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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


26.01.23

Sem título.jpg

Quanto à construção do palco para as JMJ, apenas lamento que sejam os contribuintes a pagar.

Ao que parece, a organização solicitou que o referido palco tivesse a capacidade para 2.000 pessoas.

Sendo Portugal um estado laico, e pertencendo o evento à igreja Católica, deveria ser esta a pagar.

Não tenho religião nem tenho nada contra as religiões. Cada um é livre de acreditar no que quer e bem entende.

Mas quando nos dizem que não há dinheiro para a educação, para a saúde, justiça… é uma afronta gastar-se quase 5.000.000€.

Depois vêm com o discurso que servirá para outros eventos; talvez como servem os estádios de futebol construídos para o Euro e que estão fechados e sem manutenção, e alguns deles, elefantes brancos para as autarquias onde foram edificados.

O País não tem dinheiro para umas coisas, mas para outras, o dinheiro sempre aparece…

Precise um banco de dinheiro!


03.01.23

De todas as minhas telas

Nenhuma tem nome

Para quê dar o nome a uma tela

Se ela é prisoneira de uma parede

(nunca irá sair da parede)

E mesmo as que tenho amontoadas

Encostadas à parede

Não possuem nome

(vou levá-las a passear ao parque infantil?),

 

Menina Primavera

Não corra com pressa

Pode cair,

 

Ou

 

Menino orvalho

Se faz favor

Coma a sopa toda,

 

Ou

 

Sabe, infinito?

Sim, pai…

E o infinito nada sabe,

 

Portanto

Todas as minhas telas não têm nome,

 

Eu

O artista

Que desenha

Que pinta

Que dou vida a todas estas telas

Também como elas

Não queria ter nome,

 

Poderiam ter-me apelidado

De zero três um seis seis nove oito sete (03166987)

RH mais

Nascido a dezoito de Maio de mil novecentos e oitenta e sete
E falecido a nove de Agosto de mil novecentos e oitenta e oito

Residente no primeiro esquerdo

Porque no primeiro direito vivia a velhinha

Que tinha dois cães

Três gatos

E a neta era trapezista

(par-time)

Num circo que costumava estar estacionado junto ao Castelo,

 

E o zero três um seis seis nove oito sete

Numa linda noite junto ao Tejo

Estávamos em Julho

Enquanto a neta da velhinha passeava um dos felinos

(penso que seria o Alfredo)

Sentou-se à minha beira

(Primeiro pedindo sua licença)

E pediu-me que lhe escrevesse um poema…

 

E disse-lhe

Olhe menina

Poemas não escrevo

Poemas leio-os

E quando estou empanturrado

(gosto de escrever cartas à lua)

(e quanto a poemas costumo beber os de AL Berto e fumar os poemas de Cesariny),

 

Ela sorriu

Disse que eu era louco

(pois quem é que escreve cartas à lua?)

 

E continuando a ser o zero três um seis seis nove oito sete

(até nove de Agosto de mil novecentos e oitenta e oito)

Comecei a vender os dias

Vendia-os na rua

Na feira da ladra

Por aí

Por aqui

Até que quando me dei conta

Já não tinha os dias

E quanto às noites

(já estava empenhados em algumas horas)

Quanto às noites foi um autêntico desastre

Hoje diria um desastre ecológico,

 

Sabe, infinito?

Sim, pai…

E o infinito nada sabe,

 

Porque o infinito nunca quis saber de mim…

E eu

Diga-se

Também não

(só penso nele quando fumo os poemas de Cesariny e bebo os poemas de AL Berto).

 

 

 

 

 

 

Alijó, 3/01/2023

Francisco Luís Fontinha

(zero três um seis seis nove oito sete)


03.01.23

Da minha janela

Oiço as lágrimas do mar

E o sorriso dos pássaros,

 

Daquela árvore ensonada

Que poisou durante a noite

Junto à minha janela

Vêm a mim a insónia

E a insónia traz na algibeira o cofre dos sonhos

E não entendo porque a insónia me quer dar sonhos

Se de sonhos estou eu farto

E cansado

Cansado dos sonhos

Cansado do mar

E cansado do dia

Cansado dos pássaros,

 

Da minha janela

Já não vejo os barcos que me entretinham

Nem oiço o vento que levava as minhas palavras

E as semeava junto à lápide dos sonhos,

 

Porque os sonhos morreram

Como morreram as minhas árvores

Morreram as minhas fotografias

Morreram os meus barcos,

 

Da minha janela

Oiço as lágrimas do mar

E o sorriso dos pássaros,

 

Mas este mar

O mar que vejo da minha janela

Está tão triste

Tão feio…

Tão

Tão sem ninguém

Deixou de ter peixes

Deixou de ter barcos

Deixou de ter sonhos…

E nem uma alma se suicida neste mar,

 

Ao menos

Aos menos alguém

Uma alma

Uma alma generosa que se suicide neste mar

Como se suicidavam as almas antigamente

Neste mar,

 

Deram-me um nome

Fui o resultado da resolução da equação do desejo

(dizem que fui muito desejado, talvez numa noite, dia, manhã, madrugada, de Março)

