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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


19.08.22

Não posso mais, doutor,

São estas palavras,

São estes rios,

São outros mares,

São outros corpos possuídos,

Doutor,

Enquanto escrevo, morrem pessoas,

Enquanto durmo, nascem crianças,

Enquanto pinto,

Embebedam-se criaturas, poetas e putas,

Doutor…

E a música, doutor?

O que tem a música!

Tem dentro dela o silêncio,

Tem a alvorada,

Tem o medo e o sonho,

E não tem nada.

Doutor.

Percebe agora?

Porque voar é fácil,

Porque dormir é canseira,

Porque sonhar é uma merda,

Uma merda junto à lareira.

Não posso mais, doutor,

São as equações,

São estas tristes fotografias,

São as lápides,

São as flores,

Doutor? Ainda aí está? Junto à árvore?

É a chuva lá fora,

São as acácias a morrer,

São as palavras,

São os ossos a correr.

Porquê, doutor?

E enquanto chove,

As almas gritam,

As enxadas no Douro, revoltam-se…

E os homens?

Ai doutor,

Esses,

São uns covardes,

Tudo aceitam,

Tudo comem,

Como carneiros,

Como ovelhas.

Sabe, doutor?

Não.

Morreu o Zé Gato,

Morreu-me o cão,

O canário,

Uma tristeza, doutor,

Uma tristeza,

Esta aldeia,

Sem beleza,

Sem sol,

Sem água benta,

Só fachada, doutor.

Pura fachada,

São as montanhas a arder,

São as palavras a morrer,

São estes rios,

Tristes,

Frios.

Sabe, doutor?

Não, diz, diz…

São os pulhas que espancam a mulher,

São crianças a sofrer,

Algumas, sabe doutor?

Sofrem antes de nascer,

Sofrem até morrer…

Depois, depois acordam os pássaros,

Libertam-se as nuvens das prisões invisíveis,

Estas sim, as nuvens não são como os homens do Douro,

Revoltam-se,

Gritam,

E o mais engraçado…

Nunca morrem, como nunca morrem os poetas.

Os poetas são eternos,

São canção,

São revolta,

Sim doutor,

Revolta,

Porque estes gajos metem nojo,

Os caneiros,

As ovelhas,

As flores e as abelhas…

Sabe, doutor?

Não, diz,

Sempre acreditei que um dia,

Que um dia…

Sim,

Que um dia sonhar não era uma merda,

Que um dia,

Que um dia, todos os dias, todos os meninos…

Brincavam junto ao mar;

Como brincam os peixes

E as gaivotas,

Como brincam os amores

E todas as paixões,

Que um dia,

Sabe doutor?

Que um dia os homens não guerreavam,

Que um dia, as guerras,

Eram apenas uma fotografia,

Longínqua e abstracta.

E depois, doutor,

Depois a culpa é do macaco;

Coitado…

Coitado do macaco.

 

 

Alijó, 18/08/2022

Francisco Luís Fontinha


19.08.22

Eram sete lanças de espuma

Sobre o peito amordaçado,

Eram sete madrugadas

De bruma

Na paixão amanhecer,

Eram sete canções e coisa nenhuma,

Enquanto o mar queria adormecer

Sobre o teu corpo deitado.

 

Eram sete enxadas

Rodopiando os socalcos adormecidos,

Eram sete sois e sete rios…

E sete tardes sem dormir,

Eram sete madrugadas,

Em sete dias da semana,

Eram sete lanças de espuma

Sobre a doce tua cama,

 

Eram sete lanças de espuma

Sobre o peito amordaçado,

Eram sete poemas em saudade,

Da saudade do pobre coitado,

Eram sete Invernos à lareira

Do corpo esquartejado,

Eram sete lanças de espuma…

Neste corpo maltratado.

 

 

 

Alijó, 19/08/2022

Francisco Luís Fontinha


18.08.22

Lamento muito, mas o senhor tem cancro.

- Não lamente, doutor, porque eu só quero voar!

Voar?

- Sim, doutor, voar em direcção ao mar…

 

Desciam as nuvens sobre a aldeia quando uma pincelada de luz poisou sobre o silêncio e na despedida, no final da tarde, ouviam-se os primeiros gemidos dos gonzos enferrujados da insónia, depois, percebemos que tínhamos acordado dentro de um cubículo desabitado e que antes de nós, pelas frestas que nos olhavam através das tristes paredes, tinha pertencido ao poeta suicidado.

- Morreu de quê, doutor?

