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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


08.08.14

Serás a eterna folha de papel,


a pele húmida da tempestade que me embrulha quando cai a noite na eira de Carvalhais,


oiço o espigueiro atrapalhado no interior das canções de um sino em delírio...


oiço a tua ofegante voz quando tentas tocar-me... e foges, e desapareces no trigo silêncio da madrugada,


serás a eterna folha...


onde vou escrever os meus beijos, onde vou escrever as minhas caricias e os meus desejos,


 


Serás o rio onde me vou sentar,


os socalcos seios onde poisarei a minha cabeça...


depois... depois de acordar,


 


Serás a migalha de prazer que deambulará numa cama inventada,


os lençóis de seda que as tuas mãos aprisionam..., os sótãos do amanhecer,


e os gemidos quando és penetrada,


serás o luar,


e os versos ensonados das manhãs de liberdade,


 


Serás a eterna folha de papel,


a tinta ensanguentada dos orgasmos poéticos,


serás a eterna claridade dos espelhos de brincar,


o carrossel de uma cidade..., o cansaço de uma noite de amar,


serás o trapézio que se esconde na ardósia da tarde...


… a geometria nocturna de um corpo entranhado pelo poeta sem nome!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 8 de Agosto de 2014


24.06.13



foto: A&M ART and Photos


 


Fazes sentido depois de rasurada, destruída, tu, uma apenas folha de papel, sem nada a tapar-te o corpo desnudo, de pele flácida, como a madrugada, como o amanhecer, antes de acordarem as palavras, e de te vestires convenientemente para saíres à rua? Pergunto-me


Pergunto-te camuflada dentro das gavetas da minha velha secretária, em alguns pontos dela, o caruncho a procurar-te, e não te encontra, abro-lhe as gavetas, a primeira, a seguir, a última... e tu, tu não estás presente, apenas uma fina poeira...


Fazes sentido viveres em mim? Tu? Folha de papel amarotada, esquecida, às vezes, amachucada e deitada no caixote de rede entrelaçada, claro que não meu querido, claro que não, nunca serás o que eu fui, e nunca foste o que eu serei, depois, depois de partirem as andorinhas, depois caírem todas as folhas das árvores da nossa terra (será que ainda temos terra?), não sei... eu não tenho a certeza de ter uma Pátria única, una, sinto-me a tua folha de papel, rasurada, destruída, amachucada... nas tuas mãos, quando começa a noite e me tocas na face oculta, escondida, como as sombras dos candeeiros de naftalina, procuro-me dentro das tuas gavetas, encontro bugigangas, coisas mais parecendo objectos adquiridos por ti quando visitavas a Feira da Ladra, e nada trazias dentro de ti, e nada existia entre nós, eu, uma simples folha de papel, e tu, uma doce e bela caneta de tinta permanente,


Pergunto-me


Como será o Outono?


Gostava de ser como tu, não me preocupar com as palavras, não me preocupar com a saudade, o amor e a paixão, desistir de ti, ser apenas eu, uma caneta, uma triste caneta, sem letras, tinta, solitária como as janelas viradas para o quintal onde habitam roseiras, cravos e hortelã... o aroma do pericão, e a tranquilidade da tarde quando sinto que tu desististe de mim e te lanças, ao caixote de rede entrelaçada, amachucada, rasurada, triste, branca, branca... como a lua acordada em noites de luar, gostava de ser como tu, não saber ler, escrever, contar, um dois três quatro cem quinhentos, ser um andante na algibeira dos mendigos, e pergunto-me?


Valeria a pena?


Claro que não, claro que sim, não sei, talvez,


Como será o Outono de amanhã?


Talvez, não o sei, e não fazes sentido depois de rasurada, amachucada, depois de amarrotada, feita um bola, lançada à lareira, como fazíamos aos cortinados na casa de Favarrel, depois, depois..., valeria a pena escrever em ti? Não, claro que não..., talvez, amanhã, talvez ontem, talvez nunca, claro, percebo perfeitamente,


Tu, uma simples folha de papel,


Eu, uma triste caneta de tinta permanente...


Não, não quero, não preciso... das tuas flores.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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