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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


19.01.21

O poema dorme nas pernas da laranja.

As pernas da laranja, quando acordam, adocicam as palavras escritas pelo poeta,

Quando a mulher do poeta, é a própria laranja.

Sou, por vezes, apedrejado por energúmenos, mas não me importo.

Sou simples, como todas as palavras do poema.

Amo o poema,

Sou amado, como a amante do poeta, ama o poema e,

Todas as noites,

Uma laranja abre as coxas recheadas de sombra,

Lá fora, fios de geada brincam com a caneta do poeta,

Porque sendo ele, às vezes, apedrejado, continua a fabricar palavras quando cai a noite.

A caneta do poeta, apaixonou-se pela amante do poeta;

Podia ser trágico, podia ser infidelidade… mas o que os separa são apenas palavras,

Gritos ao ouvido que ela tanto adora.

Acabaram-se os cigarros. Sobre a mesa da sala, um volume de cigarros espera-o, como o espera a caneta, o papel e, os ouvidos da amante que ele a todos os momentos lhe sussurra; AMO-TE.

Poderia escrever-te a todas a horas, minutos, segundos, ou nunca te escrever.

As palavras invisíveis são as mais apetecidas, são escritas no silêncio entre o sono e o sonho.

São como a geada; leves, tranquilas, doces até.

O poema dorme nas pernas da laranja.

E se a laranja é as coxas da amante do poeta, como se apelidará o seu saboroso sumo, dúctil nas manhãs de Inverno?

Saltita.

Brinca na areia branca da manhã os esqueletos da noite passada,

Pequenas ranhuras nas paredes do cubículo que acesso ao sótão; sempre quis ter um sótão imaginário, apenas para mim.

Um sótão onde poderia brincar, escrever, pensar e, manusear a laranja.

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó-19/01/2021


24.02.20

Acordava do sono emagrecido,


O homem da nuvem embriagada,


Cansado,


Perdido,


E, reclamava,


E, gritava,


A palavra enfeitiçada.


E, hoje, nas camufladas ruas da cidade esquecida,


Embrenhado na poesia, a canção do adormecido,


O homem, cansado, denegrido,


Escreve sem ânimo,


Desiludido…


Dos alicerces envergonhados.


Rezam pela sua alma,


Coitado,


Sem nome,


Degolado pela tempestade,


O homem, o mesmo homem, o cansado,


Pegas nas palavras da reza em seu poder,


Desorganiza-se,


Veste-se de negro,


Negro, negrito, negrinho,


Como o gato do vizinho,


Dançando na eira das espigas adormecidas.


As sombras do silêncio,


A alvorada da sinfonia que jaz na ribeira,


O rio, em delírio,


O rio, desconectado da vida,


E, corre,


E, dorme,


Nas almas do mar.


O mar tudo engole, e, tudo mastiga,


Pessoas, lixo, palavras, o vento…


Uma laranja, sofre,


E, vive,


E, morre,


Dentro da laranja adormecida.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


24/02/2020

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