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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


15.05.15

Fujo de ti,


Transformo-me em cinza


Ao anoitecer


Sem perceber


Que na minha mão


Morre,


Um cigarro,


A arder,


Fujo de ti


E sei que da noite apenas regressam as sombras


E o cheiro do capim,


Entre sílabas e imagens,


 


Entre barcos


E


E náufragos sem identidade,


Ignoro-me


E fujo,


Como fogem os lírios em cada pôr-do-sol,


Como fogem os corações em cada solstício,


Perdi-me,


 


E fujo.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 15 de Maio de 2015


15.03.15

o engate suspenso nos anzóis da tarde


à mão


regressa a caneta da solidão


e há nuvens de papel nos olhos do poema


és livre


de voar


sobre os corações de xisto


que habitam as imagens a preto e branco


do Douro


navegar


subir ao luar


e,


 


e abraçar-se aos vulcões de areia


dos homens


e das mulheres


de sombra,


 


imaginar


desenhar nas entranhas pálpebras de amar


o silêncio do beijo


à janela


o mar avança e nos leva


somos dois


talvez...


três


o engate


à mão


suspenso nos anzóis da tarde


a tarde... a tarde dos farrapos de vidro...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 15 de Março de 2015


13.03.15

No trajecto da insónia


um ponto embrulhado nas coordenadas do silêncio


percebe-se pelo movimento lento


que a parábola incendeia o pequeno quadrado


lá dentro o medo


viver ele


enquanto desenho na ardósia tarde


o significado das imagens nocturnas do prazer


o corpo é um pesadelo sem porto onde aportar


viver ele


no mar


e cansa-se do rasurado veneno que o vento semeou


 


a carta regressa


endereço insuficiente


ausente


talvez morto


talvez contente...


no mar


o luar pincelado de andorinhas marés


e ele


sempre ele


viver ele


e cansa-se


não o devia fazer


 


fugir


sem...


sem deixar um bilhete sobre a secretária


ou


ou apenas um traço no espelho embaciado da casa de banho


eu percebia


ausentou-se


foi-se


nunca mais voltará aos livros...


nunca mais acordarão as vozes das sílabas embriagadas


nos sonhos


da alvorada.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 13 de Março de 2015


21.01.15

Pintura_74_A1_Nova.jpg


 


(desenho de Francisco Luís Fontinha)


 


 


a náusea palavra aprisionada nos lábios da dor


trazes nas veias o poema de luz


que dorme nas raízes do medo


o silêncio do teu sofrimento


folheando um livro sem imagens


melancólico


abstracto


a ilha


sem árvores


sem casas de pano


como tínhamos no Inverno


sem percebermos o que era a saudade...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2015


08.12.14

Não sabia que o teu nome


era apenas um nome


uma solitária palavra


sem alma


sem coração


sem... sem barcos ao anoitecer,


 


não sabia que o teu nome


era apenas um nome


sem corpo


sem sombra...


 


não sabia que o teu nome


era apenas um silêncio


sem imagens


sons


ou... ou fotografias


em constante mutação,


 


não sabia


não sabia que o teu nome


era apenas uma assombração


uma cidade esquelética voando no pôr-do-sol,


 


(Não sabia que o teu nome


era apenas um nome


uma solitária palavra)


 


como as pálpebras do poema antes de ser o poema,


 


não sabia que o teu nome


era apenas um nome


um soluço mastigado nas sílabas do Diabo...


não sabia


que... que o teu nome


é como a areia húmida


e o mar apaga todos os seus desenhos


como a morte... apaga todos os seus corpos...


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2014


02.03.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Perdi o teu olhar na penumbra seara de trigo,


tínhamos descoberto o silêncios dos rios que dormiam nas nossas veias,


perdi o teu olhar das palavras por escrever,


e sentia em ti o desejo de partires,


à janela apareciam as imagens que tínhamos deixado do outro lado do muro,


havia um fino sorriso de melancolia e as tuas mãos tremiam como tremia a tua voz de centeio,


perdi o teu olhar,


e da penumbra seara de trigo apenas sobejaram as flores envenenadas dos beijos adormecidos,


Descemos a montanha,


dormíamos nas almofadas clarabóias das rochas graníticas,


líamos as estrelas junto ao cais das laranjeiras, e... e sentíamos o florescer da manhã com rosas,


sobre nós um papagaio de papel lançava pequenos grãos de areia e alguns favos de mel...


as abelhas descoloridas morriam,


como nós, hoje,


cadáveres de gesso suspensos nas amoreiras,


e havia sempre uma criança em ti que me fazia sonhar...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 2 de Março de 2014



08.10.13



foto de: A&M ART and Photos


 


não sei como és


não percebo das tuas sombras a neblina das rosas ao amor


não entendo a tua presença nas andorinhas em flor


não o sei


como és


ou... se o és


também


tu


uma flor


não sei como és


nuvem


ou simples pedaço de xisto


 


não como és


não percebo o porquê dos teus sete pecados mortais


das avenidas embainhadas


nas madrugadas


como és


ou se... és o que eu acredito que o sejas


uma gaivota disfarçada de veleiro


muitas fotografias esquecidas nos jornais


e no entanto


não sabendo como és...


