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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


19.12.20

Um louco será sempre um louco.

Cerram-se todas as janelas da poesia,

Morrem todos os pássaros da minha aldeia,

De tanto, o pouco,

Das flores donzelas que eu queria…

Antes do horário da ceia.

Caem sobre ti as loucas fotografias,

Escrevem-se as palavras sobre a ria,

Depois, vem a fantasia,

E, o amor e, a alegria.

Escrevo-te, meu amor,

Todas as tardes em beleza,

Sinto, sento-me, nas heteras mãos de Deus,

Sabes? O palhaço está doente,

A flor,

Tua doce boca, só, na clareira,

E, todas as sanzalas, e, todos os musseques,

Doentes

Como Deus nos apetece.

Esqueço,

Durmo nesta cama azada,

Entre um cobertor de pano

E, uma nova namorada.

Entre palavras parvas

Que assombram as minhas mãos;

Sabes, meu amor!

A vizinha está encharcada de veneno,

Trouxe a morte,

A vaidade…

E, escreveu seu nome,

Nas amplas matrizes de poder,

Olho-a,

Vejo-a,

E, loucamente te beijo,

E, loucamente,

Eu, este louco que te quer.

Um louco será sempre um louco,

No destino de viver.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó/19-12-2020


24.01.20

Jazem na minha mão as palavras da saudade.


O mar alicerça-se no quadriculado caderno da madrugada,


Sílabas loucas,


Corações abandonados, numa esplanada de areia,


Esqueletos vadios,


Cansados de viver,


A luz traz as amoreiras em flor,


Mártir silêncio dos poemas adormecidos,


A paixão dos mortos,


Quando um barco se perde no Oceano,


O marinheiro afoga-se no poema,


Lê em voz alta, para todos ouvirem, os mandamentos das gaivotas,


E, sem regressar, procura o sexo na escuridão.


Salta da maré um pequeno veleiro adormecido,


De lágrimas nos olhos, grita pelas almas que partiram,


Ninguém o ouve; a luz.


Todas as manhãs, antes de acordar, o marinheiro chora pelos que partiram,


Ao longe, uma bandeira em demanda,


Sofre, grita,


Mas… não adianta.


Pelos vistos, os mortos não regressam nunca ao local de partida.


O corpo escurece,


Derrete nas pálidas madrugadas, quando do silêncio, uma criança brinca no convés do navio,


Todos os barcos, loucos,


Internados em Psiquiatria,


Enfermaria azul, cama vinte e cinco,


Drageias para todos os navios,


Não dormem,


Mas… sofrem.


Sofrem de quê?


Do silêncio,


Da solidão que provoca o silêncio.


O amor nasce entre os cortinados do camarote,


Na enfermaria, um dos barcos internado, grita pelo enfermeiro;


SOCORRO!


E, ninguém. Ninguém o ouve.


Apenas o comandante está autorizado nas visitas, poucos minutos, servem para acariciar-lhe as âncoras da tristeza,


QUERO SAIR DAQUI.


Todos o queremos.


Uns, mais, outros, menos.


Mas os barcos são teimosos, e, firmemente, alegremente, fogem…


E, só a paixão dos mortos consegue sobreviver ao destino.


Sofre. Grita.


Zurra nas amêndoas em flor, descendo socalcos,


Subindo rochedos,


E outros demais silêncios.


A loucura pertence aos pássaros,


E, aos barcos.


Torna-se na viagem mais inclinada do Universo,


Quando todos sabemos, que o mar, os pássaros e, os barcos,


Morrem.


Morrem nas clandestinas sanzalas do silêncio.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


24/01/2020


23.03.19

No rosto a flor queimada da madrugada,


A sombra voadora do silêncio inanimado,


Os sopros dos corpos amachucados,


Quando a minha voz, cansada, trémula… se desfaz,


Em pequenas gotículas de geada,


O triangulo, o quadrado,


A canção revoltada,


Pelas palavras,


Do nada.


A boca silenciada,


Para mim, tanto faz,


Que seja de manhã, anoitecer…


Ou nada,


No rosto, as lágrimas dos telhados,


Nas sílabas incendiadas por um louco,


De tudo, nada,


Ou pouco.


A geada madrugada,


Os camuflados sorrisos do nada,


Coitados,


Tanto trabalhar,


Tanto amor,


Que de uma flor,


Vê-se o mar


E o nada.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


23/03/2019


16.09.18

É noite, meu amor!


