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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


03.12.22

O pai

E a mãe

E as árvores sombreadas da manhã,

 

As mãos

Que pegam a minha mão

A mão que segura a faca nocturna do desejo

E durante a noite

Espeta a faca no meu peito,

 

O tecto da aldeia

Em lágrimas

E do sol

As primeiras horas da solidão,

 

Os livros

Todos os meus livros

Escritos por mim

Lidos por mim

Todos eles

Morrem sobre a minha secretária vaiada pela insónia,

 

E o sobretudo que visto

Em fina madeira prensada

Despede-se,

 

E percebo que sou apenas um cadáver de sono,

 

Como são tristes as noites de Dezembro,

 

O pai

E a mãe

E as árvores sombreadas da manhã,

 

Quando a manhã é um pincelado beijo na boca da solidão.

 

 

 

 

Alijó, 03/12/2022

Francisco Luís Fontinha


03.12.22

Hei-de levantar-me

Desta pedra cinzenta

Onde me sento e morro

E espero

E invento

E desejo

Que acordem as estrelas dos teus olhos

 

Fumo o cigarro que há-de matar-me

Fumo as palavras

Que também elas

Me vão matar

 

E se eu quisesse

Voava para os teus braços de árvore envenenada

 

Acordam os pássaros que a manhã há-de matar

 

E num ápice

 

Olho-te como me olham as abelhas

Junto à colmeia do sono

 

E a noite

Despe-se na tua mão

 

Hei-de levantar-me

Desta pedra cinzenta

Onde habita a tua boca

 

E dos doces lábios da paixão

 

O poema que se alicerça ao meu peito

Bebo o veneno que lanças sobre o mar

Bebo a insónia que morre no mar

E hei-de levantar-me

Desta triste cinzenta pedra

 

Até que a noite se suicide dentro de mim.

 

 

 

 

Alijó, 03/12/2022

Francisco Luís Fontinha


03.12.22

Desces sobre mim

E trazes-me as palavras que a geada deixou na tua mão

E se eu tivesse o sono

Não dormia sabendo que habitam nos meus olhos a paixão

 

E nesta lareia acesa de insónia

Oiço dos teus lábios

O sussurro das imagens dos primeiros raios de sol da manhã

 

Tenho medo de que partas em direcção à lua

E me leves o doce poema

 

E me roubes o doce poema

 

Desces sobre mim

Como descem durante a noite as estrelas do teu silêncio

E me dás os barcos da minha infância

 

E me roubes o doce poema

 

E se eu tivesse o sono

Nas minhas pálpebras envenenadas

Não tinha medo de voar

 

E beijar o teu doce poema.

 

 

 

 

Alijó, 03/12/2022

Francisco Luís Fontinha


02.12.22

Não durmo

Meu amor

 

Não posso dormir

Quando tenho nas mãos

A seiva envenenada dos poemas em flor

 

Não durmo

Meu amor

 

Como dormem os peixes e os pássaros

As árvores e as folhas das árvores

Não durmo

Como dormem as estrelas e o luar

Não durmo

 

Meu amor

Não durmo

 

E se um dia os meus poemas morrerem

Eu vou dormir

Vou brincar

Saltar sobre as sebes do meu quintal

Se um dia

Se um dia acordar no teu peito

 

Vou trazer o mar para os teus lábios

E transportar o silêncio para o teu olhar

 

Não durmo

Meu amor

E se eu dormir

 

Acorda-me para ver o primeiro sol da manhã.

 

 

 

 

 

Alijó, 02/12/2022

Francisco Luís Fontinha


01.12.22

E se o vento me levar

Que me leve

Até ao mar

Que me poise em cima de uma rocha

Se o vento me levar

Que me leve

Que faça de mim

Chuva

Neve

Pó.

 

Se o vento me levar

Que me leve.

 

Se o vento vier

Que me leve

Que me leve a noite

O sono

Que me leve

As estrelas e o luar

Se o vento me levar

Que me leve

Me leve

Sem que eu perceba que vou.

 

Sem que eu perceba que me leva.

 

 

 

 

 

Alijó, 01/11/2022

Francisco Luís Fontinha


01.12.22

Quando a noite

Em despedida

Dorme docemente nos teus lábios.

 

A noite deixou de pertencer às andorinhas em flor

E no meu jardim

Onde tenho palavras e sonhos

Um poema cresce nos lábios da paixão

E o dia nunca será meu.

