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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


05.08.15

Fernando_Fontinha_23_05_2015.jpg


Fernando Martins Fontinha


29-11-1938 / 29-07-2015


 


Em todas as guerras há sempre um vencedor e um vencido. Infelizmente perdemos a guerra e venceu a doença. Nem sempre é assim, e é com enorme felicidade quando temos conhecimento que alguém ganha esta guerra.


Tudo foi feito por parte do IPO-Porto e seus Profissionais, tal como da nossa parte, eu e a minha mãe.


Quando se fala tão mal do nosso SNS, apenas queria deixar algumas considerações; se o meu pai tivesse uma vida contributiva até aos 100 anos, provavelmente não pagaria um décimo do que esta Instituição gastou com ele (cirurgia, radioterapia, quimioterapia, tratamentos inovadores, PET´S vários…, etc.). Nunca nos disseram que não fazia isto ou aquilo porque era dispendioso.


Durante as sete semanas de Radioterapia ficou na Liga Portuguesa Contra o Cancro – Núcleo Regional do Norte sem qualquer custo para nós. Veio a falecer na Unidade de Cuidados Paliativos sita no edifício da Liga Portuguesa contra o Cancro.


Perdemos a guerra mas o nosso “General” tombou com toda a dignidade, nunca recusou nenhum tratamento, nunca nos falou que ia morrer… lutou até ao último segundo de vida.


 


Agradecemos:


 


IPO-Porto e todos os seus Profissionais. Foram fantásticos;


Liga Portuguesa contra o Cancro – Núcleo Regional do Norte e seus voluntários;


Unidade de Cuidados Paliativos do IPO-Porto e todos os seus Profissionais;


ECCI de Alijó;


Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Alijó (Direcção, Comando e Corpo Activo). Um grande obrigado por todo o apoio e amizade;


Aos nossos familiares e amigos;


 


Terminamos com a mensagem recebida de uma Profissional da Clinica da Pele, Tecidos Moles e Ossos, após o conhecimento do falecimento do nosso ente-querido:


 


“Sinto muito, mesmo muito Sr Francisco! O Sr Fontinha foi um guerreiro, um lutador, Grande Homem! O senhor foi um filho exemplar, sempre presente e a acompanha-lo e a sua mãe uma grande mulher, uma verdadeira companheira! Partilhamos a vossa dor... vocês são o exemplo do que uma família "a sério" deve ser, muitos parabéns por isso! Um grande beijinho de toda a equipa.”


 


Obrigado a todos


 


Arminda Fontinha


Francisco Luís Fontinha


27.07.15

desenho_27-07-2015_2.png


 (desenho de Francisco Luís Fontinha - Alijó / IPO-Porto, 27/07/2015)


 


Vivo imaginando corvos poisados neste quarto cinzento,


Sinto ao longe os barcos em círculos atravessando a tempestade,


Esta cidade morre como morreram todas as flores do meu jardim,


E mesmo assim…


Não me apetece escrever neste lugar sem nome,


Não vejo as estrelas,


Perdi a noite


E os andaimes da escuridão,


Perdi a paixão,


Deixei de ter o rio nas minhas veias,


As calças cresceram,


Pertencem a outro arbusto,


 


E estou aqui… como um rochedo,


Perdido,


Vestido de medo,


 


Sentado numa cadeira invisível.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Porto, 27/07/2015


26.07.15

WIN_20150726_170530.JPG


 


Cessem todas as luzes da madrugada,


Rasgam-se as palavras na fogueira da tristeza,


Tens na cama as amarras infinitas da dor,


Oiço-te,


Imagino-te brincando na eira junto ao mar,


As flores,


Emagrecem no silêncio do vento,


Fingem a Primavera os cortinados da noite,


E deixas de ter noite,


O relógio que transportavas no pulso


Habita hoje nesta cidade de lápides,


E o teu rosto é um plátano sem vida…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


26-07-2015


 


16.02.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Da tua janela sentia o pulsar inconstante das tuas veias, do oitavo andar eu conseguia, não, aprendi a perceber as árvores em movimento, aprendi a ouvir os teus lamentos, aprendi a sentir a tua minha dor, contava a vezes que o metro de superfície passava em frente aos teus olhos cerrados, perdi-lhe a conta, desisti de contar, mudei repentinamente para os automóveis sonolentos que enteavam no parque de estacionamento, eram tantos, meu Deus, tantos, tantos que... voltei a desistir,


Percebi o significado do medo, aprendi a esperar pelas palavras do invisível, e confesso que não rezei, confesso que mentalmente colocava a hipótese de te perder, e ainda não tenho a certeza se te vou perder, enquanto dormias, enquanto eu olhava os teus sonhos impregnados no cortinado de fumo, eu, eu sabia que tu me esperavas quando acordasses, acordaste,


Então, chegaram bem?


Não te respondi, sentia-me agoniado, com fome, sem palavras para responder aos teus anseios..., pegava nos cigarros amorfos, acendia um e depois outro e mais outro... até que percebi que no corredor de acesso ao teu quarto, até que entendi a solidão, o amor enquanto esperava as lânguidas manhãs de Janeiro,


Então, chegaram bem?


Muita neve, chuva, vento, e perdemos-nos na tua sonolência de cadáver inventado por um louco, perguntava-te se estavas bem, e respondias-me


Então, chegaram bem?


Que sim, que tudo não passava de um sonho, que tudo nunca tinha existido, que tudo


Então, chegaram bem?


Que tudo acorda quando os silêncios dos teus lábios me diziam


Estou mal, tenho dores, não consigo adormecer,


Me diziam, me obrigavam a acreditar nas palavras escritas na tua cama, oitocentos e trinta e cinco, para os matemáticos um belíssimo número, mas


Então, chegaram bem?


Mas para um poeta esse número significava uma perda, uma ausência de ti para comigo, imagino-te subir as escadas do sótão da saudade, imagino-te a pegar na minha mão e ir-mos ver os barcos ao porto de Luanda...


Então, chegaram bem?


(não te respondi, sentia-me agoniado, com fome, sem palavras para responder aos teus anseios..., pegava nos cigarros amorfos, acendia um e depois outro e mais outro... até que percebi que no corredor de acesso ao teu quarto, até que entendi a solidão, o amor enquanto esperava as lânguidas manhãs de Janeiro...)


E víamos os paquetes abraçados aos longínquos marinheiros com fardas de embriagados esqueletos procurando sexo, álcool... e drogas,


Os coqueiros, os treinos de Hóquei em patins, e sempre, e sempre a tua mão entrelaçada na minha mão de criança, da tua janela sentia o pulsar inconstante das tuas veias, do oitavo andar eu conseguia, não, aprendi a perceber as árvores em movimento, aprendi a ouvir os teus lamentos, aprendi a sentir a tua minha dor, contava a vezes que o metro de superfície,


Então, chegaram bem?


E olhavas-nos, e sei que choravas...








(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha- Alijó


Domingo, 16 de Fevereiro de 2014


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