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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


26.11.17

Nas palavras, o silêncio.


Da noite camuflada pelos Oceanos perdidos, os pindéricos sorrisos da alma,


Os esqueletos de luz que vagueiam na triste Avenida, sem palavras, a distância dos osos na escuridão do mar,


Recordo o teu olhar de pálpebras silenciadas pelo vento. Os rochedos onde me deito.


A madrugada. Acordar em ti os sonhos de ontem, a difícil caminhada em direcção ao mar, dois corpos saturados da neblina, dois corpos misturados nas ínfimas luzes da cidade. Não durmo. Finjo brincar numa praia em papel, desenhada por uma criança, triste, como as estátuas de sal,


Os meus dedos na tua boca, quando libertas os livros aprisionados pelo tempo, liberta-te também de mim; desacorrenta-te, e desiste de lutar.


Amanhã lá estarei, desintegrado nas salas exíguas dos mortos jardins, pequenas árvores, pequenos arbustos no teu peito, esperando o veneno, escondo-me.


Nas palavras, o silêncio.


A solidão da manhã quando trazes nas mãos a chuva miudinha, pesadíssima, e, travestida de soldado, brinco em ti, comigo sentado numa pedra adormecida, à deriva na rua deserta da tua sombra…


Palavras, nas palavras, o silêncio, o prateado desassossego que a vida constrói no amanhecer, como os poemas, entre morto e mortos; o fim.


Ai que a vida parece um círculo, cada vez mais longínquo da cidade,


Como todos os sons da tarde, ao cair a noite,


Os sonhos, vagueiam no teu solstício medo de me deixar junto ao rio,


Felizes, aqueles que acreditam em Deus…


Porque os que não acreditam, morrem, e nunca compreenderão o silêncio.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 26 de Novembro de 2017


09.03.15

Sinto as tuas lágrimas no espelho da manhã


como campânulas de luz embriagadas pelo silêncio


roubaram-me a esplanada e as cadeiras onde me sentava


e...


percebia quando passavas apressadamente


que o dia não tinha acordado


pálpebras cerradas


corredores escuros onde te escondias


quando regressava a noite


e...


percebia...


as vozes da saudade dentro de um cubo de vidro


 


os vultos nocturnos embrulhados na morte


como flores em decomposição


perdem o perfume


e a pele começa a envelhecer


transformam-se em cinza


cigarros a arder


cigarros procurando avenidas de voo


enquanto o fumo se distrai a observar o rio


transatlânticos


marinheiros de homens


engatados pelas árvores de um qualquer jardim


de uma cidade em construção...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 9 de Março de 2015


08.02.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Há uma fogueira sem nome que alimenta as lágrimas tuas,


há uma lareira em fome procurando os teus lábios mergulhados no nocturno sofrimento do desejo,


há em ti uma luz ténue que consome, que vive, que... que escreve no teu corpo os versos da solidão,


há uma fogueira que morre,


uma labareda dançando na calçada da vida, que vive, não vive... e sofre, e morre... morre como morrem as pétalas dos jardins de papel,


há uma fogueira sem nome dentro do teu peito anónimo, perdido, uma fogueira... com mãos de mendigo,


 


Há uma fogueira nos barcos que passeiam no teu rio, o rio que tens dentro das tuas vadias veias,


há um menino que chora,


há uma mulher que não dorme, e acredita nos telhados de vidro,


há lá fora um cão chato, que não se cala, que... e sofre, e morre... morre como morrem as pétalas dos jardins de ternura,


há um vestido suspenso no guarda-fato, “procura-se empregada doméstica”, menina séria, menina honesta,


há... há uma vida construída de pequenos aviões, sem motor, sem palavras... sem sonhos, nada, nada há nos teus sobejantes cansaços em delírios febris.


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 8 de Fevereiro de 2014



19.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


qualquer coisa começada em pedra e terminada em erva


o terreno límpido onde pastam as vozes dos cortinados ensanguentados


húmidos pelo medo


às paredes o silêncio degredo


a morte vestida de flores embalsamadas


e portas encerradas


janelas que olham o mar


o mar que transforma janelas em barcos para brincar


qualquer coisa em ti


comedida


a dor sobre os teus ombros submersos em carris de aço nos lânguidos lábios em tristes abraços...


sabia-te deitado no meu destino,


 


ancorado


e bem amarrado como cordas que sustentam as pontes invisíveis das tempestades de veneno


converso e oiço-te em mim...