 

Nada será meu nesta planície

De esqueletos desventrados pelo sono

Das cansadas noites

Quando tenho poesia

E as estrelas dos teus olhos.

 

No entanto

Oiço os meus poetas

Escrevo aos meus poetas,

 

Palavras

Desenho-os em telas nuas

Os corpos da neblina

E mesmo assim

Oiço-os pensando ainda estarem vivos.

 

Quando a noite

Em despedida

Dorme docemente nos teus lábios,

 

E do teu cabelo em brincadeiras de vento…

 

A paixão dos pássaros em nossas mãos!

 

E Deus?

 

 

 

 

Alijó, 01/12/2022

Francisco Luís Fontinha


30.11.22

Minhas queridas ovelhas,

 

Lanço ao fogo estas minhas pobres palavras com o sofrimento alicerçado ao peito, que estas, se transformem em cinza, e vós, minhas queridas, nunca saibam o que vos escrevo.

Ontem, pela noite adentro, quase às três horas da madrugada, peguei num pequeno livro, abri-o e no final da página li – o leão é o Rei da selva. (de mão trémula, senti o medo disfarçado de luz)

Puxei de um cigarro, e sentado numa cadeira de vime, de perna cruzada, e de janela aberta com fotografia para o quinteiro, ouvi a (estrelada) em conversa cavaqueira com a ovelha da minha vizinha, a (tulipa), e a minha vizinha, a Joaninha, ao telefone com o namorado ou com a namorada ou com o Presidente Associação de Musas Inspiradoras (AMI), o que falavam, não o sei, mas pelo ar de exaltação dela, tudo se resumia a fotografias tiradas junto ao rio.

(o rio, sem saber porque choravam as ovelhas, também ele, desatou a chorar)

E ao longe, a ponte abraçada à neblina que a manhã semeava na sombra dos braços do luar, começava a erguer-se o silêncio que regressava da caçada da noite anterior.

Pela aparência do silêncio,

Caça nenhuma.

A (estrelada), que uma certa tarde foi atingida com uma pedra na pata, pedra lançada pelo rapazote Serafim, um rapaz, comunicador e com estrutura de artista, e já farto de levar a (estrelada) para o pasto; pimba. Uma pedra certeira na pata e acabaram-se as tardes no pasto. Esperto, este artista, Serafim, poeta, fadista, barbeiro, agricultor e sedutor.

À noite, enquanto a minha vizinha se encontrava na escuridão com o namorado, ou com a namorada ou com o Presidente da (AMI), a ovelha (tulipa), saltava do terceiro esquerdo e num ápice, fazia-se passear na minha varanda em pequenas provocações para fazer crer à minha ovelha (estrelada) a boa forma física com que estava; coisas de ovelhas. Vaidosas.

Serafim desconhecia que no futuro iria ter um sobrinho poeta e pastor de quatro ovelhas; mas também ele desconhecia que o leão era o Rei da Selva, tão pouco desconhecia onde encontrar a selva, e apenas sabia apontar no mapa a sua localização. Um dia, descobriu a paixão.

E sabem, minhas queridas, dá sempre jeito um poeta ser pastor, pois assim, ou talvez não, ou talvez sim, oiço do AL Berto que “o mar entra pela janela e que o soldado falha o degrau do eléctrico que vai para a Ajuda, e não sabe se ele fode ou se ele ajuda”,

E da Ajuda,

Uma carta de amor para a Província.

 

Minhas queridas quatro ovelhas,

 

Espero que estejam bem, quanto a mim, vou andando, uns dias bem, outros menos bem, e outros…

O soldado dispara a bala na cabeça.

Dizem que foi por amor.

Ignora o silêncio, escreve luar na vidraça, e deita-se sobre a cama à espera que o sabor do uísque desapareça da boca e depois, após algumas horas de sono, sair em busca de engate.

A loucura dos pássaros. A (estrelada) desmaiou quando percebeu que eu era um favo de mel e que dormia junto à Torre de Belém e que era procurado por homens, homens em busca de sexo; eu, apressadamente, fugia. Em passo apressado, em corrida desmedida que apenas a (estrelada) consegui imitar, até que entrava num bar junto ao Museu dos Coches e uma amiga me acolhia na casa de banho. Depois, voltava novamente a vaguear pela cidade.

Sabes, minhas queridas…

Deixei há muito tempo de ter notícias do Serafim, e agora que o recordo, com ternura e com paixão, de sobrinho para tio, digo-vos que o meu tio artista ainda hoje me escreve cartas; e actualmente, apenas ele me escreve e um qualquer parvalhão que deixa comentários no meu blog, que provavelmente não percebe de poesia, o que é a paixão e a insónia e que teima que eu, o poeta e pastor de quatro ovelhas, o traí. O sonho tomou conta dele.

