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Cachimbo de Água

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...

Blog de Francisco Luís Fontinha; poeta, escritor, pintor...


19.01.22

Aos beijos versados

Argamasso as palavras envenenadas no silêncio,

Escuto, sinto a tua voz melódica de incenso

Quando voa na ressurreição do desenho,

E nas catacumbas da solidão,

Vejo os teus lábios incinerados na madrugada,

 

Como se todos os pássaros fossem filhos de Deus.

Há na palavra

Uma oração cansada,

Distante de mim,

Distante da alvorada.

Aos beijos versados

 

Lanço as flores do meu jardim,

São flores em liberdade,

São pedaços de mim.

E o poema ergue-se como se erguem as vozes

Que chamam por Deus,

Ou que se revoltam contra Deus,

 

Como se Deus fosse o culpado,

Do poema estar envenenado,

Ou…

Os teus beijos

Sejam versados,

No espelho da paixão.

 

Aqui me sento sem prazer,

Lendo, escrevendo,

Ou em nada fazer.

Mas dizem que Deus está a ver,

Que nos olha como olhava por mim

A minha mãe, em viagem sem regresso…

 

Ao pó os teus pedaços ósseos

Na garganta do tumor,

E que esta viagem sem regresso

Seja apenas uma fotografia,

Recordação;

Nos beijos versados, o poema está vivo, vivo e em dor.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19/01/2022


21.11.21

Era um sábado triste; ela tinha morrido.

Quando me perguntaram o que era a ausência e a saudade, respondi que ambas são uma equação matemática sem resolução.

Não gosto de conversar com psicólogos, respondi-lhe.

Aos poucos, a manhã levanta-se de um sono hibrido, parecendo um buraco nego esquecido no Universo. Entrei, sentei-me e, pedi um café. Enquanto saboreava o primeiro café de muitos, percebi que na TV falavam de uma imbecil qualquer, que eu desconhecia, por ignorância e, que tinha arrasado com um determinado vestido, numa determinada gala. Confesso; nada percebo de vestidos. Na percebo de galas.

Cansei-me da TV e apenas oiço rádio e tenho como companhia a TSF.

Era um sábado triste. Aos pouco percebi que todas as flores do meu jardim se preparavam para o passeio matinal de um sábado triste. Indiferente, puxei de um cigarro e sentei-me junto a elas. Comecei a desenhar no chão uns riscos estranhos, que só me lembro de os ter feito quando do falecimento do meu pai.

Esses riscos, esses desenhos, acompanham-me diariamente e, quando me perguntam o que é a ausência e a saudade, respondo que são uma equação matemática sem resolução; e claro, não gosto de conversar com psicólogos.

Despedia-se de mim o sono e todos os sonhos da minha infância. Estar vivo, era sem dúvida um presente de Deus; dizia-o a minha mãe, vezes sem conta e, acredito que ela tinha razão.

Imaginem, por hipótese, que Deus não é nada mais do que uma complexa equação matemática que vive, brinca e, dorme nas nossas mãos.

Imaginem, que essa mesma equação, um dia, vai ser descoberta e resolvida.

Parece que estou a ver essa equação, dormindo na minha secretária.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 21/11/2021


11.10.21

Descia sobre mim

A velocidade do sono.

 

Dos cortinados da ausência,

Percebia-se que a tarde se iria suicidar

Na manhã transeunte de Inverno,

Saltitando de maré em maré,

Pulando os socalcos do inferno,

Até encontrar o mar.

 

Estava escrito na minha infância,

Que uma cidade rabugenta

Subia a montanha,

 

Até beijar a boca que alimenta

A fome trapézica do veneno… ou a morte de Zeus.

 

E corria

Na sombra magenta que apanha

O cansaço de Deus,

 

Que tudo ele podia,

Que tudo era apenas uma cidade ardida,

Que tudo ele sentia,

Sentia a dor da mãe ferida.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 11/10/2021


05.09.20

O fugitivo de Deus.

Quando o corpo se esconde na esplanada da saudade,

Ele, só, acredita que todos os pássaros são em papel colorido,

Imagens prateadas nas mãos de Deus; sobe a montanha, meu querido filho.

O mar.

Todas as rochas estão suspensas no poema,

A mão de Deus, moribunda, confunde-se com a alegria de viver,

Quando se ama, a paixão, filha de Deus, absorve todas as palavras do poema.

Ontem.