Enforcou-se nas palavras…

E das palavras se alimentou durante mais de quarenta anos, até que numa alegre tarde de Inverno, junto à lareira, percebeu que essas mesmas palavras eram o veneno invisível que todas as manhãs acordava a seu lado,

- Mas… doutor, eu apenas quero voar… sim, voar em direcção ao mar…

E percebeu que além das palavras, e percebeu que além dos livros, e percebeu que além da doença, tudo em comparação com a possibilidade de voar, em direcção ao mar, eram apenas pequenas sombras que todas as noites dormiam sobre o cacimbo da infância.

E um dia, dos calções, acordou a luz.

- Que descanse em paz,

Como se a morte não fosse o eterno descanso de duzentos e seis ossos e trinta e dois dentes. Mas ele, teimoso, apenas queria voar em direcção ao mar, e que desciam as nuvens sobre a aldeia quando uma pincelada de luz poisava sobre o silêncio, até que uma pequena lâmina de saudade se abraçava a ele, como se a morte não fosse o eterno descanso da puta da pesadíssima enxada da vida,

- Barcos ao fundo.

Silêncios ao alto.

E entre apitos doirados, socalcos e vinhedos, o velho comboio quase a merecer a tão desejada reforma, dançava ao som do pôr-do-sol como se fosse um menino a brincar nos pequenos charcos após as chuvas endiabradas das manhãs de intenso calor. E ele, ainda sentado sobre uma pausa de cansaço, perguntava-me,

- Falta muito, doutor?

E claro que não, claro que não… estamos quase.

- Não lamente, doutor, porque eu só quero voar!

Voar?

- Sim, doutor. Voar como voam os sonhos nas mãos desejadas do sono.

E que do sono se faça a luz; segredava-me ele enquanto vestia as asas silenciadas pelas tempestades de areia numa qualquer longínqua praia em que apenas os pássaros podiam dormir antes de acordar o luar.

- Sim, doutor, voar em direcção ao mar…

 

 

 

Alijó, 18/08/2022

Francisco Luís Fontinha


20.06.22

Verde são estes olhos de dormir

Enquanto há palavras na fogueira,

Verde são os poemas de amar,

São as lágrimas de chorar;

Verde são as noites sem dormir,

São as noites junto à ribeira…

Verde são as ondas do mar

Que brincam na lareira.

 

Verde é a solidão

Sob o tórrido silêncio de escrever,

Verde é a palavra envenenada

Que tento adormecer na alvorada.

Verde sentido só possível neste coração…

Verde as nuvens do entardecer,

Que escondem socalcos enxada,

Como se o universo fosse morrer,

 

Como se o universo fosse verde aldeia.

Verde cansaço madrugar,

Que escondo no Ujo luar,

Verde que sofre, verde das almas roubadas,

Verde alegre das lágrimas semeadas.

Verde são os olhos de chorar,

Verde são os versos das janelas arrombadas

Na casa verde, na casa poema de sonhar.

 

 

Alijó, 20/06/2022

Francisco Luís Fontinha


01.01.21

(Dois mil e quinze, foi uma merda; dois mil de dezanove, foi uma merda e, dois mil e vinte, contra tudo e todos, foi maravilhoso).

 

A alvorada voz da manhã,

Quando a terra se encosta ao Douro e, descansa.

Descansa a alma,

Descansa a mão inanimada da esperança,

Descansa o menino,

Descansa,

Descansa a criança.

Descansa o raio que o parta,

Quando subo à montanha e,

Uma fotografia, que descansa,

Descansa a vida malvada.

Ai, menino,

As suas mãos são de oiro,

São castanhas, são cinzentas manhãs em Paris,

Descansa,

Descansa corpo santo,

À voz de quem o diz.

São palavras,

São desenhos,

Descansa mão do artista…

Descansa, descansa mundo,

Na voz melódica da manhã,

Que descansa sem se ver,

Descansam as palavras,

Descansam todos os versos;

Descansa sua beleza,

Nos cadernos de escrever.

 

 

Francisco Luís Fontinha, 01/01/2021


07.07.20

Lua mulher,

Corpo de luz,

Palavras vadias,

Cansaço dos dias,

Luz,

Corpo de lua,

Luar,

Em desejo,

Nua…

Abraçada ao mar.

Luar de mulher,

Palavras de vento,

Sorriso de gente,

Papel quadriculado,

Lua,

Corpo abençoado,

No tempo,

Quando desce a ribeira a montanha da fome,

Em delírio,

Sem nome.

Corpo,

Olhos de pergaminho,

Pássaro cantante,

Dançando no ninho,

Socalcos nos braços,

Enxada na mão,

Mulher em poesia,

Mulher em abraços.

Soluços da madrugada,

Luar,

Mulher desejada,

Na luz,

No poema…

Na alvorada.

 

 

Francisco Luís Fontinha

07/07/2020

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