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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


23.12.15

O desejado silêncio


Deitado no obscuro beijo


No centro do círculo da solidão,


A cidade ainda dorme,


Provavelmente acordará sem perceber que o amor está acorrentado aos rochedos da montanha do “adeus”,


Não importa,


Deixá-lo estar até que a noite caia


E se erga a escuridão ao pescoço da morte,


Batem à porta,


Certamente não é o carteiro…


Porque durante a noite não recebo cartas tuas,


Será o desejado silêncio


Deitado no obscuro beijo


No centro do círculo da solidão?


O cubo junto ao mar,


O raio da circunferência quase a desfalecer…


E a maldita cidade


Dorme,


Abstrai-se do meu corpo


Como todas as figuras geométricas clandestinas do meu caderno quadriculado,


A janela encerrada desde a tua partida,


Os livros em finíssimas fatias de melancolia esperando o teu regresso,


E os papéis escritos…


No cesto triangular onde guardo os poemas perdidos,


E ninguém, e ninguém disponível para assassinar a tristeza


Que habita esta casa…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


quarta-feira, 23 de Dezembro de 2015


05.09.15

desenho_05_09_2015.jpg


(desenho de Francisco Luís Fontinha – Setembro/2015)


 


Mastigava as palavras nocturnas do sono,


Enquanto do outro lado da rua,


Alguém,


Alguém gemia,


Uma rosa nua?


Uma pétala de rosa tua?


Alguém,


Enquanto eu dormia,


Alimentava-se dos meus sonhos entre círculos e triângulos rectângulos,


Acariciava os catetos,


Beijava a hipotenusa,


E enquanto eu dormia,


Alguém,


Alguém vestido de musa…


Nua a rosa,


Pétala a tua,


Mastigava as palavras nocturnas do sono,


Desenhava na ardósia negra do sentido proibido


Os teus seios mendigando o meu peito,


Nunca,


Nunca tive jeito,


Vontade…


E alguém,


Sem eu saber,


Entranhava-se nos meus tristes ossos,


Alguém,


Alguém gemia,


Do outro lado da rua,


E eu,


E eu sentia,


A lua,


O mar agachado nas tuas coxas silenciadas pela amargura,


Tanto tempo perdido,


Em pequeníssimas folhas de papel quadriculado,


Chorava e gemia,


Do outro lado da rua…


O poeta suicidado,


Uma rosa nua?


Uma pétala de rosa tua?


Alguém,


Enquanto eu dormia,


Roubava-me a tela da agonia…


Acorrentava-me às paredes pinceladas de bolor…


Colocava sobre as minhas pálpebras um cubo de gelo,


No meu cabelo,


Uma rosa,


Tua,


Uma tua rosa nua,


Sem sentido,


Os livros que li,


As palavras que escrevo e escrevi,


Não,


Não eram para ti,


Porque alguém,


Não sei quem,


Injectava-me nas veias finas lâminas de saudade,


Cerrava os olhos, fingia estar vivo quando os barcos da alvorada subiam as escadas da sufocada pensão,


E eu,


E alguém…


Gritava,


Chorava,


Sem saber a razão,


Do poeta suicidado


Subir e descer as escadas da pensão,


Quando a pensão estava deserta,


Morta,


Sem janelas,


Sem cortinados nas janelas…


E todas as portas,


Também elas,


Todas,


Todas mortas,


E alguém,


Não sei quem,


Inventava fotografias para eu folhear…


Enquanto a pensão,


Enquanto a pensão se afundava no meio da rua,


Mesmo em frente ao meu cadáver descarnado pelo tempo,


Havia vento,


Havia lágrimas nos lábios do vento,


E alguém,


Sem saber porquê…


Ou razão…


Deixava o meu nome nas ruinas de uma pensão.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 5 de Setembro de 2015