Uma fina lâmina de luz, a boca de Deus entre gritos e abraços,

O silêncio da espuma dos dias,

Entre corpos cansados,

E, o fugitivo de Deus.

A montanha.

Argamassa da planície, floresta inversa à paixão,

O sítio escondido, onde habita Deus, amanhã, hoje,

Sinto-me como uma pedra que voa, tem asas, tem alegria,

Vida, palavra, livros e nada.

A montanha de Deus.

Onde hoje me sento,

Agradeço a sombra, oiço ao longe a fúria do mar,

Desgravada maré dos tristes silêncios,

Junto a Belém, um louco rio, embriagado pelos barcos,

Cacilheiros à desgarrada, canções velozes, vento,

Sílabas da madrugada,

O ácido da noite,

Cansado,

Suicidado pelo poema.

A aldeia de Deus.

A aventura de estar vivo,

O amor quando se abraça a mulher desejada,

Olhando ao longe os socalcos da vida,

Esperando o voo até ao Céu: STOP.

O vinho.

Porque Deus também bebe,

Tem vida,

Agrade-me a escrita, retribuo e, aos poucos, a morte.

Falo-te, hoje.

Conheço-te.

 

 

Francisco Luís Fontinha, 05-09-2020


22.01.20

Deus, não gosta de mim.


Os pássaros, criados por Deus, também não gostam de mim.


Não acredito em Deus, nem nos pássaros criados por Deus.


A tempestade, em mim, costuma ser passageiras,


Alguns segundos, ventos ciclónicos, e chuva miudinha…


Também ela, obra do criador.


Debato-me com o trágico sentimento de perda,


Quando as palavras se ausentam,


Quando os livros, recheados de palavras, também se ausentam.


Deus, não gosta de mim.


Pudera.


Se não acredito em Deus, também ele, não deve gosta de mim, acreditar em mim,


Mas, não preciso que alguém acredite em mim,


Os desenhos acreditam em mim?


Os desenhos criados por Deus, que me criou, e eu duvido.


A cidade ferve,


A moça corre apressada para os braços de Deus,


Abraça-a, beija-a, como se amanhã existisse uma ribeira fora do leito, em direcção ao mar.


Deus criou as palavras,


Os versos,


A mentira,


A despedia,


A morte,


A rebeldia…


Deus, parece-me indiferente às palavras, palavras criadas por Deus.


O campo, ao longe, verdejante, desparece nos lábios de Deus…


E, os pássaros, filhos de Deus, à procura das abelhas,


Picam-me,


Aleijam-me,


Mas nada é mais doloroso que a morte.


A morte, a má-sorte, e companhia limitada,


STOP,


Em frente, marcha,


Cruzamento,


GNR ao comando,


Automóvel desgovernado,


Nas mãos de Deus.


IRRA.


Não.


Não. Ponto.


Palavras. Mortas. À nascença.


Deus, Deus é Deus, criado por Deus.


FIM.


Tudo ao molho e fé em Deus.


Todos os homens, são pássaros?


E os pássaros?


São homens?


E o burrinho?


Que faz o burrinho dentro do poema?


Porque hoje é 22 de Janeiro,


Porque Deus criou o calendário…


Não.


Não.


Talvez amanhã!


 


 


Francisco Luís Fontinha – Alijó


22/01/2020


26.11.17

Nas palavras, o silêncio.


Da noite camuflada pelos Oceanos perdidos, os pindéricos sorrisos da alma,


Os esqueletos de luz que vagueiam na triste Avenida, sem palavras, a distância dos osos na escuridão do mar,


Recordo o teu olhar de pálpebras silenciadas pelo vento. Os rochedos onde me deito.


A madrugada. Acordar em ti os sonhos de ontem, a difícil caminhada em direcção ao mar, dois corpos saturados da neblina, dois corpos misturados nas ínfimas luzes da cidade. Não durmo. Finjo brincar numa praia em papel, desenhada por uma criança, triste, como as estátuas de sal,


Os meus dedos na tua boca, quando libertas os livros aprisionados pelo tempo, liberta-te também de mim; desacorrenta-te, e desiste de lutar.


Amanhã lá estarei, desintegrado nas salas exíguas dos mortos jardins, pequenas árvores, pequenos arbustos no teu peito, esperando o veneno, escondo-me.


Nas palavras, o silêncio.


