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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


09.05.23

(aos meus pais e ao meu grande amigo Doutor Luís Castelo Branco)

 

 

Regressava a casa

Travestido de farrapos,

E havia sempre quem me procurava,

E havia sempre quem me levantava

 

Do pavimento térreo da miséria.

Cansei-me de ser um farrapo,

Cansei-me das noites em voos livres em direcção ao nada…

Vesti a minha melhor roupa…

 

Ergui-me do chão

Acreditando que um dia,

Qualquer dia,

Poderia ser livre,

 

Hoje não sou farrapo,

Hoje já não tenho quem me procurava

E me levantava do chão… (a minha mãe)

Mas hoje, tenho a liberdade,

 

Hoje regresso a casa de sorriso nos lábios,

Hoje não procuro os esconderijos da noite,

Hoje, meu Deus…

Hoje sou aquilo que em nove de Maio de mil novecentos e noventa e quatro… não acreditava ser.

 

 

 

Bragança, 9/05/2023

Francisco Luís Fontinha


25.04.23

Tragam o vinho

Tragam uma canção

Tragam o amor

O amor em revolução

 

Tragam a liberdade

A liberdade de pensar

Tragam o vinho

Tragam o mar

 

Do mar sem vinho

No mar a libertação

Tragam o vinho

Tragam a revolução

 

E sem vinho

O poeta não pode escrever

Escrever do vinho

O vinho antes de morrer

 

Tragam o vinho

Tragam a liberdade

Tragam a palavra

Da palavra à saudade

 

Tragam o vinho

Tragam a poesia

Tragam a liberdade…

Da liberdade em cada dia.

 

 

Alijó, 25/04/2023

Francisco


03.12.22

Esta espada apontada ao peito

Este peito refém de um cigarro

Está triste

E cansado

Que terei eu no meu peito?

 

Um coração envenenando

Ou

Um coração em papel

Onde escrevo

E desenho as primeiras lágrimas da amanhã,

 

E esta espada

Qual a Nacionalidade desta espada?

 

Uma espada apontada ao peito

E o meu peito

Ofegante

Em silêncio,

 

E no silêncio

O meu peito refém de uma espada

Morre

Lentamente

No sorriso da alvorada,

 

Uma espada

No peito

Este coração

Em papel

Em cartão,

 

No peito uma espada

Uma espada de sombra

Como o teu nome

Quando brinca

Quando brinca na sanzala da saudade,

 

Tenho uma espadada apontada ao peito

Uma espada sem nada

Uma espada

Uma espada triste e cansada,

 

Uma espada em liberdade.

 

 

 

 

 

Alijó, 03/12/2022

Francisco Luís Fontinha


21.11.22

Em cada milímetro quadrado de silêncio

Que adorna a minha noite

Um mícron quadrado da tua pele

Poisa nos meus lábios,

 

E à velocidade de um minuto/luz

Chegam a mim as palavras

Do mel derramado

Sobre a superfície marítima;

O teu doce mar.

 

E pergunto-me – quanto pesará um grama de paixão?

 

Tanto como um grama de saudade,

Menos do que um grama de desejo,

Talvez mais do que um grama de beijo…

Num grama de liberdade.

 

 

 

 

Alijó, 21/11/2022

Francisco


26.09.22

Talvez deste espelho que me observa,

Oiça as tuas palavras da despedida,

Escreva nas minhas mãos o sorriso da tempestade…

Talvez um dia eu seja a saudade,

Talvez ao outro dia,

 

Eu seja apenas um rio sem destino.

Talvez deste espelho que me observa,

Eu perceba porque a noite é uma lágrima

Que se despede do luar,

Talvez um dia

 

Eu seja o triste mar.

Talvez um dia eu seja o Inverno,

A geada pela manhã…

E deste espelho que me observa,

Oiço as cantigas da paixão,

 

Que corre,

Morre,

Talvez um dia o meu corpo seja apenas poeira,

Um fantasma travestido de sono,

Talvez um dia eu seja uma pequena lágrima

 

No teu rosto de feiticeira…

Talvez um dia sejamos o nada

Enquanto o tudo habita no altar da vaidade,

Talvez um dia o pobre seja a liberdade

Que brinca no poema da saudade.

 

 

Alijó, 26/09/2022

Francisco Luís Fontinha


28.07.22

E não sabíamos que tinhas nos olhos

Uma lágrima de luz

Quando o teu cabelo voava sobre o mar

Depois de morrerem todas as gaivotas

E não sabíamos que nas tuas mãos

Habitavam silêncios de dor

 

Travestidos de luar.

E não sabíamos quando vinha da montanha

A solidão empunhando uma enxada

Depois sentava-se ao teu lado

Até que as flores do teu peito

Murchavam.

 

E não sabíamos porque os espelhos

Da caverna onde te escondias

Dormiam durante o dia;

Porque da noite

Erguiam-se as sombras envenenadas

Pela solidão absorvida nas tuas palavras

 

Gemias.

Gritavas silêncios de dor

Como gritam as crianças quando acordam

Nos seios de sua mãe. E não sabíamos

Que dentro de ti, à meia-noite, um rio de luz

Descia o teu corpo…

 

E não sabíamos que hoje

Vives neste meu corpo despedaçado

Enquanto uma pedra de ninguém

Flutua sobre a cidade;

Porque nunca soubemos

O que é a despedida.

 

 

Alijó, 28/07/2022

Francisco Luís Fontinha

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