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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


27.12.22

Caíam sobre nós as navalhas de vidro

Que da noite traziam todos os silêncios visíveis e invisíveis,

 

Naquele tempo

Acreditava ser um pequeno espantalho

Algures esquecido num qualquer campo de milho

À espera de que regressassem as amuradas da insónia,

 

Nunca regressaram e nunca me importei por tal:

Às vezes a noite escondia-se dentro de um pequeno cubo de vidro

Como sempre se esconderam as nuvens

E a chuva e a geada,

 

As abelhas picavam os braços emagrecidos dos espantalhos

(que só a mãe consegue perceber)

E mesmo assim

Habitava numa redoma de vícios

E muitas vezes empenhei o meu esqueleto…

Que ainda hoje

São duzentos e seis ossos de dor.

 

E erguiam-se sobre nós

As tempestades cinzentas das marés

Quando descia sobre o corpo a ressaca

E voávamos sobre uma planície pincelada de negro horror.

 

Hoje não me escondo

E tão pouco sou um espantalho…

 

 

 

 

Alijó, 27/12/2022

Francisco Luís Fontinha


20.12.22

Uma pequena sílaba estrelar

Solta-se dos lábios de uma flor

Não faz parte do poema

Não é o mar…

Nem é a dor.

Não é o cansaço

Dos ventos da madrugada

E também não é a Primavera

Que nunca me trouxe nada.

E dos lábios desta pobre flor

Solta-se uma lágrima

Uns dirão que é a chuva…

Outros que é a dor

E outros

Dirão que não é nada.

 

 

 

Alijó, 20/12/2022

Francisco Luís Fontinha


17.12.22

Em que rio te escondes

Corpo sonâmbulo das vagabundas noites

Mestre das palavras

Feiticeiro dos dias de neblina,

 

Em que corpo habitas

Cansado menino sem esperança

Melodia das manhãs de Inverno…

Que corpo é este

Que transporto

Que nada me diz

Quando desce a lua sobre o meu cabelo,

 

Não sei em que corpo te escondes

Se tens um corpo para te esconderes,

 

Sonâmbulo amigo

Amigo que procuras as espadas

E te suicidas com elas,

 

E te libertas das canções envenenadas pelo silêncio

Teu corpo

Meu corpo

Menino sem Pátria

Menino das sandálias e dos calções;

Teu corpo

É o meu corpo

E tu

Meu querido corpo sonâmbulo

Abres a mão

Abres a mão e esperas que cada pingo de chuva

Seja apenas uma palavra…

 

Nada mais do que uma palavra

Uma palavra disfarçada de pingo de chuva.

 

 

 

 

Alijó, 17/12/2022

Francisco Luís Fontinha


28.11.22

Poiso nos teus lábios a lareira da paixão,

 

Pequena flor

Em meu triste olhar,

 

E este barco cansado

Perdido neste grandioso mar,

Este barco apaixonado

No silenciado luar,

 

Este barco ancorado

Aos teus seios de amanhecer,

Sou este barco fundeado

Nos versos de escrever,

 

Pequena flor

Em meu triste olhar,

 

Que o vento lança ao meu coração,

 

Este barco que não se cansa de navegar,

Enquanto invento no teu cabelo estrelas de muitas cores,

Este barco de amar,

Amar todas as flores,

 

Pequena flor

Em meu triste olhar,

 

Do meu olhar

Tua dor,

 

Nos teus lábios a lareira da paixão.

 

 

 

Alijó, 28/11/2022

Francisco Luís Fontinha


25.01.22

Não chores

Enquanto sopra o vento,

Porque nas tuas lágrimas choradas,

Dentro do poema sofrido,

Habitam almas cansadas,

Cansadas por terem morrido.

 

Não chores

Enquanto sopra o vento,

Porque nesta triste cidade,

Vive um pobre mendigo,

Mendigo de verdade:

Triste, só e arrependido…

 

 

 

Alijó, 25/01/2022

Francisco Luís Fontinha

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