A solidão da manhã quando trazes nas mãos a chuva miudinha, pesadíssima, e, travestida de soldado, brinco em ti, comigo sentado numa pedra adormecida, à deriva na rua deserta da tua sombra…


Palavras, nas palavras, o silêncio, o prateado desassossego que a vida constrói no amanhecer, como os poemas, entre morto e mortos; o fim.


Ai que a vida parece um círculo, cada vez mais longínquo da cidade,


Como todos os sons da tarde, ao cair a noite,


Os sonhos, vagueiam no teu solstício medo de me deixar junto ao rio,


Felizes, aqueles que acreditam em Deus…


Porque os que não acreditam, morrem, e nunca compreenderão o silêncio.


 


 


 


Francisco Luís Fontinha


Alijó, 26 de Novembro de 2017


15.01.14



foto de: A&M ART and Photos


 


Perceber o fogo do corpo em suspenso


aquele que arde entre a morte e as palavras enraivecidas


escrever no corpo que arde em suspenso quando os lábios do fogo


não morrem... e permanecem inconstantes como um círculo descendo a calçada da Ajuda


perceber que o homem arde


fervilha


e dorme no colo de outro homem...


ergue-se o cansaço argiloso das andorinhas de papel


vem a nós os desejos preguiçosos das saudades de ontem


e fervilhas


como um pedaço de madeira nas mãos de Deus...


porque o rio se despediu de ti e tu permanecerás dentro da lareira da paixão.


 


 


 


@Francisco Luís Fontinha – Alijó


Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014



01.05.13



foto: A&M ART and Photos


 


As cerejas de Deus que nos teus lábios comem as minhas palavras


que das tuas mãos Deus colocou sobre o meu rosto de pergaminho


as sílabas transparentes dos degraus impossíveis de transpor


pelos teus sonhos em silêncios azuis


como as pétalas da rosa esquecida no muro em frente à tua alegre casa,


 


Tínhamos um telhado


onde nos escondíamos nas tardes de solidão


e depois de alicerçares nos teus braços os cadernos de nós


ficávamos assim livres a olhar as nuvens


e a inventar histórias que um jornal de província nos comprava,


 


Tínhamos dinheiro para o pão


e para comprarmos novos cadernos


tinta


e às vezes


sobrava-nos algumas moedas para fingirmos que fumávamos flores enroladas em marés de Inverno,


 


Víamos os barcos a morrer como gente desesperada


cansada de trabalhar


cansada... de viver


as cerejas de Deus... comem as minhas palavras


e deixam os caroços sobre a terra semeada,


 


Víamos os barcos em círculo na janela da solidão


barcos que escreviam histórias


nos corpos amarrotados como o papel higiénico da pastelaria


entre migalhas de torradas e o cheiro a chá de hortelã...


vivíamos felizes sem percebermos que éramos miseráveis.


 


(não revisto)


@Francisco Luís Fontinha



06.03.13

Pedi a todos os sons que se calassem e, cessou-se-lhe a respiração, vi, como se fossem uma nuvem de fogo, dois olhos a separarem-se de uma cabeça com caracóis loiros, dos lábios, um fino aroma a morango sobressaía e emergia do pequeno cadáver que Deus (como é costume dizer-se) tinha chamado até si,


Perguntava-me


Porquê ela?


Responderam-me que era a vontade de Deus, e eu, eu que nunca contrariei a vontade dele, mesmo discordando das suas leis, às vezes, egoístas, aceitei


E


Porquê ela?


Perguntava-me,


E porque não eu? Sim, podíamos trocar de posição, e em vez de ela adormecer eternamente no leito de lençóis bordados com flores e corações, poderia muito bem ser eu, eu no lugar dela, eu enroscado nos pedaços de cartão que arrebanhei do caixote do lixo, que todas as noites dorme na esquina da rua,


Porque eu, dizia ele, não faço falta,


E eu, não concordo, porque todos fazemos falta, mesmo os cadáveres indefesos, sem família, sem nada, mesmo esses, alguém sentirá a sua falta, e por isso proponho


A Associação dos Cadáveres Abandonados, com sede numa rua perdida dentro da cidade também ela perdida, uma cidade completa, com árvores e pássaros e barcos, e homens e mulheres


Que dormem embrulhados em pedaços de cartão,


(Pedi a todos os sons que se calassem e, cessou-se-lhe a respiração, vi, como se fossem uma nuvem de fogo, dois olhos a separarem-se de uma cabeça com caracóis loiros, dos lábios, um fino aroma a morango sobressaía e emergia do pequeno cadáver que Deus (como é costume dizer-se) tinha chamado até si),


