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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


14.02.21

Tínhamos nas mãos a paixão

Dos beijos.

A clorofila entre silêncios e insónias

Das palavras desertas,

Nos rochedos, oiço a voz da madrugada

Resiliente,

Cansada.

Tínhamos no olhar

O eterno clarão

Dos desejos,

Os poemas envenenados pela paixão

Começam a dormir,

Docemente,

Sobre a secretária da solidão.

Tínhamos nas mãos

O corpo molhado do mar,

Todas as marés e,

Todos os barcos em papel.

Tínhamos nas mãos o vento

Que trazia o Norte,

A fadiga

A má-sorte.

Tínhamos o cansaço dos abraços e,

Dos pincelados beijos sombreados

Uma fotografia tua,

Dançando nos meus lábios.

Tínhamos os dedos entrelaçados,

Como duas crianças a brincar,

Deitávamo-nos na areia envergonhada

Até que a noite nos vinha buscar.

Tínhamos tudo e,

Não sabíamos que o mar

É a nossa casa.

O amor escreve-se nos teus lábios,

Como uma cancela a boiar no rio…

Pego-te; amanhã saberás que as palavras

São poemas. Amanhã saberás que as palavras

São mãos absorvidas pela paixão.

E, mesmo assim, estas palavras, esta paixão,

São poemas que saem da minha mão.

Tínhamos o Sol,

As nuvens que governam a terra,

Tínhamos as palavras,

Nas palavras teus beijos.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó 14/02/2021


25.01.20

Percorro estes montes de ninguém,


Na ausência do prometido poema,


Cansaço da madrugada,


Quando alguém me chama,


Me grita,


E me acena;


Triste é esta calçada,


Onde habito sem memória,


Sem história.


Na noite desgarrada,


Escrevo, pinto, o teu retracto,


Passeio-me pelo infinito amanhecer,


Sem perceber,


Que nas minhas palavras,


Vivem os esqueletos malvados,


Sem sono,


E, alicerçados,


Às palavras vãs,


No bosque,


As árvores, o silêncio da luz,


Que me traz a saudade.


Pinto,


Sinto,


Que todas as sílabas,


São balas assassinas,


Munições de esperança,


Quando acorda a noite.


Sabes?


Amanhã serão apenas sombras,


As tuas palavras,


Que alimentam a madrugada.


O silêncio da luz,


Nas mãos do poeta…


Perde-se,


Vive-se,


De quê…?


Sempre que amanhece,


Neste corpo zangado,


Filho e filha,


Passeando por aí…


Passeando ausente,


De mim,


E, de ti.


 


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


25/01/2020


03.05.19

A morte.


A tempestade dos cadáveres poéticos,


Quando do espelho, ao anoitecer, a mão do poeta sufoca o próprio poeta.


O comboio alimenta a morte,


O poema,


O texto.


O corpo do poeta evapora-se nos lábios de uma rosa,


Voa,


E chora ao anoitecer.


A morte.


A fragrância das palavras deitadas sobre a mesa,


Um candeeiro a petróleo vomita lágrimas de luz,


Escrevo,


Apago o que anteriormente escrevi,


Porque não faz sentido,


Porque a morte é parva, estúpida e ignorante…


A faca,


O pescoço alicerçado à lâmina,


O frio do aço que escorrega debaixo das mangueiras,


E nos braços, junto aos pulsos, a cratera do desespero,


Sem perceber o significado do sonho!


As nuvens suspensas na madrugada,


De hoje,


De ontem…


E de amanhã.


A morte,


A sagrada morte num corpo sofrido, silenciado pela sombra…


Nos teus braços.


Adormecer.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


03/05/2019


17.03.19

No futuro, amar-te-ei?


Escrevo-o no teu corpo de incenso.


 


A escravidão de amar.


 


STOP.


 


A carta que nunca recebi,


As palavras tontas, esfomeadas, que enviaste da cidade,


As ruas íngremes, sonolentas e cansadas…


 


Como eu, o assalariado poeta das noites perdidas,


Sentir no corpo o peso da tua sombra,


Quando descem sobre mim os candeeiros a petróleo,


Imaginados pela loucura,


Numa tarde de Primavera.


 


A morte.


 


A sorte de morrer, sem o sentir,


Sentir a morte, sem morrer,


Nos livros,


E, palavras.


 


O fim.