Sinto os teus braços entrelaçados no meu peito,


Um rochedo de saudade fundeado em mim,


Onde o peso da tristeza voa sobre o meu quarto abandonado pelas flores,


Sofrimento, a dor da fórmula matemática sem resolução,


Como a morte,


Ao final da tarde,


Os insectos poisados no teu corpo espelhado pelo nascer do sol…


É noite, meu amor!


Todos os dias são dias de insónia,


Tortura,


Desespero sombrio das cavernas habitadas por húmidas ardósias de espuma,


Desço o rio,


Mergulho nos teus lábios de poema adormecido,


O louco,


Adormecido,


É noite, meu amor!


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 16/09/2018


26.08.18

O louco sou eu.


Aquele que te acolhe nas noites de Inferno, recheadas de vento e veneno…


O louco sou eu,


Agachado nos socalcos olhando o Douro encurvado,


Pego na enxada da loucura, rezo pelo teu corpo e desespero-me em frente ao espelho envergonhado,


O louco sou eu, o teu eterno louco das tardes de poesia…


E sentia,


Dentro do meu peito, os apitos dos teus lábios afastando-se das marés de Inverno,


O sol que mergulha no xisto amarrotado pelo vento,


E as cidades que se escondem no poema…


Hiberno,


E para a semana que vem, fujo do teu sorriso,


Subo as escadas da morte,


E com um pouco de sorte,


Desprovido de juízo…


Uma caravela deita-se na minha cama,


Dispo-a,


Adormeço-a na minha mão…


Até que a tempestade nos separe.


 


 


 


Alijó, 26/08/2018


Francisco Luís Fontinha


01.04.17

Os mares envergonhados da solidão


Que caminham durante a noite nos meus braços cansados,


Sinto no corpo as cancelas imaginárias da saudade


Como um sonâmbulo tresloucado,


Inferioridade minha das terras envenenadas


Da terra queimada,


Hoje, nada tenho para te oferecer,


Nem palavras,


Nem… nem amanhecer,


Os mares envergonhados…


Que as canibais laranjas deixam ficar nos teus lábios


E do sumo apedrejado pela loucura


Regressam as sonolências viagens sem destino…


Tenho no corpo o peso doirado da lua


Que alimentam as minhas mãos


Do silêncio vergado pelas pedras da paixão,


Não preciso da tua boca,


Dos teus beijos,


Das… das tuas palavras vãs…


Queria ter no peito o sol amargurado das ribeiras clandestinas


Que descem os socalcos do sono,


Envergar na lapela as sombras tumultuosas que poisam na minha janela,


Os pássaros destinos das árvores enganadas por mim,


Os papéis secretos do voo frenético e engasgado das gaivotas libertinas,


Às vezes tenho medo,


Às vezes pareço um menino aprisionado no cais da esperança,


Abraço-te imaginariamente como um louco veleiro encalhado na sombra inocente do esplendor amigo da rua sem nome…


Os vidros em cacos escorregam pelo meu corpo de pedra lascada


E suicido-me quando cai a noite em ti,


Meu amor, em ti…


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 1 de Abril de 2017


10.07.16

Que te despeças de mim como se eu fosse um louco


Apavorado no deserto


Não tenhas pena do meu corpo


Entre esqueletos e pedacinhos de fumo…


Porque por pouco


Partias sem dizer adeus


Ao rio


Ao meu destino


Nas tenhas pena deste menino


Que escreve esquecendo os teus lábios


Doces como a planície


E amargos como a madrugada


Sem horário para saborear os teus abraços


Que te despeças de mim


Para sempre


Até sempre


Neste labirinto de carcaças


E abelhas


Na floresta adensada


Sem perceber a paixão das palavras amaldiçoadas


Sem perceber a canção da alvorada


Que te despeças de mim como se eu fosse um louco


Das pedras amarelas


Na tela da vida desgraçada


Entre xisto e cancelas…


 


Francisco Luís Fontinha


domingo, 10 de Julho de 2016


11.04.15

Não sei


Meu amor


Porque poisam em mim as estória de luz


Às vezes amo-te


Não desconheço se tu


És


Um livro, um poema, uma imagem ou um triciclo em madeira


Poderias ser o regressar ao ponto de partida


Luanda


Mil novecentos e sessenta e seis


Número três


Vila Alice


 


Os berros e os espirros dos automóveis pôr-do-sol


A naftalina do olhar


Na gaveta do sexo


Imagino o teu corpo


Meu amor


Um odor de palavras


Inseminadas por uma caneta de tinta permanente


Permanente


Eu


Aqui


Nesta


Vida de “merda”


 


