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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


16.04.22

Quando percebes que em cada pedacinho de silêncio

Habita uma imagem de saudade.

Que em cada movimento do bater de asas de um pássaro

Existe um rio em pequenos círculos

Às voltas de uma montanha.

Quando percebes que o som das sombras e cheiros

São na verdade o prazer de estar vivo.

E quando o Vale do tua e seu rio

Se alicerçam ao teu peito,

Isso é, felicidade.

Isso é poesia.

Isso é… tudo.

 

 

Alijó, 16/04/2022

Francisco Luís Fontinha


08.04.16

ela partiu numa manhã de neblina


levava na bagagem a solidão dos dias e das noites acorrentada à minha mão


olhou-me pela última vez


(alguma vez te disseram que tens o coiso grande?)


Disse-me adeus


E quando alguém nos diz adeus é para sempre


Aos poucos desapareceu na neblina


Sentei-me num banco de pedra


Cruzei os braços


Puxei de um cigarro na esperança que alguém me oferecesse lume…


Pequei num livro que ela me tinha oferecido no dos outros encontros furtivos


Sempre em esconderijos


E vi o mar deitado a meus pés


Que mais eu poderia querer?


neblina


sentado


um livro


e uma ausência programada


a falsa partida


o dia mais feliz da minha vida


saltava


dançava de alegria


esta finalmente livre…


e foi a manhã mais linda de Lisboa


num qualquer Novembro cinzento e escuro


as gaivotas poisaram sobre mim


transeuntes sorriam-me e eu sorria-lhes


a felicidade era tanta que tinha medo de ser mentira


felizmente


não o era


tinha-me libertado da menina mimada


 


 


Francisco Luís Fontinha


sexta-feira, 8 de Abril de 2016


15.09.12

este amor cinzento


afogado na garganta do deserto


este amor


doente


sem vento


que corre magoado dentro dos cortinados da noite


insensato homem de xisto com um coração de vulcão


este amor fino e doente e cinzento


como uma tempestade de granizo


e um ferro de insónia na mão


à procura de um olhar aberto


no ventre doente dos cortinados da noite


 


há ovos sem juízo


recheados com chocolate e pedaços de mel


este amor


ausente


lentamente


mergulhado em dor


e finíssimos beijos de papel


em suor amor flor...


 


estes lábios filhos do amor cinzento


este mar ausente


no lamento


das noites mergulhadas no sono do desejo


fio de beijo


na janela sem vidros para a felicidade


 


(levantava-me silenciosamente


e via os barcos de algibeira em algibeira


de boca em boca


de mesa em mesa


as garrafas da vodka suspensas no tecto que o púbis da dor engolia


os ciúmes


os fósforos silenciosamente


comprometidos com os alpendres do amor cinzento)


 


e eu era feliz...


 


hoje


meia dúzia de palavras burburinham nos restos da maré


e nos meus olhos os óculos escuros da morte


perdidos na planície do amor cinzento


 


e eu era feliz.


 


(poema não revisto)


17.07.12

Os olhos de vidro


da melancolia


sem destino


dentro de um livro abandonado


 


o frio poema mergulha


na febre labial das estrelas


a lua em ondas curtas


à volta dos gemidos do sol


 


os olhos de vidro


no livro sem sentido


 


a melancolia sem destino


na tristeza dos meninos


que se escondem na chávena de chá


e das torradas do peque-almoço


 


sem saudade


sem perceber que das paredes da felicidade


brotam fios de luz


e dias desalinhados


 


de vidro


de vidro se partem as flores do amanhecer


de vidro


os olhos


e a caneta de tinta permanente


de vidro


de vidro o amor invisível e proibido...


05.07.12

Podia ser feliz


ou um barco


sem vela


podia ter sido uma rua da cidade de Luanda


entupida no lixo deambulante sobre a noite


podia ter sido o mar


o amor


o eterno veneno


a dor


podia


podia ter sido uma abelha misturada com a chuva


ou a paixão do silêncio


 


ai se eu fosse as amêndoas da tarde


em forma de poema


sobre a morte acidental


 


podia ser feliz


ou um livro de poesia


adormecido na prateleira da insónia


(podia ter emprego e dinheiro e assim já me conheciam


e assim


e assim já me cumprimentavam...)


podia ter sido o capim


e as mangueiras


e os triciclos de madeira


 


mas quis deus


que eu fosse um caixote


com paredes de vidro made in China


com coração de árvore


quis ele


quis deus


 


(podia ter emprego e dinheiro e assim já me conheciam


e assim


e assim já me cumprimentavam...)


 


que eu falasse como os pássaros


e gritasse como as nuvens


e desenhasse nas paredes da infância


a morte simplesmente bela


toda nua


à janela


quis ele


quis ele que eu fosse um poema sem palavras.


28.04.12

Nas paredes curvilíneas da memória


poiso os meus braços de prata


acaricio pacificamente


os meus lábios de incenso


e as pinceladas do meu rosto


vagueiam livremente no vidro transparente


de linho amanhecer


antes do pequeno-almoço


 


oiço a tua voz misturada


nas acácias do fim de tarde


oiço-te enquanto me olho nas paredes curvilíneas da memória


sem palavras sem estória


 


sem nada


 


poiso os meus braços de prata


acaricio pacificamente


os meus lábios de incenso


e nas pinceladas do meu rosto


acorda a madrugada


cresce uma rua sem saída


suspensa numa cidade imaginária


com muitas portas e janelas


e calçadas


e velhos que se esqueceram de acordar


e fingem orgasmos pulmonares


e constroem a felicidade


num vão de escada


sem nada


com barcos mergulhados


em oceanos testiculares


 


sem nada


 


de mão dada


às paredes curvilíneas da memória


os meus braços de prata


pacificamente acariciados


felizes


contentes


tal como os velhinhos


num vão de escada


 


sem nada...

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