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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


09.09.17

Uma fotografia para recordar o teu sorriso


Nas manhãs incompreendidas do sofrimento,


Uma lápide onde desenho a tua dor…


Quando amanhece em mim, e, e no infinito vives amargurado,


E sem alimento,


Uma enxada prisioneira no tempo,


Quando aos socalcos regressa o meu corpo cansado…


E vivo ancorado


Neste mundo sem juízo,


 


Alegra-me saber que estás feliz,


E percebes a minha dor…


 


No entardecer do poema sofrido,


 


Uma fotografia,


Cansada da vida,


Uma imagem prateada…


Nas mãos de uma esferográfica,


 


Uma canção esquecida…


Na garganta de uma criança.


 


Não sei o que te dizer!


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 9 de Setembro de 2017


15.02.16

As lágrimas envergonhadas


Do silêncio anoitecer


O cansaço da vida


Viver


Sem viver


Sentado nesta triste esplanada


Sem fotografia para o mar


Sem fotografia para o escurecer


Do silêncio anoitecer


O cansaço da vida


Viver…


Sem ser visto


Junto ao pôr-do-sol…


E escrever


Escrever no teu olhar


O poema do morrer


Aos poucos


Devagarinho


Como um passarinho ao acordar


Saltita na árvore dos sonhos


Brinca na eira dos desejos…


E as lágrimas envergonhadas


Prisioneiras nos invisíveis beijos.


 


Francisco Luís Fontinha


segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2016


25.08.15

Desenho o sono na almofada do sofrimento,


Pego nos sonhos…


E espalho-os sobre a areia límpida da terra queimada,


Que saudade do cheiro da infância


Correndo no Mussulo,


Que saudade da chuva e do cacimbo…


As mangueiras voavam sobre mim,


Inventava palhaços de pano e triciclos de papel,


O vento embrulhava-se neles,


Eu acorrentava-me às mãos do silêncio,


Desenho,


Desenho o sono na almofada do sofrimento,


Pego nos sonhos…


E escrevo-te estas palavras que roubei às tuas fotografias,


Depois veio a tempestade,


O sono que era apenas um desenho, hoje, hoje é um amontoado de destroços baloiçando no mar,


O barco que nos trouxe morreu,


Os marinheiros, alguns, alimentam-se da sombra num qualquer engate na cidade das gaivotas,


Os cigarros do Tejo… esperam o meu regresso,


E um dia, e um dia regressarei aos teus braços, meu amor.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 25 de Agosto de 2015


06.06.15

A náusea vagabunda da solidão,


Traz o medo na algibeira,


E uma pedra na mão,


Recorda-se das sílabas incendiadas pela paixão,


Desenha beijos no peito da madrugada,


Sente nos ombros os barcos encalhados nos rochedos de luz,


Dorme…


Sonha,


Inventa desgostos nos oceanos do medo,


Escreve,


Desenha,


Caixões de cartão sitiados nas arcadas da cidade,


E não sabe,


E nunca soube…


Porque sorriem as andorinhas na Primavera,


Um dia fugiu de casa,


Levando consigo alguns livros


E palavras para alimentar,


Os sonhos morreram no poço da tristeza,


Levou-os o vento,


E levou o corpo do feldspato…


E levou o corpo das manhãs de Inverno,


Sem destino ou sem lamento,


Ele,


Ele cansado,


Da vida,


Do viver sem viver,


E do sonhar… sem sonhar,


Fugiu de casa…


Mas todas as noites,


Aprece no seu quarto a fotografia da solidão,


E sem acreditar,


Acredita na paixão…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sábado, 6 de Junho de 2015


22.12.14

Caminhas sobre as tâmaras apaixonadas do deserto,


inventas-me num sorriso de areia húmida,


alicerças-te ao meu corpo quando o vento invade os teus seios...


e mesmo assim, para ti, sou apenas um desanimado,


um louco passeando no invisível,


o esqueleto que todos fotografam... e ninguém observa a fotografia que há em mim,


a desfocada imagem, sem olhar, com medo da paixão imensurável,


e dos peixes comestíveis,


caminhas sobre os meus ossos pérfidos,


sem inscrições,


apenas alguns algarismos vagueando nos meus lábios,


sem inscrições...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014


15.12.14

O cordel em desassossego


no arresto do teu olhar


o barco da paixão em pequenos movimentos


espera o regresso do vento


como os teus olhos desesperam...


enquanto não nasce o dia,


 


o cordel consegue ludibriar o mar


e todas as canções dos teus lábios,


 


há uma campainha em desordem


uma planície nos teus seios que grita


e chora


porque hoje não há pássaros


nos teus cabelos cinzentos


e o esquizofrénico sono suspenso na madrugada,


 


lá fora saltitam as sílabas helicoidais de um poema vazio


triste como as lápides graníticas com finíssimas fotografias a preto e branco,


 