29.03.15

Os colchões de areia do Mussulo


A hipotenusa brincando no quadrado


E num pulo


O mar


Esboçado nas trincheiras da melancolia


A dor


Adquiríamos as ventosas do desejo


Debaixo dos abraços cinzentos


Nos telhados de vento


O tempo indisponível


Tente mais tarde


Ouvia-a depois da luz se extinguir


Nos rochedos negros do púbis


Havia música nas janelas que o luar desenhou


Nas tuas coxas


Deus brincava nos teus pincelados lábios


Pedia-lhe


Não me respondia


A fala


A palavra prometida


Assustava-me


E fugia


Libertava-me do incenso


E das canetas de prata


Alimentava-me dos brinquedos em plástico


Entre as sombras das mangueiras


Os homens


As mulheres


Ao portão…


Abraçava-me


Beijava-me


E no entanto


Era apenas uma fotografia


Sem pátria


Que gemia


E não sentia


E havia


Nos seus ombros


Um triciclo envenenado pela fogueira da paixão


Eu


Eu tremia


Sem saber que o barco me levava


Nunca mais me trazia


A esta terra sem capim


Nem árvores de veludo


O teu corpo imaginava-se nos tristes arvoredos do sonho


Antes de adormecer


Eu… eu escrevia


Olhávamos as almas


E os becos escondidos na cidade


O Tejo entre azulejos


E livros


O caderno junto aos teus seios


Tão pequenos


Como as estrelas


Como os cinzeiros


Semeados na minha secretária


Papéis orvalhados nos condomínios de luxo


As portas do inferno


Comendo os teus geométricos olhos


Vai caminhando na voz enrouquecida das abelhas


E dos veleiros nocturnos da solidão


Hoje recordo-te nos colchões de areia do Mussulo


Como recordo as avenidas embriagadas


Pelo silêncio obscuro


Sempre tive medo dos teus cabelos


Abraçava-me


Beijava-me


E era apenas uma fotografia


Tão triste


Tão triste que durante o dia


Ardia…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 29 de Março de 2015


13.03.15

No trajecto da insónia


um ponto embrulhado nas coordenadas do silêncio


percebe-se pelo movimento lento


que a parábola incendeia o pequeno quadrado


lá dentro o medo


viver ele


enquanto desenho na ardósia tarde


o significado das imagens nocturnas do prazer


o corpo é um pesadelo sem porto onde aportar


viver ele


no mar


e cansa-se do rasurado veneno que o vento semeou


 


a carta regressa


endereço insuficiente


ausente


talvez morto


talvez contente...


no mar


o luar pincelado de andorinhas marés


e ele


sempre ele


viver ele


e cansa-se


não o devia fazer


 


fugir


sem...


sem deixar um bilhete sobre a secretária


ou


ou apenas um traço no espelho embaciado da casa de banho


eu percebia


ausentou-se


foi-se


nunca mais voltará aos livros...


nunca mais acordarão as vozes das sílabas embriagadas


nos sonhos


da alvorada.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 13 de Março de 2015


05.01.15

A luminosidade tangente ao teu olhar


entre círculos


quadrados


e buracos


há no teu corpo equações sem solução


resmas de papel quadriculado


em chamas


e feridas no coração...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2015


21.11.14

(para os meus pais)


 


 


O “foda-se” triplicado na equação do Adeus


a morte


o corpo evapora-se e viaja em direcção a um punhado de fotografias a preto e branco


a roldana da insónia range


gritaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa..................................


não posso mais


estou mergulhado no teu sorriso como um pêndulo sem alicerce


embriago-me nas tuas pérolas falsificadas


olho-me no espelho... pareço um falhado construído de cartão


sem coração


em revolução...


apetece-me matar todas as flores do teu jardim


aprisionar os pássaros dos teus sonhos...


não posso mais com rostos transformados em nada


corpos cadentes


e lágrimas


o “foda-se” triplicado na equação do Adeus


a morte


o corpo vacila no sentido descendente da impaciência


penso


escrevo...


nada... apenas “merda”


e


e complicadas matrizes melódicas


a fome que não é fome...


e quando apareço nos seus cabelos...


ela me inventa equações sem resolução


os anais


sem personagens vestidas de marinheiro desempregado


o estranho


a pintura de engano das tuas veis desalojadas do Sol


e desengano-me a cada pedra de xadrez...


 


 


 


(não sou eu...)