 


No futuro, amar-te-ei?


Escrevo-o no teu corpo de incenso,


O lanche envenenado pela solidão,


O pão,


O sorriso do teu cabelo,


Nos jardins de Belém…


 


A partida.


Para sempre; a morte, da morte…


Na morte.


 


E, as palavras.


 


As palavras da morte.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 17 de Março de 2019


04.02.18

Semeei o teu corpo numa jangada de vidro,


Vi partir o teu corpo em direcção ao mar,


Levavas os livros, levavas as memórias das noites perdidas,


E os sonhos vividos,


Semeei o teu corpo pensando que um dia adormecerias em mim…


E da tua partida,


Pela madrugada,


Algumas nuvens brincando na alvorada,


Palavras imensas, palavras dispersas em ti como um grito de alegria,


Hoje pertences às sombras do infinito,


Argamassadas no sombreado jardim de pedra,


E, no entanto, meia-hora depois, sentia o teu rosto na minha mão.


Ninguém apareceu à minha partida, fui só, apenas eu…


Como nas noites junto ao rio,


Perdidamente angustiado na solidão dos dias,


Escrevia no chão a revolta da doença,


Lançava lágrimas na escuridão,


Pobre, sem-abrigo, neste corredor de lume,


A lareira também ela, doente, infeliz e triste,


A cinza, o silêncio das fotografias, que poisavam no teu olhar.


As mãos trémulas, as mãos cansadas como pedras…


Fundeadas nos teus cabelos.


A noite, meu amor, a noite mergulhada na madrugada,


O metro entre curvas e pingos de luz, deixando a terra, caminhando para o horário nocturno das sanzalas de ninguém,


Em foco, as luzes que te incendeiam os lábios, em cada beijo,


Uma cansada palavra.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 4 de Fevereiro de 2018


17.07.17

Há-de crescer no teu peito a saudade,


O lívido Oceano vergado à tua sombra longínqua…


Que brinca nas minhas mãos,


Um dia regressará a mim a tua sonolência em forma de deserto,


As árvores do teu passado são hoje páginas argamassadas de poesia,


Livros dispersos sobre o mar,


Escondo-me de ti,


Tenho medo que digas que envelheci…


E que o rio deixou de respirar,


Há-de crescer no teu peito o feitiço da madrugada,


As correntes que me prenderão aos socalcos inanimados…


A máscara espelhada nos lírios da insónia,


Fragrância perceptível nas andanças tuas pernas subindo o Chiado…


E, eu sentado na penumbra disfarçado de sem-abrigo…


Cuidado,


Stop,


Amanhã aparecerás em frente ao espelho,


Triste,


Tão triste meu amor…


Pertencer a estes livros estacionados na berma da morte.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 17 de Julho de 2017


05.12.16

Esta terra entranhada nas raízes do Diabo,


Sonolenta quando acorda o Inverno,


E uma lâmina de lágrimas brota do seu coração,


Saboreia as espadas da dor


No término da tarde onde inventa o silêncio do desejo,


Uma enxada poisa na sombra da terra lavrada,


E o vulto de cigarro em cigarro,


Como uma árvore deitada


Sobre a esplanada da paixão,


Dorme docemente…


Esta terra é íngreme como as montanhas do Adeus,


Sem sorriso,


E do cansaço brilham as estrelas da noite…


A casa gélida, triste,


Murmuram os candeeiros a petróleo nas cicatrizes da incerteza,


O absoluto orgânico melancólico cilíndrico…


Que o peso da lua deixa ficar sobre os envidraçados lábios,


Esta terra de beijos e moradas,


Esta terra queimada pelo incenso do amor


Que em todas as horas desperta como uma criança de luz…


Sinto o brilho dos teus olhos


Nas almofadas do desterro,


E as palavras que semeias…


Habitam este Inferno de viver.