(o cordel em desassossego


no arresto do teu olhar


o barco da paixão em pequenos movimentos)


soluços avulso...


e rebuçados para esquecer a solidão


que gira... que gira como um canhão.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2014


25.12.13



foto de: A&M ART and Photos


 


A colegial sem nome que esconde os lábios na madrugada


o livro da colegial dorme como uma criança cansada


o cansaço inventa sorrisos nas mãos do desejo


e este


às vezes como um poço sem fundo


também como a colegial


sem nome


voa sobre as praças com candeeiros de prata,


 


Os lábios foram-me oferecidos pela madrugada


e a noite constrói-se nas lágrimas da chuva


dos orgasmos fingidos


que a colegial também esconde


não na madrugada


não no corredor da morte...


mas... mas esconde-os na alma do Diabo


como pétalas de insecto mergulhadas nas manhãs de Inverno,


 


A colegial é transparente


é imóvel


saboreia-se nas candeias que o destino lhe roubou


ela desconhece que a lareira existe apenas para a aquecer


despe-se para o espelho...


a colegial sem nome diz que quando for grande quer ser uma fotografia a preto-e-branco


perplexa


descobre o veneno dos zincos telhados que acordam a criança cansada...


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013



22.10.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Outono, os ossos tombados no pavimento, os braços alicerçados às árvores em movimento, havia cadeiras revestidas a couro, havia uma casa com uma sala de jantar, dentro dessa sala vivia uma mesa e seis cadeiras, e sobre a mesa uma paixão de crochet rendado ainda do tempo da avó Valentina, sentava-me no sofá, sobre os joelhos os dois velhíssimos álbuns fotográficos do pai Fernando, abria-o e


Mergulhavas nas imagens a preto-e-branco das paisagens Africanas, centenas de imagens rodopiando sobre a mesa da sala de jantar, ouvia-se o entrelaçar de dedos entre o capim e o cacimbo, ouviam-se os uivos dos mabecos rasgando sanzalas e musseques, ouvíamos as crateras dos rochedos nos alicerces da montanha, e tínhamos o feitiço da chuva miudinha, que lentamente, suavemente...


Alimentava o teu corpo de roseira, sentíamos


À noite,


Sentíamos as feridas dos sonhos desfeitos quando o mar nos entrava em casa, e tudo cá dentro


Fugia,


A casa ficou vazia, a sala de jantar viu-se rodeada de silvados e arbustos que muito mais tarde e junto ao Tejo, assistiram à despedida da Primavera, os sofás transformaram-se em pedaços de mola rolando como pedras depois das tempestades, e os álbuns fotográficos


Hoje solitáriamente sobre a mesa na sala de estar, poisados como cadáveres sem esqueleto, completamente sós, abandonadas as imagens... apenas o negro da noite que habita os teus pequenos seios cerâmicos que mostravas-me nas noites de incerteza e Inverno, a lareira acesa, apenas havia a luz dos pedaços de madeira em combustão, e o teu silêncio, nada mais


Os livros,


Sentia a tua respiração abraçada às imagens a preto-e-branco dos álbuns fotográficos do avô Fernando, tínhamos sede, tínhamos fome, e tínhamos vergonha


Os livros,


Diziam que eu era uma bandido escondido debaixo da sombra das bananeiras, e tínhamos mentiras que ainda hoje


Mentiras,


Os livros,


Sentíamos as lâmpadas em dias de ventania baterem nas faces rosadas dos calendários nocturnos das tuas mãos em melancolia, e os livros


Sentíamos as palavras entre os nossos corpos e sobre a mesa da sala de jantar


Arbustos em despedida,


Folhas de papel vegetal e malgas de marmelada,


E sobre a mesa da sala de jantar


Livros?


Folhas caducas, folhas velhas e folhas novas, malcriadas, folhas e folhas e folhas


Livros


Mandioca e papel de parede com flores encarnadas,


Víamos o Sol em pequenos quadrados, víamos a Lua em grandes triângulos, e livros e cinzeiros com o bafiento cheiro a morte, má sorte, a dor, e


Sofrimento,


Ouvíamos as lágrimas do Senhor Doutor quando descia a noite e um cortinado com círculos em pequenos milímetros caminhava direcção ao rio, a ponte via-nos abraçados como dois arbustos


A despedida,


O cheiro a a despedida,


O cansaço depois de uma triste mísera malga de marmelada, um pedaço de pão com pelo menos três dias de antecedência, e o requerimento indeferido


Os livros e as borboletas,


“Por falta de mendicidade o seu caso foi indeferido”


(filhos da puta)


Os livros e as borboletas, as bailarinas e os palhaços, o circo chegou à cidade, meninos, meninas, donzelas e belas


Os livros?


“Por falta de mendicidade o seu caso foi indeferido”


(filhos da puta)


Os livros hoje, imagens a preto-e-branco, sós, imagens estáticas, mortas, melódicas, saudades da saudade quando o medo habitava a nossa sala de jantar...