Os ciúmes das minhas ovelhas quando vêem a ovelha da minha vizinha (tulipa) em passeios nada apressados na minha varanda. E se a deixassem, acredito que voava.

Voava como eu voei sobre a cidade que acabava de acordar, e quando metia a mão na algibeira, um pedaço do mar salta e começava a descer a calçada.

A Ajuda – quanto ao eléctrico, já não me lembro, mas que “o soldado falha o degrau do eléctrico que vai para a Ajuda, e não sabe se ele fode ou se ele ajuda”, esse sim, nem fode nem ajuda.

Ontem, depois de uma sessão de poesia, e depois de muitos uísques e algumas radiografias de sono, entramos num bar, no Bairro Alto, sentamo-nos, pedimos uísque e, homens beijavam-se apaixonadamente. Puxei de um cigarro e resolvi, quando regressasse ao quarto escrever-vos; e cá estou eu, minhas queridas. Ausente numa Lisboa que sempre me pertenceu e que hoje é apenas um sonho, um comboio para Cais do Sodré e pouco mais…

O suor entranhava-se no corpo como o cacimbo de outras latitudes, e uma abelha começou a poisar no meu favo de mel.

Afinal, não é o leão o Rei da selva.

Os Reis, os Reis são os papagaios em papel que a minha mãe construía e que hoje guarda junto ao peito, para quando tiver saudades minhas, recordar-me.

O poeta, pastor de um rebanho de quatro ovelhas, hoje, escreve cartas aos olhos do mar.

Até breve, minhas queridas ovelhas!

 

 

 

 

 

Alijó, 30/11/2022

Francisco Luís Fontinha


29.11.22

Oiço o silêncio do fogo

Que cobre o teu corpo em veludo mar

Oiço-o e toco-lhe

E percebo que te contorces sobre a hipotenusa da paixão

E do triângulo rectângulo do desejo,

 

Todas as estrelas e todos os planetas poisam na minha mão.

A capsula do prazer

Em pequenas órbitas ao teu sorriso

Espera a minha voz para o acoplado beijo

Aquele que dará vida aos teus sonhos.

 

E este fogo que cai em ti

Traz a insónia

E a paixão;

E todos os peixes

E todos os barcos, são os poemas que te escrevo.

 

 

 

 

 

Alijó, 29/11/2022

Francisco Luís Fontinha


29.11.22

O Tejo

 

Se Deus estivesse no meio de nós, nunca tínhamos feito amor naquele silêncio que abraçava a noite, junto ao Tejo.

Enquanto trocávamos carícias na ardósia da insónia, sentia as tuas mãos em pequenas brincadeiras no meu peito, mordias-me a orelha esquerda, como se eu fosse um pequeno poema em construção sobre a maré que cobria os nossos sexos; e a paixão incendiou-nos, que do teu corpo em gotículas de prazer, eu, eu ouvia o mar.

 

O circo

 

Tínhamos quinze anos e querias que eu fugisse contigo e transformar-me em trapezista. Como seria feliz hoje se fosse trapezista, em vez disso, preferi ser poeta; o enforcado.

 

Os barcos

 

Imagino-os deitados sobre mim na cama dos sonhos, pegam na minha mão e levam-me em grandes caminhadas pela cidade, junto ao mar.

Hoje, sou o comandante de todos estes barcos em cartão, todos estes barcos que habitam dentro do meu peito, e às vezes, durante a noite, oiço os apitos de todos os luares de Luanda.

Como é bom, ter a vossa mão, meus queridos!

 

 

 

 

Alijó, 29/11/2022

Francisco Luís Fontinha


28.11.22

Somos muitos,

Somos as almas penadas,

Somos o pecado que invade a noite,

Somos o poema embriagado nas mãos de Deus,

Somos muitos, somos poucos,

 

Somos esqueletos em papel,

Somos parvos,

Entre parvos,

Somos loucos,

Loucos que somos,

 

Somos muitos,

Somos poucos,

Somos livros,

Desenhos,

Corpos despedidos,

 

Muitos,

Poucos,

Somo tempo perdido,

Somos o sonho;

 

Muitos,

Poucos,

Nada do que somos.

 

 

 

Alijó, 28/11/2022

Francisco Luís Fontinha

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