 


grito.... “Quero o meu caderno das argolas desbotadas quando a tarde ainda era tarde”... grito e quero-o em mim como se eu fosse um simples suporte de madeira deixado numa qualquer rua da cidade...,


 


a cidade fervilha e transpira


o corpo despe-se e do espelho do sótão uma lâmina de tristeza embrulha-se em ti


sim eu percebo que você é frágil e de frágeis vivem os jardins como vivem as árvores nos seios das pequenas gaivotas em papel...


a cidade és tu


o corpo é o meu


o meu corpo dentro do teu corpo


dois corpos suspensos na fronteira do prazer... vivemos na alegre solidão da dor...


sinto-as como se fossem as minhas mãos de amoreira em cima das nuvens negras do Inverno inferno travestido de Cinderela adormecida... ancorado... e bem amarrado... o teu corpo vive e habita nos rochedos das montanhas encarnadas


o teu corpo masturba-se nas sílabas assassinadas pela madrugada


oiço-as e invento-lhes nomes para que eu não enlouqueça como a insónia vogal do ciume


vive-se vivendo como esqueletos de ossos em migalhas de pão...


voa-se voando... quando de um corpo sem corpo acordam as sanzalas do pecado.


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 19 de Janeiro de 2014



17.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Há uma estrada que nos transporta até à cidade do gelo


dento do desejo medo


um livro teu mergulha na inocência da noite poética


o uísque embainha-se no gelo da cidade perdida


e uma personagem invisível veste-se de madrugada


há uma estrada


uma rua e um nome...


há um calendário que me insemina na doce margarida em pétalas fungiformes


dos torrões de açúcar


e escreve no meu corpo os números tristes das planícies dos cegos


a gaivota da tua mão mórbida aparece nas costas do cortinado cinzento junto à lareira da paixão


e um corpo...


o teu corpo... arde como papel vegetal em pequenos esquissos dos loucos projectos,


 


Há vozes de granito que iluminam a escuridão das tuas pálpebras


e dor que transforma as plantas vivas em mortas jangadas de veludo


há a dita cidade do gelo


encastrada nos seios da mulher de palha...


oiço-os em gritos andaimes depois da despedida que o cais das lágrimas de aço transborda montanha abaixo


rio acima tudo dorme sem perceber que da noite nascem lençóis de prazer


e as pontes de vidro que eu toco são como a frieza dos teus velhos lábios...


o nome que não sei pronunciar


escrever...


o nome inventado nos rochedos de areia da cidade do gelo


há uma estrada em ti que me acorda em todas as alvoradas


e... e desejei eternamente ser em cartolina como os jardins do nada.


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014



11.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Acreditava que o sonho se vestia de branco


que em todos os jardins existiam esqueletos de aço com coração de veludo


e que em todas as palavras pronunciadas...


escritas


e apaixonadas... habitavam as mãos do delírio sono extinto das noites circunflexas


tínhamos no sono a ânsia de viver dentro dos poços das amoreiras em flor...


crescíamos


e vivíamos...


e éramos vultos comestíveis como as folhas dos plátanos adormecidos


queríamos a paixão e vinha até nós a solidão


desejávamos o prazer


e acordava em ti a desilusão de deambular sobre os coqueiros em papel...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 11 de Janeiro de 2014



01.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


A flor do desassossego acorda-me com se eu fosse um metro quadrado de terra não fértil


como se eu fosse um pedaço de papel ainda não escrito


doente


debaixo da sombra dos embondeiros


oiço os mabecos vomitarem as sílabas de aço das poucas palavras pronunciadas


gordas... acabadas


tristes como eu porque o dia não cresce


porque a lareira do desejo afunda-se nos cinzentos beijos da madrugada


“a flor tu” que o calendário da paixão colocou na parede da minha mão...


“a flor tu” que eu recuso tocar


porque as nuvens prateadas são como as sandálias... esquecem-se de caminhar


e morrem no mar,


 


E eu toco-te sem perceber que os abraços são filhos do vento


e “a flor tu”


um fino esqueleto de luz voando sobre as montanhas do prazer


a flor


a flor do desassossego acorda-me


enoja-me


faz de mim um velho mendigo sem casa para habitar


sem palavras para escrever...


sem jardins


sem nada...


e eu toco-te e tu...


e tu... tocas-me pensando que sou uma pedra de xisto esquecida nos socalcos do destino.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Quarta-feira, 1 de Janeiro de 2014



27.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


perdi-a sem saber que a tinha


dentro da minha mão despedaçada


enrolada nos meus finos dedos de arame farpado


perdi-a sem o saber


dentro das minhas veias habitavam os insectos da melancolia


três horas antes de adormecer


três vezes ao dia


a insónia invade-me entranhando-se nos meus olhos desnorteados


vagabundos


apaixonados...


