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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


12.11.22

Uma mão de luz

Afaga o meu rosto silenciado pelo mar

E a fotografia que aprisiono no peito

Ergue-se na manhã desalinhada

Enquanto nos teus olhos de mel

 

Brinca uma triste gaivota

Somos pequenos instantes

Somos feitiços

Que lançam palavras

Em cada esquina do luar

 

E esta pequena mão de luz

Invisível

Que apenas os teus lábios conseguem iluminar

Poisam docemente sobre mim

Como poisavam as sombras das alegres marés

 

Que entretinham os meus barcos de brincar

E de pequenos instantes

Transformamo-nos em palhaços de sono

Em busca da noite perdida

Até que depois de abrir a janela para o infinito

 

Regressam as estrelas das tuas lágrimas

Que voam no meu rosto

E que procuram as árvores em cio

E que detestam as minhas mãos

E que me dizem que deixei de existir

 

 

 

 

Alijó, 12/11/2022

Francisco Luís Fontinha


27.10.22

Deste meu pequeno cubículo de sono

Enquanto o meu relógio adormece

Nos lábios das manhãs em desespero

Na algibeira procuro os cacilheiros

Que se abraçavam ao meu peito

 

Frio e escuro

Quando a âncora da saudade

Se despedia de mim

E voava como voavam as gaivotas

Na terra de ninguém

 

Poisava as mãos nas pobres águas

Onde habitavam as flores e as árvores e todos os pássaros

E sabia que lá longe

Uma ponte metálica me transportava

Para os teus braços

 

Enquanto das lágrimas do silêncio

Um fio de espuma

Levitava no teu cabelo amargurado

E eu sabia que quando regressasse a noite

A maré de sémen em pequenos gracejos

 

Se escondia na sombra da madrugada

Quando vento das palavras

Adivinhava sempre

Quando aquele cacilheiro

Vinha ao meu peito

 

 

 

 

Alijó, 27/10/2022

Francisco Luís Fontinha


06.02.22

Voávamos entre a sombra do desejo e o beijo adormecido. Tínhamos dentro do corpo o silêncio que a noite depositou junto à praia das areias brancas. Ouvíamos o uivo dos lobos que regressavam da montanha, olhavam-nos e sentavam-se junto a nós.

Pegava num pequeno livro de poesia e lia-lhes poemas dispersos, diga-se, apenas os lobos a percebiam. Puxava de um cigarro embrulhado em solidão e, permitindo aos olhos alguma lubrificação, pequenas lágrimas de incenso se despregavam do rosto e acabavam por morrer no pavimento íngreme da eira.

Estava sol. Dentro dela, sem o saber, crescia um pedacinho de ninguém, uma coisa de milímetros, como se fosse apenas mais um poema. Havia gaivotas à nossa volta, num dos retractos, aparecia uma nuvem de pura lã virgem, que em pequeníssimos círculos, se dirigia para o mar. Talvez depois de acordar, esse minúsculo ser fosse apenas um fio de nylon esquecido num qualquer sonho, de uma qualquer manhã, sem remetente.

Desciam os pássaros o musseque. Uma Bedford amarela, puxada por um pequeno cordel, inventava ruelas e caminhos térreos, logo que depois, aparecia o velho Alberto e, nunca dando o ar da sua graça, lamentava-se da poeira causada pela mesma. O sonho, condutor da dita Bedford amarela, nunca se cansava do árduo trabalho, e de vez em quando, num pequeno caderninho, apontava cada silêncio que lhe aparecesse pelo caminho.

Eram chuvas sem medida.

Chegava a casa e, sobre um pedaço de ferro e zinco, um menino esperava-o; e todos os dias, ao final do dia, o menino recebia o prometido beijo, diga-se que, nunca era igual; o de ontem não é igual ao de hoje e, o de hoje jamais será igual ao de amanhã. Há quem lhe chame de amor, mas o menino, chamava aos beijos de: pedacinhos de insónia, camuflada pelo perfume das acácias.

