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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


02.12.19

Sinto-te nesta casa fria e escura.


Neste casebre abandonado,


Sinto-te nas paredes cansadas desta espelunca,


Na sombra de um qualquer coitado; eu.


Sinto-te em perfeita brancura,


Das palavras que escrevo e pronuncio…


Que nunca,


Vou desenhar uma gaivota em cio.


 


Sinto-te como se fosses uma pomba.


Sinto-te como se fosses uma bomba,


Esquecida no mar,


Esquecida de rebentar.


 


Sinto-te e não te vejo.


Pareces invisível neste labirinto.


Pareço o Tejo.


Voando baixinho, quando não minto.


 


Sinto.


Sinto tudo isto enquanto não consigo adormecer.


Sinto a calçada chorar.


Sinto o meu corpo sofrer…


Com medo de morrer.


Com medo de acordar.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


02/12/2019


19.07.17

Tão longe entre montanhas e socalcos,


Cravado na terra cremada da saudade,


O comboio se perde nas curvas do amanhecer,


O apeadeiro da solidão agachado junto ao rio…


Sem conseguir adormecer,


Uma voz se perde na caminhada como se fosse apenas uma gaivota amedrontada…


Tão longe entre montanhas e socalcos,


Finge acordado,


Esperando os apitos aflitos do maquinista…


Até que o pôr-do-sol regressa,


E amanhã novo dia, nova noite, e a tarde sempre igual…


Nem vivalma para entreter o estômago do desassossego.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 19 de Julho de 2017


26.07.14

Esta vida que não me esquece,


cai a noite e me absorve, e me evapora,


desço a calçada como poeira cansada,


e aos poucos, despeço-me do rio,


despeço-me da alvorada,


sento-me, e espero o regresso do amanhecer,


folheio um livro, leio um poema amaldiçoado,


dói-me o corpo, e esta vida que não me esquece,


 


Desenho uma gaivota apaixonada pelo silêncio do mar,


há uma cabana sem lareira, uma cabana atraiçoada,


e eu sentado, converso com a gaivota, converso com a cadeira...


sobre esta vida que não me esquece,


e me evapora,


folheio, folheio... e o livro do poema amaldiçoado... me deseja,


me leva para o solstício do beijo,


e sendo eu sou um ausente,


que não sente, que não ama...


pergunto-me... o que é o amor?


É uma cidade destruída? É uma canção com poemas de chorar?


que a vida não esquece, que a vida não me esquece... de me recordar...


 


Esta vida que não me esquece,


quando lá fora há estrelas à minha espera,


quando lá fora a gaivota apaixonada... chora,


porque foi maltratada, porque foi espancada...


pelo vento da clareira cinzenta,


que desce comigo a calçada, e... e me atormenta.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 27 de Julho de 2014


15.07.14

Imagino-me dentro de ti,


 


O sonho, o sonho invade a clarabóia das serpentes,


há uma montanha, uma montanha desenhada na rocha submersa da solidão,


imagino-me dentro de ti,


sentir o odor do papel amarrotado, triste...


cansado,


o sonho tem um nome,


vive dentro de um corpo anónimo, diluído nas asas de uma gaivota,


há um esqueleto em revolta,


faminto,


tão... tão desgraçado...


escreve, e das palavras se alimenta,


e vive, e sonha...


 


Imaginando-se dentro de ti!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 15 de Julho de 2014


26.05.14

acordar sobre o titânio amanhecer


pegar nas tuas mãos de andorinha selvagem


agarrar o mar


se possível


esconder o mar na tua algibeira de cartão


 


sentir os teus braços no rio que corre dentro de mim


acariciar todas as rosas das tuas pálpebras de marinheiro naufragado


descansar sobre o teu peito


beijar-te


simplesmente beijar-te... gaivota adormecer.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 26 de Maio de 2014


04.04.14

Imagino-me embrulhado nos suspensos olhos dos teus lábios,


sinto-os a alicerçarem-se aos meus,


imagino-me acorrentado ao teu olhar,


pálpebra infinita da madrugada,


sinto-a e imagino-me em círculos verdes com braços de prata,


uma louca locomotiva entra-me porta adentro e finjo habitar nas tuas mãos de pérola adormecida,


imagino-me longamente só esperando as personagens dos teus sonhos,


os vivos, os mortos, sonhos... e os impossíveis de realizar,


como as tuas palavras,


difíceis de escrever,


impossíveis... impossíveis de pronunciar,


e depois regressam todos os esqueletos cinzentos da neblina,


 


Imagino-me sentado no teu ventre desgovernado,


sílaba cansada da literatura que poisa sobre os teus seios de sanzala,


imagino-me um menino apaixonado,


triste,


tão triste que... tão triste que acredito pertencer aos sisudos livros do luar,


imagino-me filho da noite em construção,


um menino rebelde, sem pátria, sem pão,


e à minha volta gravitam as tuas perdidas caricias perpendiculares aos relógios de pulso,


derradeira e desamada paixão, esta, viver não vivendo, amar... amar... não amando,


e no entanto,


eu, eu invento, eu corro em direcção aos rochedos das tuas coxas em silêncio...


imaginando, imaginando estrelas de papel nos teus cabelos de gaivota.


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 4 de Março de 2014


20.03.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Voas nos meus olhos, gaivota madrugada,


procuras em mim, palavras,


voas porque sentes nos teus lábios o vento em desejo,


e no teu prometido beijo, uma simples canção, melódica... e adormeço,


e esqueço que lá fora habitam telhados de vidro, esqueletos de prata,


bairros em lata,


lá fora, na imensidão nocturna da embriaguez,


e um dia, talvez... talvez percebas as minhas tristes palavras,


como pertence aos muros o xisto envenenado,


dos socalcos... o cansaço humano vestido de negro,


e no rio... no rio o meu corpo ensanguentado pelas nobres estrelas da cidade,


voas, voas sem saber que estou vivo...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 20 de Março de 2014



20.09.11

(para ti)


 


Dos beijos das sílabas


As palavras que acordam em mim,


Fluem as vogais dentro dos meus olhos cansados


Na sombra dos plátanos sentados no jardim,


 


Abraço-me ao rio que corre para o mar


E deito-me nos socalcos do amanhecer,


O meu corpo começa a navegar


Nas palavras que acabam de morrer,


 


Dos beijos das sílabas


As palavras em sorriso de pétala,


O poema evapora-se na madrugada distante


E a gaivota que fala


 


À gaivota que voa…


Da gaivota pensante,


Ai os beijos das sílabas à toa


Quando a gaivota que voa abraça-se à gaivota amante!


04.08.11

Sumiu-se no fumo da tarde


O sorriso da gaivota


Do cigarro que arde


Em cigarros de revolta,


 


Poisa a mão o enforcado


No peito da árvore adormecida


Tomba o corpo cansado


Na tarde envelhecida,


 


Sumiu-se no fumo da tarde


O sorriso da gaivota


Do cigarro que arde


No cigarro que não volta…


22.06.11

Saboreia-se a garganta fina e escura


No rio desencontrado


Brincam gaivotas com ternura


Gaivotas que poisam no chão molhado…


 


Gaivotas que voam no meu peito


E nas asas transportam a saudade


Do dia que termina sem jeito


No mar em liberdade,


 


Saboreia-se a garganta fina e escura


Nesta mão que tece a madrugada


Em lábios de secura


 


Na boca engasgada.


Ai se pudesse abraçar a gaivota molhada


Que corre na areia cansada!

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