acredito nos espelhos com abraços em aço Janeiro


não como o és


 


mas... seres o vento


uma janela mal fechada


um pérfido edifício em ruínas


como tu


eu


o és...


somos esqueletos vagabundos mergulhados no mosto cerâmico da paixão


mas... seres o vento


o amanhecer construído por jangadas de vidro


montanhas encarnadas


ribeiras


feiticeiras


 


ou... simples palavras


adornadas nas esquinas prateadas


não sei


como


o


és


não percebo as acácias em flor


os julgamentos complexos por aviadores com capacetes de cartão


escrituras


letras e letras e uma mão sobre o teu rosto envenenado pela insónia


não sei como és


não percebo das tuas sombras a neblina das rosas ao amor


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 8 de Outubro de 2013



20.07.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Projecto-me tridimensionalmente no muro onde poisas, todas as noites, os cotovelos, seguras a tua doce cabeça com as pequeníssimas mãos de menina apaixonada, olho-te como se fosses uma imagem prateada tingida com pedaços de azuis cerejas que numa tela simplesmente mergulhada na noite desgovernada, ela, absorve-te, alimenta-se de ti como as abelhas do feminino pólen com sabor a masculino desejo, e depois de saber que és uma imagem prateada tingida..., os pedaços de azuis cerejas borbulham-se-te com cobertores suspensos numa janela dançarina, bailarina eu?


Bailarino, tu!


E de ti como as abelhas, desisto das parvas palavras que finges ler, como fingias as noites dos cortinados de Lisboa, baixavam-se as tímidas persianas do amor também ele..., tímido?


Bailarino, bailarino sem profissão conhecida, artista sem arte, Tímido, eu? Que me dera ser como tu, uma triste alga dentro do rio sonolento das varandas com gradeamentos enferrujados, tristemente, eles, dentro de ti, às sílabas farto eu escrever, Tímida ela?


Perdia-se-lhe os mínimos sons da sua voz nas pétalas doiradas das rosas transeuntes das ruas prostituindo-se como reles bancos de jardim, onde todos se sentam, e eles... apenas estão lá, não pelo prazer, apenas estão lá porque os obrigam a estar, porque se não fosse dessa forma...


Tímidos?


Os corpos reluziam como gaivotas, e das ripas em madeira dos teus ombros, as alegres asas de porcelana, meu amor, Tímida? Quando sei que o teu corpo é incenso que arde num prato de cobre, música alimenta-se em ti, e os versos


Bailarino, tu!


E de ti como as abelhas, desisto das parvas palavras que finges ler, como fingias as noites dos cortinados de Lisboa, baixavam-se as tímidas persianas do amor também ele..., tímido?


Versos no cardápio ao preço de vinte e cinco euros a dose, aprece muito, isenção de IVA, e com a oferta de uma bebida branca...


Bailarino tímido, eu, ou tu?


Tenho uma vida cúbica, tenho sonhos quadrados e sofro em círculo, sou um perfil geométrico, alimento-me de senos e cossenos, fumos tangentes hiperbólicas, e faço o amor com as equações diferencias..., afinal, quem sou eu? Um pedinte matemático? Um bailarino/Bailarina, Tímida? Um hipercubo com braços de esperma descendo escadas de cinzentos soníferos com orifícios a imitar as janelas de luar?


Bailarino, tu?


És um triste, és uma integral tripla sobrevoando o momento fletor dos teus livres seios na viga do desejo... oiço-te gemer, a musicalidade da tua boca é uma pauta com sons débeis, difíceis de engolir, fáceis de mastigar..., textos, palavras, livros bolorentos entre vacas e carneiros no centeio do tio Joaquim, vivíamos como dois palhaços embriagados pelos sorrisos das marés envergonhadas dos longínquos mares que descobrimos nunca terem existido..., e o vento


E o vento vai desalicerçar a tua singela estrutura de bailarina rodando em redor do teu centro de massa cuspindo momentos angulares como fazem as nuvens antes de adormecerem nos teus braços...


Ainda acreditas, que, eu, Bailarino... Tímido?


 