Nunca


Meu amor


Quis


Nunca meu amor


Quis ser poeta


Sei que não o sou


Nem serei


E nem quero


A paixão da alma


Na fala desenhada


Pela mão do murmúrio


A aldeia em chamas


 


E os transeuntes


Entre estradas de gelo


E bermas de cansaço


Não


Meu amor


Não existem noites coloridas


Em sapatos em verniz


Bicudos


As calças embrulhadas nos tornozelos


E os ossos embalsamados


Alimentava-me dos teus lábios


Meu amor


 


Perdi


Tudo


A imagem da tridimensional alegria


Hoje


Sou


Um


Gajo


Triste


E tímido


Como as andorinhas da tua casa


Os torrões de açúcar dos melancólicos teus seios


Sou


 


Um


Gajo


Triste


E tímido


Hoje


As equações dormindo debaixo da cama


(o gajo está apaixonado)


Os palermas acreditando que


Amanhã


Um


Gajo


Tímido


 


Tão cinzento


Como a própria noite


Sem vaidade


Número de polícia


Ou


Ou cidade


As máquinas assassinam


O dormitório do prazer


A cama


Meu amor


Desfeita


Em aventuras de algodão


 


E


Não


Não pertenço aos teus símbolos de sombra


Deixei de ter janelas


E portas


A minha casa


Sem


Telhado


Sem


Meu amor


Não


Não esta triste cidade


 


Sem shots de tristeza


Ou


Sexo


Barato


Sabes


Meu amor?


A inveja é uma chávena de café-com-leite


E torradas


A neblina invade


Os


Teus olhos


A neblina invade os teus olhos


 


Entre cartas e telegramas


Mãe?


Sim


Meu amor


Fui


Assaltado


Stop


Envia


Dinheiro


Ok


Beijo


Não meu amor


 


Não sei a cor dos teus olhos


Nem da tua pele


Não


Não meu amor


Amanhã é sábado


E não sei se te amo…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 11 de Abril de 2015


21.10.14

Do término dia entra em mim o morro da paixão,


ele, vestido de negro, começa a voar sobre os socalcos imaginados por uma louca,


desiste,


e deita-se...


descem as cinzas do sofrimento que dizimam toda a claridade reflectida no espelho da insónia,


aparece o sonho disfarçado de lâmina de xisto,


ouvem-se das encostas húmidas da pele o silêncio emagrecido de uma gaivota,


desiste, e deita-se,


como um corvo sobre a sua presa apodrecida,


há navios esquecidos nos meus lábios,


e do término dia...


nada, só o sangue triste de uma viagem sem regresso,


há um mapa que não me ajuda a regressar,


um clandestino beijo enforcado nas sílabas da noite,


e do término dia...


o amor,


em forma de carrasco,


uma carta escrita na algibeira,


um cigarro inseminado numa qualquer rua de uma cidade sem nome,


e um qualquer húmus redopia junto ao rio,


tenho fome, tenho medo deste amor sem marinheiros,


tenho medo das palavras invisíveis que aportam nos teus seios...


sento-me e finjo caminhar sobre uma fogueira habitada por gajas nuas...


… e nuas flores com um lencinho ao peito,


há espingardas suspensas na bandoleira da manhã,


peço um café,


e adormeço no sisal Outono,


e deixei de perceber o mar,


os rochedos enamorados que desenham no meu peito a solidão,


e esta casa funde-se como se fundem todos os metais...


quando o alicerce do abismo encerra nele o livro proibido,


não tenho janelas no meu olhar,


sinto-te entranhada nos confins de uma ilha inabitada,


sem uma cabana, sem um cão para conversar...


e adormeço no sisal Outono,


e deixei de perceber o mar,


do término dia entra em mim o morro da paixão,


ele, vestido de negro, começa a voar sobre os socalcos imaginados por uma louca,


desiste,


e deita-se...


até que o tempo se transforma em estátua e todas as lâmpadas se apagam,


o meu corpo evapora-se numa amoreira...


e tu perceberás que sou filho da noite,


e tu perceberás que sou a própria noite... só.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Terça-feira, 21 de Outubro de 2014


22.09.14

Este pano azul cansado


deitado sobre o teu corpo


acariciando a tua pele de luar


que a madrugada fez esconder


este pano... que o piano amar acorrenta


este sofrer...


a saudade do mar


entranhada nos meus lábios,


 


Este pano azul...


que o silêncio consegue desenhar no teu sorriso


o morrer


sabendo que todas as flores deixaram de brincar


a tua mão vazia


como o rio que desce a montanha


a tua mão entrelaçada nas sombras da paixão


que o pano azul escreveu numa noite de loucura...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

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