E fui o espermatozóide mais rápido

O mais inteligente

Mais…

O mais capaz de entre os milhões de espermatozóides do meu pai

E quando abracei o óvulo da minha mãe foi-me dada uma medalha

Fiquei em primeiro lugar na corrida

Como numa tarde qualquer

Numa corrida de cem metros no Pinhão (era eu puto),

 

Registaram-me no registo civil

Apelidaram de Francisco

Nome do meu avô paterno

Se tivessem escolhido o nome do meu avô materno

Hoje chamava-me de Domingos

(e aos Domingos estamos encerrados, descanso de pessoal)

E eu detestava chamar-me de Domingos

(desculpa avô, desculpa pai, desculpa mãe),

 

Da minha janela

Oiço as lágrimas do mar

E o sorriso dos pássaros,

E ao longe

Os esqueletos da Calçada da Ajuda

Que de ajuda nada tinha

Em marcha acelerada num rectângulo de sono

A que chamaram de parada;

A parada das lágrimas do mar.

 

 

 

 

Alijó, 03/01/2023

Francisco Luís Fontinha


20.12.22

Desce do altar

Santa dos milagres nocturnos

Abraça o teu filho que habita esta cidade

Pega-lhe na mão

E leva-o

E senta-o

Junto ao mar.

 

Limpa as lágrimas do teu filho

Santa milagreira das palavras em doce néon

Dá-lhe um barco e um areal

E dá-lhe também o sossego

E a fortuna

E o céu

E perdoa-lhe todos os pecados

Desde que nasceu

Até ao pôr-do-sol

E todo o mal

Amém.

 

Dai-lhe senhora

O perfeito juízo

Enquanto ainda temos estrelas na eira

E luar no estábulo

E sabes

Minha querida santa milagreira

Desculpa lá aquilo do abstracto

Que de parede em parede

De olhar em olhar

Ressuscitou

Fez-se homem

E hoje é motorista da Carris.

 

Vê lá tu…

 

Motorista da Carris.

 

Depois

Minha querida santa milagreira

Aparecia o quinze

Pegava nos bêbados todos

E despejava-os em Belém

Numa qualquer esquina…

 

E tu

Minha santinha

Dormias no altar misericordioso da saudade.

 

Minha santinha dos aflitos

Com coração de brasa

E silencio nas mãos

Pega no terço

E reza

Reza muito

Reza para que o quinze nunca avarie.

 

Limpa as lágrimas do teu filho

Santa milagreira das palavras em doce néon

Dá-lhe um barco e um areal

E dá-lhe também o sossego

E o céu

E o eterno sossego

Da carne

E do espírito.

 

 

 

 

 

Alijó, 20/12/2022

Francisco Luís Fontinha


17.12.22

Sabes pai

O irmão que me deste não gosta de poesia

Não gosta de literatura

Arte

O irmão que me deste

Pertence ao grupo daqueles que não querem ser nada

Percebes pai

Nada.

 

E ultimamente sentia pena

Do Álvaro de Campos

Ou do AL Berto,

 

Mas olha pai

Deixei de ter pena deles

Tenho de me preocupar comigo

E deixar em paz

Em paz o senhor Álvaro de Campos e o coitado do AL Berto.

 

O irmão que me deste

Sabes pai

Detesta Proust

Que lhe leia Proust

E sabes pai

Eu adoro Proust.

 

O irmão que me deste

Passa as noites numa taberna

E fica à espera que regresse o comboio de Santa Apolónia

E sabes pai

O coitado ainda não percebeu

Que o comboio de Santa Apolónia nunca chegará ao destino.

 

E sabes pai

O único destino de verdade

É sem dúvida a morte

Essa sim

Regressa sempre no horário certo.

 

Mas o irmão que me deste

Não quer saber de Proust

Ou da morte

Tão pouco se o comboio sem destino

Regresse

E se regressar

Tanto faz

Será apenas um comboio entre outros.

 

Um comboio estúpido

Um comboio que transporta as finas lágrimas do Inverno

E sabes pai

Ele não sabe

Ele nunca saberá

Que este comboio não existe

Que este comboio nunca existirá…

Tal como os livros de Proust que ele nunca leu

Detesta

E nem quer ouvir falar.

 

Mas sabes pai

Não estou chateado por me dares um irmão

Um irmão que detesta Proust

Que não quer que eu lhe leia Proust,

 

Estou chateado

Muito chateado

Pai

Porque o irmão que me deste é um cretino

Um cretino que nunca será ninguém

Um cretino

Um falhado

Um falhado que não gosta de Proust

Que detesta Proust

E não quer que eu lhe leia Proust.

 

E espero pai

Desejo muito meu querido pai

Que o comboio que vem de Santa Apolónia se estampe contra um lençol de lágrimas

E que morra como morrem os homens.

 

E sim pai

Eu gostava de ser um comboio com partida de Santa Apolónia

E pelo caminho estampar-me contra uma nuvem de sangue

Uma pequena nuvem com odor a naftalina,

 

Depois

Pego “Em busca do tempo perdido”

E sim pai

O cretino do meu irmão vai perceber que Proust

Sim pai

Que Proust morreu esgotado.

 

 

 

Alijó, 17/12/2022

Francisco Luís Fontinha

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