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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


24.07.21

Das asas pigmentadas de silêncio, ouviam-se os uivos apitos que voavam sobre os socalcos pincelados de sombras e sonoras alegrias, que de vez em quando, ao longe, de um barco, às vezes assombrado, alicerçava a tristeza da partida,

Começa o dia na mão dele, de entre os dedos carrancudos, o cigarro avermelhava-se entre cinzas e lágrimas, chamavam-lhe; a saudade.

Partiu sem dizer adeus, nem um beijo, nenhum amigo presente na fala da sua sombra, quando se adivinhava que a morte é apenas uma viagem até ao infinito, de voos baixos, de ziguezague em ziguezague, de socalco a socalco, uma mísera nuvem de espuma brincava na sua mão,

Tinha medo,

Às vezes travestia-se de homem, outras, nem muitas, aparecia nas estantes amorfas dos livros de poesia,

O poema morrer e, ele nem sempre sabia o que significava a morte.

A morte é uma merda, dizia-lhe o pai pássaro, outro, o espantalho, costumava escrever nas rochas do Douro, sabes, meu filho, o cancro é uma merda,

A viagem, o vento levava-o pelas sanzalas da infância, num orgulho que só ele sabia descrever, sentava-se junto ao mar, puxava de um cigarro reutilizado do dia anterior e, em pequenos silêncios segredava ao pássaro alegria; sabes? Sou a criança mais feliz de Luanda.

Todos tínhamos nas mãos o cansaço das equações, das ínfimas matrizes que sobre o caderno adormeciam como crianças pintadas na tela da Mutamba,

Às vezes dá-me sono as palavras tuas,

Nunca soube voar.

Vestia uns calções, sentava-se nas sandálias de couro e, começava a correr até ao Mussulo, desagregado da saliva entre apitos e rumores; um dia vou regressar, um dia,

Nunca regressei.

Hoje, acordei abraçado à mangueira da minha infância, junto a mim, o triciclo da saudade e, mais além, as cartas que nunca tive coragem de te escrever, sabes, meu amor, as palavras parecem-me falsas alegrias, arrotos anónimos nas mãos do carrasco.

As espingardas vomitavam sílabas de azoto, o soldado-menino, escondia-se debaixo do embondeiro mais velho da planície, algures, outro menino-soldado, deslaço devido à preguiça, rebolava-se ribanceira abaixo, até que alguém lhe dizia; oh menino, a espingarda? E, ele, timidamente, respondia,

Fugiu, meu senhor, fugiu como uma bala em direcção ao nada.

Nunca soube voar. Aprendi as primeiras letras e números debaixo de um zincado telho telhado, talvez hoje, seja apenas uma igreja imaginária, apenas sombra, apenas nada.

O poema voava na sua mão. Entre os dedos, desenhava-lhe os seios colocando-lhes pequenas aspas, ou inúmeras saliências, ou apenas nada.

Nada tudo dentro de uma louca equação de areia. O barco recheado de fumo, levante e de um outro adeus; amanhã saberei o seu nome.

Amanhã, meu amor.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24/07/2021


11.11.20

Ouvi hoje (11-11-2020) na TSF o grito de alerta da Sociedade Portuguesa de Oncologia. Lamentável. Milhares de cancros não estão a ser diagnosticados devido à obsessão por parte das autoridades com a COVID-19.

Não se fazem rastreios, tratam-se mal os doentes oncológicos, e afins.

Como filho de doentes oncológicos, mortos no espaço de quatro anos, também me apetece gritar. Conheço, infelizmente o drama destes doentes e suas famílias. Horrível, apenas isso.

A COVID-19 existe, mas é apenas mais um vírus que vamos ter de aprender, a partir de agora, a conviver com ele.

Não abandonem os doentes oncológicos.

 

 

Francisco Luís Fontinha

11/11/2020


29.11.19

A fome de pensar.


O sorriso loucamente apaixonado pelo silêncio.


Os cigarros embriagados,


Loucos,


Descendo as escadas da doença.


A liberdade.


Quando se apaga a madrugada em ti.


Canso-me das palavras de escrever,


Dos sonhos,


E dos livros de morrer.


A insónia deitada na cadeira da preguiça.


As camufladas lâmpadas de néon suspensas nos teus seios de alumínio…


Quando lá fora, a tempestade de desejos, dorme nos meus braços.


A fome de correr.


Saltar.


Brincar…


Na tua boca de sofrer.


A fome de vencer.


O medo de morrer…


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


29/11/2019


28.11.19

Subo vertiginosamente as escadas da saudade.


Pego na tua fotografia, recordas-me um sorriso de nylon.


Amanhã, vou partir para o infinito amanhecer.


Sem perceber,


Que dentro da saudade,


Habita o beijo.


Abraço-te no invisível tempo,


Como uma barcaça desnorteada junto ao cais.


Finjo.


