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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


05.11.21

Milimetricamente falando,

Sou uma simples quadrícula sem memória,

Nas mãos de uma criança.

Sou uma flor

Dançando,

Sou estória,

História morta à nascença.

Semeio palavras na eira madrugada,

Quando das nuvens acordam os pássaros vagabundos,

Milimetricamente falando,

Sou uma página cansada,

Cansada das palavras sem rumo,

Sou uma velha enxada,

Enxada que transforma o mundo.

Tenho na mão

A equação do adeus ingrime da solidão,

Tenho na mão, a mão da minha mão,

À mão do meu coração.

Sou, então, uma velha página a arder,

No corpo da serpente,

Sou uma página de escrever,

Escrever o que ela sente.

Tenho na mão,

Milimetricamente falando,

Todo o cansaço de viver.

Tenho na mão,

Na minha mão,

Palavras para escrever,

Escrever para não sofrer.

Sofrendo, ela percebe que pertenço aos números primos.

Sou estátua que dança na neblina,

Sou equação que brilha na escuridão;

E todos nós sentimos,

A cidade menina,

À cidade minha canção.

Tenho nesta mão,

Um pedacinho sorriso beijar,

Tenho na outra mão,

O desejo simples de amar.

Escreves-te entre uma recta paralela

E finas lâminas de geada,

Escreves-te quando nasce o sol na nossa triste aldeia;

E sabes, rosa amarela?

Do teu jardim vem até mim uma rosa cansada,

Cansada e tão bela…

Tão bela essa Sereia.

E, entre equações

E palavrões,

Deus não mete a colher.

Não se importa,

Nem quer…

Não quer que eu abra esta triste porta.

Sendo assim,

Todas as equações,

Todos os palavrões

E todos os trambolhões,

São cremados

E sepultados,

No meu alegre jardim.

(o jardim das ilusões)

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 5/11/2021


16.04.19

O amor é uma merda.


No coração não temos nada,


Nem melodia, nem palavras, nem uma simples canção…


Quando acorda a madrugada.


O coração não ama, não chora,


O coração é uma máquina, uma bomba, nada mais do que isso.


Ninguém está no coração de ninguém,


Nem as palavras, nem as almas penadas…


O amor é uma merda,


Complexa,


Como os rochedos da floresta.


Será o amor uma equação diferencial?


O esforço transverso?


O momento flector?


Ou será o amor apenas uma pequena flor,


Na lapela de um qualquer caderno quadriculado…


Tudo isso, é nada.


A paixão é como a sombra das minhas bananeiras,


Ou como o sumo das minhas tâmaras…


Azedas,


Tristes,


Como a alvorada.


Poderá um petroleiro ser amor?


Uma jangada sem destino,


Em direcção ao abismo?


E o coração?


Uma máquina, apenas, nada mais do que isso.


O amor é uma merda,


Como todas as flores do teu jardim,


Feias,


Raquíticas…


Anormais.


Será o amor uma equação trigonométrica?


Do tipo:


O co-seno ao quadrado do amor mais o seno ao quadrado do amor é igual a um…


Pronto.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


16/04/2019


02.04.15

A vertigem


O dia triste


Quando é envenenado pela saudade


Há no olhar da esperança


Um cigarro poético


Derramando palavras


E nuvens cinzentas


A rua perde-se em mim


Como eu me perdi nos teus braços


De aço


Prisioneiro dos cadeados invisíveis


O marfim dos dentes do crocodilo


Esperam-me sobre a mesa da sala de estar


Não estou


A porta encerrada


Sempre


Sempre


Como o mar submerso na neblina de sal


A vertigem


Apodera-se dos meus sonhos


Não há rios nesta cidade indesejada


Os peixes


Não


Não estou


Hoje


Nunca


À tua espera


Porque não espero nada


Nem ninguém


Como nunca esperei a madrugada crescer


Nos teus cabelos


A vida me come


A vida me mata


A fome


E…


Será que tens cabelos?


