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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


11.05.13



foto: A&M ART and Photos


 


Azul sou azul como os pássaros do infinito amanhecer, desprezava os horários, relógios, comia-os, os calendários? Simplesmente, olhava-os como pequenos bichos amestrados, imaginava-me sobre um fino arame que atravessava a rua dos sentidos, e eu, juro, não sinto, não sentia, nunca, coisa alguma, como hoje que azul como sou, os pássaros do infinito amanhecer, descobrem, coitados, que não existe noite, embriagados prazeres, nem aos dias faltam malabarices eternas, como as pieguices do catrapuz sistema de equações lineares, havia uma fígado encharcado em vodka, um fígado doente, mas contente, um... perfeito idiota, mafiosa como as bolachas de água e sal que deixavas sobre a mesa de granito que em pequenas rotações, mínimas, conseguiam alimentar um exercito de abelhas com pequenos parafusos de aço, com asas de porcelana, lama, a cama na lama que havia em ti, havia e havia


aprendi a consultar nas páginas amarelas


O teu rigoroso endereço num papel encarnado, escreveste o teu nome, número de polícia e telefone,


e ouviam-se-te os berros das horas por terminar, e ouviam-se-te os berros dos dias entalados na penumbra que os pássaros do infinito amanhecer, esse


O teu


silêncio que dizias-me existir no teu coração e que eu, nunca, acreditei, acredito no azul como eu do azul os pássaros, colados na tela que as velhas flores que crescem nas tuas coxas que a Primavera absorve, come, diz-se que o teu


Esse?


porque são as tuas coxas amarelas?


Diz-se que o teu corpo pertence às searas brancas com pontos de luz e pequenos torrões de açúcar quando se acendem na tua pele os pigmentos mórbidos das caravelas em flor, misturam-se-lhes as ditas coisas que despedaçavas como gargantas infelizes, e berravas, dançavas como estrelas em queda livre, até que os dias se transformavam em martírios e delírios, e uma pequena longa cruz de cedro poisava-se sobre os teus cabelos, à rapaz, de rapaz, saltavas os muros da aldeia e partias as cabeças dos transeuntes como tu, crianças como tu, e como tu


desejavam-se-lhes as pequenas palavras tatuadas no pescoço, um poema em forma de vidro, ou um pequeno vidro, travestido de poema, efeminado, ele, eu, corríamos suavemente sobre as palha adormecida do palheiro do tio Joaquim, e adoçavam-se-nos os corpos com pequenas caricias de mel e de mãos dentro de ti que procuravam o clitóris literário dos teus dias como nós


Vagueávamos nas docas encobertas com rochas e músculos comboios de areia, sabia-te como fosses um gladíolo comestível, ou prisioneira numa jarra de murmúrio, havia-nos de acontecer entrar no nosso palheiro, além do desejo, da paixão, do amor... a eterna saudade de ti quando fingias não me veres, e sentia-te sobre o meu ventre...


todo o teu peso, mínimo, a equação de três incógnitas, três equações suspensas por três letras aleatórias, e eu, resolvendo-as sem saber que tu existias, nunca te vi, mas imagino-te habitares dentro de uma integral tripla, ou numa talvez... pequena, sempre pequena, derivada do co-seno ou seno, tão simples, e não conseguia perceber que estavas lá, que sempre


Estive nesse lugar como os protões e os electrões,


Que sempre, ou não,


“azul sou azul como os pássaros do infinito amanhecer, desprezava os horários, relógios, comia-os, os calendários? Simplesmente, olhava-os como pequenos bichos amestrados, imaginava-me sobre um fino arame que atravessava a rua dos sentidos, e eu, juro, não sinto, não sentia, nunca, coisa alguma, como hoje que azul como sou, os pássaros do infinito amanhecer, descobrem, coitados, que não existe noite, embriagados prazeres”


Que sempre, ou não, acreditar que dos teus lábios, um dia, soltar-se-à


os triângulos dos teus olhos, adoro-os sem o saberes...


Soltar-se-à a madrugada com pequenas pétalas das flores que és tu.


 


(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



29.03.13



foto: A&M ART and Photos


 


Sei que tenho dentro de mim o grande lago da solidão, sei que à minha volta existem gaivotas com sorriso de poesia, sei que tenho sobre mim o silêncio dos barcos em poiso, como as ervas daninhas, como as pedras más, feias e com olhos de medo, sei que toda esta água me pertence, é a minha água, vida, paixão, o meu grande amor, sei que o tronco de madeira onde me sento, é um homem disfarçado, sem braços, cabeça, ou as pernas, sei que ele chora, sofre, como eu, e se ele pudesse


Abraçava-te,


Sei que tenho um destino pintado na tela adormecida do final de manhã ensanguentada pelas pétalas de vento e chuva, sei que a tempestade jamais cessará, como nunca cessaram as janelas com imagens negras, de montanhas abandonadas, de crianças mal tratadas, e nunca mais voltarão as letras que na infância pescava no prato de sopa com uma colher inclinada, o sacrifício para formar a palavra AMOR, e quando me sentia pronta para erguer a colher, desaparecia a palavra, desfazia-se e ficava com um amontoado de letras


M A R O,


Outras vezes,


O A M R,


Se eu pudesse?


(abraçava-te)


Se eu pudesse (sei que tenho dentro de mim o grande lago da solidão) chamava o barco dos sonhos e anda sempre de mão dada com a noite, deixava de inclinar a colher e tinha sempre a palavra AMOR respeitadamente formada e alinhada, e depois


Comíamos-la,


M A R O,


Outras vezes,


O A M R,


Se eu pudesse?


(abraçava-te)


Sopa de letras, sopa de cansaços, sopa, sopa, abraços, para quê?