Pela manhã, erguiam-se todos os pássaros e acordavam todas as flores, dos pequenos charcos que restavam da tempestade anterior, poucos ou nenhuns já existiam; quase todos eles, mortos.

Voávamos entre a sombra do desejo e o beijo adormecido e, acreditávamos que o dia seguinte, aquele que ainda não existia, certamente ia ser melhor do dia que estava prestes a terminar. E assim, aprendi a enganar os dias, e ainda hoje o faço, até que um punhado de flores tombem sobre o meu corpo e, uma gaivota voe em direcção ao mar.

Eis o teu retracto.

Eis a tua morada.

Porque eram chuvas sem medida.

 

 

 

Alijó, 06/02/2022

Francisco Luís Fontinha


07.04.19

O chão semeado de sombras,


Dentro de mim, o mar,


Descalço,


A convidar-me para brincar.


O cheiro da terra húmida,


As palmeiras envenenadas pelo silêncio,


Quando as gaivotas de Luanda, dormem na Baía…


Oiço-as.


O chão semeado de sombras,


O capim molhado com cheiro a sonho,


Sobre a terra,


Os barcos de papel da infância.


O som dos transeuntes mabecos perto da sanzala,


As crianças brincando com a tarde salgada,


Que um velho sábio trouxe do mar.


Abraço-me às mangueiras, deito-me no chão semeado de sombras,


Sonho com uma Lisboa desconhecida, onde se passeiam putas e bêbados…


Pelas avenidas escurecidas.


E, no entanto, ainda hoje, desenho no teu corpo, gaivotas.


Uma Lisboa embrulhada em cheiros e sabores,


As tasquinhas, nas paredes, o peixe frito com sabor a cebola,


O vinho misturado com a água salgada,


E as pipas parecem esconderijos de marinheiros.


As gaivotas, meu amor,


As gaivotas que desenhei nos teus seios,


Dos incêndios da minha infância…


Alucinações,


Eu, eu brincando com as galinhas da minha avó,


De calções,


Sandálias…


E sonhos.


 


E hoje, sou apenas um velho esperando a morte.


 


 


Querida Lisboa,


 


Dos enfartes que as guloseimas de uma criança, deixa sobre a terra,


 


Querida Luanda; as gaivotas dos teus braços.


 


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


07/04/2019


02.04.19

Borboletas no meu velório,


Apenas borboletas,


Ninguém,


Ninguém à minha espera,


Comigo, morreram as palavras,


Todos os livros, machos e fêmeas,


Segunda-feira ou Terça-feira?


O xisto amarfanhado pelo silêncio da poesia,


As frases afundaram-se nas tuas mãos,


Como gaivotas em cio.


O poço,


O cheiro nauseabundo dos velhos livros,


Abraçados a mim,


Tenho um corpo de merda,


E uma rua dentro de mim, sem nome, sem casa, sem nada…


Dormir,


Não durmo,


Comer…


Não como nada.


Peço aos amigos, a todos, paciência,


Nada mais do que isso,


Nem flores,


Odeio flores e odeio o teu sorriso,


Odeio o mar e o todos os rios…


São recheados de falsidade,


Como tu, pobre pomba poisada no meu ombro,


Dormir,


Não durmo,


Comer…


Quase nada.


Borboletas em papel,


Sombras em pastel,


Telas esbranquiçadas com lábios de suor…


É esta a minha vida,


Embrulhado em palavras,


Dormindo,


Não dormindo,


Dentro das sílabas assassinadas.