Fios de xisto


Descendo o Douro


O meu pensamento está longe


O Tejo


Aguarda serenamente a sombra do meu corpo


A ponte iluminada


Dançava


Quando o vento se alicerçava


E eu


Brincando numa parada militar…


Soldado de pedra


Com uma espingarda de nada


A vertigem sonolenta das coisas belas


Quando o dia


Hoje


Não


Nunca


Os peixes


Não


Não estou


A casa desassossegada


Com a minha ausência


Parti


E ninguém


Percebeu que não estou


Os livros na intimidade do desejo


A vertigem


Nas minhas veias


Caminhando apressadamente


Como os homens acabados de regressar


Do infinito


Os cubos e os círculos de gelo


Palmilham as lâmpadas do medo


Na ardósia


As equações do amor


Sem resolução…


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 2 de Abril de 2015


31.03.15

As línguas abraçadas no céu-da-boca


A chuva argamassada contra o silêncio nocturno


Em redor de dois corpos invisíveis


O prazer nas palavras


Saltitam enquanto folheamos um livro sofrido


Em lágrimas


Da morte inanimada


O Sol embrulhado dentro de quatro paredes


O tecto desce


Desce…


E tomba no pavimento lamacento de um dos corpos


O fim da tarde evapora-se


Nos lábios de um cigarro


Negro


Noite


Sombrio


Como os pássaros da minha aldeia


Subo aos teus cabelos


E sento-me nas avenidas envernizadas da madrugada


A cidade cresce


Os automóveis enfurecidos


Em raiva


Como os cães selvagens


Montanha abaixo


A ribeira espera-os


Como visitantes insignificantes


O sexo suspenso nos cortinados do desejo


Os gemidos


E as sílabas da saudade


Há no teu corpo


Vapor de água


E cristais de prata


A imagem das tuas coxas em finas lâminas de desassossego


O mar


O mar dentro de ti


Construindo marés de esferovite


E alguns sorrisos apaixonados pelo sono


Perdi-me neste tempo infinito


Quando ainda existiam equações de areia


No quadriculado olhar


Hoje


Sou uma caneta avariada


Que deixou de escrever palavras


Que…


Que tem uma lápide sobre a secretária


E uma fotografia


Húmidas vogais


Agarradas às escadas da paixão


Sem saberem que a morte


Não é a morte


Que o medo


Não é… o medo


Voar


Sofrer enquanto caminho sobre um arame


(sempre quis ser trapezista)


Artista de circo


Palhaço


Andante…


Sem nome


Quando acordo e sinto que estou vivo


A praia parece a eira de Carvalhais


Graníticas espigas de cio


Nas frestas do sonho


Oiço o sino da Igreja


Quase a desfalecer


Tensão alta


(dizem)


E nos teus cabelos


As luas de Saturno


Envergonhadas


E Titã…


Entre beijos e poeira…


  


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 31 de Março de 2015


21.11.14

(para os meus pais)


 


 


O “foda-se” triplicado na equação do Adeus


a morte


o corpo evapora-se e viaja em direcção a um punhado de fotografias a preto e branco


a roldana da insónia range


gritaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa..................................


não posso mais


estou mergulhado no teu sorriso como um pêndulo sem alicerce


embriago-me nas tuas pérolas falsificadas


olho-me no espelho... pareço um falhado construído de cartão


sem coração


em revolução...


apetece-me matar todas as flores do teu jardim


aprisionar os pássaros dos teus sonhos...


não posso mais com rostos transformados em nada


corpos cadentes


e lágrimas


o “foda-se” triplicado na equação do Adeus


a morte


o corpo vacila no sentido descendente da impaciência


penso


escrevo...


nada... apenas “merda”


e


e complicadas matrizes melódicas


a fome que não é fome...


e quando apareço nos seus cabelos...


ela me inventa equações sem resolução


os anais


sem personagens vestidas de marinheiro desempregado


o estranho


a pintura de engano das tuas veis desalojadas do Sol


e desengano-me a cada pedra de xadrez...


 


 


 


(não sou eu...)