 


 


(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – (Alijó?)


Terça-feira, 22 de Outubro de 2013



08.10.13



foto de: A&M ART and Photos


 


não sei como és


não percebo das tuas sombras a neblina das rosas ao amor


não entendo a tua presença nas andorinhas em flor


não o sei


como és


ou... se o és


também


tu


uma flor


não sei como és


nuvem


ou simples pedaço de xisto


 


não como és


não percebo o porquê dos teus sete pecados mortais


das avenidas embainhadas


nas madrugadas


como és


ou se... és o que eu acredito que o sejas


uma gaivota disfarçada de veleiro


muitas fotografias esquecidas nos jornais


e no entanto


não sabendo como és...


acredito nos espelhos com abraços em aço Janeiro


não como o és


 


mas... seres o vento


uma janela mal fechada


um pérfido edifício em ruínas


como tu


eu


o és...


somos esqueletos vagabundos mergulhados no mosto cerâmico da paixão


mas... seres o vento


o amanhecer construído por jangadas de vidro


montanhas encarnadas


ribeiras


feiticeiras


 


ou... simples palavras


adornadas nas esquinas prateadas


não sei


como


o


és


não percebo as acácias em flor


os julgamentos complexos por aviadores com capacetes de cartão


escrituras


letras e letras e uma mão sobre o teu rosto envenenado pela insónia


não sei como és


não percebo das tuas sombras a neblina das rosas ao amor


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 8 de Outubro de 2013



18.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Conheci uma borboleta com bolinhas prateadas nas asas maleáveis de porcelana embriagada manhã, um dia, e quando já me tinha habituado à sua presença no parapeito da janela da biblioteca, percebi pela sua ausência sem qualquer explicação, que algo de muito grave tinha acontecido,


Um terramoto derrubando todas as árvores do meu jardim invisível? Ou.. também pensei na fraca probabilidade de ela ter morrido, pois diz o povo, que as más notícias são sempre as primeiras a saberem-se, entenda-se agora por más, má pessoa? Má vida? Má, ela? Nunca me apercebi de tal facto, sempre afável, meiga, terna, que às vezes até parecia que tinha chegado de um favo de mel,


E não era para mais, nos lábios de prata sempre a suspensa lágrima de açúcar, derradeira melodia dos primeiros sons do amanhecer, batia-me à janela, eu, quando a ouvia, porque muitas das vezes dormia tão profundamente que nem me dava conta que o edifício contiguo tinha desabado durante a noite, e todos os meus vizinhos desalojados, cerca de vinte famílias, tinham sido acolhidos na pensão da rua das traseiras, má, porque frequenta-se por homens de fraco calibre, mulheres petroleiro que quando se aportavam num cais com fundações suficientemente alicerçadas aos rochedos bem lá no fundo, nunca mais o abandonavam, chupavam-lhes tudo, inclusive as algibeiras,


Um terramoto?


As urtigas dormiam debaixo dos meus velhos lençóis


(canso-me deste vibrador sobre a minha secretária, canso-me, e provavelmente brevemente desligar-se-á, ou... também pensei na fraca probabilidade de ela ter morrido, mas felizmente que está vivo, de boa saúde e a atrofiar-me a cabeça; claro que me refiro ao meu telemóvel... Que pensavam vocês, seus malandrecos?)


E quando por lapso me encostava a elas, sentia-as na minha pele fina e sedosa, aleatórias madrugadas ausentada de ti, recordava os teus lábios com lágrimas de açúcar, recordava as estranhas janelas que sempre prontas me abrias, eu entrava-te e tu depois, olhavas-me, sorrias-me... e dizias-me na tua voz maliciosa e poética


Amo-me minha querida,


Às palavras, todas as caixas perdidamente empilhadas sobre os telhados zincados dos veludos musseques esquecidos nos pequenos charcos que a chuva depois de partir deixava sobre a terra agreste, seca, recheada de fendas como a pela das mesmas mulheres, as de má... que frequentavam a pensão das traseiras, tocava-te nas pernas, poisava-me lá, e tu, indiferente, indecisa


Não sei se quero,


E tu desentendida


Não percebi filho,


E tu


Perdida no silêncio... dizias-me que as fotografias são esqueletos de papel prensados, e tal como as tostas-mistas, de preferência, comem-se quentes, porque são saborosas, porque tu inventavas borboletas como quem inventa palavras, e que eu saiba


Mas tu não sabes nada,


Não existem borboletas com bolinhas prateadas nas asas maleáveis de porcelana embriagada manhã, não existem janelas com parapeito em granito, e nem sequer tu dormias em casa quando o edifício contíguo ruiu e desalojou os meus, repito, os meus vizinhos, porque nem isso tu conseguiste... viver comigo, e transformares-te em urtigas. Patife.


 


(ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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