,


“Estoy enamorado de ti” e quando regressávamos a casa tínhamos um regimento de transeuntes à nossa espera, polícia, polícia e mais polícia, tudo porque tínhamos trocado alguns livros por outros tantos panfletos de ardósia tarde sem recreio,


“Estoy enamorado de ti”,


“Estoy enamorado” e apelidam-de de pássaro das frias noites de agonia, sinto as ranhuras no gesso que a esperança corrompe as paredes da minha habitação, um fino e velho cubículo, um casebre com quatro janelas de pano, um esqueleto em porcelana com duzentos e seis ossos embainhados nas tormentas dos beijos desperdiçados, a canalização sempre em pequenos arrotos devido aos pigmentos de ferrugem, ouvíamos cair sobre nós os pingos longos da chuva sem


Nome?


“Estoy enamorado” e apelidam-de de pássaro das frias noites de agonia, sinto as ranhuras no gesso que a esperança corrompe as paredes da minha habitação, um fino e velho cubículo, um casebre com quatro janelas de pano, um esqueleto em porcelana com duzentos e seis ossos embainhados nas tormentas dos beijos desperdiçados, o nome pertencia à rua do abismo construído sobre os rochedos da coragem, estar e não pertencer estando, e nunca estive, e nunca estarei...


Disponível,


“Estoy enamorado”,


“Sí mi querido”,


E a abelha zarpou de mim, sinto-me livre, sinto-me... sinto-me como uma enxada vociferando os novelos de lã da minha mãe...


Amanhã, amanhã... amanhã “estoy enamorado”.


 


 


(não revisto - ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 4 de Janeiro de 2014



28.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


São as tuas mãos frias e doces que alimentam o meu olhar


são as tuas mãos a lareira do desejo


o sincelo amigo nas manhãs nubladas


são elas a chuva prometida


que a tua pele doirada absorve


como caramelo derretido numa panela de pressão angustiada


as vãs noites resfriadas enquanto espero por elas...


… as tuas mãos que poisam no rosto do sem-abrigo


e aquecem o mendigo


são as tuas mãos frias...


e doces...


e singelas sesmarias que alimentam o meu olhar


São as tuas mãos frias


aquelas que o papel engole quando às palavras vem a tristeza


o barco recusa-se a navegar no teu corpo


e o mar


e a madrugada lívida dos pássaros marinheiros


voam sobre a cidade dos homens abandonados


e se não fossem as tuas mãos


aquelas... as tais... que dizem ser frias...


e se não fossem elas?


nós?


Imaginas a nossa vida...


vivermos sem saber o que são as tuas mãos frias


E doces que alimentam o meu olhar


o mundo seria quadrado


a lua talvez fosse filha de um triângulos isósceles


pobre como eu


tão pobre que nem se consegue ver no céu...


se não fossem as tuas doces e tristes mãos


o que seria da raiz quadrada e do cosseno de trinta grados?


e tu miúda


bela e tão bela


preocupada com um borbulha... coisa insignificante


porque são as tuas mãos


as tais... as doces e frias... as janelas da solidão.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 28 de Dezembro de 2013



11.09.13



foto de: A&M ART and Photos


 


um cigarro esquecido


na tua boca de serpente


envenenada pela solidão


em ti


um cigarro ardido


de ti


ausente


quando o coração


de uma árvore parte e voa em silêncios de espuma


um cigarro mordido


em teus lábios de ternura


em ti de ti... senti


 


em ti


e de ti


 


a claridade mente


a madrugada distante


como as águias dos esconderijos mergulhados em ténues mãos de areia


ardem como as palavras incandescentes


e as sereias


parvas


em pequenas sementes


do corpo embrulhado em tristes larvas...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013



29.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Saltávamos o pequeno muro todos os finais de tarde, após a escola, às vezes com milímetros de fome a brincar nos estômagos vazios, nós, nós existíamos apenas porque tínhamos de existir, era-nos proibido desistir, era-nos proibido entrar no quintal do senhor António Joaquim de Alicate, homem robusto, homem rude, e de poucas palavras,


Um dia


E das poucas palavras, as poucas palavras, se não servissem para resmungar com três ou quatro miúdos, serviriam para quê? O quê? Não acredito, queixava-se ele, um dia, quando ia para entrar no palheiro e viu-me sobre o telhado, em pés de lã à procura de uma velha bola de futebol, gritou-me


Agora salta!