Minto.


Escrevo-te, sabendo que nunca me vais ler…


Porque os esqueletos não lêem…


Nem choram.


Subo vertiginosamente as escadas da saudade.


Sento-me no teu colo,


Preciso dos teus mimos,


Preciso de tocar nas tuas mãos…


Enquanto seguras religiosamente o terço da esperança.


Não vou dormir,


Enquanto, lá fora, chove.


Tenho medo da chuva.


Tenho medo da claridade,


E só a noite,


Consegue alimentar estas tristes paredes de alvenaria…


Grito.


Ouves-me?


Não.


Não me ouves.


E eu oiço os teus gemidos esquecidos num quarto de hospital,


Oiço o cansaço da tua voz…


Que me dia;


Amo-te, meu querido.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


28/11/2019


26.03.19

Oiço-te.


Penso nas tuas sílabas quando poisam nos meus lábios,


Oiço-te, a cada madrugada, a cada hora passada,


Quando eu deitado, na esplanada encerrada,


Descanso de pessoal,


E, no final do dia, as palavras embriagadas,


Quebram o teu silêncio,


Como uma fechadura,


Pobre,


Nua,


Oiço-te.


Na vanguarda da noite,


Carregado de cartazes,


Lutando contigo,


Lutando…


Até que um dia, novamente,


Perderemos a guerra,


Já o senti,


Já o vivi,


Mas hoje,


Hoje tenho o prazer de te ouvir.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


26/03/2019


14.03.19

Tem uma caneta na mão,


Desenha na sombra da tarde o cansaço da solidão,


Como na despedida,


Ouvindo a canção…


Que o silêncio alimenta,


E tece,


Sobre o chão.


Hoje, não me apetece,


Escrever,


Comer,


Ler.


E senta,


E deita-se na cama sem colchão.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 14/03/2019

...


28.02.19

Da tarde emancipava-se a lunar luz do horizonte, tenho lágrimas nos olhos sombreados pela tempestade, como ontem, o limite entardecer que ofusca a madrugada, não sei se acordará em mim o feitiço do entardecer, está frio em ti, tens na mão o silêncio da noite, somos dois,


Perco-me em ti,


Somos dois pássaros revoltados com o orvalho, diariamente sentimos as frestas da sonâmbula rua adormecida, só e triste,


Perco-me em ti,


Triste nos horários invisíveis, a cidade acorda, submete-se ao abismo,


Tenho medo, mãe.


Perco-me em ti, meu amor, desde a infância até hoje, perco-me em ti todas as manhãs quando acordam as árvores do meu quintal, os pássaros, mãe, os pássaros choram por ti, e


perco-me...


E sei que não regressarás mais aos meus braços, e sei que deixarei de escrever nas tuas mãos as palavras adormecidas pela chuva gélida de Inverno, saberás que um dia vou navegar para longe, saberás que um dia serei duzentos e seis ossos em fino pó, como a terra que nos alimenta nas estrelas,


Perco-me.


Da tarde, uma gotícula de tristeza desce o teu invisível cabelo, saberei que amanhã não estás, saberei que amanhã as minhas mãos serão tábuas de silêncio suavemente suspensas no teu rosto,


Perco-me em ti, meu amor,


Sabes, mãe?


Trinta dias sem rumo a navegar nesta barcaça,


Tens medo, filho?


Trinta dias escrevendo nas ondas o teu nome, desenhando o vento nas nuvens dos teus lábios, e, um dia vamos acordar na longínqua Luanda, com palmeiras, com capim e mangueiras...


Tens medo, filho? Não, mãe, não tenho medo da tua sombra ao acordar.


 


 


Francisco Luís Fontinha


28/02/2019

...


24.11.18

Podia desenhar-te o Céu.


A vida é um suspiro, a casa vazia, triste e a tremer de frio…, o cansaço do amanhecer perdeu-se no teu olhar, respiras, sofres por mim, e não o queres demonstrar.


Sabes, tenho medo dos pássaros, que deixem de voar, que fiquem estonteantes, como eu, ao ver-te aí deitada, tenho medo da madrugada, porque amanhã não sei se vou ler nos teus olhos a palavra amo-te…


E é tão triste, e é tão belo, todo este silêncio que nos abraça.


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 24 de Novembro de 2018


09.09.18

Das janelas não se viam as transeuntes folhas caducas,


A rua imunda, suja, recheada de sombras invisíveis,


E um corpo putrefacto mergulha na minha mão…


Que faço eu com ele?


Alimento-o,


Enterro-o…


Ou escrevo nele a minha raiva.


As espadas da saudade, cravadas no peito húmido do esqueleto de vidro,


As pedras perfurantes alicerçadas nos lábios do abismo,


Sinto-me tudo isto, ao adormecer…


Sem perceber as palavras do amor.


 


 


Francisco Luís Fontinha


09-09-2018

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