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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


08.08.20

Amanhece nos teus lábios

Um corpo de linho.

Suspenso numa cama inventada pelo desejo,

Acaricio-te suavemente e com medo de te acordar

Do sono alicerçado na madrugada.

Oiço-te gemer em pequeníssimas sílabas de silêncio,

E de dentro do vento,

Um lençol de espuma, branco entre soníferos de alegria,

Abraço-te; tenho medo de magoar o teu corpo de porcelana,

Quando desce a montanha, em direcção ao rio…

Uma enxada trabalha arduamente na sombra dos socalcos envenenados

Pelo apito do comboio embriagado,

E, ao fundo, o túnel da solidão escorrendo um líquido viscoso, sem cor,

Derramado nos trilhos dos animais nocturnos

Onde habita o teu sorriso.

Espero. Canso-me de não te ver,

E, quando te vejo, nua como todas as luar nocturnas,

Escrevo-te,

Desenho-te,

Simplesmente te abraço.

Amanhece nos teus lábios

O sorriso de menina adormecida,

Ensonada como todas as vírgulas

No texto impregnado de estórias…

Acorda em nós a insónia.

Madruga o poeta nas ruelas do engate,

Escreve versos,

Prostitui-se nas palavras…

E dorme no teu peito; não sofro, meu amor,

Porque os teus olhos são estrelas de papel…

Dançando no Universo.

Acordas-me.

E todo o sonho não passa de uma mentira

Para me afastar de ti.

Corro.

Beijo-te.

Sabendo que amanhã é Domingo.

E todos os versos serão teus.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 8/08/2020


16.04.16

Acordou a manhã, o sifilítico cansaço da espera regressa após vinte e quatro horas de ausência, termina o tempo, ao revés do dia traz a noite os conflitos do dia, a paixão amargurada quando o papagaio de papel sobe e perde-se no Céu, o orvalho dentro de mim em pequenos salpicos de sangue, tenho pena do Ricardo, tenho pena da Madalena, e o sangue


Hoje vi-te pela primeira vez, tinhas no olhar o mel da madrugada, tinhas nas olheiras o rio da paixão, quando a noite geométrica de um cardo dorme, senta-se sobre o tapete do silêncio, a noite habitada pelos fios de nylon das pirâmides de vidro, tinhas fome, escondias-te num verso envenenado pelo cio, engatava-te como se engatam gajos em Belém, não faz mal, o tempo há-de dar-me razão, um dia, quando partires para as borboletas em flor, não havendo outro, vou eu, velho, submerso em ossos perfumados das sílabas de papel, não faz mal, não importa, e o sangue,


E o sangue rebelde nas veias de um covarde, o doente malcriado, sonâmbulo e indisponível das auroras assustadas, Ricardo e Madalena


Amanhã, meus queridos, amanhã,


E Ricardo e Madalena enjoados pelas umbreiras da loucura, a casa parecia uma espelunca recheada de rochedos, o sono, o lixo espalhado por cada milímetro quadrado, em esquadria, ele mentia


Está tudo bem meu amor, está tudo bem,


E ele mentia, não estava nada tudo bem, não havia locomotivas com sabor a Primavera, e ele, lá longe, entre gemidos,


Madalenaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa


Lindíssima,


O era, confesso que nunca mais abri a porta de entrada, a sala sempre escura, negra, vazia, e o escuro sentado no sofá da inocência,


Dormes?


Acordou a manhã, a alegria do nascer do dia, o rosto inclinado do homem do terceiro esquerdo, os gemidos de Madanela, UIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII, ao fundo o rio, o Tejo entre os parêntesis da meninice dela, os lábios, o engate junto ao copo de uísque, já está, esfregava ele as mãos,


Tenho medo, confesso que nunca tive jeito para a escrita, não gosto de escrever, ler, gosto é de brincar num jardim junto ao rio,


Dormes?


Claro, acordou o dia, madrugada provisória numa greve de fome, tenho fome, abraço-te e beijo-te, levo-te para o quarto, encostas a cabeça ao meu peito e choras, recordas as manhãs numa qualquer rua da cidade entre bebidas baratas e quartos de esconderijo, claro que este corpo pertence-te, sempre te pertenceu, mas não gosto dele, mas não tenho braços para arcar com tanta dignidade, sobre a cama, ele parecia uma árvore em poiso, sobre a cidade, o rio, o barco que fode o rio, e o rio que mata o amor da minha vida?


Lindíssima.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Domingo, 17 de Abril de 2016


16.04.15

Radiografia de orgasmos


Acompanhando os ossos do sofrimento


Descem à tua mão os lábios


Que o beijo pintado


Nas veias do vento


Escreve na caneta de tinta permanente


As palavras


As palavras que não consigo dizer


Porque a minha boca


É uma prisão


Em sabão


Sem nunca ter regressado


 


Às coxas


Tuas pinceladas coxas


Meu amor


Ou não meu amor


Tanto faz


Na minha idade


Ser amado


Amar


Ou… um palhaço pintado


No olhar da serpente de ferro


Nas sombras de Lisboa


Meu amor


 


Ou não meu amor


Amo


- A mim?


Amo Lisboa e o seu rio


Os marinheiros embriagados pelo fado nocturno do silêncio


A morte da guitarra


Meu amor


Ou não meu amor


Eu


Perdido


Numa estrada curvilínea


Assassina nas horas vagas


 


Faz uns bicos


Gama umas carteiras vazias


E foge


Leva os filhos e os não filhos


Leva as sebentas


Recomeça o curso


Uma treta


Comparando um curso


Com… com a tua letra


Das cartas rejeitadas


Meu amor


Ou não meu amor


 


A música cansada das tardes de Domingo


A fotografia da Igreja junto à lareira


Ouvia o sino enquanto lia no quarto


Três da madrugada


Tu à janela desenhando cigarros na fome melancólica da paixão dos pássaros e dos peixes desta ilha funda e deserta, coitados dos homens apaixonados, compram livros, vestem as personagens de noite


E


Engate


O automóvel alicerça-se ao asfalto do prazer


Lá dentro


Gemem poemas


E engate


Às três da tarde


 


Consultório


A clínica esperando o engatado


Uma coisa simples


Bom homem, culto, esbelto… e… uma coisa simples


A liberdade de amar


A liberdade de ser amado


Ou


O engate


Odiado


Como as candeias da prisão de Caxias…


E coisas


Coisas de coisas.


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quinta-feira, 16 de Abril de 2015

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