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Sexta-feira, 21 de Novembro de 2014


21.07.14

Inventa-me,


desenha no meu corpo as línguas de fogo que os teus lábios libertam,


escreve-me, escreve em mim as palavras proibidas, as palavras falseadas,


invade-me,


faz de mim uma equação trigonométrica,


soma-me, divide-me… e multiplica-me,


mas… inventa-me,


no pecado mais secreto do teu olhar,


 


Inventa-me,


no silêncio das madrugadas,


inventa-me no espelho onde escondes o teu rosto…


quando poisa a noite sobre ti,


 


Inventa-me nas catacumbas da insónia,


faz de mim a sombra mais bela do amanhecer,


inventa-me,


como flor,


como abelha…


inventa-me e acolhe-me na tua colmeia,


que eu seja o mel dos teus sonhos,


que eu seja… a tua invenção,


 


Inventa-me,


faz de mim pássaro, barco… ou… ou avião,


não tenhas medo de me inventar,


não, não tenhas medo de me amar,


inventando-me,


escrevendo em mim os números primos, ímpares… ou… ou pares,


inventa-me,


inventa-me sem chorares!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Segunda-feira, 21 de Julho de 2014


08.04.14

Percebo que as equações do meu corpo não têm resolução,


sou um aglomerado de números complexos, integrais duplas e triplas, habitam nos meus braços,


percebo que tenho um sorriso em granito, e sei que nas quadrículas do meu peito...


suspendem-se as infinitas cordas paralelas do nylon madrugada,


um imbecil programado, um corpo onde se misturam os algoritmos de Fortran e as raízes quadradas do obscuro olhar, sem sentido, único, proibido estacionar o meu corpo em cima do passeio da solidão,


cruzo os braços,


e pergunto-me...


o que faz o poema sem nome dentro do silêncio amanhecer?


sem prazer,


a vida é um fluído em escoamento permanente...


em direcção ao mar,


em construção... como corpos geométricos procurando amor nas flores triangulares...


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Terça-feira, 8 de Março de 2014


29.08.13



foto de: A&M ART and Photos


 


imagino as incógnitas que vivem na tua cabeça


tento perceber as equações do teu empobrecido coração


geometricamente


não consigo determinar a posição do teu corpo no espaço tridimensional...


e tudo parece tão simples


normal


imagino a integral dos teus seios pintados de encarnado


e reflectidos no prisma que se esconde na teoria das cores


dos cheiros


e sabores


imagino a equação diferencial das tuas alegres coxas


quando se despedem da tarde as gaivotas triangulares


 


imagino o silêncio vestido de negro


caminhando sobre o arame da solidão


lá em baixo o público enfurecido olha-te como se fosses um cartaz perdido no vento


balançando


dormindo


chorando


e imagino as incógnitas que vivem na tua cabeça


os círculos trigonométricos do teu púbis amargurado


cansado de mim


talvez... apaixonado por mim


talvez


porque tridimensionalmente... não consigo determinar-te no espaço só e vazio


 


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013



15.07.13



foto de: A&M ART and Photos


 


Invejo-te os olhos de púrpura amanhecer


quando te sentavas sobre as sombras da madrugada


sem o saber sem o perceber


amanhã envio-te as cartas prometidas com as flores desenhadas


ruas e prédios e penumbras fachadas


no jardim do silêncio à espera da tua chegada,


 


Amanhã prometo regressar aos teus braços


e a vela transatlântica é engolida pela insónia cristalina das tuas mãos


amanhã


engolida toda a matéria disforme numa equação desnecessária


proibida


cansadas?


maltratadas janelas com pequenos grãos de areia...


e a vã maternidade dos recortes em papel voando sobre ti,


 


Invejo-te os olhos


e as persianas dos teus olhos como uma fotografia a preto-e-branco caminhando junto ao mar


transformas-te em alga adormecida


e desces pelo meu corpo até te acorrentares ao meu peito aprisionado pelo medo...


invejo-te os seios perfumados como estrelas tricolores suspensas na saudade


e percebo que passou por nós... imenso tempo tempo demais...


 


Tempo perdido quando rectas paralelas se encontram no infinito...


acreditas, não acreditas, meu amor?


a paixão de PI quando começa o vómito de 3,141592654... no teu púbis onde desenho gráficos,


equações, máximos, mínimos... e os zeros da função...


e a função alimenta-se dos teus gemidos como vidros partidos sobre as flores das searas...


prometidas?


Invejo-te os olhos


e as tuas coxas com sabor a gaivota estonteante...


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


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