Claro que eu, incrédulo comigo mesmo, saltei, caí, não me magoei... e consegui desprender-me das suas garras de lobo solitário, Palavras? Para quê? E ainda hoje, durante a noite, quando abro a janela e espero que regresse, sinto-as


Agora salta,


Sinto-as ao redor do meu esguio pescoço, como se fossem finos arames suspensos entre duas árvores, eu, incrédulo, vestido de palhaço, percorro o arame, e sinto-as, as mãos do senhor António Joaquim de Alicate e a triste bicicleta da menina Alzira, que ainda hoje, quase com noventa anos


Olá, menina Alzira... está boazinha?


Claro que sim, responde-nos, e desde o salto mortal entre quintais, que ela, que ele, que nós, nós que supostamente não era para existirmos, inacreditavelmente, existimos, e ainda hoje, em todos os finais de tarde, saltamos os quintais invisíveis, alguns deles foram degolados por escavadoras e bulldozers, tal como o senhor António Joaquim de Alicate, robustos, de poucas palavras, para quê palavras?


Agora salta...


E eu saltei, voei sobre as espigas de trigo, e em vez de cair


Ainda hoje sinto-lhe as mãos no meu esguio pescoço,


E em vez de cair sobre uma leve cama de espigas de trigo com lençóis de cansaço, não, não ouvi as palavras dele, não percebi as palavras dela,


Ainda hoje


Menina,


Ainda hoje


Salta,


Ainda hoje


Olá, menina Alzira... está boazinha?


Um dia


E das poucas palavras, as poucas palavras, se não servissem para resmungar com três ou quatro miúdos, serviriam para quê? O quê? Não acredito, queixava-se ele, um dia, quando ia para entrar no palheiro e viu-me sobre o telhado, em pés de lã à procura de uma velha bola de futebol, gritou-me


Agora salta!


E eu, ainda hoje, não consegui poisar o meu corpo no doce chão, nós, três ou quatro, de quintal em quintal, saltávamos os pequenos muros, e eu, ainda hoje, tenho saudades do senhor António Joaquim de Alicate e da menina Alzira, e eu


Sobre o telhado do palheiro...


E eu, hoje, sinto-lhe as mãos no meu esguio pescoço.


 


(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



14.08.12

madrugada


hoje


sem encontro marcado


com a alvorada transparente


 


hoje


eternamente só dentro dos silêncios da noite


 


madrugada


hoje


sem flores na algibeira


o néon agoniado pelo balançar da calçada


a maré cresce


e leva todos os corpos para longe


 


gaivotas com asas de beijos


mergulham nos púbis felizes dos poemas entre mãos


madrugada


hoje


entre mãos


e os dias que desapareceram do calendário suspenso na parede do amor


 


viagem


hoje


eternamente só dentro dos silêncios da noite


 


madrugadas


de papel


entre mãos


e flores queimadas sobre o soalho da tristeza


vem a solidão


vem o mar sem espuma


e leva todos os corpos filhos da madrugada


hoje.


15.09.11

Se as minhas mãos fossem finíssimas folhas de papel


E os teus lábios as palavras para eu escrever,


Se nas minhas mãos habitassem árvores


Ou sorrisos de gladíolos,


 


Se às minhas mãos viesse o nascer do sol


Quando um corpo prensado na manhã


Se esconde entre as nuvens e a lua…


E as minhas mãos recheadas de lágrimas,


 


Cavalos invisíveis galopando na maré


E eu agachado na espuma dos teus seios,


Se as minhas mãos construíssem estrelas


E planetas e buracos negros e partículas de deus,


 


Nas minhas mãos


Crescem silvas embainhadas nas tardes de primavera,


Sombras que se extinguem na suavidade do teu corpo


E recuso-me a tocar-te, e recuso-me a acariciar-te,


 


E sinto medo de te aleijar,


Porque as minhas mãos parecem rochas,


Grãozinhos de areia que olham o pôr-do-sol…


Poeira que poisa sobre o mar.

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