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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


19.09.21

Desenhavas com o olhar,

No tecto do silêncio,

Curvas senoidais,

Enquanto me despedia dos teus soluços

E gemidos de dor,

Escrevia na minha mão,

A equação da saudade.

Apetecia-me fugir,

Ser um covarde e,

Correr,

Em direcção ao mar.

Apetecia-me gritar,

Não ser covarde e,

Cerrar os olhos,

Penhorando o meu olhar.

Levemente,

Levantei a minha mão alicerçada no teu peito,

E, aos poucos,

Olhava pela janela,

Aberta para a tua viagem,

Os pássaros nocturnos da solidão.

Sabia que o fim,

Em tudo,

Era igual,

Ao outro fim ausentado,

No entanto,

Acreditava que me ouvias,

E,

Conseguias pronunciar o meu nome;

O meu nome, que tantas vezes

Escreveste nos céus de Luanda.

(Desenhavas com o olhar,

No tecto do silêncio,

Curvas senoidais)

Senos cansados,

Co-senos envenenados por um qualquer

Triângulo rectângulo,

Que apenas na minha mão,

Naquele lugar,

Silenciado pela morte,

Tinha existência física.

Uma viagem sem retorno,

Como o sono,

Quando um cadáver quadriculado

Morre na lareira do corpo ausentado.

Saí a correr,

Puxei de um vadio cigarro e,

Chorei,

Acreditando na mentira,

Pensando que sonhava,

Sílabas de insónia

E pequenas quadriculas na alvorada.

Acreditando na mentira,

Da noite ausentada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19/09/2021


27.08.20

Hoje, triste dia de escrever,

Dia cansado de correr,

Neste Universo despenteado,

Longínquo Oceano de saudade,

Que o tempo não apaga.

Hoje, são palavras entre lágrimas de chorar,

E, canções de brincar,

Hoje, o menino dos calções, corre para o mar,

Senta-se na tua sombra,

E, recorda a espuma dos dias de Luanda.

Hoje, já não sei quem manda,

Se manda,

Se não manda,

Mas sei que hoje,

Todos aqueles que mandam,

Em mim, não,

Sou as palavras murmuradas, por ti, na noite chorada,

São palavras, minha querida, cartas a um filho…

Hoje, triste dia de escrever,

Dia cansado de correr,

Hoje, sanzala esquecida na tua mão,

Quando o Sol acorda sem resolução,

És canção…

És lágrima,

És mãe.

 

 

Francisco Luís Fontinha, 27/08/2020


26.03.19

Oiço-te.


Penso nas tuas sílabas quando poisam nos meus lábios,


Oiço-te, a cada madrugada, a cada hora passada,


Quando eu deitado, na esplanada encerrada,


Descanso de pessoal,


E, no final do dia, as palavras embriagadas,


Quebram o teu silêncio,


Como uma fechadura,


Pobre,


Nua,


Oiço-te.


Na vanguarda da noite,


Carregado de cartazes,


Lutando contigo,


Lutando…


Até que um dia, novamente,


Perderemos a guerra,


Já o senti,


Já o vivi,


Mas hoje,


Hoje tenho o prazer de te ouvir.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


26/03/2019

...


28.02.19

Da tarde emancipava-se a lunar luz do horizonte, tenho lágrimas nos olhos sombreados pela tempestade, como ontem, o limite entardecer que ofusca a madrugada, não sei se acordará em mim o feitiço do entardecer, está frio em ti, tens na mão o silêncio da noite, somos dois,


Perco-me em ti,


Somos dois pássaros revoltados com o orvalho, diariamente sentimos as frestas da sonâmbula rua adormecida, só e triste,


Perco-me em ti,


Triste nos horários invisíveis, a cidade acorda, submete-se ao abismo,


Tenho medo, mãe.


Perco-me em ti, meu amor, desde a infância até hoje, perco-me em ti todas as manhãs quando acordam as árvores do meu quintal, os pássaros, mãe, os pássaros choram por ti, e


perco-me...


E sei que não regressarás mais aos meus braços, e sei que deixarei de escrever nas tuas mãos as palavras adormecidas pela chuva gélida de Inverno, saberás que um dia vou navegar para longe, saberás que um dia serei duzentos e seis ossos em fino pó, como a terra que nos alimenta nas estrelas,


Perco-me.


Da tarde, uma gotícula de tristeza desce o teu invisível cabelo, saberei que amanhã não estás, saberei que amanhã as minhas mãos serão tábuas de silêncio suavemente suspensas no teu rosto,


Perco-me em ti, meu amor,


Sabes, mãe?


Trinta dias sem rumo a navegar nesta barcaça,


Tens medo, filho?


Trinta dias escrevendo nas ondas o teu nome, desenhando o vento nas nuvens dos teus lábios, e, um dia vamos acordar na longínqua Luanda, com palmeiras, com capim e mangueiras...


Tens medo, filho? Não, mãe, não tenho medo da tua sombra ao acordar.


 


 


Francisco Luís Fontinha


28/02/2019


01.05.16

(à minha mãe)


 


Sou um marinheiro sem barco nem porto onde aportar.


