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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


20.11.21

Se me imagino sentado nas tuas coxas de incenso?

Imagino-o enquanto as palavras envenenadas pelo desejo,

Quando se suicida a tarde junto ao mar,

E oiço o silêncio de um beijo,

Um beijo de amar.

Pode ser também um beijo de beijar,

Pois no meu jardim,

Junto a mim,

Habitam flores em delírio,

Flores com sombra de Luar.

Se me imagino?

Imagino-me sentado

Nas sílabas imbecis do poema escrito por mim,

Quando na minha mão,

Números e equações de miséria,

Acreditam que as palavras de uma canção,

A minha canção,

São apenas nadas, artéria

Ensanguentada dentro desta cidade,

Dentro deste cubo de vidro martelado.

Sinto-me prisioneiro às árvores da madrugada,

Árvores habitadas por pássaros que infelizmente, não sabem nada,

Não sabem que as pedras amam outras pedras,

Que outras pedras podem amar as flores,

E estas, amar outras flores,

E outras flores, amarem outras manhãs,

Manhãs que amam outras noites,

Noites que amam as pedras:

Poemas meus, que não amam,

Desenhos que me amam,

E,

Palavras que me odeiam.

Que todos amam a Lua e o Luar,

Que a Lua não ama nada,

Ninguém,

Nem ao primeiro astronauta que lá poisou,

As flores também amam a Lua e o Luar,

Os pássaros amam a noite,

Porque dormem e sonham,

Porque o amor é um verso,

Um poema enorme,

Que vive junto ao mar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 20/11/2021


31.10.17

Perfeito.


Imperfeito.


O silêncio mutante da escuridão,


Quando desce da montanha uma pobre canção,


Feio,


Feito, diz ele, antes da morte,


Perfeito.


Imperfeito.


Pobre,


Nobre,


Enquanto caminham sobre a Lua as sombras terrestres do medo,


Um foguetão em apuros,


Uma traineira desgovernada,


Só, e sem nada,


Perfeito.


Imperfeito.


Sempre suspenso no alpendre da dor,


Sente,


Sofre,


Para quê? Se ele percebe que vai morrer…


Sinto,


Ele,


No deserto das serpentes,


Perfeito.


Imperfeito.


Sem jeito.


Silêncio…


Um caixão em lágrimas,


As pálpebras em chamas,


E, a vida parece uma lâmpada sem alma.


 




Francisco Luís Fontinha


Alijó, 31 de Outubro de 2017


16.06.17

Uma nuvem sulfúrica poisa no teu silenciado sorriso,


Agacho-me sobre a terra prometida…


Mas não tenho jeito para a aprisionar na minha mão,


Minutos depois, palavras muitas, perco o juízo,


Pego na luz magoada que ficou em ti esquecida,


À porta de entrada do meu coração,


 


As aventuras na eira


Enquanto cai a noite sobre o espigueiro,


Livros perdidos dentro de um mealheiro…


Para serem vendidos na feira,


 


A casa é pobre, pequena… e aconchegante,


O quintal recheado de poemas envenenados pela charrua,


O meu corpo embebido em clorofórmio vomitando sinalização de rua…


Que o luar se torna brilhante,


 


E a lua,


É tua.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 16 de Junho de 2017


08.04.17

Finge o tempo acordar nos adormecidos sargaços da manhã,


Invento o esmagado espaço que os pássaros alimentam sem perceberem que a madrugada se suicidou nos rochedos da solidão,