(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



02.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Sento-me nesta cadeira de gente, só, pego nas palavras e semeio-as sobre uma fina toalha de linho, sentado, percebo que sou um ignorante diplomado, sinto que lá fora, no meu jardim, há pássaros novos, vê-se pela penugem, parecem ainda bebés, depreendo que nasceram aqui, e aqui vão crescer, até se fazerem homens, mulheres, e zás... desamarrarem-se do cais seus pais e nunca mais regressarão, ou talvez um dia, quem sabe... regressem, visitem as minhas já então velhas árvores, possivelmente, a figueira, deixara de existir, possivelmente, o pessegueiro recheado de atrozes, possivelmente, a cerejeira, essa, de coluna vertebral inclinada a quarenta e cinco graus, e nada, ou quase nada, que, eu, possa fazer para mudar o curso normal das coisas, estas, banais, e tudo, porque estou sentado numa cadeira de gente, só, pego nas palavras e semeio-as sobre uma fina toalha de linho, sentado, oiço-te quando gritavas o meu nome do outro lado da rua, havia casas rasteiras entre nós, um dia quis fazer de uma velha televisão um aquário para peixes, abri-a, e queria abrir o velho embaciado ecrã do televisor munido de válvulas e outros apetrechos, ligava-se e a imagem aparecia segundos, minutos, depois, como das palavras do outro digno Senhor “Precisa de aquecer as bobines e parece um poço a deitar música”, neste caso, imagens, a preto-e-branco, além de parecer uma bomba, fiquei com o rosto golpeado, tudo, porque o dito explodiu, transformou-se em areia, finíssima, como a tua pele doirada depois de bronzeada pelos dóceis dedos pertencentes à minha mão,


Que parvalhão acreditaria na possibilidade de fazer um aquário do ecrã de um velho televisor?


Eu, sento-me nesta cadeira de gente, vejo-te entre a roldana do tempo e a corda das cinzentas nuvens de fim de tarde, oiço-te do outro lado da rua, das casas rasteiras, vozes, rádios vomitando músicas, e músicas inventando imagens na minha ainda cabeça de criança. Cerro os olhos, entro num longo túnel com muitas cadeiras iguais às que hoje me sento, cadeiras de gente, só, eu, pego nas palavras e levo-as comigo, sozinho, dentro do túnel com uma das mãos enfiada na algibeira, porque perder as sementes de palavras, certamente, o meu fim, assim, ainda me resta a esperança de sobreviver às magoadas paixões de silício, semicondutores, dentro de mim, aumentam-nos a velocidade, a aceleração multiplicada pela minha massa, sinto-me sentado, mas realmente há muito que não durmo, não como, apenas existo para guardar a algibeira das palavras, e consigo ver a força expressa no espelho


(Nunca duvidei que F=m * a)


E é tão feia, velha, serão assim no futuro as minhas árvores onde acabaram de nascer este belos pássaros?


Oiço-os, existe um melódico som como quando, às vezes, oiço pela trigésima sétima vez elevada ao cubo, o projecto Wordsong (AL Berto), e eu, sempre dentro do túnel, e eu, sempre de mão na algibeira, posso perder tudo do pouco que me resta, mas perder estas poucas sementes de palavras, minhas, inventadas para ti,


E pergunto-me?


Falo em ti e nem sei quem porra tu és...


És homem? És mulher? És pássaro, vento, madrugada, esplanada, beijo, púbis, coxas? Não... possivelmente não és nada,


E pergunto-me?


Falo em ti e nem sei quem porra tu és...


Sento-me nesta cadeira, de gente, só, embriagado pelo silêncio dos Deuses adormecidos, pego na mão, abro-a, começo, vagarosamente a semear as poucas palavras que me restaram sobre a fértil secretária de madeira, oiço o soluçar do teu corpo, e sinto-te, tu, do outro lado da rua, as casas rasteiras, tu, brincas com uma roldana, és a responsável pelo andamentos dos relógios de pulso, ou daqueles como o meu, suspenso na parede da sala, e de quinze em quinze minutos...


Horrível, o horror de saber que existes, do outro lado da rua, as casas rasteiras, e não sei quem és, como o serás nua, se és homem, se és mulher, se és pássaro, vómito, canção, poema, desenho ou apenas alguém a brincar numa roldana,


Sento-me nesta cadeira de gente, só, pego nas palavras e semeio-as sobre uma fina toalha de linho, sentado, percebo que sou um ignorante diplomado, sinto que lá fora, no meu jardim, há pássaros novos, vê-se pela penugem, parecem ainda bebés, depreendo que nasceram aqui, e aqui vão crescer, até se fazerem homens, mulheres, e zás... desamarrarem-se do cais seus pais e nunca mais regressarão, ou talvez um dia, quem sabe... regresses para olhares pela primeira vez a minha sementeira de palavras.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



01.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Talvez um dia percebas porque dançam as minhas lágrimas


e navegam nos meus débeis braços os barcos de vidro martelado


talvez um dia entendas as personagens de mim


que são de ninguém


como sombras bailando debaixo da chuva


assim


como palavras entre linhas de um caderno negro


e os carris da saudade em direcção à minha caneta de tinta permanente


 


Talvez um dia o mar seja o nosso reencontro no mergulho do desespero abandono


que todo o pôr-do-sol sofre antes do cair a noite


e acordem milhões de parvas estrelas


que não falam


não escrevem


talvez um dia venhas a perceber quem sou eu


do que padece o meu empobrecido esqueleto


como um texto com duzentos e seis caracteres


 


Talvez... as minhas lágrimas


e navegam nos meus débeis braços os barcos de vidro martelado


que dos pomares de areia com sabor a amêndoa


do outro lado da janela


um menino embalsamado brinca com um parvo boneco


de nome chapelhudo


e talvez um dia um dia acordem as neblinas imagens de ontem


com as perfumadas sílabas de hoje...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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