E homens e mulheres, tristes e sós, vivos e obrigados a transportar um esqueleto desclassificado e não catalogado, alguns até, já perderam metade dos ossos, outros, outros tiverem e sentiram a necessidade de os venderem, e há sempre um oportunista à procura de pechinchas


Porque eu, dizia ele, não faço falta,


E eu, não concordo, porque todos fazemos falta, mesmo os cadáveres indefesos, sem família, sem nada, mesmo esses, alguém sentirá a sua falta, e por isso proponho, proponho-me a vestir-me de estátua e ficar eternamente num dos jardins a fotografar à distância o rio, também ele, um cadáver, triste como eu, alegre como ela,


A Associação dos Cadáveres Abandonados associa-se às pechinchas & pechinchas do senhor Manel Zé, cigano respeitado e honesto, criador de cavalos e comerciante na área dos fios de cobre, e quando tem algum tempo, dedica-se a fabricar ouros em casa, e diz que são como os originais, mas depois de os acariciarmos, notam-se-lhes os ossos, um esqueleto esquelético como os suspiros de amor que a mulher dele, a dona Maria dos Anéis transporta nas axilas, e lá fora chora-se a partida da querida Margarida com os seus loiros caracóis e que por dificuldades da própria vida decidiu ir para longe, muito longe, até que ninguém se lembre dela,


E homens e mulheres, tristes e sós, vivos e obrigados a transportar um esqueleto desclassificado e não catalogado..., como os cortinado pesadíssimos, negros, que encerram as janelas da paixão, escondem as flores verdadeiras, enquanto as outras, de papel, fingem orgasmos nas asas das abelhas entre margens de um rio doente, pestilento, ofegante, ouviam-se-lhes as garras a atingirem as mandíbulas dos triciclos de aço, mabecos em fúria num País desorganizado e amedrontado, e diziam-me que no capim viviam sonhos


Rebolava-me sobre ele, escavava cavernas e inventava guerras com soldados de borracha, e juro


Nunca vi e senti, um sonho, portanto


Mentiram-me,


Mentiram-me como me mentiram quando me disseram que foi Deus que a escolheu, quando hoje sei, tenho a certeza, que ele, ele não tem paciências nem forças nem vontade


De se meter nessas coisas,


Mesquinhices de mulheres do soalheiro, escadas sem patamar semeadas por velhas, que esperam, esperam pela chegada do campanário, da chama iluminada de palavras, e depois de um crucifixo enferrujado atravessar durante a noite o rio dos Desgostos, elas, coitadas, ainda acreditam no poder


Do sabão em barra de antigamente,


E claro que ele não se mete nessas coisas, ele não é de mexericos, do disse que não disse, e certamente terá muito mais em que pensar, olha por exemplo


Como irá ele resolver o problema das infiltrações que estão a afectar severamente o sótão, e alguns dos livros já se encontram misturados numa penumbra húmida com listras verdes e amarelas e negras, outros deles, intactos, e até parece que nada lhe acontece, saúde de ferro como o bisavô António, sentado na eira a enrolar cigarros só com uma mão e a contar-me histórias da Primeira guerra Mundial, coitado, coitados deles, dos vivos, dos mortos e dos que cá chegaram transportando um esquelético esqueleto onde já se notava a falta de alguns ossos, talvez os tenham trocado por comida, ou


Perdidos pelos campos imensos e desconhecidos,


Eles regressaram, ele regressou,


E encontrou uma junta de bois mais esquelética do que ele e do que alguns dos seus camaradas, como é cruel a vida, e os chamamentos com as inexplicáveis cartas de chamada, hoje


Senhor Francisco?


Sim, sou eu,


Acaba de ser contemplado com uma viagem para o Além...


E Pergunto-me


Porquê, Porquê eu?


 


(ficção não revisto)


Francisco Luís Fontinha


17.01.13

Entranhavas-te em mim como se fosses um seixo de aço com faces gretadas, dormias nos meus abraços enquanto lá fora brincavam as amoreiras de luz com as sombras amarguradas dos pinheiros doentes, havia lagartas nas tuas mãos, havia pétalas de ciúme que desciam da boca da lua, havia um circo pobre onde estava sentada uma menina sem cabeça, havia, uma boneca no chão ao lado da menina sem cabeça, e a boneca falava, e a boneca sorria, e a boneca


