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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


28.02.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Perdidamente só dentro das quatro colunas imaginárias de granito envergonhado,


habito no medo pelo medo, de... medo do medo, com medo, não sabendo que sou um transeunte desgovernado,


vivo e desabito a vida de ser sem o ser,


não percebo porque voam os corpos com asas de papel saudade,


inventando Oceanos de algodão nos lábios das meninas de trapos,


bonecas com sabor a infância e que trazem nos olhos a esperança...


esperança de... não terem esperança porque a esperança deixou de fumegar na lareira do desejo,


morreu o Amor e morreram todos os poemas de Amor,


morreram os homem da caneta de tinta permanente,


tenho uma na minha mão (de José António Tenente),


cansado de mim e das tuas palavras com sabor a argila negra,


permanente só, só... só dento do meu eu...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2014



24.06.12

ao longe


longe muito longe


longínquo


vivem as palavras “acreditar” e “ter esperança”


ao longe


corro


corro desalmadamente


e não lhes consigo tocar


 


ao longe


longe na ardósia da saudade


e deixei de acreditar


e deixo de ter esperança


 


ao longe muito muito longe


longe vivem as palavras


longe dormem as sílabas


de longe longínquo vai o meu corpo à fornalha da solidão


do dia e da noite


as luzes suicidam-se no precipício do oceano


 


ao longe


choro e chora e choro


e mingua e minguo e mingua a charada da vida


na cidade pobre


da cidade perdida


e deixei de acreditar


e deixo de ter esperança


da solidariedade


 


(palavra filha da puta)


 


e deixei de acreditar


e deixo de ter esperança


que um dia


acorde o sol dentro de mim


que um dia


seja sempre dia


debaixo dos plátanos do jardim


que um dia que um dia as estrelas sejam de papel.


14.08.11

Das mãos de uma criança


Uma rosa em flor


Em cada dia a esperança


Na dor que lança


 


A espada do amor


Os sonhos agarrados à almofada


Das mãos de uma criança


Uma rosa em flor


 


Um sorriso inocente na madrugada


A gaivota que não se cansa de brincar


Das mãos de uma criança magoada


Esconde-se da manhã o mar…


01.06.11

Dizem-me para acreditar


Ter esperança…


E pergunto-me ao acordar


Enquanto o sono se despede dos meus olhos


 


Eu vagabundo à nascença


Como poderei acreditar


E ter esperança?


 


Dizem-me para acreditar


Ter esperança…


 


E eu acredito que a lua é quadrada


E o sol construído de lágrimas


Eu acreditar


Eu ter esperança


 


Que amanhã no meu corpo


Uma rosa encarnada


Gritará na alvorada


- Foda-se a esperança


- Foda-se o acreditar


 


Para viver preciso de comer


E para comer preciso de dinheiro…


E ninguém vive da esperança


Tão pouco de acreditar


 


Para viver, para viver preciso de trabalhar.


 


 


Luís Fontinha


1 de Junho de 2011


Alijó


01.05.11

Cada dia uma esperança, cada segundo um minuto, um minuto de eternidade, distância, ausência do vazio, e lá longe, no fim do destino, sim, aí mesmo, a minha ilha; a ilha que me viu crescer, aos poucos, umas vezes atinadinho, outras, outras é melhor não falar…


Ao fundo da rua, fica o casebre onde se vende sexo por encomenda, pizzas e demais mercadoria. Também temos café, chã, torradinhas, pensamentos tristes…, e entregas ao domicílio.


Closed.


Amanhecer. E ela não vem há janela. Odeio esta janela. Uma vezes fechada, outras, nem aberta nem fechada, as pestanas de cetim parecem bailarinas a interpretar o bailado; o lago dos cisnes! Piotr Ilitch Tchaikovsky.


Lindo, belo, belíssimo.


Vou passar a chamar-lhe, à tua janela, o acordar do amanhecer, e tu não vens, estás ausente na constelação de Peixe voador, e das oitenta e oito constelações, tinha logo que ir para esta. Tão longe…


Na minha ilha andam a passar-se coisas muito estranhas, analfabetos são doutores e engenheiros, os sem currículo são bem-vindos, bem-vindos ao nosso estabelecimento comercial, os incompetentes são promovidos, isto há cada coisa…


Tão longe, nem à velocidade da luz chegava até ti. Impossível.


E na distância ficarás perdida eternamente, ausente entre dois segundos de nada, e eu, continuarei a caminhar, sem correr, devagar, até novamente encontrar outra constelação, das oitenta e oito, menos tu, são oitenta e sete…


E eis que da cabeça de alguns da minha ilha, como se acontecesse um milagre divino, pois também existem outros milagres, o nevoeiro deita-se cuidadosamente no jardim, e ao fundo, aparece envolto numa túnica amarrotada pelo tempo, El Rei. El Rei do burgo.


- Viva o Rei! Viva.


- Vassalagem a sua Majestade.


Que se foda o Rei. Cada dia uma esperança.


 


 


 


(texto de ficção)


Luís Fontinha


Alijó

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