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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

...


28.03.23

Que faço aqui, vestida de corpo, nua, sobre um ninho de vento quando desce a madrugada, e lá fora, chove torrencialmente, há traços verticais de cor negra nas ardósias sobre as porta que habitam o corredor das amoreiras em flor, desconheço a cor da tua pele porque a tempestade me vendou os olhos com a página de um livro de poemas, mas imagino que sejas escura, como a penumbra das águas selvagens, mas imagino que sejas de barro com formas circulares e pintada de encarnado, e imagino que sejas a obra inacabada do Príncipe das noites dos sonhos, que faço aqui…

 

Francisco


15.12.22

Oito paredes

Uma janela

Nove estantes

Prateleiras

E aproximadamente

Quinhentas mil palavras,

 

(dois compartimentos)

 

Juntamente com as palavras

Fotografias

Esquemas

Gráficos

E dedicatórias,

 

Dedicado a

Feliz Natal de 198…

“Feliz aniversário querido filho Francisco” ou outra merda qualquer

Mais “odeio-te”

Do “amo-te”

Alguns “nunca mais te quero ver”

Felicidades

Boa viagem até ao Sol

E claro

Pequenos poemas que vou escrevendo nos livros que leio

Datas

Números

Alguns rabiscos,

 

Quarenta cachimbos

Relógios

Canetas de tinta permanente

Discos de vinil

CDs

Catálogos e tabelas e outras coisas e tal

Retractos

Abstractos quadros

E muito lixo,

 

Manuscritos dos anos oitenta.

(mais de mil textos e poemas)

 

Quando me sento na secretária

Puxo um cigarro

Engano-o

Acendo-o

E fumo-o

Olho para a janela

O que vejo

Esqueletos

Esqueletos

Muitos esqueletos

Dos que amei

Dos amigos

Digamos que a janela da minha biblioteca

A minha biblioteca

É um cemitério de ossos

Éum pequeno estendal de retractos

A preto e branco

A cores

E ainda outros

Nem são a preto e branco

Mas também não são a cores

Direi que são retractos de ninguém

Anónimos

Anónimas

Pequenos corpos de luz,

 

O que tenho mais eu

Eu

Que vos possa oferecer,

 

Digamos que nada mais.

 

A minha fortuna maior

São caracteres

Milhares de caracteres

Esquemas

Gráficos

Retractos

Cachimbos

Os relógios

Os abstractos quadros

Desenhos

Discos de vinil

CDs,

 

(e muitos livros com muitas equações)

 

E claro

O cemitério de ossos que tenho na janela.

 

E enquanto fumo o cigarro

Questiono-me

(para que serve toda esta merda?)

E se todas as noites me sentasse à lareira

E aos poucos

Fosse semeando na lareira todos estes caracteres

Todos estes cachimbos

As canetas de tinta permanente

E todo o resto

Talvez

Talvez ao fim de quinze dias esteja em paz

E liberto de todos estes pertences

Tralha

Merda

Muita merda,

 

O meu problema maior será como me desfazer do cemitério de ossos;

Parto os vidros da janela?

E será que após partir os vidros da janela

O cemitério de ossos desaparece,

Vai embora?

E se não for embora?

Fico sem janela

E com o cemitério de ossos?

 

O cigarro acaba de desmaiar

Provavelmente

Tensão alta

Ou açúcar no sangue

Fricciono-lhe o rosto

Começa a abrir os olhinhos…

E temos novamente cigarro para mais alguns minutos,

 

Poiso os olhos na prateleira onde dormem

AL Berto

Pacheco

O Lobo Antunes

Cesariny

O Cruzeiro Seixas

E penso

E debato-me

O que fazei quando tudo arde (António Lobo Antunes)

O que fazer com todas nestas cinzas?

Com toda esta merda?

Sim

Merda

Sim

Cinzas

Porque toda a minha vida

Foram cinzas

Noites em claro,

 

Saía ao principio da noite

E regressava de madrugada com um saco repleto de palavras

Depois

Durante o dia

Colocava-as sobre uma folha branca

Agitava um pouco

E passadas algumas horas

Tinha poemas

Tinha textos

Tinha desenhos

E às vezes descuidava-me

E tinha uma grande porcaria

Ficava tudo chamuscado.

 

(nunca fui bom cozinheiro)

 

Tinha o silêncio

Tinha o mar

Tinha barcos

Tinha nada

Tinha rios

Socalcos

Enxadas

Tinha tudo

Tudo

Tudo muito arrumadinho,

 

Agora não sei o que fazer a toda esta porcaria

Não sei se queime tudo

Não sei se dê

Não sei…

 

(a minha preocupação é com a janela)

 

Que farei com todos estes ossos?

 

Dinheiro não será certamente

Porque ninguém compra ossos…

E se comprassem ossos

Já tinha vendido os meus

Não preciso deles.

 

E voltando

Às oito paredes

Uma janela

Nove estantes

Prateleiras

E aproximadamente

Quinhentas mil palavras,

 

(dois compartimentos)

 

E questiono-me se não seria mais feliz

Se eu não tivesse nada disso

Se eu nunca tivesse olhado o mar

Olhado o céu

A lua

O luar

O capim

As chuvas

A geada

Ter nascido às sete e trinta da manhã

Saber o que é um machimbombo

Ter nascido a um Domingo

Tudo isso

Em Janeiro

E o outro

Aquilo

Daquilo

E um dia

Qualquer dia,

 

Nada.

 

Apenas mais um dia.

Mais nada.

De nada.

 

 

 

 

 

 

Alijó, 15/12/2022

Francisco Luís Fontinha

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