e eu sem o perceber entro nas tempestades com sorrisos de mar


perdi-a e nunca mais a conseguirei encontrar no jardim do esquecimento


 


subi escadas


sentei-me em inúmeras varandas...


desci escadas


corri calçadas


tropecei... e caí sobre as lágrimas


perdi-a sem saber que a tinha


dentro da minha mão despedaçada


e uma sombra de mimo jaz na almofada do sonho morto


 


perdi-a


sem o saber


perdi-a de mim quando escrevia


palavras sem rosto


palavras


sílabas de nada


tristes madrugadas


perdi-a sem saber que a tinha


dentro


fora


na dupla esquina


de luz... como a luz dos holofotes dilacerados.


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 27 de Dezembro de 2013



26.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


O que é desejar, se não querer e não o ter, desejar um corpo suspenso na madrugada que espera o regresso da barcaça abandonada em alto-mar, a maré eleva-o, a maré come-o, e o navio da sede submerge nas rochas negras da noite, o que é desejar, se não querer e não o ter, suspenso, absorto, iluminado pela mão de quem o acaricia... e ouvem-se os gemidos sons da tempestade do silêncio,


O corpo transforma-se em fantasma, o corpo transcreve os invisíveis carris da solidão e desaparece entre os moinhos de vento espalhados pela montanha dos sonhos,


O medo,


A tristeza de um corpo deitado na penumbra descendo das árvores envenenadas pelo desejo, desejar um o corpo proibido, o corpo prisioneiro das mãos do moribundo cambaleante mendigo das trevas, hoje


O que é desejar, se não querer e não o ter, desejar um corpo suspenso na madrugada que espera o regresso da barcaça abandonada em alto-mar, o marinheiro engana-se no navio e quando acorda está fundeado em Cais do Sodré, um cavalo de areia corre junto ao rio, saltita de banco de jardim em banco de jardim, a chuva molha-te e do desejar-te não desejo, a sede esconde-se nas clandestinas janelas com cortinados de chita, e a mão de quem o acaricia... covardemente troca o teu corpo por meia dúzia de cigarros, enrolas-te no Inverno cobertor que cobre o teu cabelo, pareces uma cobra recheada com chocolate e torrões de açúcar, amanhã não o sei, mas hoje, hoje queria ser o dito fantasma vestido de chuva, todo molhado, húmido como o teu, e ao longe, ao longe sentirmos os apitos com doirados sons de fim de tarde,


Não sei quem sou...


Desisto de desejar o que não pode ser desejado,


(dizer que te amo sabendo que o medo transverso do esforço alimenta-se de mim, faz-me fraco, covardemente troco o teu corpo por meia dúzia de cigarros... e quando dou a ordem definitiva ao interruptor para acender o candeeiro da mesa-de-cabeceira... não estás... e diluíste-te com a chuva)


Não sei quem sou...


Desisto de desejar o que não pode ser desejado, os trapos, os farrapos de nós como livros molhados, sujos e imundos, o corpo em imagens tridimensionais... que esperam o meu regresso e curiosamente ainda não sei onde me encontro, preciso de descobrir o caminho para regressar, e se regressar... que seja de noite, que esteja a chover... e que o teu corpo permaneça sobre o divã do desejo


Desejo?


O que é desejar, se não querer e não o ter, desejar um corpo suspenso... desejar um corpo sem nome.


 


 


(ficção)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013



01.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


sábado


os caixões da insónia silenciados na parada dos sonhos


os ventos longínquos das manhãs que dormiam na tua mão


não mais dormirão


evaporaram-se como pequenas gotículas de suor depois da tempestade


solidão


palavra desconhecida que o meu corpo absorve como mandíbulas metálicas


os olhos cansam-se como se cansam as pernas de cristal dos azulejos brancos



sempre


desde que partiram as gaivotas teus abraços para destinos inventados


viagens sem limite


 


sábado


a solidão


eu só


sempre


os caixões da insónia


a serpente


e mente


ela


ele


as ruas numeradas que habitam a cidade dos reumáticos assentos de prata


fidelidade


feliz


 


infeliz


o sábado


à saudade



aplique depois de seco


mergulhar supérfluamente como Dálias em jardins de pedra


e eu minguado


e eu


eu triste


porque sábado


eu



 


(apenas eu


como uma cadeira onde te sentas e sinto a tua pele...)


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo. 1 de Dezembro de 2013


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