(abraçava-te, mergulhava nos teus olhos de morango com natas, e escrevia no pavimento térreo do prato de sopa: SEMPRE TE AMEI MEU QUERIDO), Se eu pudesse? Comprava um banco de jardim com ripas de madeira, pintava-o de encarnado, escrevia numa pequena folha de papel “Cuidado – Pintado de Fresco”, comprava um plátano e estacionava-o junto ao banco de madeira, depois


M A R O,


Outras vezes,


O A M R,


Depois sentavas-te no banco de madeira, eu, eu sentava-me ao te lado, deitava a cabeça no teu colo, e, e M A R O, retirávamos o pequeno papel onde alguém escreveu “Cuidado – Pintado de Fresco”, e beijava-te, e, e O A M R, e, e (sei que tenho um destino pintado na tela adormecida do final de manhã ensanguentada pelas pétalas de vento e chuva, sei que a tempestade jamais cessará, como nunca cessaram as janelas com imagens negras, de montanhas abandonadas, de crianças mal tratadas, e nunca mais voltarão as letras que na infância pescava no prato de sopa com uma colher inclinada, o sacrifício para formar a palavra AMOR, e quando me sentia pronta para erguer a colher, desaparecia a palavra, desfazia-se e ficava com um amontoado de letras


M A R O,


Outras vezes,


O A M R,


Se eu pudesse?)


Amava-te.





(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



27.04.12

Sonhos impossíveis


amores risíveis (o livro dos amores risíveis, Milan Kundera)


palavras dispersas


no papel achatado pela solidão da manhã


sonhos parvos em cabeças parvas


letras


muitas letras e palavras


coisas sem nexo


sonhos


impossíveis


amores risíveis


sexta-feira sem sol


e chove


e coisas dentro de mim


e coisas...


… sonhos


 


sexta-feira


sem livros


sem letras


sem palavras


na algibeira


 


sonhos impossíveis


 


sem palavras


sem letras


 


amores risíveis


amantes complexos


em quartos caquécticos


 


coisas


muitas coisas


muitas coisas suspensas na parede


muitas coisas suspensas na parede da solidão


 


antes de terminar o dia.


13.07.11

As estrelas,


Pintadas de fresco no teto da sala, a placa metalizada onde se lia “não tocar”, frente aos correios o banco de jardim em madeira engolido pelos anos e anos e anos, e foi há tanto tempo, “não tocar”, e ele tocou, a mão impressa numa nuvem de fumo, os cigarros quando acordam mal dispostos e a dor no estômago, o batimento das ripas de pinho entre os parafusos das tuas coxas, recorda-se ele, as conversas que tínhamos, murmura a silaba folheando livros e acariciando a pétala de rosa que o ponto de interrogação de ofereceu, há tanto tempo, e foi há tanto tempo que as estrelas deixaram de se embrulhar nos lençóis de sombra da tarde, e da noite, e da noite depois da noite, na madrugada,


- Kafka embainhado no PROCESSO, e os olhos da vogal tingiam-se de negro,


A silaba em gemidos de desejo nas mãos do ponto de interrogação, um silencioso Ai despe-se e os seios em queda livre no peito dele, a mão direita do ponto de interrogação em palmos milimétricos, percorrem a pele fina e escura da silaba, uma pausa no umbigo, abre o vidro e lança a beata de cigarro de encontro ao pavimento do envelhecido paralelo granítico, fecha o vidro, destrava a mão e em acelerações de lesma recomeça a viagem até ao púbis encolhido nas calças de ganga, um obstáculo, e a mão entalada no cinto de couro,


- E agora?, pensa o ponto de interrogação,


A mão emagrece e contorna o obstáculo, a silaba em gemidos aumentados, PÁRA, POR FAVOR, eu começo a reduzir a velocidade até me imobilizar numa zona semeada de arbustos espessos, A relva do jardim?, o ponto de exclamação que ia a passar nesse momento acena-me com a cabeça que não, não é relva, POR FAVOR, PÁRA, e eu pensava, Eu estou parado!,


- A mão desprega-se do meu corpo e entra dentro das calças dele, e desgovernada como um automóvel pela rabina até ao rio, cambalhotas e cambalhotas, e quase quando ela chega à água finíssima do douro, uma coisa cilíndrica grossa e dura, o xisto humedecido sobre as fendas da terra,


Entro na garganta das coxas dela, e a silaba uma enguia quando sai do rio, a silaba suspira e transpira, a silaba engolida pelo ponto de interrogação, a frase move-se no texto encolhido na noite, a frase um amontoado de gemidos e latidos, e do texto pedacinhos de letras começam a saltitar, o xisto humedecido sobre as fendas da terra, e os minutos intermináveis de silêncio,


- Kafka era louco, a vogal para mim,


O ponto de exclamação diz que não, estrelas pintadas de fresco no teto da sala, Se estou a vê-las!, e eu não acredito nas palavras da vogal,


- Era só o que faltava, estrelas pintadas de fresco no teto da sala!,


Frente aos correios o banco de jardim em madeira engolido pelos anos e anos e anos, e foi há tanto tempo, e foi há tanto tempo que a primavera deixou de viver…


09.07.11

Noite,


Dormir ensopado no sono


Erguer-me devagarinho e abraçar-me à janela


E olhar-me no espelho da rua,


 


Noite,


Se os teus lábios deitados na almofada


A pele silenciosa da tua mão


No meu ombro calcinado pela madrugada,


 


E da noite,


Gaivotas com cheiro a desejo


Poisadas na mesa-de-cabeceira


Junto aos meus óculos esfomeados de letras,


 


De palavras


Noite,


De sílabas


Noite.

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