Despeço-me, e do cimo do monte…


Enterro o teu nome,


Escrevo na terra…


Amo-te, não te amo, amo-te… só quando nascer a noite.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


02/04/2019


03.06.17

Não me interessa quem me apedreja,


Sou um desgostoso filho da noite branca,


Sou filho do feitiço amordaçado das tempestades sem nome,


Caminho nos teus braços como uma serpente sem veneno…


Despois do entardecer,


Vivo vivendo a vida quotidiana das amoreiras em flor,


E das tormentas encarnadas do amor…


Amanhã vou zarpar para a montanha desconhecida,


Levarei comigo um ramo de flores adormecidas pela tempestade,


E não haverá lágrimas no meu rosto,


Nem palavras nos meus livros desgraçados…


Um sonâmbulo pede-me lume,


Faço uma fogueira com a minha tristeza,


Sem perceber que durante o amanhecer


Uma árvore me visita,


E me abraça fortemente,


E a noite me incendeia…


 


O dia termina na minha mão,


Os teus dedos entrelaçados nos meus…


Sempre que o sol acorda livremente


Nos rochedos da solidão,


 


É tarde,


O tempo dorme docemente no meu ventre


Enquanto junto ao rio o voo das gaivotas me atormentam…


E tenho medo do teu sorriso pela madrugada,


Alimento-me de nada,


Alimento-me de uma vazia esplanada


Ancorada na sombra da Primavera,


 


(Não me interessa quem me apedreja),


 


E das pedras invisíveis…


Ergue-se a paisagem nocturna da janela sem cortinados,


Sente-se o teu desgostoso perfume


Contra o meu peito desajeitado,


Sem nome,


Sem morada…


Como sou,


Sem nada,


Despedido dos teus sonhos…


Me suicido na escuridão.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 3 de Junho de 2017


23.04.16

Os poemas perdidos, a noite incendeia a solidão do corpo enquanto lá fora o silêncio da morte acorda os pedestres rochedos da insónia.


Desço às profundezas do rio, toco na sua boca como se alguém me empurrasse para a escuridão, feliz aquele que vive só, sem ninguém,


Os poemas perdidos que invadem a tarde junto ao mar, lá longe, os sifilíticos segredos da esperança, perdidos, as palavras, os sons e a melódica tempestade dos guizos,


Perdidos.


Os poemas na minha mão caminhando sobre as areias finas do desejo,


Invento crianças que brincam nos quintais de espuma,


Marés de incenso sobre a secretária desarrumada,


Milímetros quadrados de nada, de ninguém, que só os muros da geada conseguem atravessar, tenho pena do coração da Primavera; triste.


Como eu,


Triste


Nos poemas perdidos,


Amanhã renascerá uma estrela no meu peito e o meu corpo transformar-se-á em lâminas de prazer, amanhã terei os poemas perdidos fora do livro, esqueléticos casebres das montanhas de neblina, rios que invadem a cidade e trazem a morte, dos poemas, e dos livros com poemas,


Triste,


Os poemas perdidos quando incendeiam os dedos amachucados pelos cigarros em despedida,


As fotografias dentro de uma caixa de cartão à espera de serem resgatadas pelas palavras dos poemas perdidos, sem ninguém, procuro nela o meu rosto de infância, imagino-me a olhar os barcos entre apitos e partidas, e o medo absorve-me…


Deixo de ver a cidade, dou-me conta em pleno Oceano, sinto o cheiro das gaivotas percorrendo os trilhos do sono, e dos poemas perdidos…


O sangue que corre nas minhas veias, os dias iguais às noites, as noites iguais às sílabas de luar quando olho pelo camarote um finíssimo fio de nylon que me acompanha até ao meu regresso,


Despeço-me dos poemas perdidos,


Despeço-me da aldeia onde nasci e abraço uma Lisboa camuflada pelas âncoras do Tejo, os caixotes em madeira presos aos meus pés, sem nada, apenas tarecos, apenas pequeníssimas coisas sem nexo,


Os poemas perdidos,


Despeço-me,


Deles, delas…


 


Sem perceber que os poemas perdidos nunca existiram em mim.


 


 


Francisco Luís Fontinha


sábado, 23 de Abril de 2016

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