Trago comigo a âncora da solidão cravada no coração,


Trago comigo a ausência do destino abandonado,


Sinto-me um velho encravado nas estrelas,


Pegando num livro de um poeta morto; todos os meus poetas morreram…


E pertencem agora aos meus sonhos.


Sou um verdadeiro falso,


Um falso feliz caminhando junto ao Douro,


Descendo os socalcos do teu corpo,


Encurvados na paisagem abstracta do silêncio,


Sou um privilegiado,


Tenho o dia e a noite,


Doce paixão dos mares amargurados,


Dos barcos apaixonados,


Como eu,


Apaixonado pelas tuas palavras,


Não vás.


Tenho nas veias o rio da morte,


A insónia saboreando o suspiro da noite,


Sofro tanto… meu querido,


Os apitos junto ao mar,


Eu menino agachado nas saias da minha mãe,


Via a cidade escurecer,


Desaparecer,


E morrer,


Apenas caixotes de recordações,


E o beijo da minha mãe,


Sou um marinheiro da madrugada,


Um sifilítico cadáver do desejo,


Nos teus braços,


Mãe,


As fotografias dos negros rostos da nossa infância,


As palmeiras que incendiavam o teu amor,


Junto à baía,


Os gritos das serpentes que deixamos nos quintais das outras brincadeiras,


Os pássaros, mãe, os pássaros,


Junto à janela!


 


 


Francisco Luís Fontinha


1 de Maio de 2016

...


08.03.15

(para a minha mãe)


 


 


Anoitecia sobre os teus ombros, sombras de sal voavam no teu olhar, como serpentes de papel a brincar numa árvore, eu brinco, tu brincas...


Amanhã?


A luz, os anzóis da tristeza suspensos nos desejos de cristal, não durmo, os sonhos, morrem os sonhos, morrerem as amendoeiras em flor,


E eu,


E eu?


Amanhã, cor-de-rosa, húmidas canções de Primavera nas ilhargas do silêncio, habito, tu habitas e ele


Habita?


Onde, onde?


Ele perdido numa tragédia serrana, a montanha crescia, e ele


Habita,


Anoitecia, e ele caminhava ribanceira abaixo, entra nos picos da alegria... e todo o corpo desenhado, círculos de sangue vagueando nos seus braços, tive medo, mãe, amanhã, mãe, amanhã saberás porque existem os cavalos de areia, aqueles


Como os do Mussulo»


Sim, mãe, sim... como os do Mussulo...


 


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 8 de Março de 2015

...


20.02.15

Desenho_A1_050.jpg


 


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


E a doença sifilítica nos dedos do artista, adormece a tela, o poema e a musa do poeta,


Sinto-me... um suicidado cadáver de esperma, um transeunte canalha com suspensórios e gravata, e sapatos de ponta delgada,


Faltam-me as tuas mãos, mãe,


Café?


Viajo na tua saia e percebo que não temos regresso, regressar é um suicídio sem palavras, uma carta escrita, os motivos da tua ausência, as faltas da tua presença na Igreja, sinto-me quando abres a janela do quarto e tenho a certeza que estou vivo,


Bom dia, mãe...


Meu querido filho!


O livro cresce nas ardósias cinzentas da memória,


Que és enigmático, meu filho...


Que sim, minha mãe,


Que sim,


Telefonaram da Rua dos Mendigos?


Para mim, mãe?


A cidade embriagada nas sandálias do pescador, o mar, sempre o apaixonado mar, a paixão azul, do azul literário e poético...,sabes com é, mãe,


Pois,


Sei que semore sonhaste comigo,


Eu?


Sim, tu, mãe,


Quando dizias que aos três anos de idade já voava...


 


 


 


(ficção)


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015


02.06.13



foto; A&M ART and Photos


 


Inventavas canções que me adormeciam


desenhavas sombras sobre a minha alcofa com pedaços de papel colorido


olhava-os pensando serem estrelas


ainda hoje confundo-os com as estrelas do céu


e fico sem saber se elas são papeis


ou se os papeis são cores pintadas por ti nas paredes da noite,


 


Colocavas-me um pequeno rádio a pilhas


em som quase nulo


e dizes-me agora que cintilavam os meus olhos


ficava submerso nos lençóis como um barco de esponja


na banheira de plástico onde me banhavas...


e dos meus ainda não dentes coloridos sorrisos vinham,


 


Regressavas a mim com o cacimbo em ti


e trazias contigo o cheiro do capim molhado


húmida a terra


sangravam as rochas as lágrimas tuas quando eu deambulava sobre os telhados de areia...


depois... adormecias em pé enrolada no cansaço


e um dia deixaste-me cair e eu percebi que me amavas...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha




 


 



01.05.11

Quem sois vós para condenar


Um pobre inocente abandonado,


Que por heroína ter fumado


Não pode descansar.


Quereis julgar


Os filhos dos outros; É culpado!


Esqueceis vosso filho amado,


Também ele julgado por vozes a gritar…


É drogado! É drogado…


E no silêncio, tudo calado,


Uma mãe, lágrimas a chorar.


Quem mais se não ela para nos perdoar!


Também eu tenho mãe e por ela fui perdoado.


Sofreu e continuará a sofrer,


Porque na rua ao passar ouve dizer,


Teu filho foi drogado, drogado…


 


 


Luís Fontinha


Alijó

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