Sou feliz assim…


Procuro nas janelas do amanhecer os carrascos envelhecidos da paixão,


E dou conta que nas minhas mãos restou a saudade,


Pego num livro,


Abro-o e procuro nele as personagens da noite,


Vagarosamente,


Construo o invisível visitante da desgraça…


Que vive em minha casa,


Oiço o teu sorriso nos alpendres da insónia,


Caminho sobre o teu corpo como um vagabundo da vergonha,


E mesmo assim… para ti, sou o assassino das palavras não escritas,


Velhas e irritantes,


Escrevo-te como escrevi milhares de vezes à Lua,


Em vão…


A distância dos supérfluos caminhos do desgosto,


Essas… parecem adormecidas nos meus pequenos lábios de porcelana,


As fotografias,


As imagens prateadas das sandálias do cacimbo que ficaram nas enxadas profundas dos charcos de água,


Os fantasmas do luar descendo a calçada até que a morte vinha e nos levava para destinos incrédulos, ausentes, sem nada,


Finge o tempo,


Finge o lamaçal de vaidades que me rodeiam e odeiam como serpentes de veneno encarnado,


O tempo que não avança nas tuas coxas,


Os teus seios que se encontram acorrentados ao mísero porto, o cheiro nauseabundo da nafta e de velhas sucatas, a proximidade do teu sorriso agachado no pavimento encaixotado, móveis, miudezas e outros ossos…


A loucura,


Que finge pertencer-me…


E que eu nunca tive a oportunidade de a vencer na batalha da solidão,


São, meu amor, são os poemas desertos do desencontro que me deixam atormentado,


São as tuas palavras cravadas no meu peito que me dão as asas necessárias para eu voar junto à janela…


E mesmo assim, queres que eu finja que sou poeta…


STOP.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 8 de Abril de 2017


06.04.16

sinto o peso da lua


sobre os ossos em papel


que habitam o meu corpo


escondo nas mãos o luar nocturno da solidão


dos tristes pássaros do meu jardim


escrevo-lhes e converso com eles


a minha presença incomoda-os


e pareço uma imagem aprisionada num hipercubo de sombras


sonhos


rios infindáveis


palavras esquecidas no vento


correndo nas minhas veias de vidro martelado


o opaco desejo nas madrugadas embriagadas pelas andorinhas


o silêncio abraçado a uma árvore


sinto o peso da lua


sobre os ossos em papel


que habitam o meu corpo


aos poucos vejo o teu olhar sentado sobre o meu peito doente


como se existissem roldanas de cartão


na pele que me alimenta


sou um aldeão sem aldeia


mas das montanhas


regressam os homens do coração granítico


que trazem a noite


e me roubam as palavras


depois a tua boca entrelaçava-se na minha


um fino sorriso de nylon brincava na janela virada para o mar


os barcos encalhados nas tuas coxas


em pequenos apitos sonâmbulos


uma casa em chamas


dois corpos em chamas dentro da casa em chamas


o farol lá longe


guiando-nos até ao infinito


a morte


a paixão laminada pelos orifícios do deserto


sinto-me um prisioneiro esquecido num qualquer porto de mar


cordas


correntes de luz dificultando-me a mobilidade das palavras


os livros também em chamas


na casa em chamas


com dois corpos em chamas


o inferno inventando o suor do teu corpo


as asas que te levam para o Céu


também elas em chamas


a fogueira dos nossos cadáveres sobrevoando o horizonte


descemos a calçada


sentamo-nos junto ao rio


dois condenados ao amor impossível


às cartas nunca escritas


o amanhecer quase a chegar


nos teus lábios as pedras preciosas da saudade


há tanto tempo com esta enxada rosada na mão calejada pelas pálpebras do incenso


há tanto tempo


aqui


sem ninguém


 


 


Francisco Luís Fontinha


quarta-feira, 6 de Abril de 2016


02.03.16

Não, não meu amor,


 


A lua não te pertence,


A lua é um esconderijo de beijos,


Uma cidade inanimada…


Um musseque desventrado


Com vista para o mar,


Não, não meu amor,


A lua não é um veleiro à deriva,


Uma cascata da vida,


A lua, meu amor, a lua nunca te pertenceu…


E nenhum de nós a pode abraçar,


Como se abraçam as árvores


E os pássaros na Primavera!