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 21 de Novembro de 2014


27.10.14

Sem pressa de caminhar sobre as nefastas palavras de chorar


o fogo das tuas mãos que iluminam esta cabana de chita


o teu sorriso... impregnado no meu silêncio...


enquanto me recordo em frente ao espelho da solidão


sou um vadio navegante


deixei de saber como era


quem era


apenas recordo algumas das imagens


muito sombreadas


como uma nuvem de carvão


voando em direcção ao mar


sem rumo... sem... sem luar,


esta esplanada de incenso


que durante anos arde no meu peito


o odor da tua pele nas paredes em lágrimas


a janela amortalhada


quase a esquecer-se da minha existência...


permaneço neste barco


em círculos


em quadrados imperfeitos


gaguejando


às vezes


às vezes sem perceber porque o meu corpo se evapora ao anoitecer


sem rumo... sem... sem luar,


sem palavras para escrever...


sem pressa de caminhar


vivo e habito nos teus lábios prateados


vivo e habito nos teus seios... como desejos parvos


sem cigarros no tecto da insónia


vivo e habito


em círculos


em quadrados imperfeitos


em parábolas moribundas


e cansadas...


como eu


sem rumo... sem... sem luar!


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 27 de Outubro de 2014


20.07.14

Aos dias ímpares, as horas que me são roubadas por uma mão sem nome,


as sílabas disparadas pela espingarda das sanzalas embalsamadas,


o meu corpo não cessa no púlpito do cansaço, ele evapora-se, ele... ele transforma-se em zinco lamaçal,


há uma criança inventada, uma criança perdida na saudade...


aos dias ímpares, as horas malvadas,


que alimentam a dor,


que... que engolem todos os amanheceres,


e do meu corpo, apenas o coração de pedra ficou adormecido na eira da poesia,


 


Aos dias ímpares, o triste calendário envergonhado,


a desassossegada fantasia de um texto alienado, quando arde na fogueira da tua pele,


uma cidade nos espera, uma cidade em papel...


 


Aos dias ímpares, as horas, os minutos, e os... e os milésimos de segundo,


alguns em liberdade, e outros... e outros acorrentados a um envelhecido veleiro,


hoje não há vento,


hoje... hoje apenas a límpida tarde de pano a soluçar sobre as árvores do triângulo equilátero,


é este o meu Mundo?


ter uma cidade sem candeeiros em desejo,


ser filho de um desenho que o tempo apagou numa longínqua parede,


e contento-me com todos os dias ímpares, as horas que me são roubadas...


 


E a tua mão... e a tua mão, um dia, terá um nome, idade, raça, sexo... religião,


 


Aos dias ímpares, a geometria na doçura da caligrafia,


um poema morto, um poema descendo a calçada em direcção ao infinito...


e o meu corpo não cessa no púlpito do cansaço...


 


E o poeta permanecerá eternamente nas sanzalas embalsamadas!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Domingo, 19 de Julho de 2014


23.06.14

Tens um X no espelho dos teus lábios,


há um Y no centro do teu peito, deslocando-se em pequeníssimos milímetros,


ora para a direita, ora para a esquerda,


depois, mais abaixo, no teu umbigo... o desgraçado Z, desnorteado, sem saber o que fazer,


como eu, um corpo deambulando entre a raiz quadrada da solidão,


e uma mísera folha quadriculada, feia, e abandonada,


gravitando em volta dos teus seios,


procuro-me nos três ponto algures no espaço do teu desejo,


peço-te um beijo,


e tu, tu respondes-me com uma equação sem solução,


e obrigas-me a rotações ímpares, sem local para aportar,


como os barcos recheados de quadriláteros,


 


O meu corpo ancora no Z que adormece no teu umbigo,


transforma-se em três eixos, sinto-me tridimensional, raivoso, animal,


esqueço as palavras, esqueço as equações...


 


(Impossível de resolver)


 


Lá fora chove,


e hoje o vento entristece as três incógnitas do teu esqueleto com odor a noite sem nome,


há um perfume em ti que me diz... (hoje não o conseguirás),


e não,


desisto desta equação,


desgraçado, eu, eu que não percebo o significado da matriz amar,


talvez transposta,


talvez... talvez mal-disposta,


 


(Impossível de resolver)


 


Escrevo números no teu olhar,


silencio-me quando de ti uma parábola acabada de nascer voa como uma gaivota sobre o mar,


os resultados começam a aparecer nas tuas mãos...


o X é igual a paixão...


o Y é igual a cansaço, porque desenhar-te... cansa, Ai como cansa!


e o Z é igual a amor sem saída, rua encerrada, edifício sem transeuntes...


 


(Impossível de resolver)?


 


Não,


 


A equação do teu corpo... tem solução...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 23 de Junho de 2014

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