 


 


Francisco Luís Fontinha


05/12/16


18.04.15

O amor é uma lâmina de pedra


Cravada no coração


É o pedestal sem estátua


O amor é a lágrima da solidão


Descendo docemente o teu corpo


Enrola-se nos teus seios


Poisa pausadamente nas tuas coxas


E dorme no teu ventre


Crescem dentro de ti as palavras


E os Oceanos de Luz


Corre o rio da insónia


Que a noite leva


E come


Nas cidades sem pálpebras


O sangue


O teu


Voando em todas as Primaveras


Do calendário da paixão


Alicerça-se à tua boca


Como sargaços de aço


Em morte lenta


Junto ao barco do destino


A madrugada incendiada


Pelos teus lábios de inocência


Como os livros que nunca vou escrever


Uma noite


É o amor nocturno sem vagar para abrir as comportas dos líquidos sonoros do teu púbis


A janela sem cortinado


Lá fora


As miúdas de palha de patins em linha


Danças


Sobre a cama


Suspendes-te no tecto da saudade


Sem ter tempo para a saudade


Uma noite


O amor


Não tem saudade


É o volátil cansaço dos jardins em flor


Os tentáculos de marfim


Nos dentes de um crocodilo


Velho


Uma noite


Alicerça-se à tua boca


Como sargaços de aço


Em morte lenta


Os tristes poemas da amargura


O cais em engate


Como às cordas do silêncio


No pescoço da alvorada


No teu corpo


O corpo


Do cacimbo embriagado


Na tua mão


A enxada da poesia


E o medo toma conta de nós


Não percebo os segredos proibidos


Das clarabóias do infinito


Vejo no teu corpo


A lua recheada de poeira


Ao centro


Sobre a mesa


O teu corpo


Despido das pétalas em cartolina colorida


A sombra do teu cabelo deitada na almofada


O primeiro beijo antes da primeira palavra


(O amor é uma lâmina de pedra


Cravada no coração


É o pedestal sem estátua


O amor é a lágrima da solidão


Descendo docemente o teu corpo


Enrola-se nos teus seios


Poisa pausadamente nas tuas coxas


E dorme no teu ventre)


A primeira palavra


Antes do primeiro orgasmo


A sílaba no teu primeiro poema


Escrito no meu corpo


Ensanguentado de veludo


E de fotografias de mortos


Aleatoriamente dormindo na montanha da melancolia


A ardósia tarde partindo em direcção ao mar


Leva-te


Leva-te como são levadas todas as manhãs da minha secretária


O teu corpo


No meu corpo


Invisíveis marés de espuma


O sémen desenhando círculos no teu olhar


E dizem-nos que o impossível


É possível


É comestível


E no entanto


O amor é uma lâmina de pedra


Cravada no coração…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 18 de Abril de 2015


09.04.15

A ferocidade do teu corpo


O destino mal calculado


O erro equacional dos orgasmos invisíveis


Sofrimento


Meu amor


Subir as escadas


Chorar


No corredor


Sentar-me na sombra dos cabelos


Perdidos


Nunca mais voltarão a brincar no silêncio


Os teus beijos


 


Embrulhados na clandestina manhã


O sofrimento


Meu amor


Os corredores


Um… um horror


Marés de líquido


Nas tuas veias


Rios


Mares


Salgados barcos


Nos sonhos do teu sonho


Navegar


 


O sofrimento


Meu amor


Navegar nas sílabas da tua boca


Quando caí a noite sobre Lisboa


Os anzóis do sofrimento


Sofrimento


Meu


Amor


Navegar nas tuas nádegas


O comboio escondido entre as urbes embalsamadas


Não me vou perder


Juro


 


Meu amor


Os jornais empilhados junto à lareira


O som melódico do poema


Deitando-se nas labaredas da insónia


Sabes


Meu


Amor


Amanhã serei um vagabundo


Um triste cadáver


Sem palavras


Mudo


Sem braços nem canetas


 


Fujo das tuas garras lunares


Porque sei que amanhã


Meu amor


O poema terá morrido de overdose


Os triângulos das tardes


Na ceara dos lírios


Não quero


Meu amor


Caminhar sobre esta eira de luz


E ouvir


Ao longe


O sino


 


Vê tu


Meu amor


Ao longe


O sino


Vagueando no teu púbis…


Quero o retracto do teu corpo em vinil


Tatuado com Wordsong…


Tento ouvir as arestas da geometria


E da tua pele


O endereço do paraíso…


Em shots


E shots.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 9 de Abril de 2015


28.02.15

Não penso


não imagino as palavras semeadas nos relvados da saudade


não penso


não durmo


acreditando nas marés de vidro


descendo da montanha


imagino...


riscos suspensos na alvorada


crianças de luz gritando pela liberdade


e nada


nem ninguém


nas ruas desta cidade.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 28 de Fevereiro de 2015

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