 


Francisco Luís Fontinha


quarta-feira, 2 de marco de 2016


05.09.15

desenho_05_09_2015.jpg


(desenho de Francisco Luís Fontinha – Setembro/2015)


 


Mastigava as palavras nocturnas do sono,


Enquanto do outro lado da rua,


Alguém,


Alguém gemia,


Uma rosa nua?


Uma pétala de rosa tua?


Alguém,


Enquanto eu dormia,


Alimentava-se dos meus sonhos entre círculos e triângulos rectângulos,


Acariciava os catetos,


Beijava a hipotenusa,


E enquanto eu dormia,


Alguém,


Alguém vestido de musa…


Nua a rosa,


Pétala a tua,


Mastigava as palavras nocturnas do sono,


Desenhava na ardósia negra do sentido proibido


Os teus seios mendigando o meu peito,


Nunca,


Nunca tive jeito,


Vontade…


E alguém,


Sem eu saber,


Entranhava-se nos meus tristes ossos,


Alguém,


Alguém gemia,


Do outro lado da rua,


E eu,


E eu sentia,


A lua,


O mar agachado nas tuas coxas silenciadas pela amargura,


Tanto tempo perdido,


Em pequeníssimas folhas de papel quadriculado,


Chorava e gemia,


Do outro lado da rua…


O poeta suicidado,


Uma rosa nua?


Uma pétala de rosa tua?


Alguém,


Enquanto eu dormia,


Roubava-me a tela da agonia…


Acorrentava-me às paredes pinceladas de bolor…


Colocava sobre as minhas pálpebras um cubo de gelo,


No meu cabelo,


Uma rosa,


Tua,


Uma tua rosa nua,


Sem sentido,


Os livros que li,


As palavras que escrevo e escrevi,


Não,


Não eram para ti,


Porque alguém,


Não sei quem,


Injectava-me nas veias finas lâminas de saudade,


Cerrava os olhos, fingia estar vivo quando os barcos da alvorada subiam as escadas da sufocada pensão,


E eu,


E alguém…


Gritava,


Chorava,


Sem saber a razão,


Do poeta suicidado


Subir e descer as escadas da pensão,


Quando a pensão estava deserta,


Morta,


Sem janelas,


Sem cortinados nas janelas…


E todas as portas,


Também elas,


Todas,


Todas mortas,


E alguém,


Não sei quem,


Inventava fotografias para eu folhear…


Enquanto a pensão,


Enquanto a pensão se afundava no meio da rua,


Mesmo em frente ao meu cadáver descarnado pelo tempo,


Havia vento,


Havia lágrimas nos lábios do vento,


E alguém,


Sem saber porquê…


Ou razão…


Deixava o meu nome nas ruinas de uma pensão.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 5 de Setembro de 2015


13.06.14

Toco-te,


estilhaças-te como o espelho da velha cristaleira,


depois, depois entra o mar nas tuas veis de nylon,


toco-te, e finjo ser um barco esquecido nas tuas mãos,


em silêncio, em silêncio para que ninguém perceba que no meu corpo habitam porcelanas em cacos,


alguns sons metálicos, melódicos, alguns... alguns ciclónicos ventos,


perguntas-me como é o amanhecer quando lá longe a Lua se esconde na montanha do desejo,


e eu, eu sem jeito, não sei responder,


entretenho-me a construir beijos num velho muro em xisto,


preguiçosos,


doentes,


toco-te e sinto, a claridade do teu olhar a entrar na caverna do Adeus,


 


(Ai como eu sofro...! Oiço-o enquanto alicerço as minhas pernas ao cansaço)


 


Querias o amor, e eu, eu dei-te o amor...


daí sobejaram os segmentos de recta da tua boca,


e deixaste alguns círculos de chapa nos cortinados da madrugada,


 


(Ai...! Oiço-o...)