Aos tropeções nas cordas que amarravam o tecto do circo ao cais de embarque, havia cadeiras de espuma com cinzeiros de prata para os fumadores, havia cadeiras de espuma com clarabóias de vidro para os poetas e para os amantes dos poetas, aos tropeções, havia palavras no centro do palco de mão dada com os tigres e com os leões, imaginava-me na selva Africana, e ao longe sentia os gemidos dos mabecos quando a noite se despedia das sanzalas e entrava pelo corredor do prédio da rua das Naus, sexto andar, sem elevador, ofegante tu, quando me abraçavas e eu dormia nos teus abraços,


Entranhavas-te em mim como se fosses um seixo de aço com faces gretadas, dormias nos meus abraços enquanto lá fora brincavam as amoreiras de luz com as sombras amarguradas dos pinheiros doentes, achava-te magro ao ponto de me perguntar até quando


E respondias-me que enquanto deus quiser,


E se deus não quiser, e se deus definitivamente desistir dos telegramas que te mantêm em pé como os cristais da mesa da sala antes de os levarem para a derradeira penhora, se eu pudesse, se eu pudesse penhorava-te, porque és apenas meia dúzia de ossos sem cabeça, e eu via a cidade engordar com os sobejos de luz que os dias deixavam esvoaçar das asas de papel das gaivotas embriagadas, se eu pudesse penhorava-te, porque és apenas uma mão recheada de pedras que um miúdo aproveita para partir os vidros da velha escola com olhar para os plátanos de algodão, e respondias-me que


Aos tropeções nas cordas que amarravam o tecto do circo ao cais de embarque, havia cadeiras de espuma com cinzeiros de prata,


Os abraços onde eu dormia não sentindo os sons tropeços dos rolamentos constipados pelas correntes de ar que atravessavam a montanha e escondiam-se nas traseiras da avenida vinte e cinco de Abril, todas as cidades, aldeias, todas as vilas


Um avenida vinte e cinco de Abril,


A ponte em círculos ao lado da menina sem cabeça onde dormia uma boneca com mãos de vidro e lábios de estrelas e flores imaginadas por um poeta enquanto olha o espelho da morte, e do outro lado, do outro lado estão as lágrimas da saudade, em Abril, de Janeiro até hoje, amanhã levantará amarras o pequeno circo pobre, levará a menina e a boneca, e a ponte


À espera do paquete verde com ramos de palmeira, regressas novamente aos meus abraços, o poeta despe a amante do vizinho poeta, e quando a amante do poeta, vizinho do poeta poeta, um corpo de mulher transforma-se em migalhas de perfume com sabor a maré e pôr-do-sol, é quinta-feira e dou-me conta que não tenho tempo para encerrar as janelas e as portas da cidade dos anjos, o poeta furioso


Bate-me,


Furioso ele acreditava que os seixos de aço com faces gretadas, dormiam nos abraços vizinhos, enquanto lá fora brincavam as amoreiras de luz com as sombras amarguradas dos pinheiros doentes, havia lagartas nas mãos da amante do poeta vizinho, havia pétalas de ciúme que desciam da boca da lua, havia um circo pobre onde estava sentada uma menina sem cabeça, havia, uma boneca no chão ao lado da menina sem cabeça, e a boneca falava, e a boneca sorria, e a boneca sentia as minhas mãos enquanto a despia, enquanto a metamorfose do corpo se misturava com as marés e os longínquos sonhos sobre a cama debaixo da tenda do circo, havia poetas de pano que escreviam às mesas de cimento enrolados a três cadeiras de mármore, havia amantes de poetas, pobres, ricas, lindas, perfumadas pelas inocências nocturnas das aranhas que viviam nas caves dos cabarés que de cidade em cidade, uma avenida


Vinte e cinco de Abril,


Toda ela morta, toda ela derretida como lágrimas de aço no corredor da inocência, e chove, e deixaram de brincar os marinheiros nos teus abraços, vestes-te de silêncio


Vinte e cinco,


E eu não sabia o que era o amor e o pólen que os poetas e as amantes dos poetas e as bonecas, e o circo pobre,


Comem como se o teu corpo fosse um seixo de aço com faces gretadas, dormias nos meus abraços enquanto lá fora brincavam as amoreiras de luz com as sombras amarguradas dos pinheiros doentes, havia lagartas nas tuas mãos, havia pétalas de ciúme que desciam da boca da lua


E lá fora chovia,


Em toda a cidade dos anjos.





(texto de ficção não revisto)


@Francisco Luís Fontinha


Alijó

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