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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


28.08.21

Tenho dias.

Todos os dias

Todas as horas

Todas as manhãs,

Onde moras,

Habitas,

Descansas

E dormes.

O amor.

As palavras

Nos livros da paixão

Do corpo

Na mão

Do silêncio

Que vive neste mar;

Os olhos descansam

Nas montanhas sem ninguém

Debaixo

Acima

Entre linhas

O desejo.

Amar

As nuvens do teu sorriso

Numa imagem

Sem juízo

A ira

O grito

Às gaivotas dos teus seios;

Nenhum pássaro

Estúpido

Se deita em ti,

Como assim?

Em ti,

Planície congelada

Do corpo que jaz na minha mão

Ao de leve

Levemente

Entre nós.

Um copo.

Quase ninguém presente

Ausente

De mim

Neste esconderijo branco.

O nojo.

A morte em forma de nojo.

O amor de ti

Em mim

Nesta gaivota sem nome;

Ontem

Uma criança

Hoje

Um livro de poesia.

Assim

Serei

Não sei

Talvez o número de polícia mais estranho do meu bairro.

Sobre as pálpebras

As imagens de quatro cantos

Numa tigela

A sopa dorme

E suicida-se

Contra a colher da saudade.

Depois.

Vem a noite

Atira-se para cima da cama,

Pronto

Sempre

Nesta casa de ninguém.

A janela

À janela

Há janela;

Todas.

Em minha casa.

Sempre

Que há o amor.

Desejar

Não desejar

Que um dia deseje a morte;

E no entanto

Não me canso

Nem durmo

Sempre que a tua boca absorve o meu corpo.

Caso contrário

Limito-me a escrever

Em ti

As palavras de amar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 28/08/2021


27.07.21

Onde estão os grãos de areia da minha infância, esqueço-me enquanto me olho no espelho da saudade,

Em criança, desenhava nas tardes límpidas e sonolentas, os barcos da minha infância, procurava pelas sombras da minha infância, sem perceber, que um dia, junto ao tejo, morreria engasgado com uma tigela de caldo.

Couves, coma muitas couves. Dizem que durante a noite conversam com o intestino e, fazem-se passear pelas avenidas desertas da cidade.

Nunca acreditei nas tuas palavras; disseste-me, algures numa cidade que já nem recordo o seu nome que

Um dia vamos regressar,

Um dia peguei num punhado de grãos de areia, lancei-os ao mar, estava feliz. Muito feliz.

Tinha galinhas e pombas. Enquanto desenhava no sorriso das galinhas os socalcos que um dia me ia apaixonar, escrevia nos lábios das pombas, gatafunhos, coisas que só eu percebia. Diziam-me que todos os barcos tinham no coração uma cancela e, apenas os meninos que comiam a sopa lá entravam; mentira. Nunca consegui lá entrar.

O meu pai, quando havia treinos de hóquei, levava-me aos Coqueiros, nunca entendi a razão de ter alguma simpatia por este desporto, pois paixão por desporto tenho nenhuma.

Havia pássaros em papel no meu quintal, todas as noites, silêncio de assobios telintavam no zinco do galinheiro, depois das chuvas torrenciais, um pedacinho de capim saltitava junto ao meu triciclo, nada de novo, como ontem, nas mãos de um soldado. Vi muito. Eram todos meninos como eu; tinham pai, mãe, irmãos, irmãs, filhos, filhas, mulher e, muitas cartas sem remetente. A guerra foi uma merda, pai. Uma merda.

Comecei a coleccionar palavras e desenhos nas paredes de nossa casa. Comecei a acreditar que cá, também habitavam mangueiras e, que uma Bedford amarela se passeava pelas ruas, mas o tempo foi passando, a Bedford, aos poucos, foi sucumbindo às tempestades de areia e, morreu numa noite de geada.

Hoje percebo porque passava horas intermináveis, no portão do quintal, à espera de uma Bedford amarela, era a saudade que se embrulhava no meu cabelo, o avô Domingos dizia-me logo logo ela estava ao virar da esquina, mas com o tempo, com as lágrima da alegre infância, deixou de aparecer na rua.

Dizem-me hoje que morreu de cansaço.

O Domingo de Janeiro estava escaldante, e já nessa altura, acreditava que existiam papagaios em papel, que mais tarde, muito mais tarde, a minha mãe construía para mim. Trapos. Farrapos que eu aproveitava para vestir um velho amigo e algo estúpido, um boneco que baptizei num dia de neblinas matinais e, junto ao porto de mar, um paquete olhava-me, parecia que me queria comer, mas, não

Nunca entrei no coração de um barco.

Hoje, aqui sentado, olhando esta belíssima Baia, recordo os calções vestidos de menino e, um menino vomitando línguas de gato, enquanto aos poucos, o avô Domingos deixava a cidade levando pelas mãos o velho machimbombo: gosto de ti.

Assim.

Como esta Lua que nos separa.

Pudera.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha, Alijó – 27/07/2021


03.09.20

Dos olhos cansados,

O velhinho poema esquecido na tua boca.

Traz as amargas palavras,

Este poeta dos olhos cansados.

Quando regressa a noite,

Acorda o girassol envenenado pelo desejo

E, o amor floresce na alvorada.

O beijo evapora-se nos teus seios,

As bocas famintas se alicerçam na noite,

Quando o silêncio vai em busca de uma jangada

E, sei que as tuas mãos semeiam as minhas palavras

Na terra bloqueada pela solidão.

Hoje, o poema é a verdadeira razão de te amar,

Acariciar o teu cabelo

Como quem colhe as flores do deserto.

Dos olhos cansados,

A clareira dorme no teu peito,

Ama-a,

Como quem ama a vida.

Peço-lhe que me dê as palavras que sobejaram dos alicerces nocturnos

Que abundam na cidade perdida.

Hoje, não há poema que me valha…

Porque o amor é fodido

E, a paixão,

Um simples rochedo de carne.

 

 

Francisco Luís Fontinha, 03/09/2020


31.03.20

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Os livros dançam na paixão da manhã,


Envidraçada tempestade de areia,


O menino, sorri,


Canta canções de areia,


Grita,


Chateia.


O menino no circo,


De livro na mão,


Escreve um sorriso,


No chão,


Brinca, brinca com o livro de areia,


Não grita,


Agora,


Mas chateia.


O menino dos calções,


Correndo junto ao rio,


Em cio,


Em cio como as lâmpadas de néon.


Vende livros à porta da igreja,


Arrecada uns tostões,


Vai para o mar,


De bandeira na mão,


Deita-se na areia,


Já não chateia,


O menino dos livros,


Enquanto as gaivotas cantam,


E também elas gritam,


Canções de areia.


O menino está calmo,


Sereno com a tempestade,


Brinca, brinca na saudade,


Sem perceber,


Que nos livros,


Onde quer escrever,


Já não sonham;


Apenas brincam em canções de areia…


Nas canções de sofrer.


 


 


Francisco Luís Fontinha


31/03/2020

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