 


E deixei de o ouvir,


afogou-se num poço de luz,


e...


e reapareceu quando um menino de bibe descobriu que existia noite depois do dia,


toco-te, e estilhaças-te nas escadas sem rumo,


desgovernadas,


loucas, loucas e apaixonadas...


Consegues imaginar a paixão de uma escada?


Claro que não, claro que não...


dizes-me,


que... que as escadas não se apaixonam,


que as pedras, os cacos de porcelana... nunca existiram,


 


(Ai como eu sofro! Oiço-o... na sua voz roufenha... São pássaros, menino, são pássaros... pássaros de cristal)


 


O caraças


 


Toco-te e finges orgasmos de coloridas flores,


toco-te, toco-te e... estilhaças-te como o espelho da velha cristaleira,


morres,


desapareces no interior da alvenaria ensonada,


lá fora, nada, nem uma locomotiva para te recordar,


um rio, um Cacilheiro embriagado, nada...


lá fora, toco-te,


toco-te e acordo...


 


Ai... ai como eu sofro, menino! Não..., não tenho sorte nenhuma.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 13 de Junho de 2014


09.05.14

Há uma cidade infinita onde habita o amor proibido,


há uma mulher vestida de cidade, com edifícios de cartão, com janelas e portas de entrada,


há uma rua que fica nos seios dessa mulher,


há uma varanda,


dela... o mar todos os dias avança,


corre como uma criança,


há uma cidade-mulher e proibida...


sem saber que é amada,


 


Há uma gaivota nos cabelos da mulher proibida,


e voa sobre a espuma fictícia das ondas em flor,


há uma cidade,


uma mulher...


e um amor,


todos... proibidos,


 


Há uma mão que pertence à cidade-mulher e não se cansa de acariciar o sorriso da Lua,


finge vertigens e enjoos,


transforma-se em miudinha chuva,


cai nos telhados de zinco,


ouvem-se sons melódicos e palavras poéticas,


há um homem sem cabeça que caiu em desgraça...


não come, não dorme e não sonha,


e acredita que a cidade-mulher um dia vai morrer nos lençóis do pergaminho linho,


 


Há uma madrugada,


tão triste... Meus Deus!


Sem estrelas, árvores ou... ou outras cidades-mulher,


há um rio encurvado no púbis da vergonha de amar... amar o que nunca poderá ser amado,


proibido,


como os cigarros que fumo às escondidas.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 9 de Maio de 2014


28.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


São as tuas mãos frias e doces que alimentam o meu olhar


são as tuas mãos a lareira do desejo


o sincelo amigo nas manhãs nubladas


são elas a chuva prometida


que a tua pele doirada absorve


como caramelo derretido numa panela de pressão angustiada


as vãs noites resfriadas enquanto espero por elas...


… as tuas mãos que poisam no rosto do sem-abrigo


e aquecem o mendigo


são as tuas mãos frias...


e doces...


e singelas sesmarias que alimentam o meu olhar


São as tuas mãos frias


aquelas que o papel engole quando às palavras vem a tristeza


o barco recusa-se a navegar no teu corpo


e o mar


e a madrugada lívida dos pássaros marinheiros


voam sobre a cidade dos homens abandonados


e se não fossem as tuas mãos


aquelas... as tais... que dizem ser frias...


e se não fossem elas?


nós?


Imaginas a nossa vida...


vivermos sem saber o que são as tuas mãos frias


E doces que alimentam o meu olhar


o mundo seria quadrado


a lua talvez fosse filha de um triângulos isósceles


pobre como eu


tão pobre que nem se consegue ver no céu...


se não fossem as tuas doces e tristes mãos


o que seria da raiz quadrada e do cosseno de trinta grados?


e tu miúda


bela e tão bela


preocupada com um borbulha... coisa insignificante


porque são as tuas mãos


as tais... as doces e frias... as janelas da solidão.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 28 de Dezembro de 2013


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